sexta-feira, julho 03, 2015
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O que aconteceria se indivíduos que vivem em um mundo plano e
bidimensional acidentalmente descobrissem que existe um universo alternativo
tridimensional, até então invisível para eles? Qual a reação deles ao descobrir
que seu mundo plano não passa de um fino papel que esconde uma vasta realidade
tridimensional? Essa é a proposta de um surpreendente curta de animação húngaro
“Rabbit and Deer” (2013) com mais de 100 prêmios em festivais por todo o mundo.
O curta faz uma releitura da Alegoria da Caverna de Platão por um ponto de
vista dimensional – mais uma evidência de como cresce a sensibilidade gnóstica
na indústria do entretenimento atual, desde que a Relatividade e a Mecânica
Quântica atualizaram na ciência antigas mitologias gnósticas.
O leitor deve conhecer
a Alegoria da Caverna de Platão, onde
o filósofo descreve a situação em que a humanidade se encontra e a proposta de
um caminho de salvação: a crença de que o mundo revelado pelos nossos sentidos
não é o mundo real, mas apenas uma pálida cópia – a condição humana seria como
a de prisioneiros acorrentados em uma caverna vendo sombras projetadas na parede de objetos que passam
diante de um fogo atrás deles. As sombras são tão próximas que passam a
designar nomes para elas e toma-las como fossem a própria realidade.
Agora imagine essa
alegoria por um ponto de vista dimensional: os homens acorrentados e as sombras
pertenceriam a um mundo bidimensional, enquanto o fogo e os objetos que passam
diante dele estão no plano tridimensional – mesmo que se virassem, seres da
segunda dimensão seriam incapazes de verem o fogo ardente tridimensional.
Platão dizia que o brilho do fogo os cegaria. Do ponto de vista dimensional, a
tridimensionalidade simplesmente se tornaria invisível para esses seres planos
prisioneiros das suas correntes em duas dimensões.
O curta de
animação Rabbit and Deer (2013, assista ao vídeo abaixo) do
roteirista e diretor húngaro Péter Vácz faz esse nova interpretação da alegoria
da caverna, seguindo uma tendência atual nas animações onde em forma e conteúdo
cada vez mais flertam com temas gnósticos ou místicos: metalinguagem, narrativa
em abismo, criação de mundos dentro de mundos de onde protagonistas tentam
escapar etc. – The
Paiting (Le Tableau, 2013), Muppets,
Alma
(2009) ou mesmo uma animação mainstream como Lego Movie (2014) são alguns exemplos.
O curta de Vácz já
foi exibido em 63 países em mais de 300 festivais ganhando 125 prêmios.
Rabbit and Deer foi um trabalho de conclusão na
Universidade de Arte e Design MOME de Budapest. Segundo Vácz, na época vivia um
tenso relacionamento amoroso ao mesmo tempo em que explorava diferentes
técnicas de animação. Somou-se a esse contexto o gosto por um programa de
computador que criava avatares baseado em animais a partir dos dados de personalidade
do usuário. Desse mix existencial com alusões filosóficas geek, surgiu a inspiração para Rabbit and Deer (Coelho e Cervo).
O Cubo de Rubik e a Terceira Dimensão
O curta parte de
protagonistas que de repente passam a viver em mundos dimensionais diferentes,
mas que tentam, de alguma maneira, conviverem e tocarem a vida. Temas como a
Caverna de Platão, universos paralelos e incomunicabilidade nos relacionamentos
atuais se misturam numa metalinguagem do próprio universo das técnicas de
animação: como uma narrativa pode combinar simultaneamente técnicas de desenho
plano 2D, aquarela 2D, stop motion e
desenhos em 3D.
Um coelho e um cervo vivem juntos e felizes em
uma casa em um universo plano em 2D, até entrarem numa disputa pelo controle do
controle remoto da TV. O conflito leva à queda e destruição da televisão... até
que a última imagem que aparece na tela antes de quebrar definitivamente é um
cubo de Rubik (ou “cubo mágico”) desenhado em 3D que desaparece em poucos
segundos.
O cervo fica
obcecado por aquela figura fugaz, e tenta encontrar a fórmula do 3D em um mundo
2D. Isola-se na leitura de pilhas de livros e pesquisas em um laptop, enquanto
o coelho irrita-se até que um novo conflito criará um novo acidente: eletrocutado
pelo laptop, o cervo então é projetado magicamente para o universo 3D –
transforma-se em um boneco em stop motion que observa o antigo universo 2D como
um desenho em uma parede de papel que parece esconder uma realidade além.
Torna-se invisível
ao seu amigo coelho 2D ao vê-lo a partir de uma espécie de fundo infinito
branco onde encontra-se. Mas sabe que terá de furar aquele papel do universo 2D
para conhecer uma estranha realidade 3D que está além...
A sensibilidade gnóstica
O fascinante no
curta de Péter Vácz é que tanto o conteúdo quanto a forma da narrativa permitem
diversas interpretações.
O argumento de Rabbit and Deer é claramente inspirado
no gnóstico filme A
Vida em Preto e Branco (Pleasentville,
1999) onde após dois irmão brigarem pela posse do controle remoto são
projetados para o interior de uma série de TV em pb dos anos 1950 – o confronto
era entre os universos colorido atual e preto e branco do passado e as
implicações místicas e religiosas disso.
Uma primeira interpretação é que Vácz transpõe
o argumento de 1999 para um conflito interdimensional: um mundo tridimensional
seriam invisível para seres de um mundo plano. Como superar a barreira? Vácz
sugere que a força do amor, amizade e tolerância ajudariam a superar a
interdição. A mesma mensagem da produção Interestelar
(Interstellar, 2014) de Christopher
Nolan onde o amor e entrelaçamento quântico aproximam as distâncias
interdimensionais.
Péter Vácz
O curta sugere o
tema da incomunicabilidade das relações humanas como originada no conflito de
pessoas como universos fechados em si mesmos, como dimensões invisíveis entre
si.
A segunda
interpretação é metalinguística – Vácz parece fazer uma narrativa dentro de
outra narrativa: a criatividade baseada
na tensão estética das diversas técnicas de animação. Vácz parece propor
desconstruir as diferentes linguagens em desenho e animação diante do
espectador, assim como Lego Movie faz
– grande parte da narrativa desse filme baseia-se em brincadeiras com a própria
natureza do brinquedo Lego: os diferentes mundos que é possível fazer com o
jogo como diferentes universos separados entre si.
Essa interpretação
conduz logicamente para outra: a interessante versão da Alegoria da Caverna de
Platão proposta por Rabbit and Deer. Certamente essa versão está impregnada com
a sensibilidade neoplatônica (ou gnóstica) atual que começa no mundo da Física
teórica e termina nas sci fi da indústria do entretenimento.
Física e Gnosticismo
Por exemplo, a
chamada Teoria Kaluza-Klein (KK Theory) procura unificar a teoria da gravitação
e eletromagnetismo em torno de uma ideia de uma outra dimensão que existiria
para além do espaço-tempo habitual – altura, largura, profundidade e tempo.
A Teoria parte do
modelo gravitacional de Einstein: por que de todas as forças fundamentais, a
gravidade é a mais fraca? A explicação para essa debilidade seria de que ela
perpassaria diversas dimensões, conhecidas e desconhecidas.
Para Einstein, se
a força gravitacional fosse visível teria o aspecto de um enorme pântano
repleto de camadas, vales, ondulações e curvas. Por isso, a gravidade é capaz
de capturar qualquer objeto que se aproxime.
Para a Teoria
Lauza-Klein, essas dimensões extras seriam diminutas e impossíveis de serem
detectadas por nós. Seria algo como a animação Rabbit and Deer: o mundo tridimensional seria invisível para os
seres planos.
Mais uma vez essa
suspeita (agora científica) de que a realidade como a conhecemos é uma ilusão que
abrigaria outros mundos alternativos, é um revival das antigas narrativas
platônicas como a Alegoria da Caverna, passando pela cosmologia gnóstica de
Basilides (filósofo gnóstico que viveu entre 117 e 138 DC em Alexandria) que
acreditava em um pluriverso composto por 365 “céus”, onde um plano
desconheceria a existência do outro.
O curta de
animação Rabbit and Deer é mais uma
evidência da sensibilidade gnóstica atual que desde o final do século passado
cresce na indústria do entretenimento, depois de manifestar-se na Ciência de
ponta do século XX com a Relatividade e a Mecânica Quântica.
Ficha
Técnica
Título: Rabbit
and Deer (Nyuszi és Öz, curta de animação)
Diretor: Péter Vácz
Roteiro: Péter Vácz
Elenco: Mórocz Adrienn e Dániel Czupi (vozes)
Produção: Moholy-Nagy University of Art and Design
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Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
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Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>