quarta-feira, dezembro 03, 2014

O Inferno alquímico de Dante no filme "O Reflexo do Medo"

Conhecida como "Cidade Luz", Paris também é escura e misteriosa: sob a cidade se estende uma vastíssima rede de mais de 300 quilômetros de túneis e labirintos. São as chamadas “catacumbas de Paris” ou “cidade dos mortos” onde jaz os restos de seis milhões de pessoas, além de vestígios de cultos celtas, franco-maçons, gravuras e sinais ritualísticos sagrados. Nessa atmosfera claustrofóbica e sombria se movem os arqueólogos urbanos do filme “O Reflexo do Medo” (As Above, So Below, 2014), misturando terror com thriller psicológico no estilo falso documentário ou “found footage”. Como informa o título original, a narrativa explora o princípio alquímico da Correspondência, repleto de referencias ao chamado esoterismo cristão presente na obra de Dante Alighieri “A Divina Comédia”, na qual o diretor John Erick Dowdle se inspirou para escrever o roteiro. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Há duas cidades de Paris: a da superfície, agitada, viva, móvel e cheia de cores e contrastes; e a outra subterrânea, imóvel, quieta e repleta de mistérios que desafiam o tempo. Fala-se em “cidade dos mortos”, mas também são conhecidas como “catacumbas de Paris”, uma rede vastíssima de caminhos com mais de 300 quilômetros de extensão onde apenas uma pequena parte é aberta à visitação pública.

São galerias labirínticas, por vezes com três níveis de caminhos, que se estende horizontalmente, mas em certas partes mergulha mais profundo no subsolo o que faz até hoje ser uma mistério inexplorado por razões técnicas. Muitos aventureiros desapareceram nessas galerias labirínticas, razão pela qual a exploração é proibida por lei.


De construção anterior ao século XVII, desde então são feitas sucessivas cartografias e, mesmo assim, continuam mal conhecidas. A maioria desses subterrâneos foram transformados em ossário municipal com a transferência  para aí de seis milhões de parisienses, retirados dos cemitérios superlotados por razões de saúde pública.

Vítimas do regime do Terror pós Revolução Francesa todos atirados e esquecidos na catacumbas necrotéricas, inclusive famosos como Danton, Robespierre e Marat.

Suas galerias estão ligadas a vestígios de cultos celtas, franco-maçons com registros e inscrições de passagem humana desde há mais de dois mil anos: esculturas, gravuras e sinais ritualísticos e sagrados.

         Pois essa Paris, que é o oposto da modernista imagem que temos da “Cidade Luz”, é o tema do filme Reflexo do Medo (So Above, As Below, 2014). O título em português não faz jus ao filme, parecendo pelo título mais um filme de terror sobre indefesos jovens que são massacrados em série por alguma força diabólica. Ou seja, seria mais do mesmo.

Pelo contrário. Embora seja mais uma produção ao estilo falso documentário (mockmentary), o filme não só é ambientado nessa Paris subterrânea como a associa seus mistérios com a  Alquimia, Hermetismo e o Inferno tal como descrito por Dante Alighieri.

Porém, paga seu tributo às convenções do gênero terror: acaba interpretando de forma moralista alguns princípios da alquimia como a corrosão e retificação, associando-os à punição por pecados no melhor estilo do Inferno católico.

O Filme


A narrativa acompanha Scarlett, uma arqueóloga que tenta dar continuidade ao trabalho da vida de seu pai que acabou sendo considerado louco, após seu suicídio por enforcamento. Scarlett está à procura da Pedra Filosofal e da lendária tumba do alquimista Nicolas Flamel, que acredita que esteja nas catacumbas de Paris. Todas as imagens são captadas com uma câmera na mão de um cinegrafista chamado Benji, um norte-americano que está fazendo um documentário sobre a arqueóloga.

Scarlett monta uma expedição formada por um velho amigo chamado George (especializado em mitologia, teologia, linguista e tradutor talentoso) e três exploradores urbanos que atuam como guias para as profundezas da cidade: o líder Papillon, o montanhista Zed e uma garota gótica chamada Souxie.

         Se por si mesmo as galerias das catacumbas já são assustadoras, a câmera em grande angular enquadrando os apertados espaços de angustiante escuridão cria uma constante atmosfera claustrofóbica: paredes forradas com caveiras, tetos gotejantes e osso espalhados por toda parte só fazem aumentar o clima de terror.

Mas aos poucos a expedição arqueológica começa a dar estranhamente errado: o grupo começa a perceber que cada vez mais estão descendo, por caminhos que não constam no mapa. Na medida em que descem, percebem que estranhamente o design das galerias se repetem, porém de forma invertida: todos os detalhes são exatamente opostos como fossem espelhados.

O Princípio da Correspondência


Perdidos, nada mais resta a fazer do que seguir em frente. “Temos que seguir em frente” é o comando mais repetido ao longo do filme.  Esse é o aspecto mais importante, cujo título original do filme faz ligar ao mais importante princípio da Alquimia: o Princípio da Correspondência de Hermes Trimegisto – “As Above, So Below”, o que está acima corresponde ao que está abaixo, e o que está abaixo corresponde ao que está em cima, ilustrado na imagem ao lado e que aparece também em uma cena do filme gravado em uma das paredes.

Com exceção dos pesquisadores Scarlett e George, o trio de guias está motivado pela busca dos supostos tesouros de Flamel, principalmente a pedra filosofal que supostamente transformaria tudo em ouro. Porém, o célebre alquimista dos séculos XIV e XV buscou a fabricação do ouro filosófico, que expressava as transformações menos físicas e mais de iluminação interior.

           Essa ambição que faz quase todos imaginar riquezas materiais irá conduzir a todos aos portais do próprio Inferno. “Deixai, vós que entrais, toda a esperança”, leem a certa altura uma inscrição em uma parede, associando à entrada do Inferno como descrito na Divina Comédia de Dante Alighieri.

Aos poucos percebemos que cada um carrega sentimentos de culpa íntimos – Scarlett de não ter atendido o telefonema do pai um pouco antes do seu suicídio, George de não ter ajudado o seu irmão morto em uma caverna e assim por diante.

Alquimia e esoterismo cristão


O filme acertadamente associa a referencia da obra de Dante com uma outra inscrição: “V.I.T.R.I.O.L.”, termo arcaico para o ácido sulfúrico, mas também um lema acrônimo da Alquimia: Visita Interiora Terrae Rectificando Invenfies Occultum Lapidem – “Visite a parte interior da Terra; por retificação encontrarás a pedra escondida”.

A alquimia é a ciência da transmutação. Toda Alquimia seria um complexo conjunto de práticas experimentais e místicas que simbolizariam os estados de transmutação da consciência: diferente de muitas linhas neo-platônicas ou cabalistas, a matéria não pode ser simplesmente transcendida ou desprezada. Ela deve ser redimida, transmutada por meio do caos e da morte.

O ácido sulfúrico é aquilo que literalmente corrói as coisas, revelando o que está por baixo.

Ao vermos em outra sequência um cavaleiro templário morto em um pedestal em uma das câmaras das catacumbas, percebemos a coerência da mitologia explorada pelo filme: o esoterismo cristão ou “tradição Joanita”, do qual fizeram parte os templários com secretos estudos em Astrologia, Alquimia, Magnetismo e ciências herméticas. A alquimia cristã não tratava de produzir ouro sólido, mas sim fazer que o homem pudesse morrer para se transmutar em uma imitação de Cristo.

Nascido em 1265, Dante Alighieri penetrou nesse mundo iniciático tornando-se importante guardião do Esoterismo Cristão em meio à perseguição da Igreja. Dante legou esse esoterismo templário na sua obra A Divina Comédia.

Assim como os personagens do filme Reflexo do Medo, Dante realiza uma viagem espiritual em que conhece o Inferno, o Purgatório e o Céu onde busca a retificação de todos os seus pecados para poder conhecer os Céus. Como no Princípio da Correspondência, busca os Céus descendo cada vez mais até chegar ao Centro da Terra para subir em direção à saída – o filme segue o mesmo princípio paradoxal.

Porém, em Dante a retificação é alquímica, num processo de corrosão que alcança a transmutação – a iluminação interior.

Para obedecer as convenções do gênero, Reflexo do Medo acaba transformando a retificação em punição no sentido tradicional dos filmes de terror: a punição daqueles que cometem pecados – Papillon, arrogante e hedonista é enterrado de ponta cabeça; a garota gótica e também hedonista morta de forma violenta e assim por diante.

Essa talvez seja a única concessão de conteúdo. Narrativamente fará o espectador lembrar da trilogia Indiana Jones, o filme espanhol de terror REC (2007) e até Os Goonies (1985).


Ficha Técnica

Título: Reflexo do Medo (As Above, So Below)
Diretor: John Erick Dowdle
Roteiro: Drew Dowdle, John Erick Dowdle
Elenco: Perdita Weeks, Ben Feldman, Edwin Hodge, François Civil, Marion Lambert
Produção: Legendary Pictures
Distribuição: Universal Pictures
Ano: 2014
País: EUA




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