Ao classificar a ingerência geopolítica dos Estados Unidos na América Latina como um mero "olhar de Trump", o jornalismo corporativo expõe o paroxismo de uma nova engenharia de comunicação: o "doisladismo". Ao substituir a histórica expressividade inflamada dos apresentadores dos anos do "jornalismo de guerra" por uma rigorosa estética de “Poker Face”, os telejornais abandonam a indução de pânico para adotar uma frieza retórica. A manobra desidrata conflitos assimétricos, reduz ameaças soberanas a "divergências de opinião" e constrói uma falsa equivalência que, sob o disfarce da neutralidade, atua como uma eficaz tecnologia de manutenção do status quo. O grau zero do Jornalismo.
“É o olhar de
Trump para a América Latina”. Foi esse o diagnóstico do jornalista Marcelo Lins, na GloboNews, sobre a suposta ameaça de ingerência de Trump no processo eleitoral brasileiro
e o avanço geopolítico dos EUA no continente.
Esse episódio
é o paroxismo de uma nova estratégia semiótica da cobertura jornalística
midiática que poderíamos chamar de “doisladismo”: a construção retórica de
falsas equivalências para a criação da imagem de neutralidade jornalística.
E, o mesmo
tempo, a desidratação do fato, isto é, retirar dele o peso da contradição,
conflito, atrito, luta. Para tudo se reduzir a olhares diversos sobre determinada
questão. No máximo, “oposição de ideias”.
O "doisladismo" ocorre quando o jornalismo tenta apresentar dois lados de uma
questão como tendo o mesmo peso, mesmo quando há uma desproporção factual,
histórica ou de poder entre eles.
O que temos,
portanto é a redução de ameaças estruturais: reduzir a
Doutrina Monroe 2.0 de Trump e o histórico de intervenções dos EUA na América
Latina a um simples "olhar" ou "visão", minimizando as
consequências materiais e geopolíticas dessas ações.
igualar a
postura de potências globais à de países em desenvolvimento cria uma simetria
artificial que obscurece as relações de poder reais.
A cobertura do
discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU foi mais do que um
exemplo desse dispositivo do “doisladismo”. Mostrou como essa estratégia
semiótica é útil em um momento de reta final para as eleições.
Principalmente,
como o jornalismo corporativo já sabia de antemão, Lula seria recebido na ONU
como uma liderança global. Uma verdadeira saia justa: como mostrar imagens
positivas de um candidato à reeleição que, certamente, renderia pontos para a
campanha? E, pior, como esvaziar a urgência do discurso da defesa da soberania
de Lula?
Para isso, a
retórica da falsa equivalência entrou em ação: analisar discursos na ONU (como os de Lula e
Trump) apenas pela lente do "consumo interno" ou "discurso
eleitoral" como forma de neutralizar as tensões geopolíticas e as visões
de mundo contrastantes que esses discursos representam.
Isso reduz
debates complexos sobre a ordem global a meras táticas de relações públicas. “Olhares
diversos” sobre um tema. O “outro lado” sobre qualquer tema.
Em termos de
uma empresa que vende a informação como um produto para o mercado de notícias,
até se compreende uma empresa como o Grupo Globo tratar as notícias dessa
maneira. Principalmente num período sensível como o das campanhas eleitorais.
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Para todo o
espectro político, o Grupo Globo contaria com um histórico nada meritório: para
a esquerda, um histórico de manipulações e ocultamentos para intervir
politicamente nos momentos mais cruciais da História recente; para a direita, o
mote da “Globo Lixo” nos mais diferentes matizes – até como forma de apropriação
semiótica de uma crítica que sempre foi da esquerda.
Por isso, a necessidade
comercial urgente da cobertura noticiosa global aparentar uma isonomia,
objetividade e profissionalismo.
Mas na
prática ideológica essa aparência de objetividade criada pelo “doisladismo”
cria uma objetividade interesseira: a falsa equivalência acaba se tornando
numa escolha editorial que mantém o status quo. Ao evitar
posicionamentos claros diante de assimetrias gritantes, o jornalismo pode,
paradoxalmente, estar tomando o lado do mais forte ao não nomear as dinâmicas
de poder.
a isenção,
quando aplicada a situações de profunda desigualdade, deixa de ser uma virtude
jornalística e passa a ser uma ferramenta de manutenção do poder.
Sob essa
ótica, o "doisladismo" é uma tecnologia de controle. Ao tratar
forças desiguais como se fossem simétricas, o jornalismo atua para proteger o status
quo.
Quando um
telejornal cobre uma tensão diplomática entre uma superpotência global (com
capacidade de impor sanções econômicas globais e com vasto histórico de
intervenções militares) e um país em desenvolvimento, o "doisladismo" exige que a cobertura trate o episódio como uma "troca de
farpas" entre dois líderes teimosos. Ao omitir a assimetria de poder (quem
de fato tem poder de destruir a economia do outro?), o jornalismo protege a
superpotência de ser retratada como agressora ou imperialista, reduzindo uma
ameaça existencial a uma mera "divergência de opiniões".
A Estética da
"Poker Face" e a Ilusão da Neutralidade
Outra
novidade nessa preocupação tardia do jornalismo corporativo em aparentar
objetividade e neutralidade é o “Poker Face”: a adoção de expressões faciais
contidas, tom de voz monocórdico e linguagem corporal rígida visando projetar
distanciamento emocional e imparcialidade.
Uma máscara
que oculta as escolhas ideológicas inerentes a qualquer processo de seleção e
enquadramento de notícias.
Bem diferente
dos tempos do chamado “Jornalismo de guerra” (2013 a 2018), tempos das Jornadas
de Junho, Lava Jato, prisão de Lula e vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.
Como esse
humilde blogueiro analisou no livro “Bombas Semióticas na Guerra Híbrida
Brasileira: Por que aquilo deu nisso?”, os apresentadores William Bonner e
Patrícia Poeta, no JN, utilizavam um arsenal de expressões faciais, movimentos
de sobrancelhas, gestos de mãos e alterações vocais para simular espontaneidade
e, ao mesmo tempo, emitir sinais de tensão, preocupação, caos e instabilidade,
que ficavam impregnados na memória do espectador mesmo quando a notícia era
esquecida – Leia “Jornal Nacional e o Sorriso do Gato de Alice” IN: FERREIRA, Wilson
Roberto V. Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2018): Por que
aquilo deu nisso? Publicações Cinegnose, 2020 – disponível aqui.
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| Flagrante de "Poker Face" |
Havia um
sistema semiológico onde classes de equivalência (testa franzida, mãos
agitadas, sobrancelhas erguidas, sorrisos discretos) serviam como shifters
(engatadores) para indicar estados emocionais (tensão, desaprovação, aprovação)
que orientavam a leitura da notícia pelo público.
O objetivo era
criar uma "atmosfera" permanente de anomia e instabilidade no país. O
âncora era um guia emocional.
Ao contrário,
na estratégia atual a poker face como escudo: a supressão da
expressividade. Em vez de franzir a testa para indicar reprovação, o
apresentador mantém o rosto imóvel e o tom de voz constante, independentemente
do peso da notícia. A tentativa aqui não é guiar a emoção do público, mas sim
criar um "escudo" de objetividade absoluta. A mensagem não-verbal
passa a ser: "nós apenas relatamos os fatos, não nos envolvemos".
O
Deslocamento da Estratégia: Da Atmosfera para a Falsa Equivalência
O
deslocamento semiótico ocorre não apenas no rosto do apresentador, mas na
função que essa postura serve no macrodiscurso do telejornal.
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No passado, a
comunicação não-verbal deixava um rastro (como o sorriso do gato de Alice). O
espectador esquecia a notícia, mas retinha a sensação de caos (fruto da testa
franzida de Bonner ou do olho arregalado de Poeta, por exemplo. A estratégia
era inflamar o clima político através da ancoragem emocional.
No Efeito
"doisladismo" atual, a poker face atende diretamente à
necessidade do doisladismo (a falácia da falsa equivalência). Para
conseguir igualar coisas assimétricas (como a Doutrina Monroe e a política
externa de países emergentes, ou discursos muito diferentes na ONU), o
apresentador precisa de uma fisionomia neutra. Qualquer expressão de
ironia, espanto ou reprovação ao comparar o incomparável denunciaria a
artificialidade da comparação. A poker face é o recurso retórico que
tenta dar dignidade e peso igual a narrativas desiguais.
Da
Comunicação Não Verbal para a Retórica Fria
Há, portanto,
um deslocamento claro: o peso da estratégia não está mais em "como o
apresentador reage à notícia" (comunicação não verbal afetiva), mas em
"como o apresentador iguala as notícias" (estratégia retórica
suportada por uma estética de frieza).
Enquanto em
2013 o âncora precisava de uma "aparência de isenção" no horário
nobre (resolvida pelo arsenal fono-gestual) para exprimir uma linha editorial,
hoje a linha editorial é muitas vezes expressa justamente pela recusa em se
indignar ou diferenciar. A poker face se torna a estética perfeita para
o "doisladismo", pois ela performa uma isenção quase maquinal.
Ela tenta
blindar o jornalismo contra acusações de viés político, mas acaba por
neutralizar assimetrias graves (como ameaças existenciais) através de uma
frieza paralisante.
Série
"The Morning Show" abre a caixa-preta de um telejornal
sexta-feira, setembro 25, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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