Em plena era triunfal do Neoliberalismo de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, o filme "Como Fazer Carreira em Publicidade" (How to Get Ahead in Advertising, 1989) foi muito mais do que uma voz dissonante. Apresenta de forma didática um verdadeiro manual de táticas de manipulação e de engenharia de opinião pública.“Porque sou aquele que tira o fedor de tudo, exceto da merda”. Essa é uma das definições dadas para a Publicidade nessa provocadora comédia de humor negro. Um filme obrigatório para ser visto e discutido em qualquer curso de Comunicação Social.
Pela sua narrativa repleta de linhas de diálogos, além de Cult, o filme acabou se convertendo num verdadeira listagem de técnicas de manipulação da chamada “engenharia de opinião pública”.
O Filme
O prazo final para a apresentação se aproxima, a empresa do creme ameaça retirar a conta da agência com os seguidos adiamentos. Bagley entra em pânico, não consegue dormir, fica paranoico: “não pensarei mais em grandes espinhas, espinhas ocultas ou espinhas de garotas gordas”, repete como um mantra em sua cabeça, mas nada adianta.
Começa a ficar cada vez mais agressivo e histérico até o colapso mental.
Mas tudo se complica ao descobrir que desenvolve uma enorme espinha no seu pescoço e que ela começa a falar e ficar fisionomicamente cada vez mais parecido com ele. A espinha é rude, desbocada, ameaçadora, ou seja, exatamente o Bagley que ele começou a odiar em si mesmo.
1- A Técnica da Vidraça Quebrada
Mulheres que fazem dietas radicais são encorajadas pela Publicidade a pequenas recompensas: “elas merecem, pois qualquer um que viva sob 1200 calorias diárias merece um pequeno prazer. Vá em frente, engula um bolo de passas. E então a culpa baterá e então viremos com nossa dieta. Isso é vicioso que completa um maravilhoso ciclo”, afirma categórico Bagley.
2 – A “Lógica do Papai Noel”
Nenhum consumidor crê em slogans, mas eles são ótimos para justificar (para si mesmo e diante dos outros) como álibis nossos impulsos.
No filme, a espinha neoliberal que assume o controle de Bagley propõe uma tática radical de marketing: glamorizar as espinhas. Um vídeo é produzido com uma cantora obesa e repleta de espinhas no rosto cantando “My Generation”. Uma “Heroína com Espinhas”. Retirando a culpa do consumidor, criam-se mercados e a galinha dos ovos de ouro nunca morre. A Lógica do Papai Noel é uma técnica que complementa da tática da “Vidraça Quebrada”.
3 – O produto deve prometer mais do que pode cumprir
A miragem da espuma branca (mito da limpeza) no comercial, obriga a dona de casa a colocar mais detergente na esponja para produzir o mesmo efeito, o que faz o produto acabar mais rapidamente. A frustração pode se reverter em raiva a uma marca específica (esse detergente “não rende”!), mas reforça o mercado como um todo ao fazer o consumidor procurar outras marcas que, no final, se equivalem num setor cada vez mais cartelizado.
4 – O discurso do “talvez”, “possivelmente”, “pode” ou “poderá”
Bagley discute a locução “talvez”: “você acreditará que a heroína estava na bolsa porque a canabis também estava”. É a manjada técnica do cínico “teste das hipóteses” inventado por Ali Kamel, diretor de jornalismo da TV Globo. Locuções adverbiais de dúvida são perfeitas ligações entre um fato e uma hipótese, induzindo o receptor a acreditar que está diante de uma prova factual.
É o atual “jornalismo declaratório” muito em voga com a onda moralista dos denuncismos na grande imprensa.
“Agora precisamos reduzir essa culpa de duas maneiras: primeiro, isso precisa ser extraído cirurgicamente e, segundo, precisamos extrair sua consciência punitiva...”.
Tática do discurso terapêutico da autoajuda onde o indivíduo é sempre o disfuncional e a sociedade e instituições são sempre racionais. Mal estar e pensamento crítico são rotulados como resultantes de “sentimentos de culpa”, “derrotismo” ou “dó de si mesmo” que devem ser extirpados, deletados ou simplesmente anestiados com antidepressivos. Sintomas são tratados como doenças, ou seja, o discurso terapêutico baseia-se numa inversão lógica: a causa é explicada pelo sintoma.
6 – Messianismo ou “Adapte-se ou você está ferrado!”
“O mundo é um shopping, se não tem preço não tem importância. Não há liberdade maior do que a liberdade de escolha. Fui educado nisso e também você será. Você não quer liberdade? Não quis sempre estradas? Deus, nunca mais andarei de trem enquanto estiver vivo. Estradas representam o direito fundamental do homem de ter acesso às boas coisas da vida. Sem estradas não haveria mais detergentes, leite longa vida, aerosóis (...) Jesus Cristo, não haveria mais carros, as pessoas amam carros e têm o direito disso se trabalham duro durante todo o dia. Têm direito às inovações tecnológicas. Como ousam querer tirar isso das pessoas. Por cristo, enquanto tiver ar no meu corpo, terão tudo isso, terão o maior, o resplandecente, o melhor. Por Deus, eu farei e não pararei até Jerusalém ser erguida aqui na verde e agradável Inglaterra!”
Em plena era da afirmação e euforia do Neoliberalismo da década de 1980 com as desregulamentações de mercados e da valorização moral da cobiça e da ambição, esse filme foi uma voz dissonante.
No final, seu humor negro que associa pústulas cheias de pus com táticas de manipulação foi profético ao denunciar as poderosas mídias como “venenosos porta-vozes” de um mundo onde até o ar terá seu preço.
- Título: Como Fazer Carreira em Publicidade (How to Get Ahead in Advertising)
- Diretor: Bruce Robinson
- Roteiro: Bruce Robinson
- Elenco: Richard E. Grant, Rachel Ward, Richard Wilson
- Produção: HandMade Films
- Distribuição: Anchor Bay Entertainment
- País: Reino Unido
- Ano: 1989