domingo, agosto 02, 2015

Amor e paradoxos quânticos no filme "Em Algum Lugar do Passado"

Por que um filme tão odiado pela crítica especializada na sua época como “Em Algum Lugar do Passado” (Somewhere in Time, 1980) em pouco tempo tornou-se um novo clássico e um fenômeno cult? Diferente de outros filmes sobre viagem no tempo com forte ênfase social, “Em Algum Lugar do Passado” é uma tragédia amorosa, melodramática sob a trilha onipresente de Rachmaninoff. Porém, há algo mais pulsando por trás de camadas e camadas de romantismo hollywoodiano: o primeiro filme a aproximar o tema do amor aos paradoxos quânticos do tempo, assim como hoje fazem filmes como “Interestelar” de Nolan ou “Amantes Eternos” de Jarmusch.

Massacrado pela crítica e amado pelo público, o filme Em algum Lugar no Passado é um desses fenômenos cult: produções que na época foram mal vistas pela crítica especializada, depois de uma década tornam-se novos clássicos. Exemplos parecidos não faltam: Ghost, Curtindo A Vida Adoidado, A Vingança dos Nerds etc.

Era um filme sobre amor e viagem no tempo, mas sem tornar-se uma ficção científica. Ao contrário de A Máquina do Tempo (The Time Machine, 1960) ou Um Século em 43 Minutos (Time After Time, 1979), produções com abordagens mais sociais, Em Algum Lugar do Passado é uma tragédia amorosa, uma produção de época com toda pompa e circunstância. Um filme bem conservador, que abre uma década de forte acento de conservadorismo moral e político (era Thatcher-Reagan) marcado pela AIDS e o retorno aos valores tradicionais. O auge dessa década foi o filme Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987) – a traição pode ser punida pela ameaça de uma solteirona enlouquecida.


Mas se Em Algum Lugar do Passado fosse apenas isso cairia facilmente no esquecimento. Por que em pouco tempo o filme tornou-se um novo clássico? Para além da onipresente música “Rapsódia sobre um Tema de Paganini” de Rachmaninoff (em nove de cada dez restaurantes da época era possível, a qualquer momento, ouvir essa música) e o drama de um amor impossível com direito a um final estilo Ghost, o filme apresenta curiosas ambiguidades e paradoxos sobre a viagem no tempo.


Além disso, é um dos poucos filmes que aborda o tema da viagem no tempo sem o recurso de máquinas ou tecnologias avançadas – tudo que temos é a auto-hipnose e a caixa preta da mente. O que tornou ainda mais ambígua a experiência no tempo do protagonista.

O Filme


A narrativa inicia em 1972 acompanhando a estreia de uma peça do jovem dramaturgo Richard Collier (Christopher Reeve) na pequena Millfield. Ele é abordado por uma mulher idosa e misteriosa que aperta em suas mãos um antigo relógio de bolsa e implora: “volte para mim!”.

 Richard passa então a ficar obcecado em descobrir a identidade daquela mulher, até descobrir que era uma famosa atriz do início do século XX chamada Elise McKenna (Jane Seymour).

Hospedado no clássico Grand Hotel, Richard descobre uma antiga foto da atriz exposta no salão histórico e que ali esteve apresentando uma peça teatral em 1912, o que faz aumentar ainda mais a paixão e obsessão. Mas a maior surpresa foi descobrir que aquele relógio que possuía na verdade era dela.

Intrigado, Richard começa a empreender uma pesquisa sobre as reais possibilidades de se fazer uma viagem no tempo, até conhecer um professor de Filosofia que lhe passa um método simples, baseado em auto-hipnose: tudo que Richard precisa fazer é se isolar em um quarto e remover todos os objetos modernos que lembrem o presente. Vestido com trajes de época e deitado em uma cama, Richard é transportado para aquele momento da apresentação da jovem e radiante Elise, 60 anos atrás no tempo.  


A viagem no tempo através da mente abre a primeira grande discussão para os aficionados do filme: será que houve de fato um transporte real para o passado ou tudo não passou de um sonho? Ou, de fato, houve um deslocamento no tempo, mas através de uma auto-hipnose de regressão a vidas passadas.

Essa hipótese teosófica é ainda corroborada com o episódio da moeda de 1972 que Richard acha em seu bolso em 1912, quebrando abruptamente o transe temporal fazendo-o retornar involuntariamente ao presente, abandonando a mulher amada. A consciência da moeda lembra as técnicas de sonho lúcido (indução de metalinguagem no próprio sonho). Porém, aqui a meta-consciência quebrou o “encanto” ou a crença que de fato está em 1912.

O paradoxo do relógio


A história de Em Algum Lugar do Passado parece ser auto-consistente, sem o chamado “paradoxo do avô” das viagens no tempo – Richard apenas cumpre a predestinação. Todas as informações que descobriu em 1972 sobre o passado, cumpre em 1912: hospeda-se no mesmo número de quarto, a mesma assinatura no livro de hóspedes do hotel e... devolve o relógio para Elise que voltará a entregar a Richard 70 anos depois.

Essa é a questão que assombra os fãs do filme: onde foi fabricado o relógio? Se o leitor considerar a linha do tempo do relógio, irá formar um circuito fechado muito parecido com um bambolê – Elise teria o “primeiro” relógio em 1912, e em seguida entregaria para Richard em 1972, de modo que poderia dar-lhe de volta em 1912. O relógio existiria sem nunca ter sido criado. Estaríamos diante daquilo que em Física chama-se CTC – Closed Timelike Curve – linha de tempo fechada.

O relógio viaja através de uma CTC e, portanto, carece de qualquer início ou final. Assim parece ter surgido do nada, criatio ex nihilo. A melhor imagem para ilustrar esse conceito tão abstrato são as figuras geométricas paradoxais como a fita de Möbius (que não possui uma lado de dentro e de fora como uma fita normal) ou as imagens recursivas como as escadas ascendentes e descendentes de MC Escher (veja figura abaixo) onde não conseguimos afirmar se os monges estão subindo ou descendo as escadarias do mosteiro.


Por isso, Em Algum Lugar do Passado talvez seja o primeiro filme a fazer uma abordagem, por assim dizer, quântica do amor – o relógio foi o objeto que uniu pessoas tão distantes no tempo. O relógio parece ter sido criado por pura magia – ou pelo amor?

O "nada" quântico

Pode-se obter algo do nada? As leis da mecânica quântica permitem fazer uma partícula (e sua anti-partícula correspondente) a partir do “nada” (ou o que os cientistas poderiam chamar de “vácuo”). A criação de um elétron (e a sua anti-partícula o pósitron) seria um exemplo. Mas aplicar esse “entrelaçamento quântico” da microfísica para um mundo macro onde relógios de bolso poderiam simplesmente aparecer do nada é muito improvável.

Filmes recentes como Interestelar (Interstellar, 2014) de Nolan ou Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013) de Jarmuch são exemplos dessa aproximação do amor com a mecânica quântica – assim como partículas distantes interagem criando padrões como se estivessem conectadas, pessoas distantes que se amam adquirem alguns desses recursos e reagem da mesma forma, ao mesmo tempo para as mesmas coisas.


Um amor eterno que, assim como o relógio de bolso, contraria a segunda lei da Termodinâmica: a Entropia – o Tempo é uma seta que aponta somente para o futuro, logo tudo se deteriora e se decompõe e que, eventualmente, tudo deve morrer. Vamos dizer que de alguma forma o relógio possui uma auto-existência: certamente a ação de 60 anos desgastará o relógio (riscos, batidas, oxidação etc.). O relógio de 1972 retorna para 1912 novinho em folha – deve haver alguma forma de energia que obtenha a reparação do relógio, fechando a curvatura do tempo e abolindo a lei da entropia.

Esse talvez sejam os motivos secretos que ajudaram a tornar Em Algum Lugar no Passado um cult e um novo clássico dentro da história do cinema. Por trás das camadas e camadas de romantismo hollywoodiano, está lá pulsando uma antiga mitologia gnóstica que a mecânica quântica parece ter atualizado: a diferença entre criação e emanação – todo o cosmos jamais foi criado. Simples foi “emanado” em um Eterno Presente.

Talvez aí esteja o espírito da contestação atual ao clássico modelo do Big Bang feita por muitos físicos atuais como Saurya Das (Universidade de Lethbridge, Canadá) que afirma que a matemática e a teoria do Big Bang se anulariam por conta dos infinitos – sobre isso clique aqui.

O Universo sempre existiu e qualquer questão sobre início ou fim é meramente religiosa ou escatológica. E o cinema acrescentaria: assim como o Universo, o amor também é eterno.



Ficha Técnica


Título: Em Algum Lugar no Passado (Somewhere in Time)
Diretor: Jeannot Szwarc
Roteiro: Richard Matheson
Elenco: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer
Produção: Rastar Pictures
Distribuição: Universal Home Video
Ano: 1980
País: EUA

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