sábado, julho 22, 2017

Com Neuralink, Elon Musk quer privatizar a mente humana com interface bio-eletrônica


Quem assistiu ao filme “Matrix” deve lembrar de como o protagonista Neo (Keanu Reeves) aprendia lutas marciais pelo simples download de programas em sua mente. Pois essa realidade sci-fi está próxima, pelo menos para o bilionário tecnológico sul-africano Elon Musk. Depois de anunciar o envio de colonos a Marte com sua empresa SpaceX, agora através da sua nova empresa, a Neuralink, o empresário pretende fazer um “upgrade” na mente humana: criar a interface bio-eletrônica definitiva entre mente e a “nuvem” de inteligência artificial, criando o que chama de “telepatia consensual”. Por que? Para Musk, as máquinas nos ameaçarão no futuro, tornando a humanidade irrelevante. Por isso, devemos impulsionar nossas habilidades cognitivas, nos livrando da linguagem (signos, palavras, símbolos etc.) ao nos conectar diretamente nas “nuvens de bites”. Musk fez esse anúncio na “World Government Summit” desse ano em Dubai, para atentos “Global Players”. Para quê essa chicana pseudocientífica? Depois de querer privatizar Marte, agora Musk pretende privatizar a mente e a linguagem, atraindo a atenção de gigantes como Facebook, já interessada na Neuralink.

Encontros como o World Government Summit realizado em fevereiro desse ano em Dubai, Emirados Árabes, são oportunidades bem didáticas que revelam a quantas anda as supostas utopias que bilionários tecnológicos, líderes de governos, gestores de bancos internacionais, prêmios Nobel e CEOs de transnacionais concebem para o mundo no futuro.

Com a primeira edição em 2013, também em Dubai, o evento conta com um site no qual vemos as indefectíveis fotos de participantes com fisionomias tão idealistas e confiantes que parecem aquelas fotos corporativas tiradas de algum stock photos da Internet. E folders de projetos educacionais para o terceiro Mundo (chamam de “Educação Positiva”) com aquelas tradicionais imagens de crianças “étnicas” sorridentes, satisfeitas e que parecem sempre agradecidas com os esforços do Primeiro Mundo em ajudá-las – clique aqui.

Como não poderia deixar de ser, o bilionário tecnológico Elon Musk (dono de empresas como Tesla Motors, Solar City e SpaceX, revolucionando a tecnologia de veículos elétricos, energia solar e construção de foguetes e prometendo enviar turistas para Marte) participou do evento com mais um projeto com ares de epifania de ficção científica: planos para desenvolver interface cérebro-máquina para impulsionar a habilidade cognitiva humana.


Elon Musk no World Government Summit nesse ano em Dubai

Um plano realizado por mais uma empresa ligada a Musk: a Neuralink, empresa de pesquisa médica da Califórnia.

As máquinas nos ameaçam


E por que? Para Musk, os seres humanos estão em perigo – em breve poderão ser ultrapassados pela inteligência artificial (IA), sob o risco de se tornarem irrelevantes. Escravizados pelas máquinas como no filme Matrix?

O appeal pelo imaginário sci-fi é recorrente em Elon Musk (em outra oportunidade Musk já afirmara que havia grande possibilidade de vivermos prisioneiros em uma gigantesca simulação computacional – clique aqui) – o anúncio do projeto Neuralink de criar uma simbiose homem-máquina coincidiu com o dia do lançamento do filme Ghost in Shell (no Brasil, A Vigilante do Amanhã), baseado num mangá e anime japonês no qual o cérebro humano se funde facilmente a computadores.

Neuralink e a Matrix: interface bio-eletrônica é libertação ou nova dominação?

Para Musk, se não podemos vencer as máquinas, é melhor nos unirmos a elas. Para ele “as máquinas se comunicam em um trilhão de bits por segundo, enquanto os seres humanos se comunicam, principalmente ao digitar em um smartphone, a imitados 10 bits por segundo. Uma interface de banda larga do cérebro com os computadores vai ser algo que ajudará a alcançar uma simbiose entre o ser humano e inteligência artificial, resolvendo problemas de controle e utilização”.

Musk acredita que há uma limitação humana de natureza linguística: "Há um monte de conceitos em sua cabeça que então o seu cérebro precisa tentar comprimir nessa incrível baixa taxa de dados que nós chamamos de discurso ou escrita. Se você tem duas interfaces cerebrais, você poderia realmente realizar uma comunicação conceitual descompactada direta com outra pessoa." – clique aqui.

Telepatia consensual


Ele chama isso de “telepatia consensual”: uma comunicação direta entre humanos, sem a necessidade de signos – palavras, símbolos, imagens etc. O pensamento na sua forma pura, a informação.

Por isso, seria urgente a mente humana evoluir para ser capaz de acessar rapidamente as informações e bater a inteligência artificial.

O objetivo principal da Neuralink é transformar a inteligência artificial em nuvem numa extensão do cérebro humano, por meio de implantes de pequenos elétrodos no cérebro que poderiam fazer o download dos nossos pensamentos. “Faremos uma fusão mais próxima entre a inteligência biológica e a inteligência artificial. Trata-se de impulsionar a velocidade de conexão entre o cérebro e a versão digital de nós mesmos”, afirmou confiante para o público da World Government Summit em Dubai.

Discurso de Musk é sempre emergencial: a colonização de Marte através dos foguetes da sua SpaceX é uma questão de sobrevivência diante da possibilidade da catástrofe ambiental e guerra nuclear. E agora a Neuralink como arma de sobrevivência diante da ameaça da Inteligência Artificial.


Muitos qualificam o jovem empreendedor Elon Musk como alguma coisa entre a fraude e máquina de gastar dinheiro, embolsando muitas verbas públicas enquanto faz intrincadas manobras societárias com suas diversas empresas. Uma espécie de Eike Batista sul-africano clique aqui.

Despolitização e retrocesso científico


Mas ele conhece as tênues fronteiras entre o mundo das finanças e o midiático. Musk sabe que seu discurso em eventos como esse em Dubai enche os olhos do público e das grandes empresas de tecnologias de informação como Google e Facebook – esta, aliás, já se interessou pelo projeto da Neuralink.

Em primeiro lugar o discurso de Musk despolitiza a questão tecnológica: mas afinal, quem é o dono do hardware que mantém essa inteligência artificial em nuvem com a qual a mente humana fará interface? Conectar a intimidade das nossas mentes a nuvens de bites controladas por interesses corporativos?

E segundo, opera uma simplificação (para não dizer retrocesso científico) que vai na contramão de todas os avanços filosóficos e científicos do século XX – fenomenologia, linguística, sociolinguística, psicolinguística, construtivismo e semiótica.

Claro que tudo isso é escudado como um álibi em supostos avanços médicos no campo da neurologia: benefícios a pacientes que tiveram lesão cerebral por causa de tumores, derrames ou outras enfermidades. Mas, como sempre, os verdadeiros interesses sempre estão em outra cena.


Rebaixamento do conceito de “inteligência”


Há muito tempo as pesquisas em IA abandonaram o projeto de máquinas e computadores tentarem emular a inteligência humana. Porque simplesmente não conseguiram digitalizar as complexas operações linguísticas humanas baseadas em paradoxos, contradições e oposições que linhas de programação algorítmicas não conseguem simular.

A esses tempos devemos os mundos distópicos no cinema nos quais robôs, autômatos, replicantes ou computadores se voltam contra seus criadores como em Geração Proteus (Demon Seed, 1977), Blade Runner (1982) até chegar em Matrix  (1999).

No século XXI a noção de “inteligência” para a IA tornou-se mais flexível: algoritmos e aplicativos rebaixam o conceito de inteligência para nos fazer acreditar que aplicativos como Waze ou Google Maps são formas de inteligência reais.

Cientista computacional Jaron lanier chama isso de “religião da auto-abdicação humana”, na qual computadores se humanizam, enquanto os humanos se tornam “processadores de informação”.

Fica claro no discurso de Musk que inteligência é reduzida à velocidade de processamento de informações, restrita pela linguagem humana (os signos). Por isso, o suposto temor do empresário sul-africano das máquinas subjugarem a humanidade não passa de uma paródia que esconde a verdadeira dominação – a das gigantescas empresas de tecnologias da informação que controlariam não apenas o hardware mas o próprio tráfego das informações nessa “telepatia consensual”.

Poderíamos até aprender inglês ou alguma luta marcial (como Neo no filme Matrix) num simples comando de download para o nosso cérebro. Porém, rebaixaríamos o conceito de “inteligência” a um “download” – velocidade de processamento.

E para quê rebaixar o conceito de inteligência à velocidade, processamento e performance? 

(a) alcançar o sonho mercadológico de toda empresa de fazer o consumidor se identificar com seu produto. Até aqui a Publicidade vem conseguido isso com firulas de retórica e armadilhas psíquicas e subliminares. Mas Musk propõe a a solução final: a identificação íntima através da interface bio-eletrônica.

(b) Nova e revolucionária forma de controle e engenharia social no qual os endereços IP e dados de conexão se convertem na própria mente do usuário.


O delírio semiótico de Elon Musk


Mas igualmente problemática (mas politicamente reveladora) é a concepção de que a linguagem humana é falha porque tenta comprimir a “incrível taxa de dados” do pensamento humano, nos deixando limitados e vulneráveis às máquinas.

Para a delirante semiótica de Musk, os signos da linguagem humana seriam como invólucros aonde são socados e comprimidos nossos pensamentos – muita coisa acabaria ficando de fora, tornando-nos lentos e incompletos. Ao contrário, as máquinas seriam livres, no seu fluxo algorítmico.

 Para um público leigo (ou para aqueles sedentos por álibis para os negócios como no evento de Dubai) pode parecer um discurso lógico, mas cientificamente non sense. Desde a velha linguística de Ferdinand Saussure, a linguagem não é mais vista assim como algo estático – a linguagem é dinâmica através da dialética Língua (a estrutura)/Fala (atualizações dos significados por gírias, jargões, idioletos, idiomas ou dialetos).

Além disso, a visão do signo como uma caixa vazia na qual são socados significados (“pensamentos”) é irracional – o pensamento em si já é linguagem. Em outras palavras: o pensamento já é a própria “caixa” do signo. O signo é uma construção coletiva simultaneamente de falas individuais e coletivas – daí a dimensão “sócio” ou “psico” da linguística. Para não dizer, a dimensão política da linguagem.


Essa “chicana” pseudocientífica de Elon Musk é politicamente reveladora e, por isso, compreende-se porque esse jovem bilionário tecnológico está em um evento com tantos “Global Players” dos negócios internacionais – assim como Musk pretende privatizar Marte colocando no planeta vermelho turistas e colonos a preços módicos, ele agora também quer privatizar a mente e a linguagem.

De construção coletiva, as “caixas” públicas dos signos seriam substituídas por “caixas” linguísticas fornecidas pelos grandes proprietários das “nuvens de inteligência” como Google e Facebook – repito, desde já interessada nos projetos Neuralink.

Se a construção da linguagem é consensual, o que Musk nos oferece agora é o álibi da “telepatia consensual” para esconder o novo “consenso” que doravante será imposto pelas gigantes empresas tecnológicas.

Por isso, Elon Musk é sempre uma promessa de frissons nas plateias de grandes encontros e jantares de negócios pelo mundo afora. O jovem empresário sul-africano tornou-se o garoto-propaganda das políticas neoliberais que se espalham a fórceps por todo o planeta.

Musk consegue dourar a pílula com muita epifania de ficção científica e senso de oportunismo.

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