sábado, outubro 24, 2026

O debate na Globo: o déficit comunicacional de Flávio e a hipernormalização da mídia corporativa



Entre o esgar irônico e a piada lacradora: a participação de Flávio Bolsonaro no debate da TV Globo nessa última sexta-feira expôs a fenda aberta entre a comunicação verbal e a não-verbal. Contudo, mais intrigante do que o próprio déficit comunicacional do candidato é a capacidade da grande mídia de anestesiar o público e hipernormalizar a farsa, alçando ao centro da disputa uma figura que desmoronaria sem o amparo do ecossistema midiático composto pelos cortes das redes e o imparcialismo cênico do jornalismo corporativo. Para compreender essa anestesia coletiva e a mecânica por trás do espetáculo, convém recorrer ao neurologista Oliver Sacks e fazer um experimento imaginário sobre como a mente decodifica a mentira política: extrapolar as conclusões que Sacks chegou em um hospital neurológico e aplicá-las ao debate da Globo. 

Durante uma discussão sobre economia, no primeiro bloco do debate da TV Globo, especificamente quando tratavam do valor do salário-mínimo e de propostas relacionadas à tarifa zero no transporte público. Ao ironizar a gestão econômica do adversário, Flávio disparou: "Não adianta nada o salário-mínimo de R$ 1,6 mil se você dá com uma mão e tira com os nove dedos."

Em outro momento, durante o confronto sobre segurança pública (quando o presidente Lula cobrou explicações de Flávio Bolsonaro a respeito de sua atuação jurídica na defesa de um policial militar acusado de matar a tiros de fuzil uma menina de cinco anos), Flávio tentou se dirigir diretamente à mãe da vítima — cujo nome verdadeiro é Cristiane Gomes da Silva. Em vez de chamá-la pelo nome dela, o senador confundiu-se e dirigiu-se a ela chamando-a pelo nome da filha assassinada: “Ana Clara, quero falar com a senhora. Deixo minha solidariedade. Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filha de cinco anos de idade...”.

Esses dois episódios do debate da Globo na última sexta-feira não são momentos isolados ou meros atos falhos ou deslizes de um candidato sob pressão. Foram sintomas paralinguísticos (uma insistente desconexão que o senador revela entre comunicação verbal e não verbal, microexpressões, olhar etc.) e da incrível capacidade da mídia à hipernormalização: tornar personagens com auto déficit comunicacional como relevantes, verossímeis ou críveis, mesmo diante desses sintomas semióticos.

Em outras palavras: a capacidade de carregar nas costas um candidato que, deixado pelas próprias pernas, não chegaria aonde chegou: a um debate tido como “histórico” na “corrida eleitoral mais apertada da história”.

Como Flávio vestisse uma roupa com número errado

Tudo começa quando um outro episódio chamou a atenção desse humilde blogueiro: a convenção do PL, realizada no Mercado Pago Hall (Arena Pacaembu), em junho, em São Paulo, que lançou a candidatura à presidência do senador Flávio Bolsonaro.

Contou com a participação do presidente Javier Milei como o convidado internacional de maior destaque. Chamou a atenção a performance dos dois, lado a lado, de Flávio e Milei, no palco do evento.



Enquanto Milei marcou uma presença ostensivamente ideológica e combativa (como se sentisse à vontade no personagem), a performance de Flávio, segurando uma enorme tesoura cenográfica, era hesitante e acanhada. Como se vestisse uma roupa que não caísse bem, com um número errado.

Enquanto Milei dominava o espaço com expansividade, Flávio mantinha uma postura contida, ombros encolhidos, sorrisos assimétricos de canto de boca (o esgar irônico) e olhares de desconfiança/fuga. A necessidade de segurar um objeto cenográfico sem o domínio da atuação física fez com que o adereço parecesse um fardo, e não um símbolo de poder.

Naquele episódio, o senador revelou a desconexão semiótica que marca a sua persona: do ponto de vista da análise não-verbal, Flávio transmite o desconforto de quem veste um figurino errado. Querendo soar como um reformista radical (ao estilo do aliado argentino), seu corpo entregava a linguagem da polidez institucional e da cautela do sistema tradicional.

O debate da Globo apenas exponenciou esse déficit ou ruptura semiótica da sua persona política.

Certamente, o neurologista Oliver Sacks tem muita coisa para nos dizer sobre isso. Principalmente no capítulo 9 ("A Fala do Presidente") do livro O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu.



Descreve como foi a recepção do discurso televisivo do então presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan numa audiência formada por pacientes que sofriam dois tipos de disfunção cognitiva: afasia global (incapazes de compreender os significados das palavras em seu sentido literal, compensado em compreender apenas as pistas não verbais da comunicação) e agnosia tonal (inversamente, focado unicamente na comunicação verbal).

A observação de Sacks na enfermaria neurológica revela um paradoxo fascinante: as pessoas com disfunções cognitivas específicas eram imunes à demagogia política e à manipulação midiática, justamente por causa de suas "deficiências".

O discurso televisivo do ex-ator de Hollywood (reconhecido tanto como um ator canastrão nos seus tempos de estrelato quanto como um “grande comunicador” na carreira política) foi recebido pelos pacientes daquela enfermaria com um misto de risos, perplexidade e indignação: alguns pacientes eram convulsionados pelo riso, outros se sentiam ultrajados e outros tantos ficavam apreensivos.

Afasia e agnosia levaram a cada um dos pacientes a se superespecializar em um nível específico da linguagem, ajudando a revelar as desconexões e ausência de sentido do discurso presidencial.

Baseado nesse experimento descrito por Sacks, esse humilde blogueiro propõe um outro experimento, de natureza imaginária, extrapolando para o debate da Globo a mesma situação descrita pelo neurologista norte-americano.

Podemos desdobrar esse pequeno experimento da seguinte maneira: 

1. O Esgar Irônico e a Afasia: A Falso-Expressividade do Político

Para os pacientes afásicos do hospital de Sacks, a fala de um político experiente soar infantilizada ou "hilariantemente incapaz" decorria de uma dessincronização emotiva: o corpo comunicava artifício, enquanto o texto ensaiado prometia gravidade.

Quando um ator político assume um sorriso assimétrico (o esgar no canto da boca) ou mantém olhos semicerrados em momentos que exigem sobriedade — como ao tratar de mortes ou tragédias sociais —, instala-se o que a microexpressão facial que podemos chamar de incongruência emotiva:

  • Caso "Ana Cristina / Ana Clara": Ao tentar se defender ou defender a atuação policial diante da mãe de uma vítima atingida por projétil de fuzil, o ato falho de errar o nome da mãe ("senhora Ana Clara") combinado a um semblante misto de arrogância e enfado transmitiu a sensação de distanciamento cínico – aliás, uma percepção geral da incongruência entre o verbal e o não verbal do senador). Para um olhar afásico (focado unicamente no canal cinésico), a imagem revela uma incapacidade de sentir e encenar a compaixão; o corpo delata a ausência de empatia real.

  • A função da ironia facial: O semblante irônico crônico funciona como um escudo de dominância. No entanto, diante de pautas humanas graves, essa postura não-verbal é lida como "sociopatia do espetáculo" — o gesto trai a gravidade do tema.


2. A "Piada Lacradora" e a Agnosia Tonal: A Pobreza Lógica do Texto


Para os pacientes com agnosia tonal (como a paciente Emily D., descrita por Sacks), que dependem estritamente da estrutura gramatical, coerência e substância das proposições, o charme e a tentativa de ridicularizar o oponente desmoronam de imediato.

  • O ataque do "Nove Dedos": Ao recorrer à provocação irônica sobre a deficiência física do oponente em um debate sobre transporte, economia ou renda, o político troca o argumento programático pelo ataque ad hominem estilizado para gerar engajamento em redes sociais.
  • O diagnóstico sintático: Despida da claque, do tom de deboche e do apelo ao eleitorado de nicho, a frase soa vazia de proposição pública. Se analisada em uma transcrição literal — sem a sonoridade do palco ou o apelo à caricatura —, revela uma falha de formulação programática: a piada subsiste apenas como ruído estético. 

O resultado desse pequeno experimento imaginário pode ser sintetizado nessa tabela abaixo:

 


Convido o distinto leitor a acompanhar apenas o áudio, principalmente desse segundo episódio. Como a “piada lacradora” perde totalmente o sentido (torna-se non-sense) sem a claque, numa recepção concentrada no discurso verbal, programático.

De tudo isso, podemos tirar duas conclusões: 

(a) Saudáveis anestesiados

A contribuição de Oliver Sacks é nos lembrar que, quando a política se converte em performance de marketing televisivo, os receptores "saudáveis" tendem a ser anestesiados pela mistura de carisma superficial e bordões pré-fabricados. Apenas o exercício de decompor o texto do gesto — ou seja, adotar a lucidez "analítica" dos afásicos e agnósticos do hospital neurológico — permite enxergar a fratura na encenação do poder.

(b) Hipernomalização midiática

E como essa percepção da fratura da encenação é hipernormalizada pelo jornalismo corporativo através da:

  •      estetização do aburdo (o jornalismo de mercado transforma o grotesco em "meme" ou pauta de fact-checking pontual),
  •       falsa equivalência (A cobertura trata a postura hesitante, com esgar irônico e piadas lacradoras, como apenas um "estilo" entre outros no mercado eleitoral, escondendo a desconexão semiótica do ator político com a gravidade dos problemas reais) e
  •      perda da capacidade analítica - ao acostumar o público a consumir a política como um evento esportivo (com placares e pesquisas instantâneas), o jornalismo corporativo desativa tanto a intuição corporal (a sensibilidade dos afásicos para a insinceridade) quanto o rigor lógico (a exigência de coerência dos agnósicos).

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