sexta-feira, agosto 28, 2026

'The Rocky Horror Picture Show': o "Woke" deveria assistir a esse filme



A morte do ator Tim Curry nesta terça-feira, aos 80 anos, reacende o debate sobre o legado inigualável do filme “The Rocky Horror Picture Show” (1975) e de seu mais icônico — e estigmatizante — personagem: o alienígena pansexual Frank-N-Furter. Mais do que uma reverência ao talento clássico do astro britânico, a despedida convida a uma revisitação da obra que instituiu a interatividade do "cinema acontecimento". Quase meio século depois, o clássico cult serve de lente para explicar a crise do sistema de estúdios da Nova Hollywood e, principalmente, para contrastar a anarquia sexual e amoral daquela época com a atual e rígida taxonomia das políticas de identidade e gênero do movimento Woke.

The Rocky Horror Picture Show (1975), dirigido por Jim Sharman e escrito por Richard O'Brien, é o ápice da estética camp (o exagero, a teatralidade e o grotesco são usados para ridicularizar as normas tradicionais de gênero e comportamento), desconstruindo a moralidade puritana do pós-guerra por meio de uma homenagem escrachada ao cinema B de ficção científica, ao terror gótico e ao Glam Rock.

O filme veio novamente à lembrança da crítica com a morte do ator Tim Curry nessa terça-feira, aos 80 anos.

Ator de formação clássica da Royal Shakespeare Company (que interpretou Mozart em Amadeus na Broadway), Tim Curry entregou uma performance inesquecível ao interpretar o personagem de espartilho e meia-arrastão Frank-N-Furter – o alien pansexual e travesti vindo diretamente do planeta Transexual, da galáxia Transilvânia, resoluto a criar um “monstro” go-go boy musculoso em seu laboratório, para usufruto próprio.

Tão inesquecível, que Curry ficou estigmatizado: passou décadas lutando contra a sombra do "doce travesti". Era frequentemente escalado apenas como vilões excêntricos ou figuras andróginas. Ele sentia frustração por ter seu vasto talento reduzido a um único personagem de glam rock, temendo não ser levado a sério pela indústria tradicional.

Mais do que isso, assistir ao The Rocky Horror Picture Show a partir do século XXI faz levantar dois questionamentos: como foi possível um filme tão transgressivo em pleno anos 1970, no refluxo dos movimentos contraculturais?

E outra: um filme tão transgressivo ao colocar em evidência pauta do movimento gay, entre os movimentos raciais e feministas nos anos 1970, que torna as atuais reivindicações das políticas de identidade e gênero do movimento Woke em bravatas politicamente corretas. Como veremos adiante.



A produção de um filme tão bizarro e subversivo por um grande estúdio (20th Century Fox) foi um sintoma direto do colapso da Era de Ouro de Hollywood.

No final dos anos 1960, o rígido Código Hays (que censurava sexo, violência e "desvios morais") havia sido derrubado diante do impacto da cultura jovem dos anos 60. O sistema de estúdios estava falindo e as superproduções tradicionais perdiam público para a televisão. O sucesso inesperado de filmes baratos e contraculturais como Sem Destino (Easy Rider, 1969) deixou os executivos desesperados para capturar a juventude universitária e o público alternativo.

Além de tudo isso, The Rocky Horror Picture Show redefiniu a experiência cinematográfica ao transformar o espectador passivo em coautor do espetáculo, criando o modelo definitivo de "cinema acontecimento" a partir das exibições da meia-noite no Waverly Theater, em Nova York, em 1976.

Com o filme sala escura deixou de ser um local de contemplação silenciosa e virou um santuário de libertação. Guiados pelo mantra do filme ("Don't dream it, be it"), os frequentadores usavam espartilhos, maquiagem pesada e meias-arrastão, criando um espaço seguro (safe space) de acolhimento para a comunidade LGBTQIA+, marginais urbanos e jovens não-conformistas da época.

A projeção na tela tornou-se apenas o pano de fundo; o verdadeiro evento acontecia na plateia - A audiência decorava o roteiro para interagir diretamente com os diálogos da tela, inserindo piadas, xingamentos e tiradas em sincronia absoluta.



Ir ao cinema assistir ao filme exigia levar um kit de objetos ritualísticos para interagir com cenas específicas: arroz, pistolas de água e jornais, lanternas ou isqueiros etc.

O Filme

Em uma noite chuvosa, os recém-noivos Brad Majors (Barry Bostwick) e Janet Weiss (Susan Sarandon) têm um pneu furado em uma estrada isolada. Ao buscarem ajuda em um castelo próximo, encontram uma convenção de figuras excêntricas lideradas pelo Dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), um cientista alienígena pansexual e travesti do planeta Transexual, na galáxia da Transilvânia.

O casal chega no momento exato em que Frank revela sua maior criação: Rocky (Peter Hinwood), um homem musculoso feito em laboratório para satisfazer seus prazeres carnais. Presos no castelo, Brad e Janet são gradualmente seduzidos e introduzidos a um universo de hedonismo, desinibição sexual e caos alienígena.

A direção de arte mistura a sobriedade do terror gótico (quadros clássicos, gárgulas) com o glamour subversivo de meias-arrastão, corsets e maquiagem pesada. O camp funciona aqui como uma ferramenta política e visual  para ridicularizar as normas tradicionais de gênero e comportamento.



A direção de Jim Sharman mantém a origem teatral da peça original. O uso constante de enquadramentos frontais, a presença do Criminologista/Narrador que interrompe a ação para explicar a dança Time Warp e a autoconsciência dos personagens transformam a tela em um palco aberto, facilitando a apropriação do filme como performance interativa pela audiência.

Androginia dos 70s e Woke

O que chama a atenção no filme, 41 anos depois, é a postura absolutamente transgressiva em comparação com as atuais discussões de gênero do Wokeísmo.

diferença fundamental entre as discussões modernas ("woke") e a sexualidade de Rocky Horror reside na distinção entre taxonomia e anarquia.

A política de identidade contemporânea é altamente estruturada e taxonômica. Ela busca nomear, classificar e legitimar orientações sexuais e identidades de gênero (LGBTQIA+), exigindo representatividade, direitos civis, linguagem inclusiva e espaços seguros. O objetivo é a validação social e o respeito institucional.

O mundo de Rocky Horror, derivado do glam rock de David Bowie e do cabaré de Weimar, opera na chave da anarquia hedonista.

Frank-N-Furter não pede aceitação social nem busca se enquadrar em uma categoria identitária politizada; ele é uma força destrutiva do puro Id. A androginia e a pansexualidade no filme não são ferramentas de ativismo por direitos, mas armas de sedução, caos e deboche contra a repressão burguesa (representada pelo casal puritano Brad e Janet).

Enquanto o discurso "woke" busca construir uma moralidade inclusiva, Rocky Horror é orgulhosamente amoral, perverso e perigoso, recusando qualquer tipo de rótulo ou responsabilidade política.

Frank-N-Furter é andrógino. Pouco importa como, por onde e com quem ter prazer. Ele é um pansexual que explode a taxonomia do identitarismo. Que, ironicamente, acaba criando intolerância entre as identidades. Todas reivindicando, cada qual, o status de maior vítima do “patriarcado”.



Gnosticismo cósmico – Alerta de Spoilers à frente

A arrogância de Frank-N-Furter atrai a ira do verdadeiro cosmos. Riff Raff (Richard O´Brien) e Magenta (Patricia Quin) não são meros empregados; eles revelam-se como Arcontes alienígenas (governantes e carcereiros do universo material na mitologia gnóstica), enviados do planeta Transexual, na galáxia da Transilvânia (o reino superior).

O julgamento final não é moral no sentido humano, mas cósmico. Riff Raff condena Frank dizendo: "Seu estilo de vida é extremo demais" — ou seja, ele perturbou o equilíbrio universal ao se embriagar com a matéria, a carne e o poder da criação sem ter a autoridade divina para tal. O raio laser disparado pelos Arcontes é a retribuição do cosmos aniquilando a falsa divindade.

Ao final, os alienígenas retornam ao seu reino nas estrelas, deixando os humanos normais (Brad, Janet e Dr. Scott) rastejando na lama, traumatizados pela revelação da verdadeira natureza bizarra do universo, como almas ainda presas na ignorância do mundo material.

 

Ficha Técnica

Título: The Rock Horror Picture Show

Diretor: Jim Sharman

Roteiro: Richard O´Brien, Jim Sharman

Elenco: Tim Curry, Susan Sarandon, Barry Bostwick

Produção: 20th Century Fox

Distribuição: Disney +

Ano: 1975

País:  EUA

 

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