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sexta-feira, outubro 09, 2026

'O Aniversário': como se destrói uma democracia por dentro



Quando o filósofo alemão Theodor Adorno concluiu, na década de 1950, após pesquisa empírica nos EUA, que o fascismo era uma tendência latente na própria sociedade americana, poucos imaginaram o quão profético seria seu alerta. Sete décadas após a publicação do clássico estudo "A Personalidade Autoritária", o suspense político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa, transforma o veredito de Adorno em ficção assustadora: a história de como uma democracia sólida pode ser corroída por dentro não por um golpe de Estado, mas pelo ressentimento e pelo autoritarismo adormecido no cidadão comum. Em “Aniversário” acompanhamos o crescimento de uma família, a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha pela sociedade. 

Entre os anos 1944 e 1947, Theodor Adorno e sua equipe (Nevitt Sanford, Else Frenkel-Brunswik e Daniel Levinson) fizeram uma pesquisa empírica nos EUA, envolvendo questionários, testes clínicos e entrevistas.

Sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, Adorno queria saber se numa democracia burguesa como a norte-americana seria possível a ascensão de um regimeme político totalitário fascista. Como foi na Alemanha nazista.

O estudo, publicado em 1950 sob o título "A Personalidade Autoritária", levou Adorno descobriu que sim! Concluiu que o fascismo não era um fenômeno exclusivo da Alemanha ou decorrente apenas de uma crise econômica pontual, mas sim uma tendência estrutural da modernidade.

A pesquisa revelou que uma fatia significativa da população possuía traços de personalidade profundamente autoritários (o tipo "potencialmente fascista"). Essas pessoas não se declaravam abertamente fascistas, mas apresentavam uma estrutura de caráter suscetível à demagogia autoritária.

A "Síndrome Autoritária" e a célebre Escala F (de Fascismo) foi desenvolvida para medir essa predisposição sem fazer perguntas políticas diretas. Adorno identificou características marcantes no indivíduo autoritário: Submissão autoritária: Respeito acrítico e obediência cega às figuras de autoridade do seu in-group; Agressão autoritária: Hostilidade e desejo de punir qualquer pessoa que violasse normas convencionais ou pertencesse a grupos minoritários (out-groups) etc. – sobre isso clique aqui.

O filme O Aniversário (Anniversary, 2025), dirigido pelo polonês Jan Komasa (Suicide Room, Corpus Christi), funciona como uma assustadora construção cinematográfica do exato cenário que Theodor Adorno e sua equipe temiam. A obra ilustra como uma democracia burguesa sólida como a dos Estados Unidos pode ser corroída por dentro.

Não por meio de um golpe militar clássico, mas pela ativação orgânica da "personalidade autoritária" latente em cidadãos comuns por meio de um movimento populista de massa.

Komasa enxerga os Estados Unidos com mais clareza do que a maioria dos cineastas americanos, tendo crescido em um país que foi ocupado pela Alemanha nazista e pela antiga URSS, e tendo dirigido outros filmes sobre a vida sob regimes autoritários, incluindo o híbrido documentário-drama Warsaw 44. 



A princípio, o título do filme parece se referir apenas a um evento familiar que abre a história: o 25º aniversário de casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora de ciência política com ideias progressistas que leciona na Universidade de Georgetown; e seu marido Paul (Kyle Chandler), um chef que se tornou dono de restaurante em Washington, D.C., um ponto de encontro para as figuras influentes da cidade e lucrativo o suficiente para financiar a educação de elite dos quatro filhos do casal, três dos quais já saíram de casa.

Mas o filme se constrói em torno de vários encontros que ocorrem ao longo de cinco anos, culminando no 30º aniversário do casal. Acompanhamos o crescimento da família, a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha pela sociedade. 

Adorno concluiu que o fascismo não era uma anomalia distante, mas uma potencialidade inerente à modernidade.

Em O Aniversário, o autoritarismo não se instaura pelas margens extremas ou por invasores de fardas negras, mas pelo mercado editorial, pelas conversas de jantar e pelo conforto das soluções fáceis. A democracia americana colapsa rapidamente porque a ideologia encontra terreno fértil nas frustrações e desejos da população, ilustrando o veredito de Adorno: a democracia formal de um país cai se a estrutura psíquica do seu povo for predisposta ao autoritarismo.

O Filme

A trama começa como um drama familiar tenso durante a comemoração de 25 anos de casamento da professora universitária Ellen e do dono de restaurante Paul.



A dinâmica sofre um abalo severo quando o filho do casal, Josh (Dylan O'Brien), um escritor em busca de sucesso (e ressentido, cujo primeiro livro foi rejeitado pelas editoras), traz sua nova namorada, Liz (Phoebe Dynevor). Ellen a reconhece imediatamente: anos antes, ela havia sido fundamental para a expulsão de Liz da universidade após a jovem apresentar uma tese acadêmica de inclinações violentamente antidemocráticas.

Liz, com suas convicções políticas de extrema direita, se sentiu rejeitada e humilhada por sua professora. Mas que agora está prestes a se tornar uma estrela da mídia conservadora. O primeiro livro de Liz, "The Change: A New Social Compact" — um livro-manifesto tão grosso quanto uma caixa de sapatos — está prestes a ser publicado. 

Liz e Josh possuem a disposição psíquica principal da Escala F de Adorno: o ressentimento e o sabor autoritário da vingança. Josh se sente um fracassado diante da sua mãe, uma intelectual pública que é convocada pelo chefe de seu departamento para aparecer em um programa de notícias nacional. E Liz nutre um projeto secreto de se infiltrar na família da sua algoz, e implodi-la – e levar o país junto.

Liz é mais falsa que as lágrimas de um desses televangelistas, mas nem todos na festa percebem isso porque ela domina o olhar compassivo e o tom afável.

Um exemplo disso é Paul, que insiste que todos que participam de uma reunião familiar deixem suas opiniões políticas pessoais na porta. Inicialmente, não temos ideia da posição de Paul sobre os assuntos do momento. Ele também é progressista, embora menos expressivo que Ellen, ou um conservador que ama sua esposa mais do que detesta suas posições políticas? Também não temos certeza sobre a filha caçula, Birdie (McKenna Grace), uma cientista promissora que parece focada nos mecanismos da infecção viral e cuja formação política ainda está em desenvolvimento.



Não há dúvidas quanto às outras irmãs. Anna (Madeline Brewer) é uma lésbica cômica, movida por política de esquerda e solidariedade feminista. Cynthia (Zoey Deutch) é advogada e trabalha em casos ambientais com seu namorado Rob (Daryl McCormick)

Com o passar dos anos e sob a fachada do convívio familiar, o rancor intelectual dá lugar a um pesadelo sociopolítico. Josh e Liz finalmente publicam o grosso manifesto chamado The Change ("A Mudança"), que prega um recomeço radical além das estruturas políticas tradicionais e rapidamente se torna um fenômeno cultural avassalador.

Apoiado por uma megacorporação chamada Cumberland Company, o movimento ganha proporções imensas e evolui para um regime totalitário e um Estado policial.

A família Taylor é inteiramente esfacelada pelas engrenagens desse novo mundo. Pensadores e jornalistas fogem ou são expurgados, e Ellen é demitida da Universidade e cancelada nas redes após ser flagrada rasgando a bandeira do movimento. Uma das filhas, Anna, entra para a resistência e vira alvo do governo, enquanto a caçula, Birdie, articula um plano bioterrorista contra a corporação por trás do governo totalitário.



Aniversário e Escala F – Alerta de Spoilers à frente

A relação entre a película e os achados da Escala F de Adorno é profunda e mapeia as estruturas psicológicas do autoritarismo:

Por exemplo, através de suas pesquisas, Adorno mediu a necessidade que indivíduos inseguros têm de se submeter acriticamente a líderes ou movimentos fortes. Na trama, Josh personifica esse homem comum suscetível. Frustrado e ressentido profissionalmente e buscando desesperadamente uma identidade para aplacar suas falhas pessoais, ele abraça cegamente as ideias extremistas da esposa. Ele é a materialização de como a demagogia fascista prospera ao se aproveitar da carência de propósito individual.

Uma das principais marcas do indivíduo autoritário para a equipe de Adorno era a aversão ao intelectualismo. A trajetória de Ellen é simbólica. Ela é perseguida, gravada clandestinamente e expurgada do debate público justamente por ser a voz do pensamento crítico que, anos antes, havia identificado o germe autoritário em Liz. Quando o movimento “The Change” toma o poder, os primeiros a serem esmagados ou forçados a fugir do país são acadêmicos, jornalistas e artistas.

Adorno defendia que a educação emancipatória era o antídoto do autoritarismo; no filme, vemos a erradicação metódica dessa barreira.

O Aniversário ilustra também a Agressão Autoritária e a Punição do "Out-Group" quando a sanidade pública desmorona: vizinhos denunciam vizinhos, drones patrulham os bairros e agentes governamentais do censo ameaçam os cidadãos. O desfecho ultraviolento, em que a polícia usa força letal para intervir e fuzilar os próprios filhos do casal para expurgar a "subversão", retrata exatamente o desejo totalitário de eliminar fisicamente as minorias e os opositores.

A obra funciona essencialmente como uma versão roteirizada do livro A Personalidade Autoritária. O filme reitera o aviso de Adorno: a ascensão de um regime de controle absoluto em solo americano é sempre possível, bastando que líderes mal-intencionados ofereçam ordem, poder e falsas soluções para as fraturas psicológicas dos seus próprios cidadãos.


 


Ficha Técnica


Título: Aniversário

Diretor: Jan Komasa

Roteiro: Lori Rosene-Gambino, Jan Komasa

Elenco: Diane Lane, Kyle Chandler, Madeline Brewer

Produção: Lionsgate

Distribuição: Prime Video

Ano: 2025

País:  EUA

 

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sexta-feira, setembro 18, 2026

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sábado, maio 30, 2026

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sábado, outubro 11, 2025

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Um jovem e promissor jogador de futebol americano enfrenta uma semana intensa de treinamentos sob a orientação de seu ídolo, um carismático quarterback que está perto de se aposentar. É possível retirar um conto de terror dessa sinopse? O filme “Goat” (Him, 2025), de Justin Tipping, consegue. Jordan Peele se interessou em produzir esse projeto pela existência de uma lacuna cinematográfica sobre a temática do terror em esportes profissionais. E Peele e Tipping compartilham de uma visão ultracrítica sobre o futebol americano. O slogan promocional de “Goat” (“A Grandeza Exige Sacrifício”) revela a ironia crítica: a conversão do esporte como entretenimento pedagógico para as massas: a celebração da educação pela dor como princípio de uma concepção fascista de vida. Apesar do filme tender para um terror gonzo e slasher que lembra “A Substância”, o filme didaticamente revela os nove traços da personalidade fascista que Theodor Adorno descreveu nos “Estudos Sobre a Personalidade Autoritária”.

sexta-feira, maio 30, 2025

'Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes': na vida inautêntica cantar não espanta os seus males

 


O cantor pop americano conhecido como “The Weeknd” há anos tenta se aniquilar: músicas com letras detalhando angústia, desespero, autodestruição e hedonismo como uma forma de punição divina. Ele está sempre tentando se destruir e se refazer em algo novo. Então ele lançou um projeto multimídia, com um álbum e um filme: “Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes” (2025) em que ele interpreta a si mesmo numa narrativa autoindulgente com o velho clichê do artista tendo problemas para lidar com a fama: depois de um colapso emocional que faz perder a voz em pleno show, ele foge. Mas com a fã errada: a persona problemática feita por Jenna Ortega (“Wandinha”) que torna o filme interessante por inseri-lo na questão filosófica discutida de Heidegger a Adorno: a “vida inautêntica” – como a Modernidade e a mercantilização da cultura criam a cisão entre aquilo que acreditamos e o que efetivamente fazemos na vida. E The Weeknd vai aprender da pior maneira possível o custo da vida inautêntica. Nem sempre "quem canta seus males espanta".

quinta-feira, janeiro 02, 2025

Caso Natuza Nery e apropriação semiótica: como a Globo lucra com isso


O caso do ataque sofrido em supermercado pela “colonista” e apresentadora da Globo News, Natuza Nery, é exemplar por revelar, na prática, o efeito da estratégia de comunicação alt-right de apropriação semiótica. A crítica não só a Globo, mas ao monopólio midiático do país, sempre foi uma pauta da esquerda. Apropriada e com sinal invertido de forma paródica pela extrema-direita, virou o mote “Globo Lixo!”. Resultado: o campo sai em defesa do “jornalismo profissional” e a “liberdade de imprensa” contra o “fascismo”, não obstante a “colonista” ter semeado e colhido tempestade, junto com a emissora que deu visibilidade à lama psíquica do Brasil profundo. O campo progressista teme ser confundida com o bolsonarismo. Então, sai em defesa do jornalismo corporativo que faz terrorismo fiscal e prepara o fim da liberdade de expressão com o lobby contra o Marco Civil da Internet. Conscientemente a Globo joga seus jornalistas aos bolsonaristas-zumbis. O "Escândalo da Wikipedia", em 2016, foi o caso seminal, começando com Miriam Leitão e Carlos Sardenberg. E a Globo lucra com isso.  

quinta-feira, novembro 28, 2024

Terror racial e banalidade autoritária no filme 'Suaves & Discretas'


Há dois anos era “pedra cantada” que  Donald Trump ganharia a eleição desse ano. É o que nos mostra o filme “Suaves e Discretas” (Quiet & Soft, 2022) da diretora americana Beth de Araújo, que reflete o alinhamento do movimento “Tradlife” (mulheres que defendem o retorno aos valores “tradicionais” que dependem de fazer muitos bebês brancos na tentativa de “preservar” a “raça europeia”) com a “Alt-right” - Emily é uma professora que organiza uma reunião com um grupo de mulheres de extrema-direita num chá da tarde. Elas decidem continuar a reunião em outro lugar, mas uma discussão no meio do caminho dá início a uma inesperada e violenta cadeia de eventos. Diferente do terror racial de “Corra!” ou “Them”, em “Suaves e Discretas” acompanhamos a perspectiva do racista. Mas o terror perturbador do filme não está no conteúdo fascista, mas pela absoluta banalidade da personalidade autoritária. E mais: como a democracia liberal está se tornando disfuncional no atual estágio do capitalismo.

quinta-feira, fevereiro 15, 2024

Arte, capitalismo e crime em um microcosmo gnóstico no filme 'Dentro'


Willem Dafoe é um ladrão especializado em roubo de obras de arte milionárias que fica acidentalmente preso em uma cobertura high tech em Manhattan. Trancafiado e incomunicável com o mundo exterior, ironicamente está preso com os milhões de dólares de um colecionador de artes. Arte que se tornou supérflua na sua luta por água e comida numa situação ironicamente cruel. “Dentro” (Inside, 2023, disponível na Amazon Prime Video) é uma cínica e irônica reflexão sobre arte, capitalismo e crime, mas principalmente sobre como a dimensão estética pode ser inspiradora na fuga de uma cobertura que vira um microcosmo da condição humana. Principalmente depois de o ladrão encontrar uma edição do “Casamento do Céu e do Inferno” de William Blake, o filme ganha tons gnósticos.  

sábado, junho 17, 2023

A Natureza lentamente vinga-se da masculinidade patriarcal no terror 'Pollen'


Acompanhando a atual tendência do terror de gênero como “She Will” (Charlote Colbert) e “Men” (Alex Garland), o filme indie “Pollen” (2023), de D.W. Medoff, é um terror psicológico sobre problemas da agressão sexual, toxicidade no local de trabalho e trauma. “Pollen” lembra o clássico “Repulsa o Sexo” de Roman Polanski. Porém, com um toque, por assim dizer, botânico: depois que uma jovem vê o emprego dos seus sonhos se tornar um pesadelo (abuso sexual e relações de trabalho tóxicas) decide viver como uma planta e tem como única companhia um vaso com flores de papoula. Lentamente começa a se mover em direção à loucura completa na qual seu trauma começa a se misturar com poderes orgânicos do mundo botânico. É a Natureza lentamente gestando sua vingança contra a masculinidade patriarcal.

quinta-feira, abril 06, 2023

Cada movimento da cultura pop cria seu próprio assassino na série 'Enxame'


“Esta NÃO é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, NÃO é mera coincidência”. Com esse alerta abrasivo começa cada episódio da série da Prime Video “Enxame” (Swarm, 2023), inspirado na cultura da base de fãs da celebridade pop Beyoncé. A “Abelha Rainha” da comunidade de fãs chamada “Colmeia”. No século XX fãs se limitavam a rasgar roupas dos ídolos ou, eventualmente, assassiná-los. Agora vemos a ascensão da chamada “cultura stan” das redes sociais cujas comunidades de fãs geram haters. Que decidem fazer justiça rápida, agindo como um enxame contra qualquer um que sequer sugira ofender a “rainha”. Cada movimento na cultura pop cria seu próprio assassino. Esse é o tema da série de humor negro “Enxame”.

quinta-feira, novembro 10, 2022

Minissérie 'Inside Man': ciência e religião na jornada simbólica de Ulisses


Um prisioneiro (um brilhante ex-professor de Criminologia) no corredor da morte numa prisão dos EUA e uma mulher algemada no porão da casa de um respeitável vigário em uma vila inglesa. Duas histórias distantes, mas que irão se entrelaçar das formas mais inesperadas, lembrando os ardis de Hannibal Lecter e a cadeia de equívocos catastróficos como no filme “Fargo”. Essa é a minissérie de suspense e humor negro da Netflix “Inside Man” (2022) que oferece interessantes metáforas: o representante da Ciência, com sua lógica dedutiva e precisa, prisioneiro; e um vigário (a Religião) livre, porém preso à compulsão de se tornar um mártir. Afinal, representa “a única religião em que Deus morre no final”.  Ciência e Religião: as duas encarnações da Razão na jornada da civilização ocidental. Jornada semelhante à de Ulisses, na “Odisseia” de Homero.

quinta-feira, setembro 29, 2022

O smartphone matou a experiência urbana do flâneur


Já se tornou um lugar-comum na paisagem urbana: pessoas caminhando, sentadas em pontos de ônibus ou em terraços de café ou bares com as costas curvadas, cabeça inclinada e olhares fixos para a tela do smartphone. As nossas vidas nas bolhas das redes sociais e nos aplicativos de mensagens instantâneas nos obriga a olhar para baixo, blindando-nos de “felizes acidentes”, o acaso, o espanto, insight, a experiência do sublime ou mesmo inspiração poética no espaço real das ruas e parques. Em síntese, a experiência urbana do flâneur, tão enaltecida tanto por Charles Baudelaire quanto pelo filósofo Walter Benjamin como o personagem que fazia ponto crítico ao capitalismo, por estar no contrafluxo, resistindo à disciplina. Mas o capitalismo não pode tolerar tempo e espaço livres. A indústria cultural foi o primeiro passo para a disciplina do tempo livre. Depois, inventaram o smartphone.

quarta-feira, agosto 03, 2022

Filme 'She Will': a antropologia da ordem patriarcal para além do identitarismo


À primeira vista, o filme produzido pelo mestre do terror Dario Argento e dirigido pela estreante Charlotte Colbert, “She Will” (2021) parece ser mais uma produção mainstream dentro da onda identitarista apropriada pela grande mídia e discurso corporativo – o chamado “neoliberalismo progressista”. Uma atriz idosa confronta-se com os fantasmas do assédio sexual quando, jovem, estreou em um filme cujo remake está para ser lançado. Buscando fugir de todo hype, viaja para as Terras Altas na Escócia. Lá encontrará as origens simbólicas de toda a ordem patriarcal: a lama primordial de uma floresta composta por cinzas humanas das vítimas das inquisições e o carbono negro da queima do carvão industrial. Por isso, “She Will” vai além:  Uma filme sobre abuso infantil, assédio sexual e envelhecimento feminino envolta na lama daquela floresta: a raiz antropológica de todas as desigualdades – a contradição Natureza vs. Sociedade, a Mãe Terra vs. o Deus Capital.

quinta-feira, maio 19, 2022

O Mal silencioso que cresce sob nossos pés em "A Fita Branca"



Muito já foi escrito sobre as raízes do nazifascismo – banalidade do Mal, personalidade autoritária, ressentimento coletivo etc. Mas poucos filmes foram tão profundo na questão como o filme de Michael Hanake “A Fita Branca” (Das weiße Band - Eine Deutsche Kindergeschichte, 2009) ambientado em uma vila rural no norte da Alemanha alguns anos antes de explodir a Primeira Guerra Mundial. São duas horas e meia de um mergulho na alma de uma vila extremamente religiosa, moralista e temente a Deus. Mas algo profundamente perverso e maligno está crescendo no subterrâneo daquela comunidade. Justamente onde deveria haver inocência e esperança: as crianças, que no futuro serão a primeira geração a apoiar o nazismo.

quarta-feira, abril 20, 2022

Em 'Night's End' o sonho da Razão produz monstros


A cineasta Jenifer Reeder (considerada pelo diretor duas vezes vencedor do Oscar, Bong Joon Ho – Parasita – uma cineasta na lista dos imperdíveis) revisita o tema da casa mal-assombrada que, de tão recorrente no gênero terror, parece não restar nada mais relevante a ser dito. Porém, “Night’s End” (2022) prova o contrário ao trazer a clássica estória de fantasmas no zeitgeist da pandemia e as videochamadas e lives na Internet. Um homem recluso transforma a sua investigação sobre fantasmas em seu apartamento em lives num canal sobre fenômenos paranormais no Youtube, procurando engajamento e monetização. “Night’s End” mostra de forma criativa (superando limitações do baixo orçamento) como o pintor Goya tinha razão ao falar que “o sonho da Razão produz monstros” – o célebre pintor do romantismo espanhol antecipou a crítica que mais tarde a filosofia e a psicanálise fariam: paradoxalmente os mecanismos da Razão e das luzes da Ciência geram os monstros da irracionalidade e do obscurantismo que tanto queriam combater.  

sexta-feira, janeiro 07, 2022

Luto e a gnose na experiência quase-morte em 'A Casa Sombria'


Dentro do campo da Cinetanatologia (o estudo das representações da morte no cinema), narrativas sobre as experiências de quase-morte (EQM) são recorrentes no século XXI, principalmente a gnose pós-morte – a conquista da lucidez na situação imersiva em ilusões criadas pela tela mental, demiúrgico ardil para nos manter ainda presos nesse mundo. Mesmo na morte. "A Casa Sombria" ("The Night House", 2020) é um exemplo de uma narrativa que consegue elevar a clássica estória de casa mal-assombrada à discussão da gnose pós-morte. O choque do inexplicável suicídio do marido repercute um antigo episódio de EQM na adolescência da protagonista. Luto e raiva pelo marido ter a abandonado daquela maneira proporciona ao espectador tanto uma narrativa psicológica simbólica (a batalha de não deixar o luto tomar conta de nossa mente), quanto gnóstica: confrontar aquilo que está por trás dos relatos “new age” das EQM - o Nada.

quinta-feira, novembro 04, 2021

Em 'Lamb' a natureza é o nosso espelho irracional



Esse é para todos aqueles amantes de filmes estranhos. "Lamb" (2021), estreia do diretor islandês Valdimar Jóhannsson, é um imediato candidato a filme cult. Numa estranha atmosfera de fábula fantástica, "Lamb" faz uma espécie de terror folk ao mostrar um casal de fazendeiros, isolados na Islândia rural, vivendo sob o silencioso peso de alguma perda não revelada. Até que uma ovelha do rebanho tem um filhote que é imediatamente adotado pelo casal como fosse uma filha. Por que estão o tratando como um bebê?  Eles aprenderão da pior maneira possível o preço de projetarmos psiquicamente nossa irracionalidade na natureza: ela é apenas o espelho das nossas ansiedades, medos e desejos. Mas tudo o que temos de volta é a hostilidade e indiferença.

segunda-feira, setembro 27, 2021

Édipo, culpa e fantasia-clichê no terror do filme 'We Need to Do Something'


Tudo começa promissor em “We Need to Do Something” (2021): um tornado aproxima-se de um bairro de subúrbio e a família abriga-se no banheiro, para ficar prisioneira depois que uma árvore caiu e bloqueou a porta. Mas parece que há algo de mais terrível lá fora. Um terror indie sintonizado com as ansiedades da atual pandemia e que minuciosamente constrói um horror psicológico baseado na linguagem extracampo com a câmera e montagem. Porém, acaba caindo na velha armadilha da matriz edipiana da psicanálise dos cânones do gênero terror hollywoodiano: desejo e culpa que alimentam a velha fantasia-clichê da “quebra-da-ordem-e-retorno-à-ordem” – o Mal como remédio amargo para redimir a ordem do núcleo familiar, mesmo que seus membros estejam despedaçados em ressentimentos uns com os outros. 

sábado, julho 17, 2021

Zumbis e seus subtextos no filme 'A Noite Devorou o Mundo'


Esqueça séries como “Walking Dead” e apocalipses zumbis com aventuras épicas de lutas pela sobrevivência. Desde que a prestigiosa revista francesa “Cahiers du Cinéma”, no final dos anos 1960, apontou o subtexto político negligenciado pelos americanos no seminal “Noite dos Mortos Vivos de George Romero, o cinema francês sempre enxergou muito além na mitologia dos zumbis. Um exemplo é “A Noite Devorou o Mundo” (La Nuit a Dévoré le Monde, 2018, disponível na Prime Video): ao contrário dos cânones do gênero, acompanhamos o isolamento do protagonista, a progressiva normalização psíquica da catástrofe e, por fim, a solidão. Olhando a partir do nosso ponto de vista na era da pandemia, o filme ganha uma surpreendente atualidade: isolamento social e o pânico da contaminação.

sexta-feira, julho 02, 2021

O horror cósmico no vazio entre a magia e a ciência no filme 'In the Earth'



A pandemia global vem rendendo duas vertentes temáticas no cinema: de um lado, um novo subgênero, o “Covid Exploitation”; e do outro, a recorrência de filmes sobre o horror cósmico – a pandemia parece ter despertado em nós a consciência de que o universo é totalmente indiferente à humanidade. E isso pode ser uma notícia nada boa. “In the Earth” (2021) é mais um filme que ecoa o horror cósmico de HP Lovecraft: cientistas se perdem entre a magia e a racionalidade científica em uma floresta tentando comprovar que toda a vida vegetal está interligada por uma espécie de rede neural psíquica que pode se comunicar consigo mesma e conosco. Fazendo alusões à hipótese Gaia, se a Natureza for um sistema vivo, então ela não precisa ser salva por nós: a Natureza poderá salvar a si mesma, nos expulsando como fossemos meros parasitas. 

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