quinta-feira, dezembro 25, 2014

Walt Disney mexicano treina crianças para o mundo corporativo

Apontado como o Walt Disney mexicano, com um toque de Willy Wonka e sua fantástica fábrica de chocolate, o empresário Xavier López Ancona desde 1999 comanda a KidZania. É uma rede de parque temático para crianças presente em 16 países, e agora também em São Paulo. “Crianças necessitam de histórias de êxito”, diz o empresário cujo parque simula em escala infantil uma cidade onde, através de jogos de role playing, os pequenos performam atividades adultas remuneradas pela moeda local. Expostas ao bombardeio de marcas globais e acompanhadas por pais orgulhosos, os pequenos tornam-se médicos, bombeiros, jornalistas ou chef de cozinha. É a “edu-diversão”: crianças tornam-se espelhos dos adultos – subliminarmente são treinadas em jogos e simulações para o mundo dos processos seletivos corporativos dos administradores, call centers e funcionários – é a “gameficação” e a simulação como ferramentas de administração. Esqueça o jogo lúdico e infantil. Agora o jogo deve ser focado no futuro e nos negócios.
“Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor
E o seu destino eu sei de cor” (“Marvin”, Titãs)

“México: tão longe de Deus e tão perto dos EUA”. Essa frase que virou um provérbio dito pelo ex-presidente daquele país, Porfírio Diaz, mantém a atualidade. Sua economia dependente à norte-americana através do NAFTA resultou na liquidação das empresas públicas por meio de privatizações, sucateamento do Estado, crescimento da desigualdade e narcotráfico e a ampliação das indústrias “maquiadoras” – elaboração e reparação de produtos importados temporariamente para posterior exportação.

Dominado pelo império da Televisa (a TV Globo de lá) e frequentemente apontado pelos neoliberais como modelo a ser seguido pelo Brasil, o México no século XXI deixou de ser apenas um exportador de mão-de-obra barata para cartéis de drogas e mercado norte-americano. Agora exporta também o imaginário que dá sentido a esse modelo de globalização ao qual o país é tão fiel. Tão fiel que se torna mais realista que o rei.

Apontado como um Walt Disney mexicano, com um toque de Willy Wonka e sua assombrosa fábrica de chocolate, o empresário Xavier López Ancona desde 1999 criou a KidZania, espécie de parque temático onde as crianças jogam e trabalham como adultos em uma réplica de uma cidade em escala infantil. Hoje a franquia conta com 16 filiais em todo o mundo, e a partir desse mês também em São Paulo no Shopping Eldorado.

Uma pequena cidade cenográfica



Cada parque é uma pequena cidade com ruas pavimentadas, prédios, veículos, um sistema econômico e de moeda corrente: as crianças acompanhadas de seus pais entram com um passaporte através de um terminal aéreo para passar o dia em jogos de role playing em simulações de atividades adultas remuneradas pela moeda local: alugar um telefone celular, , montar motocicletas, tornar-se um médico-cirurgião, abrir uma conta em um banco, filmar um programa de TV, ser chefe de cozinha, bombeiro em ação num incêndio, ser um juiz ou carteiro. As crianças performam seus papéis enquanto os pais observam.

“Elas atuam com um propósito”, afirma Xavier Ancona. Qual propósito? “O México necessita de empreendedores”, declara sério o empresário. Sim, para Ancona KidsZania não é mera diversão. Possui um propósito “educacional” sério: desenvolver na criança habilidades como a autoconfiança, trabalho em equipe, foco, pro-atividade, comunicação etc. Ou seja, tudo aquilo que os psicólogos de RH das empresas buscam nos processos seletivos – leia “Mexico necesita de empreendedores” In: Negocios, Milenio.com.

“KidZania prepara as crianças a entender o seu mundo”, declara o site do parque temático. Através de 100 atividades programadas de role playing com diversos níveis de habilidades e dificuldades o parque promoveria o encontro das habilidades e interesses na criança – um verdadeiro teste vocacional travestido de entretenimento.

Em KidZania as crianças convivem com o bombardeio de marcas globais como Nestlé, Honda, Johnson & Johnson, Unilever, Nike etc. (parceiros no projeto). Segundo o empresário, para “autenticar o conteúdo”, quer dizer, tornar mais realista o faz-de-conta. Mas, ele faz um elogio educacional: “não há videojogos no parque”. Claro, em KidZania tudo já é um role playing.

Fim do universo lúdico infantil


A trajetória do empresário “Disney/Wonka” Xavier López Ancona é uma amostra do perfil da elite mexicana. Estudou escola preparatória nos EUA para retornar ao México e se graduar em Administração. Voltou aos EUA para fazer MBA na Kellogg Scholl of Management da Northwestern University. Em 1996 tornou-se executivo da General Eletric, onde um velho amigo dos tempos de escola veio com a ideia de uma parque infantil que focaria suas atividades em role play.

No mundo corporativo, de administradores a call centers, funcionários já estão sendo treinados em jogos e simulações – a “gameficação” e a simulação (“edu-diversão”) como ferramentas de administração.  Por isso, Xavier Ancona teve a genialidade de mesclar a disneyficação da cultura norte-americana com a gameficação corporativa: “Sou focado e ambicioso. As crianças necessitam de histórias de êxito”, declara o empresário.

A relação que os adultos têm com a infância costuma ser nostálgica: saudades da inocência, de uma época idílica e lúdica, marcada pelo descompromisso, fantasias e irresponsabilidade feliz. A criança ainda vive uma relação espontânea, imaginária e lúdica com o mundo.

Mas isso não significa que a criança é alienada e desconectada com a realidade. Uma das características da espontaneidade infantil é a imitação, como lembra o ensaísta e crítico literário alemão Walter Benjamin. Para ele, as crianças incorporam e traduzem o realismo do mundo adulto para o universo dos jogos, onde tudo é livremente subvertido.

Muitos pesquisadores apontam que a força da fantasia e do universo lúdico é a sua ausência de racionalidade, no sentido de performance, metas, objetivos, ou seja, o “agir-racional-com-respeito-a-fins”. A diversão é o jogo em si mesmo, e não o seu resultado final: a vitória.

Paradoxalmente, as crianças levam o jogo mais à sério do que os adultos: enquanto nesses, o jogo é apenas um meio para alcançar um resultado, na infância o jogo é divertido porque é tomado como um fim em si mesmo.

Da Disney à KidZania



As crianças imitam o mundo adulto (brincam de médico, de polícia ou de bombeiro) como um jogo em si mesmo: não há performance, desempenho ou eficácia. Como nos filmes mudos do passado, tudo pode acabar em guerra de pastelão, isto é, brigas, correria ou piadas que subvertem toda a proposta original que podem repentinamente suspender o jogo para ser criado um novo. 

A nostalgia por esse passado lúdico é tão forte que Walt Disney criou na década de 1950 a Disneylândia, o ápice dessa tentativa adulta em trazer de volta pelo menos uma amostra do que se perdeu – porém, de forma degenerada, simulada e sem mais a espontaneidade infantil.

O empresário Xavier Ancona certamente trouxe dos EUA esse modus operandi da indústria do entretenimento. Mas ele foi mais além: como um bom empresário formado nas melhores MBAs norte-americanas com todos os valores atuais do empreendedorismo e foco nos negócios, não há espaço para nostalgias infantis.

A infância, as crianças, o jogo e o fenômeno lúdico persistem nos primeiros anos das nossas vidas. Mas num mundo de negócios globalizados, quando o próprio jogo infantil se torna uma mercadoria, a criança tem que se tornar o espelho do adulto, isso é, deve “brincar” daquilo o que ele vai ser no futuro.

Crianças como espelho dos adultos


A brincadeira vira treinamento ou “role play”: situação dramática para a criança, pois ela enfrenta uma dupla simulação: se os jogos corporativos já são em si mesmo simulações (de situações de competição, de negócios, de trabalho em equipe etc.), na KidZania a criança simula no presente a simulação do que lhe espera no futuro.

Sintomaticamente esse fenômeno já está presente no modismo das fotografias chamadas “newborn” (fotos de recém-nascidos em suas primeiras semanas de vida): bebês vestindo tutus como fossem bailarinas ou bebês com óculos apoiados em livros, nitidamente refletem a profissão ou o estilo de vida dos pais – sobre isso clique aqui.

E para se tornar completa essa simulação do que será a vida adulta, as crianças são expostas às marcas das empresas globais que dominam a cenografia da cidade em miniatura. Para Xavier Ancona faz parte do efeito de realidade para tornar mais verossímil a simulação. Mas certamente o propósito vai muito além do efeito estético: é formar os novos consumidores do presente na precoce alfabetização da linguagem publicitária das marcas.

E também certamente, quando essas crianças saírem do parque temático, serão novos fontes de pressão por consumo que cercarão os orgulhosos pais.

Parece que o mundo atual dos negócios se tornou tão competitivo e os princípios de eficácia, eficiência e performance tão onipresentes que agora invadem o último espaço que existiria de resistência: a nostalgia pelo jogo infantil e o universo do lúdico. As crianças estão e tornando o espelho do que nos tornamos. Em um parque como KidZania os adultos olham com ternura para seus filhos – na verdade, sua ternura é o sentimento de resignação e derrota lembrando os versos daquela música dos Titãs chamada “Marvin”:
Marvin, a vida é pra valer, eu fiz o meu melhor... e o seu destino eu sei de cor (...)”

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