segunda-feira, novembro 26, 2012

Uma semiótica da astrologia de massas

Acima: Roland Barthes. Abaixo: Theodor Adorno
Para que serve a astrologia de massas? Na década de 1950 o alemão Theodor Adorno (pelo olhar sócio-psicanalítico) e o francês Roland Barthes (pelo ponto de vista da semiologia) empreenderam pesquisas sobre as colunas de astrologia, respectivamente do Los Angeles Time e do semanário Elle. Ambos chegaram à mesma reposta: a astrologia de massas serve para exorcizar o real. A astrologia deixa de ser uma abertura para o Oculto, o Onírico e o Imaginário para se transformar num espelho realista e disciplinador da própria rotina diária dos leitores. Será que essa resposta pode ser aplicada à astrologia de massas atual, mais de cinquenta anos depois dessas análises?


A astrologia, pelo menos como é apresentada nos veículos de comunicação diários, não é uma abertura para um mundo onírico, um contato do homem ordinário com o Oculto ou uma previsão de eventos futuros. Pelo contrário, é uma descrição realista de um meio social preciso dos leitores. Não é uma abertura para um sonho, mas um espelho motivacional da instituição da realidade.

Essa é a conclusão que dois autores chegaram na década de 1950 ao se debruçarem sobre o crescente fenômeno das chamadas “previsões astrológicas” nas mídias de massa no período pós-guerra: Theodor Adorno nas suas análises sócio-psicanalíticas sobre a coluna do horóscopo do Los Angeles Time e de Roland Barthes na análise semiológica do horóscopo no semanário francês Elle.


Primeiro, Adorno encontrou nos textos dos horóscopos uma “abordagem bifásica” quem em psicologia refere-se ao comportamento neurótico oscilante entre alguém que age em relação a si mesmo como criança travessa e, em outras situações, como disciplinador severo. Adorno localizou o mecanismo de criação de dependência quando as previsões criam a imagem do leitor como alguém frustrado e, ao mesmo tempo, possível de obter sucesso. Paradoxalmente, a afirmação do sujeito só ocorreria mediante a negação diante das instituições sociais – trabalho, família e relacionamentos. Aos leitores recomenda-se sempre obediência, bom-senso e moderação diante da figura do chefe e hierarquia do trabalho (veja ADORNO, Theodor, As Estrelas Descem à Terra – a coluna astrológica do Los Angeles Time, São Paulo: Editora da Unesp, 2008).

Para Adorno, a astrologia de massas seria uma “supertição secundária”, pois ao inserir o misticismo da astrologia em uma sociedade de consumo altamente tecnologizada e secular, o Oculto surge institucionalizado e amplamente socializado. O Oculto perde sua tensão com a racionalidade e torna-se um discurso motivacional e neurótico onde o indivíduo mantém a esperança de sucesso negando a si mesmo.

Roland Barthes vai chegar a conclusões parecidas através do caminho da semiologia. Ao analisar o discurso do horóscopo da revista Elle, Barthes chega a uma constatação paradoxal: na verdade as supostas “previsões” astrológicas resumem-se a descrições: os astros mais prescrevem do que predizem, isto é, “raramente se arrisca o futuro, e a predição é sempre neutralizada pelo equilíbrio dos possíveis: se houver fracassos serão pouco importantes, se houver rostos sombrios, o seu bom humor alegrá-los-á; as relações maçantes serão úteis etc.” (BARTHES, Roland, Mitologias. R. de Janeiro: Difel, 1980, p. 108).

Para Barthes, os astros parecem refletir como um espelho o ritmo do nosso dia-a-dia de trabalho: os astros nunca postulam uma destruição da ordem. Parecem influir moderadamente , respeitando a ordem social, os horários patronais e os diversos departamentos da rotina: “sorte”, “amor”, “dinheiro”, “viagem” etc. São rubricas sociais que coincidem com as “casas” dos mapas astrais. Assim como Adorno, Barthes concorda que o Oculto, o Imaginário e o Onírico presentes na Astrologia são institucionalizados como discursos motivacionais que se por um lado promete o livre-arbítrio, a vontade individual e o sucesso, por outro prescreve a rígida observância à ordem diária através do bom-senso e moderação.

O "mundo" e o "pessoal" na astrologia


Os céus refletem a ordem terrestre
Cinquenta anos depois dessas análises de Adorno e Barthes, suas conclusões não só ainda se sustentam como a função simultaneamente disciplinadora e motivacional da astrologia de massas acabou se sofisticando dentro do abrangente imaginário da “New Age” do século XXI. Acabou se sofisticando num discurso onde as grandes transformações sociais e naturais (muitas vezes potencialmente catastróficas) convivem com a intacta manutenção da rotina.

Em primeiro lugar o grupo das rubricas “Sexo”, “Amor”, “Viagens”, “Trabalho” e “Saúde” é  separado da rubrica “previsões para esse ano”.

Ao tratar das previsões para o “mundo” ou o “coletivo” percebe-se um cunho emergencial e até catastrófico com “grandes mudanças”, “conturbações para o mundo”, “comoções”, “guerras” e “crises” potenciais. Aqui temos a astrologia assumindo a natureza premonitória, alinhamento de astros, conjunções estelares e de planetas que podem influir em grandes transformações e “mudanças de mentalidade”.

Por outro lado, quando entramos nas “previsões” diárias, em cada rubrica da nossa rotina diária percebe-se o tom descritivo tal qual assinalou Barthes: de repente os astros se esquecem das grandes crises prometidas no âmbito coletivo e, no dia-a-dia, passam a ter influência moderada, respeitando a rotina e até os períodos do dia – por exemplo, “não assine qualquer contrato no período da manhã”, etc.

Parece que a Natureza se historiciza e a Sociedade naturaliza-se: inversamente, a Natureza assume as emergências das transformações sociais e a sociedade adquire-se o compasso cíclico semelhante às estações do ano. Na natureza e no coletivo esperam-se transformações, caos e crise; ao contrário, no dia-a-dia pessoal imperam rotina e ordem.

O diário e o semanal


Lendo os textos astrológicos diários e sobre as supostas previsões semanais, percebe-se uma rígida observância dos astros ao nosso horror pelas segundas-feiras e a resolução de conflitos e dilemas com a aproximação do final de semana. A semana em geral inicia com alguma tensão entre um astro regente com alguma coisa que transita próximo a ele ou entrada de um planeta em determinada “casa” (essa divisão das “casas” no mapa celeste parece refletir as “rubricas” arbitrárias da rotina terrestre como “viagem”, “sexo”, “trabalho” etc.) que, ao longo da semana, vai diluindo com a proximidade do final de semana até ser esquecido para o sábado e domingo  se encherem de alegria e potencialidades. Isso até a próxima segunda-feira onde os céus tornam-se novamente nebulosos como que refletissem a nossa carranca por ter que voltar à rotina.

As casas dos mapas astrais refletem
a ordem cotidiana e as rubricas das
colunas astrológicas
Portanto, se encontramos uma oposição entre o coletivo/pessoal, podemos também observar uma polaridade entre diário/semanal: no diário impera o bom-senso e o meio termo (moderação, pés no chão, condenação ao excesso de otimismo, stress etc.) e no semanal um estranho padrão astronômico onde a semana abre e fecha quase sempre com eventos celestes – uma tensão que se resolve com algum “eclipse benéfico”.

No diário a prescrição, no semanal a previsão. De qualquer forma, o que dominará serão as prescrições disciplinares já que as previsões parecem ter uma função de “moldura” para abrir e fechar períodos.

Para que serve a astrologia de massas?


No todo, confirmam-se as análises de Adorno e Barthes sobre a função da astrologia de massas na sociedade: exorcizar a realidade ao nomear ou racionalizar nosso mal estar diante da rotina cinzenta, a arbitrariedade do chefe, os males entendidos nos relacionamentos. Barthes dizia que a astrologia é a “literatura do pequeno-burguês”.

Estudando o discurso da astrologia de massas, os elementos e movimentos celestes parecerem ser sempre moralistas, orientados pela virtude: os “eclipses benéficos” parecem sempre premiar o bom humor, o controle de si próprio, a paciência. Seriam atitudes convenientes diante dos discretos presságios que são colocados no meio das massivas prescrições nos textos astrológicos.

Novamente, Barthes afirma que a astrologia de massas é a “escola da força de vontade” ao resolver o paradoxo entre o determinismo das forças celestes e o livre arbítrio do indivíduo: tudo seria resolvido por meio da liberdade de caráter e força de vontade.

Mas tudo isso dentro da “abordagem bifásica” descrita por Adorno onde, paradoxalmente, a vontade é destacada na medida em que respeite a ordem e a disciplina do estatuto social. 

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