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quarta-feira, setembro 11, 2019

Ao invés de conquistar corações e mentes, Esquerda prefere ser o cão de Pavlov


O “cão de Pavlov” foi o protagonista de uma experiência que revolucionou a propaganda política e a publicidade do século XX. Há 100 anos o médico russo Ivan Pavlov descobriu o reflexo condicionado: apenas o som de uma sineta fazia o cão salivar de fome, mesmo sem ter na sua frente um prato de comida. Diante da repetição de estímulos diários através de bravatas, provocações escatológicas, chulas e autoritárias do Governo, a guerra semiótica criptografada tem jogado a esquerda e oposições num labirinto de informações desconexas, transformando-as em um cão de Pavlov pós-moderno que reage de forma reflexa aos estímulos. Saliva de ódio e reage com o fígado, ficando apenas nas trincheiras da “guerra cultural”. Enquanto o patrimônio nacional é rapidamente vendido na xepa do mercado. Em sua guerra particular, esqueceu das massas silenciosas, supostamente anestesiadas. Anestesiadas porque não conseguem ver as relações causa-efeito entre a xepa e a sobrevivência cotidiana uberizada. Sem nenhuma iniciativa de comunicação didática para esclarecer ao brasileiro comum essa relação causal e conquistar corações e mentes, prefere assumir o confortável papel de cão de Pavlov. 

quarta-feira, agosto 07, 2019

Tarantino revela alterego e nostalgia pós-moderna no filme "Era uma Vez em... Hollywood"


Quentin Tarantino nunca frequentou uma escola de cinema. Ele viu filmes. Mais do que isso. O que move Tarantino é a sua nostalgia cultural pós-moderna: ele não sente saudades de eras e momentos em que viveu. É nostálgico por tudo que apenas viu em filmes, TV e livros. Saudades daquilo que não viveu. “Era Uma Vez em... Hollywood” (Once Upon a Time... in Hollywood, 2019) é o paroxismo de toda a sua carreira cinematográfica: ambientado na cena de 1969 em que a velha Hollywood do “Studio System” com seus Westerns no cinema e TV desaparecia para dar lugar a Bruce Lee, Steve McQueen, Roman Polanski e a beleza trágica de Sharon Tate – assinada em um massacre perpetrado pela “Família Mason” liderada pelo guru Charles Mason. Sob camadas e camadas de iconografia pop, alusões e intertextualidades, Tarantino não só cria uma nostalgia hiper-real mas faz o filme mais metalinguístico de todos: a ansiedade do protagonista que não sabe o que fazer no futuro é o alterego do próprio diretor – como se reiventar agora, se a nostalgia pós-moderna acredita que o cinema já mostrou tudo o que era mais importante?  

terça-feira, julho 02, 2019

Como fugir da barbárie sem celulares e tablets em "À Espera dos Bárbaros"


Um grupo de seis pessoas está com medo: souberam através das redes sociais que os bárbaros estão chegando. Eles batem à porta da casa de um casal de magos, pedindo para se esconder do perigo iminente. Mas os magos impõem uma condição: deixar seus celulares e tablets num cesto na entrada, para iniciarem uma viagem iniciática e mística no presente e para o passado. Sem wi-fi e Internet, o grupo sente-se nas trevas – como saberão do avanço dos bárbaros sem Internet? Esse é o filme francês “À Espera dos Bárbaros” (“En Attendant Les Barbares”, 2017), de Eugène Green, uma experiência ao mesmo tempo documental e ficcional sobre nossa condição em um mundo tecnológico: a mídia está para nós assim como o peixe está para a água. Sem nossos dispositivos tecnológicos nos sentimos fora d’água. Mas esta não seria a oportunidade de nos religar com o outro e com a realidade? Filme sugerido pelo nosso leitor Fernando Câmara.

quinta-feira, junho 20, 2019

Livro "A Morte da Verdade: a culpa é dos russos e pós-modernos

A Internet era um sonho do Vale do Silício, um paraíso inspirado na fé pela natureza humana criado por pioneiros tecnológicos. Então, apareceram “agentes mal-intencionados” que deturparam tudo com o pecado – fake news, pós-verdades, obscurantismo e preconceitos. Na capa do livro que nos conta essa história bíblica vemos uma serpente que se esgueira para fora de um balão de HQ. Essa serpente é Donald Trump e a chamada “direita alternativa”, ajudados por hackers russos. Mas também inspirados nos pensadores pós-modernos como Baudrillard e Derrida que teriam destruído a âncora filosófica da Verdade – a noção de Realidade, fazendo o Paraíso decair no niilismo e relativismo.  A crítica literária norte-americana Michiko Kakutani vai encontrar o pecado original das fake news nos hackers russos e pensadores do pós-modernismo no seu livro “A Morte de Verdade”. Kakutani revela um discurso que transforma não só a teoria das fake news em um novo rótulo do jornalismo corporativo no mercado das notícias. Também é uma forma ideológica de varrer para debaixo do tapete as mazelas da financeirização global, das "machine learnings" e algoritmos do Vale do Silício – a culpa é sempre dos russos e franceses...

sexta-feira, junho 14, 2019

A fina casca que protege a civilização no filme "Climax"


Mais um filme para cinéfilos aventureiros e destemidos. Os filmes do diretor argentino Gaspar Noé são disruptivos: ou você ama ou odeia. Tal como “Irreversível” ou “Enter The Void”, o filme “Climax” (2018) nos apresenta um verdadeiro assalto à nossa percepção através de imagens alucinatórias, música techno implacável, pesada, e movimentos de câmera vertiginosos, tomando nossos sentidos e embaralhando o cérebro. Confronta-nos com uma experiência imersiva na qual acompanhamos uma trupe de dança após audição preparatória para uma turnê na América. Depois, todos comemoram com uma festa na qual, repentinamente, as coisas começam fugir do controle. E de maneiras cada vez mais perturbadoras - prazer e morte se confundirão, transformando o jogo artístico, de instrumento civilizatório, em bomba de autodestruição. Gaspar Noé quer nos mostrar que apenas uma fina casca protege a civilização de si mesma.

terça-feira, abril 16, 2019

O destino da arte é a simulação no filme "Minha Obra-Prima"


No passado Renzo Nervi foi um pintor bem-sucedido. Hoje, não consegue vender um único quadro. Amargo, ressentido e à beira da indigência, ele recebe a ajuda de um amigo marchand dedicado a lucrar com a arte alheia. Até que um inesperado acidente proporciona a oportunidade inédita (e ilegal) de ganhar dinheiro em um mercado de arte onde o luxo e o esnobismo concorre com o artifício e a mentira.No filme argentino “Minha Obra-Prima” (“Mi Obra Maestra”, 2018) acompanhamos uma comédia farsesca de humor negro que apresenta o destino da arte no mundo pós-moderno: a simulação - simular o valor de uma obra como se fosse puramente artística, quando na verdade é tão vazia quanto um suspiro. Não se trata mais, como no passado, de dissimular a falsidade. Mas agora de simular qualquer vocação artística.
Theodor Adorno acreditava que a arte continha a alteridade e a transcendência. Como obra do espírito, a arte tendencialmente pretenderia ultrapassar a si mesma, criando uma tensão com a sociedade e o próprio espírito – a negação do Todo, social, político, econômico etc.
Como músico que era, além de filósofo (Adorno tocava violino), via essa natureza transcendente da arte na “Música Nova” – a música atonal de Schoenberg e o serialismo da nova música erudita como alternativa à integração da cultura de massas e Indústria Cultural.
Mas os tempos pós-modernos do pós-guerra integraram toda qualquer pretensão de “alteridade” ou “tensão” da arte: virou “intervenção” ou “performance” em exposições que se transformaram em “instalações artísticas”. Artistas “incompreendidos” ou “rebeldes” passaram a ter cotação no mercado, assessorados por “marchands” e donos de galerias de arte.
Então, o que é arte? Qual a diferença entre um quadro e um pôster publicitário? Ou entre a cópia e o original, já que tudo é “commoditie”, reprodução, cópia? Filmes como Cópia Fiel (2010) ou Velvet Buzzsaw (2019) são exemplos cinematográficos dessa desconstrução pós-moderna da arte, ao reduzi-la à ilusão, simulação, artifício, mentira.


Por isso, nada melhor do que assistir à comédia argentina farsesca e de humor negro Minha Obra-Prima (Mi Obra Maestra, 2018) sobre Renzo Nervi (Luis Brandoni), um pintor que já foi bem-sucedido nos anos 1980 em Buenos Aires, mas hoje não consegue vender um único quadro. Porém, um inesperado acidente proporciona a oportunidade inédita (e ilegal) de ganhar dinheiro em um mercado de arte onde o luxo e o esnobismo concorre com o artifício e a mentira.
Minha Obra-Prima continua com a visão ácida sobre os intelectuais argentinos do filme anterior (El Ciudadano Ilustre) da dupla de diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn: como a burguesia (e principalmente os novos ricos em busca do verniz cultural) se movem em ambientes artísticos, voltando a fazer uma dura crítica ao banal na vida cultural.
Mas há também algo universal, sobre o destino da arte no mundo pós-moderno: como o processo de valorização do objeto artístico é uma simulação e não uma dissimulação – não se trata mais de falsificar uma obra assim como se imprime dinheiro falso. Mas simular o valor de uma obra como se fosse puramente artística, quando na verdade é tão vazia quanto um suspiro – resultado de um jogo de especulação, ausente de escrúpulos ou qualquer de qualquer vocação artística.

O Filme


Arturo Silva (Guillermo Francella) há décadas dedica-se a venda de obras de arte em sua galeria no Centro de Buenos Aires. Seu único interesse é lucrar com a arte alheia. Encantador e sempre com um discurso sedutor e persuasivo, desde vários anos mantém uma amizade com Renzo Nervi (Luis Brandoni) que se encontra nos últimos anos da sua vida – depois de uma carreira bem-sucedida, há anos não consegue vender uma única obra.
Sua paixão pela arte acabou resultando num estilo de vida prá lá de decadente: amargo, cínico, misantropo e autoindulgente parece que conscientemente prepara sua própria ruína, com um final a uma morte trágica parecida com os boêmios pintores impressionistas parisienses.


Os egos, as mesquinhezas e as misérias desses dois personagens os unem numa estranha amizade. Arturo tenta impulsionar novamente a carreira de Renzo até que Arturo logra associar-se a uma influente colecionadora de obras de arte internacional, Dudu (Andrea Frigerio).
Conseguem para Renzo uma encomenda para a confecção de um mural. Mas a autoindulgência e orgulho do pintor decadente falam mais alto: ele jamais aceitou fazer qualquer tela sob encomenda, como se sua arte fosse um mero produto. Mas estranhamente aceita, para depois sabotá-la, como mais um ato de protesto autodestrutivo.
Renzo está à beira da indigência, sustentado pelo seu único aluno, o espanhol Alex (Raúl Arévalo) – um personagem contrastante, comparado ao cinismo de Renzo e do seu amigo Arturo. Alex é idealista e admira a arte do autodestrutivo mentor.


“Argentina é um país singular” – Alerta de spoilers à frente


Tudo caminha para o desfecho inevitável: a morte trágica – Renzo é atropelado por um caminhão depois de displicentemente atravessar a rua, quase que pedindo para alguém abreviar seu sofrimento. No hospital, sugere para seu amigo Arturo a eutanásia.
Mas Arturo acaba tendo uma ideia muito melhor, seguindo seu instinto de especulador da arte alheia – por que não simular a morte de Renzo? Afinal, Van Gogh só alcançou a fama e suas obras o valor de milhões de dólares somente após a sua morte!


Com a ajuda da influência internacional de Dudu, Arturo da um incrível impulso “pós-morte” para as obras de Renzo – ganha exposições exclusivas em diversas capitais do mundo.
O marchand e o artista decadente criam o golpe perfeito: Renzo vive isolado numa região remota, produzindo cópias que emulam seu ápice criativo dos anos 1980. Tudo quadros “descobertos” em casas de parentes. Enquanto xeiques novos ricos compram lotes das suas obras a milhões de dólares.
Nível inédito de especulação artística: na “pós-morte” Renzo faz cópias “falsas” de si mesmo. De um ápice artístico do passado que só depois da própria morte passa a ter valor de mercado.
Se no passado a questão da arte era o confronto entre a cópia e o original artístico (a arte como um signo que ainda gozava de uma referência ou legitimidade socialmente sancionada), hoje o valor se desprende do campo da arte para entrar nas estratégias de simulação – dizer que existe alguma coisa (a morte de um gênio), quando na verdade só existe o vazio: o blefe.
A partir daí a narrativa desdobra esse blefe a um nível que, a certa altura, Renzo afirma: “Argentina é um país singular”.
A simulação como um blefe é a própria essência da comédia farsesca. Mas a amizade de um marchand com o artista é a própria definição do blefe pós-moderno na arte, como uma espécie de “cinismo esclarecido”, termo cunhado pelo filósofo Peter Sloterdijk: o cínico integrado aos seus postos e privilégios (gerentes, executivos, professores, jornalistas ou artistas) que mantêm um autodistanciamento irônico e melancólico sobre o que fazem, um sentimento de “inocência perdida”, de ironizar e depreciar a si mesmo e ao que faz (“é o que tem prá hoje”, dizem), uma falsa consciência conformista e sem sonhos diante do sistema de onde tira seus privilégios – leia SLOTERDIJK, Peter. Crítica da Razão Cínica, Estação Liberdade, 2012.
É a amoralidade e o pragmatismo de uma comédia farsesca, cujo gênero parece ser uma especialidade do cinema argentino.



Ficha Técnica 

Título: Minha Obra-Prima
Diretor: Gastón Duprat, Mariano Cohn
Roteiro:  Andrés Duprat, Gastón Duprat
Elenco:  Luis Brandoni, Guillermo Francella, Andrea Frigerio, Raul Arévalo
Produção: Arco Libre, Hei Films
Distribuição: A Contracorriente Films
Ano: 2018
País: Argentina

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domingo, abril 14, 2019

Rádio, viagem no tempo e identidade no filme polonês "The Man With The Magical Box"

Um filme sobre viagem no tempo com a colcha de retalhos típica da nostalgia pós-moderna: um mix de “Brazil” de Terry Gilliam, “Clube da Luta”, “Blade Runner”, “1984” de Orwell com alusões a “Stalker” de Tarkovsky. É o thriller sci-fi polonês “The Man With The Magic Box” ("Czlowiec z magicznym pudelkiem", 2017) - na Varsóvia de 2030 um homem encontra em seu velho apartamento um antigo rádio de 1950 que misteriosamente transmite músicas do passado com ondas Theta que produzem nele flashs de memória de uma outra vida. Mas um governo nacionalista totalitário monitora qualquer tentativa de fuga por meio de viagens no tempo através da mente. Diferente da maioria das abordagens do cinema sobre a viagem no tempo (como possibilidade de mudança como “segunda chance”), “The Man With The Magic Box” faz o contrário: a viagem no tempo como busca da permanência, duração – a busca da própria identidade.

quarta-feira, março 06, 2019

Curta da Semana: "Animals" - Smartphone e solidão nos tornam selvagens


Um dia como outro qualquer de pessoas comuns viajando em um trem. Cada um perdido em seus próprios pensamentos e preocupações. Até que surge o inesperado: a porta do vagão não abre, e o trem permanece em movimento para as próximas estações.  Aquelas nove pessoas começarão a fazer uma rápida descida para o caos, a irracionalidade e, por fim, a selvageria – tudo registrado por um smartphone de um passageiro que apenas se preocupa em postar o vídeo em redes sociais, ao invés de tomar uma atitude de ajuda. Esse é o curta-metragem “Animals”(2019), trabalho de conclusão do “Animation Workshop” do animador dinamarquês Tue Sanggaard. Seis minutos que resumem as principais teses clássicas da psicologia social sobre o comportamento do homem na multidão. Porém, no século XXI, turbinadas pelas novas tecnologias.

domingo, fevereiro 10, 2019

O apocalipse foi a própria Criação em "Oblivion"

Se "Matrix" (1999) foi o auge hollywoodiano do gnosticismo pop, “Oblivion” (2013) é outro filme que consegue sintetizar o mito central dos gnósticos: o apocalipse já aconteceu, e foi a própria Criação: um erro cósmico no qual nos tornamos prisioneiros da ilusão e do esquecimento. Tom Cruise é Jack, um técnico de manutenção de drones e robôs cumprindo sua última missão na Terra: conduzir os recursos naturais remanescentes de um planeta devastado para uma lua de Saturno, último refúgio humano. Mas Jack aos poucos começa a questionar os propósitos da sua missão. Principalmente quando a mulher dos seus recorrentes flashs de memória aparece na queda de uma nave.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Curta da Semana: "Fake News Fairytale" - quando notícias falsas viram contos de fadas

“Políticos são como mágicos, acenando com as mãos, fingindo que o truque está acontecendo em outro lugar. Enquanto isso, eles nos distraem, escondendo aquilo que está acontecendo diante de nossos olhos.” Essa é a conclusão de “Fake News Fairytale” (2018), um curta sobre como se articulam as noções de verdade, ficção, realidade e ilusão nas fake news, abordadas pela diretora Kate Stonehill como narrativas análogas a contos de fadas. Em um divertido documentário que simula ser um “mockumentary”, baseia-se num caso real: a repentina fama que a pequena cidade de Veles, no interior da Macedônica, ganhou como o centro da “corrida do ouro” das fake news: adolescentes que ganharam muito dinheiro com anúncios em website que publicavam notícias falsas repercutidas nas redes sociais a partir de perfis falsos. E ajudando a vitória de Trump nos EUA. Sem emprego ou futuro, jovens viram a chance de ganhar dinheiro rápido. Essa é a matéria-prima da atual ultradireita nacionalista. 

terça-feira, janeiro 22, 2019

Marketing pós-humano e pós-verdade na ascensão dos influenciadores virtuais

Lentamente uma nova raça de avatares está se infiltrando nos “feeds” das redes sociais: são os influenciadores virtuais – supermodelos lindíssimas, como vidas cheias de música e ativismo social, promovendo marcas famosas de moda. Mas por trás estão algoritmos probabilísticos combinando o trabalho de fotógrafos, computação gráfica e inteligência artificial. Faz parte da chamada “Revolução Industrial 4.0” que nada mais faz do que estender para o século XXI o espírito do velho capitalismo: redução de custos e enxugamento da cadeia produtiva, aumento de lucros e incremento do controle social e político.  Mas para os seguidores dessa nova geração do Marketing de Influência, pouco importa se os influenciadores são reais ou virtuais – se artistas, celebridades e famosos sempre foram simulacros, então chega de intermediários! Assim como as fake news, o marketing pós-humano está criando a pós-verdade: o mix de autodistanciamento irônico e niilismo. Pauta sugerida pela nossa leitora Alana Pinheiro.

terça-feira, janeiro 15, 2019

A vaidade é o pecado predileto do Diabo em "A Casa Que Jack Construiu"

Jack é um engenheiro que sonha em ser arquiteto. Quer sair do anonimato dos cálculos matemáticos para o impacto público da produção de ícones. Arte e Morte andam juntas. E para comprovar sua tese Jack se transforma num cruel e paradoxal serial killer que faz de tudo para chamar a atenção da polícia e da imprensa para suas “obras-primas”. Esse é o filme “A Casa Que Jack Construiu” (2018), do controvertido, diretor Lars von Trier, que discute a atual “arte degenerada” que confunde a produção “artística” com a capacidade de produção imagética viral. Tipo de arte que vai encontrar no fenômeno do serial killer o seu paroxismo. Mas, da pior forma possível, Jack vai descobrir que a vaidade é o pecado mais admirado pelo Diabo.

quinta-feira, janeiro 03, 2019

O trabalhador precarizado vai ao Paraíso em "Sorry to Bother You"

Uma surreal comédia de humor negro com realismo fantástico e ficção científica inspirado no mundo do telemarketing. “Sorry to Bother You” (2018), filme de estreia de Boots Riley, pode ser tanto o momento atual como aquilo que nos espera em um futuro muito próximo: modernos trabalhadores precarizados que viram máquinas cognitivas de vendas sem quaisquer garantias ou direitos. Cassius Green é um jovem excluído negro que descobre a chave para a ascensão corporativa na RegView, a gigante do telemarketing: encontrar a “voz de branco” interior. Mas tal como “Fausto”, de Goethe, o Diabo vai cobrar algo de volta – algo assustador e surreal que definitivamente fará o protagonista cair “na real” e perceber o cenário entorno.

sexta-feira, novembro 02, 2018

Retrofascismo: na Guerra Híbrida o fascismo retorna como farsa

Em 2011 este “Cinegnose” teve uma sombria antevisão: “o retrofascimo brasileiro só está à espera de uma tradução política para conquistar, mais uma vez, o Estado”, afirmava este humilde blogueiro. E este momento chegou! Só que dessa vez como farsa, diferente da tragédia do fascismo clássico do século XX. Conceito criado pelo pesquisador em Cultura e Tecnologia, Arthur Kroker, “retrofascismo” representa o mix dos motivos que fizeram surgiu o fascismo histórico com a hipertecnologia do século XXI. É necessário entender as nuances entre o fascismo do passado e o atual, como mais um lance no xadrez geopolítico da Guerra Híbrida brasileira: assim como no passado, o retrofascismo utiliza a matéria-prima psíquica da personalidade autoritária, mas dessa vez como estratégia de dissuasão midiática (e, por isso, como farsa) – criação da agenda da polarização em torna das questões identitárias, culturais e de costumes para esconder um programa de governo ruim de voto. Porém, produziu três efeitos residuais: o efeito “Uma Noite de Crime”; o efeito “A Ficha Caiu!”; e o efeito “Apertem os Cintos, a Grande Mídia sumiu!”.

segunda-feira, outubro 15, 2018

"O Abrigo": o mais perturbador filme pós-apocalipse dos últimos tempos


Pode parecer que “O Abrigo” (“The Divide”, 2011) é mais um filme pós-apocalíptico em que, outra vez, Nova Iorque é destruída. Dessa vez por bombas nucleares em uma guerra indeterminada. Mas dessa vez não temos uma narrativa épica de um herói que luta em colocar ordem no caos para salvar o dia. As coisas irão de mau a pior num grupo de sobreviventes em um abrigo subterrâneo. A obsessão pela temática pós-apocalipse e do fim do mundo no cinema encobre a raiz de um sintoma que “O Abrigo” revela de maneira explícita: o freudiano “Mal-Estar da Civilização” assentado no temor da morte, da fragilidade do corpo e no inferno que representa o outro. Por isso, o diretor Xavier Gens vai buscar inspiração em dois clássicos da literatura do niilismo pós-guerra: a peça “Entre Quatro Paredes” de Sartre e “O Senhor das Moscas” de William Golding. “O Abrigo” é um filme para cinéfilos com mente e estômago fortes. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

sábado, setembro 29, 2018

Em "Branco Sai, Preto Fica" o tempo brasileiro é o eterno retorno


Em 1986 policiais invadem um baile funk em Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, ferindo física e psiquicamente dois homens. Em 2014, um terceiro homem vem do futuro a procura de evidências que ajudem um movimento identitário negro mover uma ação contra o Estado pelos danos daqueles homens no passado. “Branco Sai, Preto Fica” (2014) de Adirley Queirós é uma ousada experimentação em um gênero pouco visitado pelo cinema brasileiro – o filme consegue construir uma espécie de “meta docudrama sci-fi”. Com sua desolação, frieza e aridez, Brasília deixou de ser a utopia modernista de uma possível civilização brasileira para se transformar na perfeita cenografia de filmes distópicos, com uma vantagem: não é preciso computação gráfica. No país do futuro, o tempo é um eterno retorno: se o presente é um apartheid social, o futuro não deixa por menos – a “Vanguarda Cristã” tomou o poder e ameaça o sucesso das investigações. Filme sugerido pelo nosso leitor Paulo Pê.

terça-feira, setembro 18, 2018

Por que teledramaturgia da Globo está assombrada com o Tempo e a História?


Dois temas parecem assombrar a atual teledramaturgia da Globo: o Tempo (viagem no tempo, déjà vus, vidas passadas, reencarnações etc.) e a História (pastiches da Idade Média, releituras do Brasil do Império etc.). Algo que se distingue das tradicionais “novelas de época” que marcaram a história do gênero na TV brasileira. Nunca se verificou essa recorrência temática em tantas telenovelas, apresentadas simultaneamente ou em sequência nos diferentes horários. Sabe-se que em ano eleitoral o laboratório de feitiçarias semióticas da emissora funciona em tempo integral. O que essa recorrência pode significar dentro desse contexto? Nova bomba semiótica? Ou o sintoma do temor de uma emissora hegemônica que sabe da importância do atual cenário eleitoral? – é matar ou morrer. É o momento de entendermos a célebre afirmação de George Orwell: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”.

terça-feira, setembro 11, 2018

Zygmunt Bauman e o incêndio "líquido" do Museu Nacional


Conceito de Zygmunt Bauman, a “Modernidade Líquida” aqui no Brasil assume aspectos dramáticos, como um Projeto que deve ser colocado em prática a todo custo: a drenagem do Estado até a sua liquefação e a transformação em mero gestor de “fluxos”. Um sintoma foi o incêndio do Museu Nacional no Rio. Mas, principalmente, as notícias em torno do futuro do Museu: investigações com alta tecnologia e a possibilidade de imprimir réplicas em 3D a partir de fotos do patrimônio perdido. É notável que toda essa sofisticação não estivesse disponível para mantê-lo sólido e em pé. Só entrou em cena depois que o Museu desapareceu! A ideia de liquidez transformou-se em algo muito além de uma categoria econômica: virou uma espécie de “a priori” cognitivo, no qual não há sentimento de luto ou perda que poderiam promover crítica ou indignação. O pensamento “líquido” transforma catástrofes e tragédias como essas em vulgata ou banalidade: a tecnologia poderá trazer tudo de volta mesmo...

domingo, setembro 09, 2018

Em "O Futuro" o maior inimigo da geração dos "millennials" é o tempo


Numa época em que o trabalho, a cultura e a tecnologia liquefazem e precarizam nossas vidas na fluidez e instabilidade, os “millennials” tentam se agarrar nos destroços de uma suposta sabedoria do passado e nos gadgets, aplicativos e plataformas digitais do presente. Um presente que se torna eterno, pelo medo e ansiedade em relação ao futuro, porque nada parece durar por muito tempo. Mas um jovem casal decide adotar um gato, e acredita que tudo vai mudar. “O Futuro” (“The Future”, 2011) é uma fábula pós-moderna sobre tecnologia e o futuro da geração mais tecnologizada da História. Mas o medo do futuro e de compromissos, representado agora por um gato necessitando de intensivos cuidados veterinários, é tão paralisante que ameaça dissolver a vida conjugal pela mentalidade “líquida” da sua geração. Filme sugerido pelo nosso incansável leitor Felipe Resende.

sábado, julho 21, 2018

Pós-verdade e Fake News são notícias falsas para colocar jornalistas hipsters "na linha"


Diretores, presidentes e executivos da grande imprensa e associações jornalísticas, historicamente sempre avessos às “teorizações” da área acadêmica, de repente passaram a participar ativamente de congressos e simpósios sobre jornalismo investigativo, ciberjornalismo e jornalismo online. Para repercutirem não só junto a pesquisadores, mas também clientes, profissionais e líderes de opinião a já extensa lista de livros e artigos sobre o fenômeno da “pós-verdade” e das “fake news”. Para provar como a supremacia da verdade deixou de existir no debate público atual. E os vilões: Internet, blogs, redes sociais. Por que esse repentino esforço profissional-acadêmico para dar um ar de novidade a um fenômeno tão velho quanto a própria história do Jornalismo? A necessidade em dar verniz científico para noções retóricas de “pós-verdade” e “fake news” através de um velho macete de engenharia de opinião pública: publicação de artigos científicos e livros. Conferir verossimilhança a uma agenda que traz lucros para a grande mídia: transformar jornalismo investigativo em “checagem”, colocar os jornalistas hipsters “na linha”, sentados, sem ir a campo. E com desdobramentos mercadológicos: monopólio e censura da concorrência no mercado de notícias.

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