quinta-feira, setembro 17, 2026

'Colony': a única arma para matar os zumbis do século XXI são as fake news


Em um cenário onde o subgênero de zumbis parecia criativamente esgotado, o diretor sul-coreano Yeon Sang-ho encontra um novo e assustador fôlego em Colony (2026) ao fundir o clássico tema local da vingança com as ansiedades da nossa era digital. Trocando o tradicional monstro acéfalo por uma horda interligada por fungos que espelha as redes sociais e o comportamento algorítmico moderno, o longa transforma a inteligência de enxame no próximo estágio do terror biológico. Mais do que uma carnificina urbana, o filme constrói uma alegoria trágica sobre a solidão e a falha na comunicação humana, culminando em uma sacada genial e irônica: a de que a única arma capaz de colapsar uma consciência coletiva imbatível é a inoculação de uma desinformação letal — uma verdadeira "fake news" biológica.

Com a abundância atual de filmes sobre zumbis, fica difícil encontrar uma nova abordagem para a fórmula: já tivemos zumbis rápidos, zumbis lentos, zumbis apaixonados.

Só no ano passado, vimos um zumbi chapado com um pênis enorme, em Extermínio: O Templo dos Ossos. Mas Yeon Sang-ho , diretor do frenético filme de zumbis da década passada, "Invasão Zumbi", tenta uma nova abordagem com seu mais recente trabalho, Colony (2026): E se os zumbis pudessem trocar informações entre si através de uma espécie de consciência coletiva? ​​E se eles pudessem aprender e evoluir?

A premissa é perfeita para todo tipo de carnificina acrobática, especialmente com Sang-ho, que criou um caos deliciosamente claustrofóbico de destruição urbana em Extermínio, pronto para ser explorado. Mas a premissa de uma mente coletiva zumbi baseada em mofo não é exatamente inovadora (olá, The Last of Us).

Mas Sang-ho junta-se a essa recorrência atual de produções, popularizada por obras como The Last of Us e The Girl with All the Gifts, com o tema de fungos que criam uma vasta rede de comunicações entre mortos-vivos, associando-o a um tema bem conhecido da produção audiovisual sul-coreana: o tema da vingança. Não apenas como um motor narrativo de ação, mas como um mecanismo de crítica estrutural aguda às falhas da sociedade e do sistema de justiça (como evidenciado na Trilogia da Vingança de Park Chan-wook ou na série A Lição).

Em Colony (2026), o diretor Yeon Sang-ho eleva essa tradição a uma escala apocalíptica. O cientista Seo Young-chul (Koo Kyo-hwan) orquestra um ataque bioterrorista como uma retaliação punitiva contra uma sociedade que ele julga estar doente e fundamentalmente em crise. Ele converte o luto pela perda de seu pai em uma vingança niilista global, forçando na humanidade uma "evolução" violenta (ele acha que os zumbis seriam o próximo estágio da evolução humana) que apaga a individualidade que ele culpa por seu sofrimento – uma consciência coletiva zumbi (uma inteligência de enxame, como formigas) criaria a transparência necessária para acabar com as mentiras e mal-entendidos de comunicação.



Na ficção recente, o fungo deixou de ser apenas decomposição para simbolizar sistemas, redes de inteligência paralela e conexões simbióticas. Isso desloca o zumbi da imagem de "monstro acéfalo" para a de um sistema de rede altamente adaptável, fundindo o horror biológico com ansiedades modernas sobre redes neurais artificiais e ecologia.

Mas, o filme utiliza a inteligência de enxame (swarm intelligence) dos infectados como uma alegoria direta à nossa relação com a internet, as redes sociais e os smartphones.

Os zumbis no filme compartilham dados sensoriais em tempo real através do micélio, permitindo que, se um deles aprende a contornar um obstáculo, toda a horda é instantaneamente atualizada.

Isso espelha o comportamento humano hiperconectado: a disseminação algorítmica de informações e a sincronização das reações coletivas na rede. Yeon Sang-ho traça um paralelo sombrio no qual a humanidade contemporânea já opera como uma horda reativa, onde a conexão ininterrupta produz homogeneidade de pensamento e conformidade cega, muitas vezes confundida com empatia.



Essa é exatamente essa a novidade que Colony acrescente à saga dos zumbis no cinema e audiovisual: os zumbis não são mais a horda antítese da civilização. Com essa inesperada consciência (ou inteligência) coletiva, os zumbis passam a espelhar as “machines learning” das engenharias das inteligências artificiais e a crição das bolhas algorítmicas das redes sociais.

O Filme

Durante uma prestigiosa conferência de biotecnologia no Edifício Dongwoo-ri, no centro de Seul, o cientista Seo Young-chul deflagra um ataque bioterrorista premeditado ao liberar uma cepa mutante de micélio zumbi. Antes que a infecção se espalhe pelas saídas de ar, ele injeta em si mesmo a única dose da vacina existente. As autoridades colocam o arranha-céu inteiro sob rígida quarentena, deixando um pequeno grupo de sobreviventes presos lá dentro.

Entre eles estão a professora de biotecnologia Kwon Se-jeong (Jun Ji-hyun), que acaba de perder o emprego, e o segurança do prédio Choi Hyun-seok (Ji Chang-wook), desesperado para proteger a vida de sua irmã, que é cadeirante.

Conforme os sobreviventes tentam escalar os andares rumo ao resgate no telhado, eles percebem que a infecção difere dos zumbis tradicionais. Através do micélio, os infectados compartilham dados em tempo real, evoluindo a cada confronto e adotando táticas predatórias em conjunto. A situação se agrava terrivelmente quando Se-jeong (Jun Ji-hyun) descobre que Young-chul, imune devido à vacina, consegue enxergar pelos olhos da horda, atuando como o nó de comando alfa e manipulando os zumbis para encurralar os sobreviventes.

No terceiro ato, Se-jeong percebe que a força dos zumbis (sua conectividade inquebrável) também é sua fraqueza. Ela veste um casaco impregnado de fundos retirados de um infectado morto, fazendo a horda reconhecê-la como "uma de nós".



Quando Young-chul ordena o ataque maciço, ela joga o casaco sobre um dos próprios zumbis, forçando o enxame a atacar aquilo que identifica como sendo parte de si. Isso desencadeia um "moinho de formigas" (ant mill), uma espiral mortal onde a rede inteira entra num feedback loop irreversível, andando em círculos circulares suicidas até que o excesso de dados causa um colapso em seu sistema neurológico coletivo.

A Ironia da Inoculação de "Fake News"

Uma das grandes sacadas estratégicas do filme ocorre quando os humanos usam o "perfeito" sistema de comunicação zumbi contra a própria horda.

Sabendo que o enxame aprende e obedece via comandos compartilhados, a professora de biotecnologia Kwon Se-jeong introduz um sinal falso no sistema. Essa "desinformação biológica" causa uma falha na lógica do micélio, forçando os infectados a atacarem a si mesmos por não conseguirem processar o paradoxo. A ironia central é palpável: o ponto fraco de uma rede coletiva imbatível é a desinformação.



Assim como "fake news" envenenam e colapsam o discurso político e as redes sociais humanas através de loops de ênfase algorítmica, o sinal falso sobrecarrega os zumbis até a paralisação.

Aqui começa essa espécie e espelhamento que o filme faz entre a a consciência coletiva zumbi e a Internet. Um espalhamento através da metáfora dos fungos resultantes da engenharia de uma Bio Tech.

O que traz uma ironia que, também, espelha o próprio destino da Internet.

A motivação central do bioterrorista Young-chul nasce de uma tragédia íntima: o suicídio de seu pai, causado pela ineficiência e pelas ambiguidades da comunicação humana.

Para o vilão, a linguagem verbal e emocional da humanidade é falha, cheia de ruídos, mentiras e mal-entendidos que isolam as pessoas em sua própria solidão. Ele enxerga a consciência coletiva zumbi não como uma maldição, mas como a cura definitiva. Através da rede criado pelos fungos, a comunicação torna-se perfeitamente transparente — não há espaço para mentir, se esconder ou ser mal interpretado.

A ironia trágica do cientista é tentar consertar o isolamento humano erradicando a própria humanidade.

Assim como a ironia do destino da utopia da World Wide Web do início dos anos 1990: o ideal da Internet ser uma biblioteca universal disponível gratuitamente para criar uma verdadeira “inteligência coletiva” (Apud Pierre Levy), acabou no século XXI num ecossistema informacional tóxico. Contaminado pelas Fake News e Deep Fakes.


 

Ficha Técnica


Título: Colony

Diretor: Yeon Sang-ho

Roteiro: Choi Kyu-seok, Yeon Sang-ho

Elenco: Jun Ji-hyun, Koo Kyo-hwan, Ji Chang-wook

Produção: Smilegate, Wow Point

Distribuição: Paris Filmes

Ano: 2026

País:  Coréia do Sul

 

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