Da volatilidade ao colapso: a "segunda-feira sangrenta" do mercado financeiro e a fuga cinematográfica de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos expuseram a engrenagem oculta em que a burguesia rentista da Faria Lima e a grande mídia corporativa flertam com o abismo institucional. Embalados por projeções de mercado que davam como certa a vitória do senador e sob os auspícios de um jornalismo que hipernormalizou figuras umbilicalmente ligadas ao submundo da milícia e da lavagem de dinheiro, esses dois setores demonstraram estar dispostos a transformar o país em uma grande plataforma de apostas de alto risco. No entanto, enquanto as "sardinhas" da classe média no mercado financeiro absorvem os prejuízos e o país encara o risco social, as elites seguem protegidas por suas salvaguardas privadas, revelando que o verdadeiro "Plano B" do financismo não é evitar a crise, mas lucrar com a sua gestão.
Embalada pela
pesquisa Nexus/BTG (apontava Flávio à frente na reta final do segundo turno) e
pelo inacreditável vídeo do “bandeirante-frankenstein” Tarcísio de Freitas
cravando a vitória do senador, em um quadro branco, com fórmulas, gráficos e
simulações de cenários de probabilidades, a Faria Lima precificou a vitória do
candidato do PL.
Com a virada de Lula, o dia seguinte foi
tomado por um clima de pânico e terra arrasada nos mercados financeiros. As
viúvas de Paulo Guedes sofreram um prejuízo de 15 bilhões de dólares.
O fundador do
BTG Pactual, André Esteves, registrou a maior perda individual. Segundo o
índice da Bloomberg, sua fortuna diminuiu US$ 4,4 bilhões, cerca de 30%,
passando a ser estimada em US$ 11,3 bilhões.
E
acompanhando esse clima de “barata voa”, no dia seguinte, Flávio Bolsonaro faz
uma fuga cinematográfica do País para os EUA, depois que o ministro Alexandre
Moraes intimou a Flávio entregar os passaportes às autoridades. Depois da PF
apontar risco de o senador fugir do Brasil em meio ao inquérito sobre lavagem
de dinheiro com o advogado Willer Tomaz.
Estes dois
episódios numa sequência estonteante, depois do resultado da eleição de domingo
que levou milhares de pessoas comemorarem nas ruas das capitais do Brasil.
A
“segunda-feira sangrenta” do mercado financeiro e a fuga do candidato derrotado
na eleição logo no dia seguinte guardam uma secreta conexão, para além da
sequência cronológica: foram eventos sincrônicos porque revelaram o quanto dois
setores da elite brasileira estão dispostos a flertar o abismo: a burguesia financista
rentista e as famílias proprietárias das mídias corporativas.
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O “Plano B”
A fuga do
senador Flávio revelou o que até as pedras do cais do Porto de Santos sabiam: por
muito pouco uma figura emergente de uma família aliada com o pior do submundo
da política e sustentada pelo dinheiro do crime organizado foi eleita
presidente da República.
E mais. O roteiro
da fuga, envolvendo uma sucessão de deslocamentos destinados a dificultar o
acompanhamento das autoridades, o sistemático trabalho de desinformação ao
longo do dia com informações desencontradas de agências de notícias e portais
dos jornalões e a logística envolvendo três países (Departamento de Estado dos
EUA, Casa Rosada na Argentina e parada para reabastecimento no Equador), revela
que não foi uma fuga de alguém desesperado sendo perseguido e tentando proteger
sua esposa e filhas.
Revela um “Plano
B” planejado com muita antecedência. No mínimo, um modus operandi de
alguém que, se vencesse a eleição, não subiria a rampa do Palácio do Planalto apenas
com o seu pai. Mas também carregaria ao Poder um complexo ecossistema formado pelo
oportunismo da grande mídia, a burguesia financista e rentista e a engenharia
de lavagem de dinheiro dos “camelôs da Faria Lima” – fintechs, bancos digitais e
corretoras com UX de cassino.
Que se
encaixam tal como peça numa engrenagem internacional que começa com as memecoins
de Trump e Milei.
Flertando com o abismo
Isso
talvez explique o porquê grande mídia e os mercados dos “camelôs digitais” da
Faria Lima flertaram com o abismo.
Para começar a estratégia diária de hipernormalização do jornalismo corporativo construindo a imagem de Flávio Bolsonaro como “candidato da oposição” que fazia parte de uma “festa da Democracia”, cujo ápice seria a eleição domingueira.
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O episódio do
almoço de Flávio com a cúpula da TV Globo é o símbolo perfeito. A emissora
confirmou que recebera o senador Flávio Bolsonaro para um almoço na sede da
emissora, no Rio de Janeiro, horas antes da sabatina do parlamentar no Jornal
Nacional. O encontro estava agendado para sexta-feira, 16/10/2026, poucas horas
antes de sua participação na sabatina, com João Roberto Marinho e Paulo
Tonet.
Esse almoço
selou toda a estratégia de hipernormalização cotidiana no jornalismo da
emissora, com as estratégias semióticas do doisladismo, estetização do absurdo
através do “pesquisismo” e as falsas equivalências – sobre isso clique aqui.
Esse flerte com o abismo era uma aposta da grande
mídia e dos camelôs digitais: legalizar, desregular e normalizar essa fronteira
entre investimento e aposta. Por isso precisavam de um presidente que fosse,
ele mesmo, um produto desse ecossistema que ocupa a zona cinza entre a
legalidade, contravenção e crime.
Não são dois
mercados que se encontraram. São um só. A mesma lógica de monetização da
atenção sustenta o Jornal Nacional, o programa esportivo, o influencer de
finanças e a casa de bet.
O que os une
é o modelo: transformar acontecimento em fluxo contínuo, transformar fluxo em odd,
transformar odd em clique. A grande mídia fornece o palco de
credibilidade, as bets fornecem o caixa infinito de patrocínio, e os dois
vendem a mesma promessa: o futuro é imprevisível, mas você pode acertar se
apostar agora.
Daí o
comentarista esportivo que vira garoto-propaganda de bet, o portal de notícias
que tem editoria de "palpites", o telejornal que trata eleição como
disputa de cotações.
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Gestão do abismo
Tudo bem. A aposta
deu errada. Flávio foi derrotado e o circuit breaker fechou a segunda-feira
sangrenta do mercado financeiro. Onde quem perdeu não foram os “tubarões” que
apostaram no senador bolsonarista. Mas as “sardinhas” da classe média que se
consideram “day traders” por terem no celular um aplicativo de alguma
corretora digital e se informarem através das colunas de economia dos jornalões.
A questão é
que o financismo rentista não tem medo do abismo. Ele precisa dele.
O pânico gera
liquidez, gera notícia, gera necessidade de "salvamento". O
sistema mantém-se não apesar das crises, mas através delas.
É a gestão do
abismo como modelo de negócio.
A legalização
total das bets sem regulação, a transformação da CVM em balcão de apostas, a
fintech que lava dinheiro do jogo virando banco oficial do governo, o miliciano
virando operador de crédito consignado. O Brasil como uma grande plataforma de
aposta, com a grande mídia como seu departamento de marketing.
Por pouco um
senador com investigação por lavagem, com ligações históricas com a milícia e
com o submundo das apostas, não se tornou presidente sob os auspícios do
jornalismo corporativo que o tratou como igual.
O apoio a uma
candidatura como a de Flávio Bolsonaro, mesmo com todo o histórico de milícia,
com as rachadinhas, com a relação com o crime organizado, não é um erro de
cálculo da elite. É o cálculo!
É preferível
um governo que garanta a desregulação total, a privatização do risco e a
criminalização da pobreza, mesmo que traga uma hecatombe institucional, do que
um governo que regule o cassino.
Eles flertam
com o abismo coletivo - democrático, social, econômico - porque sabem que têm
um paraquedas privado: dólar, passaporte estrangeiro, offshore, blindagem
jurídica.
O abismo é
para a Nação. Para eles, é só volatilidade.
sexta-feira, outubro 30, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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