segunda-feira, dezembro 19, 2011

Papai-Noel Pode Matar em "Rare Exports: a Christmas Tale" (atualizado)


Se Papai Noel é um personagem tão altruísta, por que ele trabalha na clandestinidade? Por que muitas crianças temem a figura de Papai Noel em shoppings e parques? Por que a constante presença de papais-noéis assassinos e aterrorizantes na cinematografia? Essas questões em relação ao mito do Papai Noel são as motivações para o jovem diretor finlandês Jalmari Helander a desconstruir o imaginário desse personagem. Jalmari vai buscar as origens do mito natalino no folclore pagão, anterior à conversão cristã e norte-americana através da publicidade da Coca-Cola: há um imaginário subterrâneo e esquecido em torno do mito do Papai-Noel que insistentemente ressurge na cultura.

Jalmari tem dedicado sua carreira a expor a verdade de que o Papai Noel não é tão bom quanto parece. Após dois curtas premiados sobre o tema (a origem Finlandesa do personagem, antes da sua reconversão pela Coca-Cola no século XX), o diretor nos premia com essa pequena pérola do fantástico: “Rare Exports: a Christmas Tale”, vencedor de festivais do gênero terror e fantástico como Locamo na Suiça e Sitges na Catalunha.

Por que muitas crianças choram de medo na presença dessas figuras que habitam shopping centers e lojas no natal? Por que insistentemente o cinema de terror explora esse lado assustador do personagem (por exemplo: "Elves" - 1989 ou "Santa's Slay" - 2005)? Há até um nome para esse tipo de  fobia infantil: coulrofobia, o medo que se estende, também, para a presença de palhaços ou "clowns". 


Embora as origens oficiais ou cristã do Papai-Noel (ou "Santa Claus") estejam associadas à figura de São Nicolau, um jovem bispo de Myra (Turquia) do século IV DC (conhecido pela generosidade e por dar presentes, tornado-se o santo padroeiro das crianças), há uma origem pagã anterior a sua conversão pela Igreja. Uma origem de moralidade ambígua e cruel, própria das origens dos contos de fadas que acabou sedimentando-se em um imaginário subterrâneo que resiste aos tempos.

Embora a cinematografia e os medos infantis apresentem sintomas da existência desse arquétipo subterrâneo em um personagem tão altruísta, nunca é explicitado o porquê. Jalmari aceitou esse desafio: foi buscar no folclore escandinavo um assustador personagem (quase demoníaco) que não trás presentes para as crianças e todos têm medo dele. O diretor vai desenvolver esse tema através de dois elementos: o confronto entre a moralidade cruel das versões originais dos contos de fadas e a amoralidade do mundo pós-modeno e a revelação da verdade do mito natalino por meio de uma narrativa que explora um simbolismo neo-platônico. 

Tudo se passa quando um pacato vilarejo na Finlândia, no meio do nada e da neve, vê o seu sossego ser perturbado por uma escavação arqueológica no monte Kovatunturi, patrocinado pela multinacional norte-americana intitulada Subzero Inc. Estão ali em busca do Papai Noel original que teria existido de fato e estaria ali, num túmulo gelado. Mal sabiam (por terem na cabeça a imagem convencional e americanizada do Papai Noel) que libertariam uma entidade maligna que dizimaria toda a equipe.

“Alguma coisa está enterrada ali”, diz Pietari, menino que junto com seu amigo Jusso, espionam o trabalho das escavações. Pietari (menino inteligente e sensível, contrastando com a vida e habitantes rudes do vilarejo) logo descobre o objetivo daquelas escavações. Pesquisa em seus livros as sombrias lendas do folclore finlandês sobre Santa Claus: uma figura maligna com barbas e chifres que pune crianças desobedientes. Nos livros vê figuras com a entidade cruel chicoteando crianças ou afogando-as em caldeirões com água fervente.

Logo depois, estranhos eventos começam a ocorrer na localidade: crianças desaparecem, junto com fogões e aquecedores. Além disso, são encontradas dezenas de renas mortas mutiladas. Isso ameaça desequilibrar a frágil economia local que depende desses animais para a subsistência.

O natal está próximo e Pietari, junto com seu pai e amigos, se armam e vão ao local das escavações. Estranhamente está abandonado e toda a equipe de arqueólogos desaparecera.

O mistério aumenta quando um estranho homem idoso, nu e com barbas brancas é pego numa armadilha para lobos. Seu olhar é sinistro, nada fala e demonstra ser agressivo, principalmente na presença de Pietari. É mantido preso no matadouro nos fundos da casa de Pietari até o grupo conseguir uma resposta para todos os acontecimentos.

O desfecho é de profunda ironia e humor negro. Descobrem que aquele velho é o ser descoberto nas escavações, descongelado e ressuscitado. Ele é Santa Claus! Tentam negociar sua venda com a Subzero Inc. e ganhar muito dinheiro. Mas, na hora da negociação com o representante norte-americano veem saindo das sombras da noite, dezenas de velhos de barba, nus, com o mesmo olhar sinistro, agressivos e armados de pás e picaretas. Desespero? Não. A perspicácia do protagonista Pietari vê nessas dezenas de Santa Claus resuscitados uma oportunidade empresarial: prendê-los, adestrá-los, treiná-los e exportá-los como papais-noeis para shopping-centers do mundo inteiro. Encaixotados, são exportados sob o selo “Rare Exports”, a empresa que salvará a economia combalida daquela localidade perdida no meio do nada.

Neo-platonismo: a verdade não está lá fora

Dois elementos simbólicos chamam a atenção nessa trama bizarra. Primeiro, o elemento gnóstico neo-platônico que marca o renascimento do platonismo na modernidade. Se na alegoria da caverna de Platão a verdade só pode estar, senão, fora da caverna (no Mundo das Formas Ideais), ao contrário, na modernidade temos uma inversão dessa alegoria: as formas perfeitas (de onde derivam os simulacro ou cópias imperfeitas que formam esse mundo) estão em cavernas, mundos subterrâneos, buracos, porões, vielas ou becos. A verdade não está lá fora (lema da série Cult Arquivo X), mas confinada em formas subterrâneas (sobre esse tema veja links abaixo)

Paradoxalmente, a transcendência somente pode ser buscada mergulhando mais profundamente no mundo material. Isso é Gnosticismo alquímico. Da estória de Alice no País das Maravilhas (a toca do coelho leva ao mundo subterrâneo), passando pelo filme Matrix (o herói Neil encontra o mundo real no subterrâneo de um planeta arrasado) até chegarmos a essa verdadeira alegoria que é o filme “Rare Exports”: a verdadeira origem do mito do bondoso papai-noel, o cruel e maligno Santa Claus, dorme congelado no fundo de uma montanha. É inadvertidamente resuscitado por uma multinacional com evidentes interesses comerciais.

A verdade vindo das profundezas da montanha Kovatunturi vinga-se daqueles que sempre exploraram o mito de Santa Claus, transformando-o no velhinho bondoso que empurra mercadorias chaminés abaixo.

Da moralidade dos contos de fada à amoralidade pós-moderna

Porém, a legendária e maligna entidade liberta é vítima da amoralidade pós-moderna. Uma criança (o protagonista Pietari), vítima privilegiada das lendas antigas de Santa Claus, mostra-se um empreendedor proativo. Diferente dos adultos rudes que queriam apenas arrancar alguns milhares de dólares da Subzero Inc., Pietari vê um negócio inédito em um mundo globalizado. Subjuga os 198 sinistros idosos (na verdade ajudantes de Santa Clauss que é morto pelo ardiloso plano do herói) para enquadrá-los dentro das normas do management e despachá-los para o mundo inteiro como obediente mão-de-obra autônoma e sem vínculos empregatícios (qual empresa atual não gostaria de contar com trabalhadores tão “flexíveis).

Esse é o segundo elemento simbólico do filme “Rare Exports”: se o maligno Santa Clauss representa a moralidade ambígua e cruel dos contos de fadas originais, o heróis Pietari simboliza a amoralidade do atual mundo globalizado pós-moderno. A lendária entidade sucumbe às explosões de dinamite (vítima do ardiloso plano do menino) e às normas de management e gerenciamento moderno de recursos humanos (a cena do treinamento dos papais noeis é impagável) da empresa finlandesa Rare Exports.

O argumento do filme lembra um pouco a Alice de Tim Burton que faz uma jornada pelo País das Maravilhas para buscar auto-conhecimento e, no final, tornar-se uma empresária empreendedora. Mas no filme “Rare Exports” isso não é apresentado de forma apologética como em Tim Burton, mas de forma cínica e irônica. 

Toda a crueldade e fúria dos monstros dos contos de fadas não são páreo para a amoralidade pós-moderna, onde as crianças perdem os medos metafísicos. Talvez, sejam até capazes de ver no bicho-papão uma boa oportunidade para fazer negócios: mercantilizar sustos, por exemplo.

Essa amoralidade pós-moderna que aniquila todo horror metafísico pode ser encontrado num divertido vídeo encontrado no You Tube chamado “Black Hole” (veja abaixo), onde um funcionário em um modorrento escritório encontra uma folha de papel com um buraco impresso em uma máquina de fotocópia. Descobre que esse buraco é tridimensional, podendo ser usado para a mão atravessar paredes, portas, qualquer superfície. O medo, curiosidade ou qualquer forma de questionamento metafísico é substituído por um mesquinho interesse instrumental: pegar o dinheiro no interior do cofre da empresa.

Ficha Técnica
  • Título Original: Rare Exports
  • Diretor: Jalmari Helander
  • Roteiro: Jalmari Helander
  • Elenco: Jorma Tommila, Onni Tommila, Peeter Jakobi
  • Produção: Agnès b. Productions, Cinet, Davaj Film
  • Distribuição: Icon Film Distribution
  • País: Finlândia, Noruega, França e Suécia
  • Ano: 2010






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