sábado, junho 17, 2023

A Natureza lentamente vinga-se da masculinidade patriarcal no terror 'Pollen'


Acompanhando a atual tendência do terror de gênero como “She Will” (Charlote Colbert) e “Men” (Alex Garland), o filme indie “Pollen” (2023), de D.W. Medoff, é um terror psicológico sobre problemas da agressão sexual, toxicidade no local de trabalho e trauma. “Pollen” lembra o clássico “Repulsa o Sexo” de Roman Polanski. Porém, com um toque, por assim dizer, botânico: depois que uma jovem vê o emprego dos seus sonhos se tornar um pesadelo (abuso sexual e relações de trabalho tóxicas) decide viver como uma planta e tem como única companhia um vaso com flores de papoula. Lentamente começa a se mover em direção à loucura completa na qual seu trauma começa a se misturar com poderes orgânicos do mundo botânico. É a Natureza lentamente gestando sua vingança contra a masculinidade patriarcal.

Em postagem anterior discutíamos como o terror atual no cinema está trazendo uma nova vertente para o gênero. Se nos fundamentos do gênero, seja literário ou fílmico, estava a matriz edipiana (dramas envolvendo culpa, incesto, a sedução da inocência, sexo culpado, sadomasoquismo, fragmentação corporal etc.), na última década acompanhamos a ascensão do terror de gênero e racial: a má consciência coletiva envolvendo o racismo, relacionamentos tóxicos ou abusivos, desigualdades de gêneros etc.

O terror racial de filmes de Jordan Peele como Corra e Nós, a série Them, de Little Marvin, ou o terror de gênero como She Will, de Charlote Colbert, e Men (de Alex Garland) apontam para essa nova vertente do terror que parece abandonar a velha matriz edipiana para focar naquilo que criou essa própria configuração psíquica: a ordem patriarcal. 

O terror indie e de baixo orçamento Pollen (2023), do escritor e diretor D.W. Medoff, é mais um título nessa perspectiva do terror de gênero: o terror psicológico decorrente dos problemas da agressão sexual, toxicidade no local de trabalho e trauma.

O que torna Pollen especial são as suas referências ao clássico Repulsa ao Sexo (1965), horror psicológico de Roman Polanski sobre uma jovem retraída e perturbada que vive pesadelos em seu solitário apartamento, enquanto se torna objeto dos desejos de homens que entram em contato com ela. 

Pollen incorpora muito desse argumento do filme clássico de Polanski. Porém, com um toque, por assim dizer, botânico: para começar, a protagonista chama-se Hera (Ava Rose Kinard) – o nome de uma planta usada em forrações de canteiros, como trepadeira ou em vasos suspensos.

Mas também Hera é a deusa grega do nascimento e do casamento, símbolo da fertilidade e felicidade conjugal, além de protetora das mulheres no casamento. Mas também era conhecida pelo seu temperamento vingativo, inclusive contra amantes.

Esse é curioso núcleo simbólico de Pollen: a vingança da Natureza contra a sociedade Patriarcal que não redime historicamente a Natureza, mas apenas a transforma em objeto de exploração e dominação – e o espelho dessa relação com a Natureza nas próprias relações humanas, de raça e de gênero: a transformação do outro também em objeto de exploração e dominação.

Mas a Natureza dócil, fetiche, antropormorfizada e pronta para ser manipulada e mercantilizada vinga-se da civilização. Esse é o tema tanto de Freud (o reprimido que retorna como pulsão anti-civilizatória) como da Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer (a vingança da natureza através da vingança pulsional que ameaça os pilares da sociedade através da rebelião fascista, mal-estar, ansiedades, medo etc.).



A Natureza encontra-se representada simbolicamente em todo o filme, desde o nome da protagonista, o matiz verde da fotografia do filme e como cor dominante dos sets de filmagem, além dos elementos botânicos que permeiam o filme como pólen, terra, folhas e um estranho e enigmático “monstro da árvore” que começa a acompanhar Hera. 

O contraponto é o local da “civilização”:  o ambiente corporativo de uma auditoria financeira que presta serviço para contas de milhões de dólares, cujo topo da cadeia alimentar é dominado por machos alfas seguidos por mulheres bregas, ciumentas e invejosas. Que olham com desconfiança para a “carne nova” recém-admitida na empresa:  a jovem com olhos brilhantes, Hera, em seu primeiro emprego pós faculdade. 

O Filme

Hera começa a trabalhar como analista júnior em uma empresa de finanças corporativas apenas para se encontrar assombrada por colegas de trabalho que parecem se superar em termos de toxicidade. Há seu sênior, Zach (Tyler Buckingan), que tem todo o escritório a seus pés com seu carisma. Depois que Zach consegue uma grande conta de milhões para a empresa, ele vê a sua merecida recompensa: a jovem Hera, a qual convida para sair.

Quando Zach deixa Hera em sua casa após o encontro, ele inicia o assédio - ele quer fazer sexo com Hera. Hera está visivelmente desconfortável e afirma estritamente que não está interessada em ter um relacionamento sexual. Apesar de seus protestos, Zach força a entrada na casa de Hera, estuprando-a.



Na manhã seguinte, Hera acorda e percebe que Zach foi embora. Ela está visivelmente abalada pelos acontecimentos da noite. No entanto, ela também se sente um pouco estranha entorno do que aconteceu: acredita que Zach deve sentir algo por ela. Enquanto isso, ela toma um gosto especial pelo vaso com flores de papoula que Zach deu a ela como presente no encontro. 

Mas também começa a ver uma criatura misteriosa dentro e ao redor de sua casa – o “monstro da árvore”. O vaso com flores de papoula começa a se tornar sua confidente. Hera o carrega em todos os lugares e até recebe recomendações imaginárias da planta sobre qual vestido usar no escritório.

No escritório, Hera se destaca, mas também é submetida a tratamento cruel - sua liderança de equipe é difícil, seus colegas de trabalho são rancorosos e Zach parece estar evitando-a. Tudo que Zach quer de Hera é que ela tome a pílulas anticoncepcional do dia seguinte, o que a perturba ainda mais. Quando ela vai ao banheiro para consumir as pílulas, Hera é novamente assombrada pela figura misteriosa, que se assemelha a um homem-árvore.

Hera acaba ficando sem emprego e rejeitada por Zach ao perceber que tudo o que ele queria era estuprá-la como uma espécie de prêmio. Tudo que tem é o vaso com a planta. Solitária em casa, decide viver como uma planta. Desde encher sua banheira com lama e tomar banho nela até se cobrir com arbustos e sujeira. Ela lentamente começa a se mover em direção à loucura completa. 



Mas Zach descobrirá da pior maneira possível a vingança que Hera e o monstro da árvore reservam para ele.

A atmosfera de Pollen é de fábula, repleta de simbolismos. Começando pelo domínio da cor verde no matiz dominante da fotografia e nos cenários e vestuários dos personagens.

Mas o grande tema é a da vingança da Natureza sobre a civilização. Principalmente depois que Hera perde a sua planta: o vaso cai e se quebra, matando a papoula. Praticamente é o simbolismo da gravidez impedida pela pílula do dia seguinte que Zach a forçou tomar.

O interessante no argumento do terror de Pollen é que as relações de masculinidade tóxica corporativa são colocadas na perspectiva mais ampla da mulher como representante da Natureza: no corpo feminino ocorre a fertilização, a vida e a reprodução humana na superfície do planeta. Mas, a civilização patriarcal (a matriz fálica de poder) volta-se contra ela. O corpo feminino torna-se objeto de dominação e exploração, tanto quanto a própria Natureza.

Indo além, ao colocar como polaridades o mundo corporativo do poder de um lado, e do outro a casa da solitária Hera transformando-se numa espécie de santuário botânico que acertará as contas com Zach, está o tema de que a questão ambiental é muito mais ampla do pensa o ambientalismo corporativo do discurso das “mudanças climáticas”.

Discurso reformista que apenas pensa em soluções (créditos de carbono, carros elétricos de alto valor de mercado etc.) que mantém intacta as próprias relações sociais de exploração e dominação que destruíram a Natureza.


 

  

Ficha Técnica

 

Título: Pollen

Diretor: D.W. Medoff

Roteiro: D.W. Medoff

Elenco:  Ava Rose Kinard, Tyler Buckingan, Leanna Adams

Produção: RoleCall, Bone Broth Films

Distribuição: Gravitas Ventures

Ano: 2023

País: EUA

 

 

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