The Rocky
Horror Picture Show (1975), dirigido por Jim Sharman e escrito por Richard O'Brien, é
o ápice da estética camp (o exagero, a teatralidade e o grotesco são
usados para ridicularizar as normas tradicionais de gênero e comportamento),
desconstruindo a moralidade puritana do pós-guerra por meio de uma homenagem
escrachada ao cinema B de ficção científica, ao terror gótico e ao Glam Rock.
O filme veio novamente
à lembrança da crítica com a morte do ator Tim Curry nessa terça-feira, aos 80
anos.
Ator de
formação clássica da Royal Shakespeare Company (que interpretou Mozart em Amadeus
na Broadway), Tim Curry entregou uma performance inesquecível ao interpretar o
personagem de espartilho e meia-arrastão Frank-N-Furter – o alien pansexual e
travesti vindo diretamente do planeta Transexual, da galáxia Transilvânia,
resoluto a criar um “monstro” go-go boy musculoso em seu laboratório,
para usufruto próprio.
Tão
inesquecível, que Curry ficou estigmatizado: passou décadas lutando contra a
sombra do "doce travesti". Era frequentemente escalado apenas como
vilões excêntricos ou figuras andróginas. Ele sentia frustração por ter seu
vasto talento reduzido a um único personagem de glam rock, temendo não ser
levado a sério pela indústria tradicional.
Mais do que
isso, assistir ao The Rocky Horror Picture Show a partir do século XXI faz
levantar dois questionamentos: como foi possível um filme tão transgressivo em
pleno anos 1970, no refluxo dos movimentos contraculturais?
E outra: um
filme tão transgressivo ao colocar em evidência pauta do movimento gay, entre
os movimentos raciais e feministas nos anos 1970, que torna as atuais reivindicações
das políticas de identidade e gênero do movimento Woke em bravatas
politicamente corretas. Como veremos adiante.
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A produção de
um filme tão bizarro e subversivo por um grande estúdio (20th Century Fox) foi
um sintoma direto do colapso da Era de Ouro de Hollywood.
No final dos
anos 1960, o rígido Código Hays (que censurava sexo, violência e "desvios
morais") havia sido derrubado diante do impacto da cultura jovem dos anos
60. O sistema de estúdios estava falindo e as superproduções tradicionais
perdiam público para a televisão. O sucesso inesperado de filmes baratos e
contraculturais como Sem Destino (Easy Rider, 1969) deixou os executivos
desesperados para capturar a juventude universitária e o público alternativo.
Além de tudo
isso, The Rocky Horror Picture Show redefiniu a experiência
cinematográfica ao transformar o espectador passivo em coautor do espetáculo,
criando o modelo definitivo de "cinema acontecimento" a partir das
exibições da meia-noite no Waverly Theater, em Nova York, em 1976.
Com o filme
sala escura deixou de ser um local de contemplação silenciosa e virou um
santuário de libertação. Guiados pelo mantra do filme ("Don't dream it,
be it"), os frequentadores usavam espartilhos, maquiagem pesada e
meias-arrastão, criando um espaço seguro (safe space) de acolhimento
para a comunidade LGBTQIA+, marginais urbanos e jovens não-conformistas da
época.
A projeção na
tela tornou-se apenas o pano de fundo; o verdadeiro evento acontecia na plateia
- A audiência decorava o roteiro para interagir diretamente com os diálogos da
tela, inserindo piadas, xingamentos e tiradas em sincronia absoluta.
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Ir ao cinema assistir
ao filme exigia levar um kit de objetos ritualísticos para interagir com cenas
específicas: arroz, pistolas de água e jornais, lanternas ou isqueiros etc.
O Filme
Em uma noite
chuvosa, os recém-noivos Brad Majors (Barry Bostwick) e Janet Weiss (Susan
Sarandon) têm um pneu furado em uma estrada isolada. Ao buscarem ajuda em um
castelo próximo, encontram uma convenção de figuras excêntricas lideradas pelo
Dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), um cientista alienígena pansexual e travesti do
planeta Transexual, na galáxia da Transilvânia.
O casal chega
no momento exato em que Frank revela sua maior criação: Rocky (Peter Hinwood),
um homem musculoso feito em laboratório para satisfazer seus prazeres carnais.
Presos no castelo, Brad e Janet são gradualmente seduzidos e introduzidos a um
universo de hedonismo, desinibição sexual e caos alienígena.
A direção de
arte mistura a sobriedade do terror gótico (quadros clássicos, gárgulas) com o
glamour subversivo de meias-arrastão, corsets e maquiagem pesada. O camp
funciona aqui como uma ferramenta política e visual para ridicularizar as normas tradicionais de
gênero e comportamento.
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A direção de
Jim Sharman mantém a origem teatral da peça original. O uso constante de
enquadramentos frontais, a presença do Criminologista/Narrador que interrompe a
ação para explicar a dança Time Warp e a autoconsciência dos personagens
transformam a tela em um palco aberto, facilitando a apropriação do filme como
performance interativa pela audiência.
Androginia dos 70s e Woke
O que chama a
atenção no filme, 41 anos depois, é a postura absolutamente transgressiva em
comparação com as atuais discussões de gênero do Wokeísmo.
diferença
fundamental entre as discussões modernas ("woke") e a sexualidade de Rocky
Horror reside na distinção entre taxonomia e anarquia.
A política de
identidade contemporânea é altamente estruturada e taxonômica. Ela busca
nomear, classificar e legitimar orientações sexuais e identidades de gênero
(LGBTQIA+), exigindo representatividade, direitos civis, linguagem inclusiva e
espaços seguros. O objetivo é a validação social e o respeito institucional.
O mundo de Rocky
Horror, derivado do glam rock de David Bowie e do cabaré de Weimar, opera
na chave da anarquia hedonista.
Frank-N-Furter
não pede aceitação social nem busca se enquadrar em uma categoria identitária
politizada; ele é uma força destrutiva do puro Id. A androginia e a
pansexualidade no filme não são ferramentas de ativismo por direitos, mas armas
de sedução, caos e deboche contra a repressão burguesa (representada pelo casal
puritano Brad e Janet).
Enquanto o
discurso "woke" busca construir uma moralidade inclusiva, Rocky
Horror é orgulhosamente amoral, perverso e perigoso, recusando qualquer
tipo de rótulo ou responsabilidade política.
Frank-N-Furter
é andrógino. Pouco importa como, por onde e com quem ter prazer. Ele é um pansexual
que explode a taxonomia do identitarismo. Que, ironicamente, acaba criando intolerância
entre as identidades. Todas reivindicando, cada qual, o status de maior vítima
do “patriarcado”.
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Gnosticismo cósmico – Alerta de Spoilers à frente
A arrogância
de Frank-N-Furter atrai a ira do verdadeiro cosmos. Riff Raff (Richard O´Brien)
e Magenta (Patricia Quin) não são meros empregados; eles revelam-se como Arcontes
alienígenas (governantes e carcereiros do universo material na mitologia
gnóstica), enviados do planeta Transexual, na galáxia da Transilvânia (o reino
superior).
O julgamento
final não é moral no sentido humano, mas cósmico. Riff Raff condena Frank
dizendo: "Seu estilo de vida é extremo demais" — ou seja, ele
perturbou o equilíbrio universal ao se embriagar com a matéria, a carne e o
poder da criação sem ter a autoridade divina para tal. O raio laser disparado
pelos Arcontes é a retribuição do cosmos aniquilando a falsa divindade.
Ao final, os
alienígenas retornam ao seu reino nas estrelas, deixando os humanos normais
(Brad, Janet e Dr. Scott) rastejando na lama, traumatizados pela revelação da
verdadeira natureza bizarra do universo, como almas ainda presas na ignorância
do mundo material.
Ficha Técnica |
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Título:
The Rock Horror Picture Show |
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Diretor:
Jim Sharman |
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Roteiro:
Richard O´Brien, Jim Sharman |
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Elenco:
Tim Curry, Susan Sarandon, Barry Bostwick |
|
Produção:
20th Century Fox |
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Distribuição:
Disney + |
|
Ano: 1975 |
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País: EUA |
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As
ironias de um terror "woke exploitation" no filme 'Noites Brutais'
sexta-feira, agosto 28, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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