sexta-feira, setembro 25, 2026

O Grau Zero do Jornalismo: "Doisladismo" e "Poker Face"



Ao classificar a ingerência geopolítica dos Estados Unidos na América Latina como um mero "olhar de Trump", o jornalismo corporativo expõe o paroxismo de uma nova engenharia de comunicação: o "doisladismo". Ao substituir a histórica expressividade inflamada dos apresentadores dos anos do "jornalismo de guerra" por uma rigorosa estética de “Poker Face”, os telejornais abandonam a indução de pânico para adotar uma frieza retórica. A manobra desidrata conflitos assimétricos, reduz ameaças soberanas a "divergências de opinião" e constrói uma falsa equivalência que, sob o disfarce da neutralidade, atua como uma eficaz tecnologia de manutenção do status quo. O grau zero do Jornalismo.

“É o olhar de Trump para a América Latina”. Foi esse o diagnóstico do jornalista Marcelo Lins, na GloboNews, sobre a suposta ameaça de ingerência de Trump no processo eleitoral brasileiro e o avanço geopolítico dos EUA no continente.

Esse episódio é o paroxismo de uma nova estratégia semiótica da cobertura jornalística midiática que poderíamos chamar de “doisladismo”: a construção retórica de falsas equivalências para a criação da imagem de neutralidade jornalística.

E, o mesmo tempo, a desidratação do fato, isto é, retirar dele o peso da contradição, conflito, atrito, luta. Para tudo se reduzir a olhares diversos sobre determinada questão. No máximo, “oposição de ideias”.

O "doisladismo" ocorre quando o jornalismo tenta apresentar dois lados de uma questão como tendo o mesmo peso, mesmo quando há uma desproporção factual, histórica ou de poder entre eles.

O que temos, portanto é a redução de ameaças estruturais: reduzir a Doutrina Monroe 2.0 de Trump e o histórico de intervenções dos EUA na América Latina a um simples "olhar" ou "visão", minimizando as consequências materiais e geopolíticas dessas ações.

igualar a postura de potências globais à de países em desenvolvimento cria uma simetria artificial que obscurece as relações de poder reais.

A cobertura do discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU foi mais do que um exemplo desse dispositivo do “doisladismo”. Mostrou como essa estratégia semiótica é útil em um momento de reta final para as eleições.

Principalmente, como o jornalismo corporativo já sabia de antemão, Lula seria recebido na ONU como uma liderança global. Uma verdadeira saia justa: como mostrar imagens positivas de um candidato à reeleição que, certamente, renderia pontos para a campanha? E, pior, como esvaziar a urgência do discurso da defesa da soberania de Lula?

Para isso, a retórica da falsa equivalência entrou em ação:  analisar discursos na ONU (como os de Lula e Trump) apenas pela lente do "consumo interno" ou "discurso eleitoral" como forma de neutralizar as tensões geopolíticas e as visões de mundo contrastantes que esses discursos representam.

Isso reduz debates complexos sobre a ordem global a meras táticas de relações públicas. “Olhares diversos” sobre um tema. O “outro lado” sobre qualquer tema.

Em termos de uma empresa que vende a informação como um produto para o mercado de notícias, até se compreende uma empresa como o Grupo Globo tratar as notícias dessa maneira. Principalmente num período sensível como o das campanhas eleitorais.



Para todo o espectro político, o Grupo Globo contaria com um histórico nada meritório: para a esquerda, um histórico de manipulações e ocultamentos para intervir politicamente nos momentos mais cruciais da História recente; para a direita, o mote da “Globo Lixo” nos mais diferentes matizes – até como forma de apropriação semiótica de uma crítica que sempre foi da esquerda.

Por isso, a necessidade comercial urgente da cobertura noticiosa global aparentar uma isonomia, objetividade e profissionalismo.

Mas na prática ideológica essa aparência de objetividade criada pelo “doisladismo” cria uma objetividade interesseira: a falsa equivalência acaba se tornando numa escolha editorial que mantém o status quo. Ao evitar posicionamentos claros diante de assimetrias gritantes, o jornalismo pode, paradoxalmente, estar tomando o lado do mais forte ao não nomear as dinâmicas de poder.

a isenção, quando aplicada a situações de profunda desigualdade, deixa de ser uma virtude jornalística e passa a ser uma ferramenta de manutenção do poder.

Sob essa ótica, o "doisladismo" é uma tecnologia de controle. Ao tratar forças desiguais como se fossem simétricas, o jornalismo atua para proteger o status quo.

Quando um telejornal cobre uma tensão diplomática entre uma superpotência global (com capacidade de impor sanções econômicas globais e com vasto histórico de intervenções militares) e um país em desenvolvimento, o "doisladismo" exige que a cobertura trate o episódio como uma "troca de farpas" entre dois líderes teimosos. Ao omitir a assimetria de poder (quem de fato tem poder de destruir a economia do outro?), o jornalismo protege a superpotência de ser retratada como agressora ou imperialista, reduzindo uma ameaça existencial a uma mera "divergência de opiniões".

A Estética da "Poker Face" e a Ilusão da Neutralidade

Outra novidade nessa preocupação tardia do jornalismo corporativo em aparentar objetividade e neutralidade é o “Poker Face”: a adoção de expressões faciais contidas, tom de voz monocórdico e linguagem corporal rígida visando projetar distanciamento emocional e imparcialidade.

Uma máscara que oculta as escolhas ideológicas inerentes a qualquer processo de seleção e enquadramento de notícias.

Bem diferente dos tempos do chamado “Jornalismo de guerra” (2013 a 2018), tempos das Jornadas de Junho, Lava Jato, prisão de Lula e vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.

Como esse humilde blogueiro analisou no livro “Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira: Por que aquilo deu nisso?”, os apresentadores William Bonner e Patrícia Poeta, no JN, utilizavam um arsenal de expressões faciais, movimentos de sobrancelhas, gestos de mãos e alterações vocais para simular espontaneidade e, ao mesmo tempo, emitir sinais de tensão, preocupação, caos e instabilidade, que ficavam impregnados na memória do espectador mesmo quando a notícia era esquecida – Leia “Jornal Nacional e o Sorriso do Gato de Alice” IN: FERREIRA, Wilson Roberto V. Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2018): Por que aquilo deu nisso? Publicações Cinegnose, 2020 – disponível aqui.


Flagrante de "Poker Face"

Havia um sistema semiológico onde classes de equivalência (testa franzida, mãos agitadas, sobrancelhas erguidas, sorrisos discretos) serviam como shifters (engatadores) para indicar estados emocionais (tensão, desaprovação, aprovação) que orientavam a leitura da notícia pelo público.

O objetivo era criar uma "atmosfera" permanente de anomia e instabilidade no país. O âncora era um guia emocional.

Ao contrário, na estratégia atual a poker face como escudo: a supressão da expressividade. Em vez de franzir a testa para indicar reprovação, o apresentador mantém o rosto imóvel e o tom de voz constante, independentemente do peso da notícia. A tentativa aqui não é guiar a emoção do público, mas sim criar um "escudo" de objetividade absoluta. A mensagem não-verbal passa a ser: "nós apenas relatamos os fatos, não nos envolvemos".

O Deslocamento da Estratégia: Da Atmosfera para a Falsa Equivalência

O deslocamento semiótico ocorre não apenas no rosto do apresentador, mas na função que essa postura serve no macrodiscurso do telejornal.



No passado, a comunicação não-verbal deixava um rastro (como o sorriso do gato de Alice). O espectador esquecia a notícia, mas retinha a sensação de caos (fruto da testa franzida de Bonner ou do olho arregalado de Poeta, por exemplo. A estratégia era inflamar o clima político através da ancoragem emocional.

No Efeito "doisladismo" atual, a poker face atende diretamente à necessidade do doisladismo (a falácia da falsa equivalência). Para conseguir igualar coisas assimétricas (como a Doutrina Monroe e a política externa de países emergentes, ou discursos muito diferentes na ONU), o apresentador precisa de uma fisionomia neutra. Qualquer expressão de ironia, espanto ou reprovação ao comparar o incomparável denunciaria a artificialidade da comparação. A poker face é o recurso retórico que tenta dar dignidade e peso igual a narrativas desiguais.

Da Comunicação Não Verbal para a Retórica Fria

Há, portanto, um deslocamento claro: o peso da estratégia não está mais em "como o apresentador reage à notícia" (comunicação não verbal afetiva), mas em "como o apresentador iguala as notícias" (estratégia retórica suportada por uma estética de frieza).

Enquanto em 2013 o âncora precisava de uma "aparência de isenção" no horário nobre (resolvida pelo arsenal fono-gestual) para exprimir uma linha editorial, hoje a linha editorial é muitas vezes expressa justamente pela recusa em se indignar ou diferenciar. A poker face se torna a estética perfeita para o "doisladismo", pois ela performa uma isenção quase maquinal.

Ela tenta blindar o jornalismo contra acusações de viés político, mas acaba por neutralizar assimetrias graves (como ameaças existenciais) através de uma frieza paralisante.


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