domingo, fevereiro 15, 2015

Por que "Birdman" é o favorito ao Oscar?

Não é por acaso que “Birdman” é o grande favorito ao Oscar. O filme promete discussões profundas sobre a importância de se sentir amado nesse mundo. Mas tudo o que o diretor mexicano Alejandro Iñárritu nos entrega é uma agradecida homenagem à indústria de entretenimento dos EUA que lhe abriu as portas: um filme supersaturado de metalinguagem e colagens de auto-referências que acabou resultando em uma produção complacente, auto-indulgente e subserviente. Iñarritu faz homenagem a uma Broadway que não mais existe, reforçando a mitologia que ainda dá algum verniz “artístico” a Hollywood: atores autopiedosos, divas narcisistas que se entregam ao “Método” e críticos implacáveis que transformam artistas em “gênios incompreendidos”. Com isso, o diretor mexicano parece ter um grande futuro na noite do Oscar. 

Alejandro Gonzáles Iñárritu é um diretor mexicano que já conta com uma sólida e bem sucedida carreira em Hollywood (21 Gramas, Babel, Biutiful). Por isso, é chegado o momento de Iñárritu prestar uma homenagem à indústria do entretenimento que lhe abriu às portas para aquele país. E como sempre, a melhor forma é através da metalinguagem, alusões e paráfrases.

Birdman é um filme supersaturado que obriga o espectador a caminhar por um desfile interminável de colagens e referencias que acaba se tornando tão claustrofóbico quanto os corredores dos bastidores de uma peça da Broadway onde a maior parte da trama acontece. O filme engata longos planos-sequências que simulam um filme totalmente sem montagem, mas com sutis cortes que separam os atos.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Dez filmes arruinados pelas novas tecnologias


Com as novas tecnologias cada vez mais intrusivas e onipresentes, o Cinema vive um paradoxo: os filmes não têm o menor problema para fazer o público acreditar em fantasmas, gremlins, maníacos sobrenaturais, feiticeiros, vampiros, poltergeists ou extraterrestres. Mas está cada vez mais difícil fazê-los aceitarem que o herói de um filme não esteja munido com a tecnologia necessária (smartphones, Ipads, GPS etc.) para frustrar as intenções do Mal. O avanço tecnológico está criando um impasse entre roteiristas e diretores: muitos plots de filmes do passado, hoje seriam impossíveis de serem realizados como “Esqueceram de Mim”, “Psicose” etc. Internet e dispositivos móveis estão cada vez mais inviabilizando os arquétipos clássicos do cinema que tornavam dramática a jornada do herói. Por isso, os roteiristas ou se voltam para filmes ambientados em décadas passadas ou fazem de tudo para anular esses dispositivos – perda de sinal etc., o que pode tornar o roteiro inverossímil. Vamos analisar uma lista de dez filmes cujos plots hoje seriam impossíveis de serem filmados.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Tecnologias de comunicação escondem o isolamento no filme "Bird People"


No meio do caminho entre o realismo documental e o sobrenatural, o filme “Bird People” (2014) do francês Pascale Ferran nos mostra os dilemas dos momentos da vida em que precisamos assumir riscos e dar saltos no vazio. Pessoas que transitam em espaços impessoais como aeroportos e hotéis e que tentam mascarar o isolamento por meio de tecnologias de comunicação como dispositivos móveis e computadores. Ferran nos mostra a contradição de como pessoas cercadas de interfaces de comunicação podem, ao mesmo tempo, sofrerem do mal da incomunicabilidade. Escondem o isolamento, mas sofrem os sintomas da claustrofobia e alienação. E sentem a necessidade de darem um salto nas suas vidas, assim como os pássaros e aviões.

"Garota Exemplar" e a tragédia como delineadora da vida, por Sonielson de Sousa

Grande favorito ao Oscar (provavelmente nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator/Atriz, Melhor Roteiro e Melhor Diretor, dentre outros) “Garota Exemplar” (Gone Girl, 2014) é um suspense de aproximadamente duas horas e meia que tem a habilidade de mostrar a tênue linha entre a normalidade e a face nebulosa das pessoas - a “Sombra” de que fala Jung.

"O Homem é o lobo do homem, em guerra de todos contra todos" (Thomas Hobbes)

Baseado no livro homônimo escrito por Gillian Flynn, o filme trata da estória de Amy Dunne (Rosamund Pike), que na infância é tratada pelos pais e por todos à sua volta com extrema excepcionalidade e que, depois de casada, é obrigada a ter uma vida mediana e a morar no interior para acompanhar o marido. Dunne desaparece no dia do seu quinto aniversário de casamento, deixando o esposo Nick (Ben Affleck) em apuros. Neste ínterim, Nick torna-se o principal suspeito do desaparecimento, e conta com a ajuda da irmã para tentar provar sua inocência.

O diretor David Fincher (de Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres) transpôs para as telas, dentre outras coisas, o chamado “fruto tardio do romantismo”, traduzido essencialmente como o que alguns intelectuais chamam de “fracasso afetivo”, tema amplamente debatido pelos filósofos Luiz Felipe Pondé (PUC-SP) e Daniel Omar Perez (Unicamp), e pelo pensador Michael Foley, só para citar alguns. Neste processo, o amante é “incompleto e errante” e, no fundo, procura “um encontro consigo mesmo sem ter a menor ideia do que procura de si no outro” (PEREZ, 2014). No percurso, pode-se descobrir de forma dolorosa que não é nada fácil (re)conhecer o outro (e, de quebra, a si mesmo).

domingo, fevereiro 08, 2015

Ligações perigosas nas séries "Felizes Para Sempre?" e "Questão de Família"

As séries televisivas “Felizes Para Sempre?” e “Questão de Família” (Globo e GNT) apresentam sincronismos e insólitas coincidências envolvendo autor, diretor e o timing dos episódios que parecem espelhar na teledramaturgia notícias e imagens do telejornalismo da grande mídia . Estaria a todo vapor funcionando uma correia de transmissão entre os núcleos de novelas e o jornalismo da emissora? O sincronismo seria favorecido pelo vazamento antecipado de informações das investigações do Judiciário? Por outro lado poderia ser um sintoma do tautismo da TV Globo que, em crise, injeta realismo na teledramaturgia para recuperar a relevância perdida? Ou são apenas eventos sincromísticos?


Em 1982 ia ao ar na TV Globo a minissérie Quem Ama Não Mata, escrita por Euclydes Marinho. Eram épocas de abertura política na ditadura militar. O título fazia alusão a pichações nos muros de Belo Horizonte por conta do julgamento do playboy Doca Street, acusado de ter matado a mulher Ângela Diniz. A minissérie foi polêmica e contribuiu para o debate sobre os direitos da mulher numa sociedade que procurava o caminho para a democracia.

Trinta e três anos depois, Euclydes Marinho escreve a minissérie Felizes Para Sempre?, retornando ao tema dos dramas de relacionamentos de vários casais de uma mesma família da série de 1982. Somente que agora num contexto bem diferente: numa TV Globo que tenta reverter a sua crise de audiência e que simultaneamente assumiu o papel de oposição ao Governo Federal.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Uma crítica irônica ao racismo europeu em "Charleston Parade"

Estamos em 2028. A Europa foi arrasada por uma guerra mundial e Paris está em ruínas com poucos sobreviventes. Um explorador desce numa esfera voadora e descobre um dos sobreviventes. Ela é uma mulher selvagem que, com seu gorila de estimação, dança nas ruas um ritmo estranho chamado Charleston. Esse explorador é negro e vem da África que se tornou o centro da civilização, enquanto a Europa branca tornou-se arruinada e selvagem. Estamos falando de algum filme distópico atual? Não, esse é um estranho e irônico curta de ficção científica francês de 1927 “Charleston Parade” (Sur Un Air De Charleston) de Jean Renoir, filho do famoso pintor impressionista. O curta é uma engraçada crítica politicamente incorreta ao racismo e colonialismo europeu. A produção tornou-se obscura e esquecida pelas diversas coletâneas do diretor. Mas o “Cinegnose” descobriu e mostra para os leitores.

Filho do pintor impressionista francês Pierre-Auguste Renoir, Jean Renoir foi um dos menos conhecidos pioneiros do cinema. A carreira dele resultaria mais tarde em filmes realistas convencionais como A Grande Ilusão (1935) e Regras do Jogo (1937). Mas a sua primeira fase composta por filmes mudos foi subestimada e incompreendida no seu tempo, obrigando Renoir a vender quadros do pai famoso para financiar seus filmes.

Essa primeira fase composta de nove filmes mudos é marcada pelo experimentalismo e temas engraçados e bizarros. Uma amostra dessa fase é o surpreendente curta de ficção científica Charleston Parade (1927) realizado em uma tacada só em três dias.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

O enigma da calma estoica de Alckmin

Enquanto a crise hídrica é anexada à energética pela grande mídia, nacionalizando a pauta e sobrando as medidas impopulares para a presidenta Dilma, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, passa incólume pela crise.  Alckmin tira vantagem de uma blindagem midiática? A resposta não é assim tão simples, onde a grande mídia supostamente teria poderes para operar uma lavagem cerebral em um Estado inteiro. Uma pista talvez esteja no impagável apelido dado pelo colunista José Simão ao governador em 2001: “picolé de chuchu diet”. O colunista foi profético – pressentiu o papel que Alckmin desempenharia no futuro onde essa imagem “diet” junto à opinião pública seria fundamental: o papel de líder de um Estado que, de locomotiva da Nação, se transformaria em laboratório sócio-econômico de dolorosas experiências neoliberais. Com sua “calma estoica”, Alckmin reflete um novo conservadorismo baseado num mecanismo de defesa psíquico para os tempos difíceis anunciados diariamente pela mídia.

Quando em 2001 o então vice Geraldo Alckmin assumiu interinamente o cargo de governador de São Paulo em decorrência do agravamento de saúde e posterior morte de Mário Covas, o colunista da Folha José Simão o apelidou de “picolé de chuchu diet”.

Mal sabia o colunista que esse apelido seria profético: Simão conseguiu sintetizar nessa impagável analogia a physic du rôle necessária a um político para o papel que desempenharia no futuro – o de líder de um Estado que, de locomotiva da Nação, se transformaria em laboratório social e econômico das experiências neoliberais.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

A mecânica quântica nas relações humanas no filme "Coherence"


Em uma noite amigos se reúnem para um jantar regado a vinho. Um cometa cruza o céu. O físico austríaco Schrödinger em 1935 imaginou a famosa experiência do gato preso em uma caixa para ilustrar os paradoxos da mecânica quântica. O filme "indie" “Coherence” (2013) junta esses três elementos para criar um dos mais inventivos roteiros dos últimos anos. Complexos conceitos da física quântica como “sobreposição”, “entrelaçamento” e “decoerência” são transferidos do mundo subatômico para as tensões das relações humanas. E se todos naquele noite estiverem na mesma situação angustiante do gato de Schrödinger? Mas também pode ser a oportunidade de realizar o sonho da segunda chance e corrigir as escolhas erradas de uma vida.

sábado, janeiro 31, 2015

Série "Mundo da Lua" previu crise atual da água em 1991?

Assistir ao episódio “Esquadrão do Sabonete” da série de TV brasileira “Mundo da Lua” apresentado em 1991 é a oportunidade de ter uma desconcertante experiência de "dèjá vu": teria lá no passado o protagonista Lucas previsto a atual crise da água? O episódio reserva estranhas conexões entre passado e futuro – coincidências ou sincronicidades? Essas possíveis conexões trazem a discussão sobre as fronteiras entre ficção e realidade tal como propostas por escritores como Charles Bukowski e Philip K. Dick: para o primeiro, a realidade consegue superar a ficção em bizarrice, por isso a literatura deve ser mais estranha que o real; para o segundo, a realidade é o futuro como profecia auto-realizável. É a hipótese sincromística: haveria um subtexto com linhas sincrônicas que dariam um sentido (natural ou conspiratório) a uma realidade aparentemente caótica? Pauta sugerida pelo nosso leitor Carlos Vinícius.

Certa vez o escritor underground e maldito Charles Bukowski (1920-1994) foi questionado sobre o porquê do seu estilo bizarro e exagerado de escrever, para começar os títulos que costumava a dar aos seus contos (“A Máquina de Foder”, “Kid Foguete no Matadouro, “Doze Macacos Alados não conseguem trepar sossegados” etc.): “em um mundo onde notícias e acontecimentos são tão estranhos, somente uma ficção literária bizarra pode tentar superar a realidade”.

Essa estranha percepção de Bukowsky sobre o limiar entre a ficção e a realidade vai de encontro a atual hipótese do Sincromisticismo: a onipresença do contínuo midiático e a forma como os meios de comunicação exploram verdadeiras egrégoras de formas-pensamento e arquétipos, torna os limites entre ficção e realidade cada vez mais tênues e confusos – a vida imita a ficção ou vice-e-versa?

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Conteudismo: a doença infantil da comunicação

As estruturas de comunicação de instituições públicas são lentas para reagir a ambientes midiáticos negativos. Mas no caso atual do Governo Federal o problema não é de “timing”, mas principalmente do paradigma que orienta suas estratégias: o Conteudismo, a doença infantil da Comunicação. Da vulgarização da utilização de filmes em sala de aula para ilustrar de maneira linear conteúdos curriculares à ordem da presidenta Dilma para que os ministros sejam “claros e precisos” e “comuniquem iniciativas e acertos” para enfrentar a “batalha da comunicação”, todos partilham de um mesmo equívoco: de que a questão da Comunicação se trata unicamente de transmissão de conteúdos. O cenário midiático atual não se identifica mais com uma “batalha da comunicação”, mas com verdadeiras “guerrilhas semióticas” – recursos formais de linguagem que visam muito mais corações do que mentes, muito mais construção de percepções do que transmissão de conteúdos. Guerrilhas semióticas têm a ver com batalhas de percepções e não de informações.

Quando o videocassete surgiu no Brasil nos anos 1980, foi recebido com euforia pelos professores. A imediata disponibilidade de filmes que até então somente era possível de serem assistidos no cinema, vislumbrou a imediata aplicação em sala de aula.

Assim como os espectadores comuns, os professores se fixaram no conteúdo temático dos filmes que poderia ser associado linearmente aos conteúdos programáticos de cada disciplina: aula sobre a independência do Brasil? Exiba Independência ou Morte com Tarcísio Meira para os alunos; algo sobre a Idade Média? O Nome da Rosa; Ditadura Militar? O filme O Que é Isso Companheiro? E ainda teve professor que para ilustrar o porquê da queda do Império Romano apresentou o controvertido filme Calígula – com o previsível escândalo do diretores, coordenadores e pais de alunos.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Filme "Borgman" mostra como uma família burguesa se autodestrói


Esqueça a maldade representada pela tradição hollywoodiana: serial killers, monstros, psicopatas, terroristas, russos, árabes e vilões em geral (RAVs). Para assistir ao filme “Borgman” (2013), do diretor holandês Alex Van Warmerdan, o espectador deve ter em mente que está entrando no terreno do Mal surrealista e metafísico. O Mal na tradição gnóstica que, no Ocidente, tem na obra de Marques de Sade um dos seus melhores representantes. Em um mix de thriller, sobrenatural e humor negro, “Borgman” narra como uma típica família burguesa é capaz de se autodestruir até o limite da insanidade – e Camiel Borgman, um presumível sem-teto que um dia bate à porta da família, seria o suposto responsável por tudo – hipótese mais tranquilizadora para nós. Mas Van Warmerdan não pensa assim: e se o Mal não estiver nos espreitando? E se ele já estiver dentro de nós? Filme insistentemente (ainda bem!) sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

O fantasma da adolescência no filme "Divergente"

O fantasma da adolescência assombra o Capitalismo: como estender o período da vida que conhecemos como “juventude”, com toda a sua ansiedade e revolta, com a finalidade de adiar cada vez mais a entrada do jovem no mercado de trabalho? Filmes como "Divergente" (Divergent, 2014) é um exemplo da solução desse problema e, ao mesmo tempo, a descoberta de uma inesgotável fonte de lucros. Em cada década a indústria do entretenimento explorou essa “adolescência estendida”: rebeldes sem causa, punks, darks, góticos, emos. E agora, rebeldes “teens distópicos” de filmes como “Jogos Vorazes” ou “Ender’s Games”. Baseado em mais um indefectível romance infanto-juvenil, o filme “Divergente” traz a ambígua mensagem desses novos tradicionalistas de início de século: revoltem-se, sejam audaciosos, mas se abstenham de drogas e sexo e na segunda-feira voltem para a escola.

Divergente (Divergent, 2014) é mais um filme que se associa a outras franquias infanto-juvenis de sucesso como Crepúsculo e Jogos Vorazes. Desde Harry Potter (2001) Hollywood vem expandindo essa tendência em adaptar para as telas best sellers para o público jovem. Nesse início de século, a lista já é extensa, só para citar alguns: Eu Sou o Número 4 (2010), Cidade das Sombras (2008), Jogos Vorazes (2012), Instrumentos Mortais (2013), Ender’s Game (2013), Percy Jackson (2010) entre outros.

A procura da própria identidade e a descoberta do sexo e do amor são os temas universais da adolescência presentes nesses filmes, cujo desenvolvimento é amarrado por uma fórmula que parece comum: protagonistas que levavam uma vida aparentemente normal até um dia descobrirem que possuem estranhos poderes e que, por isso, são vigiados por entidades sombrias ou sistemas totalitários distópicos. E no transcorrer dessas sagas cinematográficas descobrirão o sexo e o amor que, em geral, tendem ou para os amores platônicos e impossíveis, ou então simplesmente para a abstinência sexual como um valor positivo.

sexta-feira, janeiro 23, 2015

A Ponte Estaiada é uma bomba sincromística?

Foto: André Nunez

“Estilingão”, “X” da Xuxa”, “X” dos analfabetos foram alguns dos apelidos recebidos pela Ponte Estaiada Otávio Frias de Oliveira quando inaugurada em 2008 na cidade de São Paulo. Certamente sintomas da perplexidade de uma estrutura em “X” equivalente a um prédio de 46 andares de onde saem estais que sustentam pistas sobrepostas em curva. Para além da funcionalidade viária, a ponte nasceu para ser emblemática, midiática e símbolo global. Para atingir essas funções ideológicas do “Soft-capitalismo” (midiático-financeiro), tornou-se um evento sincromístico: além dos feixes de estais, ela representa um feixe de simbolismos herméticos, esotéricos e matemáticos como a espiral de Fibonacci e o Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Simbolismos que transformam a ponte numa celebração ritual de um Neo-Renascimento onde o mundo do mercado e dos negócios teria descoberto a beleza e simetria em meio ao caos. Seria a ponte uma bomba semiótica sincromística para diariamente fazer a apologia da Nova Ordem?

quarta-feira, janeiro 21, 2015

O estranho clássico cult "The Cars That Ate Paris"

Estranhos carros tunados que correm o Outback australiano provocando acidentes cujas vítimas serão ou assassinadas, ou incorporadas à comunidade de um lugarejo chamado Paris ou se transformarão em cobaias de um estranho experimento psiquiátrico. O clássico cult “The Cars That Ate Paris” (1974), dirigido por Peter Weir (“Show de Truman”, “Sociedade dos Poetas Mortos”) em início de carreira, é um filme estranho e enigmático e que por décadas se mostrou impossível de ser rotulado em um gênero. Apesar da sua estranheza,  a produção acabou influenciando diversos filmes por gerações como “Mad Max”, “Veludo Azul”, “Chumbo Grosso” ou “Velozes e Furiosos”. Como mais tarde faria em “Show de Truman”, em “The Cars” Peter Weir quer encontrar o bizarro e o anormal por baixo da aparente rotina de um lugarejo com doces vovós em cadeiras de balanço e fiéis que não perdem uma missa aos domingos. Mas todos escondem um terrível segredo.

Um filme estranho? Com certeza. Gnóstico? Talvez, ainda mais sabendo que o diretor australiano Peter Weir tem um especial interesse pelas teorias sobre os mitos e sonhos e nos seus filmes sempre demonstra estar atento ao tema de como o senso comum sobre a realidade pode ser frágil e como podemos encontrar o extraordinário dentro da vida ordinária. Seu filme Show de Truman foi a consolidação desses temas que sempre estiveram na cabeça do diretor.

The Cars That Ate Paris (1974, “Os Carros que Comeram Paris”) é um estranho filme do início da carreira de Peter Weir, ainda no cenário cinematográfico australiano.  Uma das primeiras características de um “filme estranho” – sobre esse conceito fílmico clique aqui – é a dificuldade em rotulá-lo em um gênero: nos anos 1970, o filme teve uma difícil comercialização, porque era impossível categorizá-lo: humor negro? Comédia dramática? Ficção Científica? Terror? Na era do VHS nos anos 1980, as locadoras colocavam o filme nas prateleira de “terror”.

domingo, janeiro 18, 2015

O gênio do Chefe Shang inspira dedo-durismo da grande mídia

Há quase 3 mil anos na China, Chefe Shang, dirigente na totalitária Disnastia Ch’in, criou a ardilosa tática de estímulo ao dedo-durismo generalizado entre agricultores: preocupados em vigiar seus vizinhos, esqueciam-se que estavam sob um regime de terror e autoritarismo. Desde então, o dedo-durismo passou a ser a prática recorrente nos regimes totalitários. Pois o gênio do Chefe Shang continua vivo – sob o pretexto de “exercício da cidadania” durante a chamada “crise hídrica” em São Paulo, a grande mídia vem estimulando pessoas a enviar vídeos e fotos de vizinhos que supostamente desperdiçam água. Mais uma vez a grande mídia pisa no pântano do proto-fascismo: uma suposta cruzada cívica que pode se transformar em vingança e violência por motivos oportunistas como racistas, sexistas ou político-ideológicos. Com isso, São Paulo dá mais um passo para o seu futuro distópico – uma cidade transformada em um deserto igual ao filme "Mad Max" com milícias de “fiscais da Sabesp” executando aqueles que escondem não mais gasolina, mas agora água.

Desde a explosão do nazi-fascismo no período entre guerras no século XX, a sociologia tenta entender como é possível a ascensão de regimes ou atmosferas totalitárias em países formalmente democráticos. Mais do que um sistema totalitário centralizado nos moldes de 1984 de George Orwell, o que chama a atenção é o fenômeno do totalitarismo descentralizado e difuso, com o apoio de quase toda a população.

Sociólogos como o norte-americano Barrington Moore Jr. (1903-2005) apontam para similaridades entre o totalitarismo moderno e das sociedades pré-industriais. Práticas totalitárias modernas que se repetem ao longo da História, desde a antiguidade – veja “Totalitarian Elements in Pre-industrial Societies”, In: Political Power and Social Theory, Havard University Press, 1958.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

A humanidade está no fogo cruzado entre deuses e reis no filme "Êxodo"

O homem está colocado em uma espécie de fogo cruzado entre deuses e reis, demiurgos vingativos e ciumentos perante os quais somos apenas aquilo que representa a mosca para uma criança. Ao homem nada mais resta do que desafiá-los para, no final, resgatar dentro de si o bem mais precioso – aqueles a quem ama. Esse é o tema que perpassa a obra do diretor Ridley Scott e que, mais uma vez, está presente na versão do Êxodo bíblico feita por um cineasta assumidamente ateu. “Êxodo: Deuses e Reis” (2014) retrata um Moisés convertido em anti-herói amargurado: “É tudo vingança!”, critica em um dos ríspidos diálogos com Deus. Scott repete a mesma desesperança dos tripulantes da nave Prometheus que, ao descobrirem a raça dos criadores do homem em um planeta distante, na verdade encontraram “Engenheiros” enlouquecidos.

O diretor Ridley Scott tem um inegável talento para lidar com narrativas em diferentes épocas históricas: da Roma antiga (Gladiador, 2000) para a época das Cruzadas ( Cruzada, 2005; Robin Hood, 2010); da era do Renascimento (1492 – A conquista do paraíso, 1992) para o século XIX (Os Duelistas, 1977); e no futuro com Alien (1979), Blade Runner (1982) e Prometheus (2012).

Confirmando uma velha crença de que um artista conta uma única história em toda a sua vida, em Scott percebe-se que ele volta sempre ao tema do estranho que desafia a tudo e a todos ao seu redor para, no final, resgatar algo que é exclusivamente precioso para si mesmo.

Foi assim com Deckard em Blade Runner (o simbolismo do unicórnio que o protagonista resgata para saber se ele é humano ou mais um replicante) e também com a Dra. Elizabeth Shaw em Prometheus (desafiando a tudo para manter a fé em um sentido para a criação humana perpetrada pelos “Engenheiros”).

quarta-feira, janeiro 14, 2015

As bombas semióticas do "Charlie Hebdo" e das "árvores-que-caem-e-matam" em São Paulo

Enquanto o jornal Charlie Hebdo foi repentinamente arrancado da crise financeira e da ameaça de fechamento para a condição de “pièce de résistance” da liberdade de expressão Ocidental, em São Paulo as costumeiras árvores que caem a cada tempestade de verão também repentinamente foram elevadas da cobertura local aos telejornais diários de rede nacional como o fenômeno generalizado das “árvores-que-caem-e-matam”. O que há em comum nesses dois eventos que dominam a atual pauta midiática? A bomba semiótica diversionista, cujas origens estão nas táticas militares dos campos de batalha desde a Antiguidade. Hoje é a principal arma na luta pela conquista da atenção da opinião pública. Tática manjada e canastrona pelo seu evidente sendo de oportunismo, timing e conveniência. Porém, continua sendo a mais eficiente no desvio de atenção dos problemas reais.

“Aquele que aprender a usar o artifício do diversionismo será um conquistador. Eis a arte de fazer manobras”( Sun Tzu)

Nas táticas militares, o diversionismo é uma das mais antigas. Para ganhar a guerra de Tróia, um comandante grego criou a ilusão de oferecer um cavalo de madeira de presente para distrair o inimigo e afrouxar a segurança. Na Arte da Guerra, Sun Tzu falava em seguir uma rota longa e circular para ludibriar o inimigo e fazê-lo se afastar do caminho.

Quando as guerras passaram dos campos de batalha para as mídias (sejam elas as telemétricas e telemáticas que transformaram as guerras em videogames letais, ou então as mídias de massas), tudo transformou-se em uma guerra de comunicação onde os oponentes lutam para decidir o que está na alça de mira do inimigo ou na pauta das discussões na imprensa.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

"Atazagorafobia": a nova fobia das redes sociais no curta "Remember Me"


“Você lembra de mim, logo existo”. Isso é uma questão de sobrevivência para um novo tipo humano que domina as redes sociais, pessoas que sempre estão em busca da atenção das pessoas. Psicólogos chamam essa nova fobia de “Atazagorafobia” ou “fear of missing out” (FOMO) – o pânico de estar perdendo alguma oportunidade de interação ou de reconhecimento. Esse é o tema do curta canadense “Remember Me” (Mémorable Moi, 2013) do diretor Jean-François Asselin: “Você está pensando em mim?”, é a dúvida obsessiva do protagonista, sempre colado ao computador e dispositivos móveis tentando fingir ser qualquer coisa, enquanto sua vida conjugal vai para o ralo. Depois da Internet prometer a “inteligência coletiva” na cultura e a “estrada para o futuro” nos negócios, parece agora amplificar em tempo real o “demasiado humano” já presente nas mídias tradicionais: solidão, intolerância, narcisismo, superfluidade, necessidade de reconhecimento, hedonismo, niilismo, e assim por diante. – com a diferença de que agora os efeitos são exponenciais por meio de fobias e síndromes.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

O atentado ao "Charlie Hebdo" foi um filme mal produzido?

Como em todos eventos agudos que envolvem a interminável “guerra contra o terrorismo”, muitos analistas apontam inconsistências, ambiguidades e lacunas na cobertura midiática ao atentado contra o jornal "Charlie Hebdo" em Paris.  São tantas que parece que estamos diante de um roteiro de um filme mal produzido: uma ação militar profissionalmente cirúrgica feita por jovens que esquecem um cartão de identidade no carro da fuga. Coincidências e conveniências para muitos lados (e até para a grande mídia brasileira) envolvem a chacina dos jornalistas e cartunistas franceses, gerando uma espiral de especulações e conspirações. Será que alcançamos o estágio mais avançado do terrorismo, o “meta-terrorismo”? O relato midiaticamente ambíguo de um atentado pode se tornar tão letal quanto o próprio atentado.

Como diria a personagem Church Lady (feita pelo comediante Dana Carvey no programa Saturday Night Live, sempre preocupada com as conspirações satânicas por trás das coincidências): “How Con-VEEN-ient!” (“Tão conVEEEniente!”).

Numa primeira análise, o ataque terrorista (alguns afirmam que foi na verdade uma ação militar pela precisão) ao jornal satírico francês Charlie Hebdo em Paris, que vitimou 12 pessoas entre eles cartunistas, editores e colunistas do veículo francês, tem se revelado bem conveniente para três personagens do atual cenário internacional e, de quebra, para o senso de oportunismo da grande mídia brasileira:

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Sociopatas produzem as notícias da grande mídia no filme "O Abutre"

O cinema tem mais de 50 anos de uma sólida tradição de filmes críticos à TV e à produção midiática das notícias. Mas o filme “O Abutre” (Nightcrawler, 2014) de Dan Gilroy vai mais além: não só faz uma didática apresentação de como os fatos são semioticamente turbinados para se tornarem “noticiáveis”, mas principalmente como parasitas midiáticos voam como aves de rapina em torno da carcaça daquilo que um dia foi chamado de “notícia”. Para o diretor, o protagonista Lou Bloom (cinegrafista freelance que vive de vender vídeos de acidentes e homicídios para a TV) é o protótipo do homem do futuro – os sociopatas limítrofes que, através dos slogans do empreendedorismo e autoajuda,  tornam-se os mais bem sucedidos manipuladores dos sentimentos humanos. E cada vez mais bem sucedidos na grande mídia.

Desde o filme A Montanha dos Sete Abutres (Ace in The Hole, 1951), o cinema criou uma longa tradição de críticas impiedosas à dinâmica de produção de notícias, principalmente pelas redes de TV. Network – Rede de Intrigas de 1976 (a sádica exploração do desespero de um evangelista televisivo), a ambição assassina da moça do tempo de um telejornal feita por Nicole Kidman em Um Sonho Sem Limites (To Die For, 1995), a manipulação de um episódio com reféns em um museu feita por um repórter de TV em baixa no filme O Quarto Poder (Mad City, 1997), sem falar na exploração humana por reality e quiz shows como Show de Truman, The Hunger Games ou Death Race 2000.

O mais recente exemplar dessa tradição é O Abutre, estreia do roteirista Dan Gilroy na direção e contando com a melhor performance até aqui na carreira de Jake Gyllenhall no papel do protagonista Lou Bloom: armado com uma câmera de vídeo, um rádio da polícia e uma cabeça cheia de dicas de negócios de segunda mão aprendidas na internet repletos de slogans do empreendedorismo e autoajuda, Lou cruza as noites de Los Angeles como um vampiro. Alimenta-se do sangue de vítimas de homicídios e acidentes de carros. Tanto melhor para rejuvenescer a carreira da produtora de TV Nina Romina (Rene Russo). O vídeo dos sonhos de Romina para turbinar a audiência é “uma mulher gritando e correndo rua abaixo com a garganta cortada”. E Lou fará de tudo para corresponder e expandir o seu negócio promissor.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Os olhos dos mortos retornam nos recém-nascidos no filme "I Origins"


Aos 21 anos o diretor Mike Cahill teve um estranho sonho e quando acordou sentiu a necessidade de escrever a seguinte frase: “Os olhos dos mortos retornam nos recém-nascidos”. Catorze anos depois tornou-se interessado no tema da biometria através íris. Junto com a lembrança da misteriosa frase do passado, Cahill escreveu o argumento do roteiro do filme “I Origins” (2014) – um biólogo molecular obcecado pelo design complexo do olho humano quer terminar de vez o debate entre criacionistas e evolucionistas, conseguindo preencher definitivamente a lacuna do mapeamento evolutivo do órgão humano, provando a inexistência de Deus. Sem ser um filme New Age disfarçado, Cahill opõe os argumentos dos dois lados, mostrando que Ciência e Espiritualidade podem andar juntas, embora em planos separados da existência. E o que as uniria seria o acaso, representado por uma misteriosa garota com a íris multicolorida, a "Sophia" da mitologia gnóstica. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

sexta-feira, janeiro 02, 2015

Em Observação a lista dos 10 filmes mais estranhos de 2014

Um homem luta box sem luvas contra um palhaço de circo afeminado vestido como uma cenoura. O pai é um sujeito com a cara de Joseph Stalin e a mãe só se comunica através do canto lírico. Essa é uma passagem do filme “Dança da Realidade” dos mestre dos “Weird Movies”, Alejandro Jodorowsky. “Weird Movies”, ou “filmes estranhos”, numa tradução próxima, são filmes que exploram o duplo sentido da palavra “weird”: “destino” ou “estranho, surreal”. Nessa lista dos filmes mais “weird” ou “estranhos” de 2014, percebemos a proximidade dessas produções com a noção de “filme gnóstico” – o surreal e o estranho como instrumentos de desconstrução do princípio de realidade - na foto "Dança da Realidade" de Alejandro Jodorowsky.

Uma das fontes de informações cinematográficas alternativas para o Cinegnose é o site 366 Weird Movies, uma espécie de radar de filmes cinematicamente estranhos, bizarros e surreais. O seu interessante conceito de “filme estranho” muitas vezes coincide com a noção de “filme gnóstico” explorada por esse blog.

A espinha dorsal do site é a construção sempre mutante de uma lista de 366 filmes estranhos. Por que 366? Essa é uma explicação também estranha: um filme para cada dia do ano (um a mais para os anos bissextos). Como cada dia do ano está associado a um santo católico, os autores do site acreditam que todos os dias deveriam ter seu próprio filme estranho...

quarta-feira, dezembro 31, 2014

No quinto aniversário o blog deseja ao leitor um feliz 2015

Em dezembro o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” completou o seu quinto ano de atividades. Agradecemos aos nossos leitores pelos comentários, críticas e constantes sugestões de filmes para serem analisados e pautas para serem abordadas. Graças ao estímulo dos nosso leitores o blog alcançou várias conquistas como ampliar parcerias com outros blogs e portais de notícias e desenvolver pesquisas científicas que resultaram em descobertas como: as cartografias e topografias da mente, adgnose, o fenômeno das bombas semióticas, sincromisticismo, parapolítica entre outras. Essa expansão física e de resultados do blog, impõe o desafio mais importante para o próximo ano – a busca da sustentabilidade financeira para manter o “Cinegnose” em atividade. O que nesse final de ano resultou no conflito com o Google AdSense por supostas “violações” e a tentativa de censura em nossos conteúdos. Um Feliz 2015 para nossos leitores, repleto de iluminações gnósticas!

(Na foto algumas personalidades e filmes que fazem a cabeça do "Cinegnose": Freud, Theodor Adorno, Jean Baudrillard, o diretor Stanley Kubrick e os filmes Matrix, Show de Truman, Lucy e The Machine)

Há 5 anos, no encerramento de uma disciplina da pós-graduação na ECA/USP, a professora Glória Kreinz indagou para mim: por que não faz um blog? Era o início da ideia do “Cinema Secreto: Cinegnose”.

Muito material de análise fílmica tinha ficado de fora da dissertação de Mestrado chamada Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na atual produção cinematográfica norte-americana, pela própria limitação de espaço de uma pesquisa dessa natureza. Um blog seria o espaço perfeito para publicar as análise fílmicas de 20 filmes que fizeram parte do universo de pesquisa da dissertação. Mais tarde, a dissertação se transformaria no livro Cinegnose, publicado pela editora Livrus.

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