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sexta-feira, outubro 16, 2026

'Digger': "Perfure, baby, perfure" ou como fazer o público rir sem culpa



Vendido pelo marketing como um thriller catastrófico sobre os excessos da indústria do petróleo, “Digger” (2026) pega o público de surpresa ao explodir sua própria premissa logo no primeiro ato. Através de um recurso de “bait-and-switch” que expõe as entranhas do cinema e do teatro, o diretor Alejandro González Iñárritu transforma o mais novo sucesso de bilheteria em uma ácida farsa metalinguística sobre o "antropoceno". A provocação central não aponta o dedo apenas para os figurões da política ou da energia, mas para uma plateia acomodada que converteu o iminente colapso do planeta em mero entretenimento consumível. Fazer rir sem culpa, porque transformou a crise climática num produto cult de entretenimento.

Por que não paramos de perfurar?
A resposta é simples. Porque você não quer que eu pare!
No fundo, você quer que eu continue insistindo e produzindo. De onde? De onde?
Você quer dirigir com gasolina barata e deixar os faróis e o ar-condicionado ligados.
Você quer passagens baratas para Maiorca para torrar seu traseiro branco na sua rede.
Comer um hambúrguer enorme, receber lanches em casa,
Carregar o celular para passar horas no TikTok e no YouTube.
Você quer ter energia para fazer perguntas.
Inteligência artificial para corrigir os desastres que ela mesma provocou.
Você quer liberdade. Liberdade para se entregar ao conforto de uma vida insustentável.

(Digger Rockwell)

“Drill, baby, drill”, “Perfure, baby, perfure!”, exortou o então presidente recém-eleito Donald Trump para os convidados na sua festa de posse em Washington. Para jogar na cara do presidente derrotado Biden e toda a intelligentsia do Partido Democrata que culpa os combustíveis fósseis pelas mudanças climáticas, toda a sua indiferença pela questão do aquecimento global.

Por isso a figura caricata e histriônica de Trump virou a própria encarnação do negacionismo climático, o “meu malvado favorito” responsável por cada enchente, cada tornado, cada tempestade, secas e outros aspectos das mudanças climáticas do chamado “antropoceno”.

A busca por vilões e culpados é a própria essência da mídia corporativa: simplifica a realidade e tranquiliza o distinto público por identificar rapidamente os culpados. É o sedativo diário para reduzir a angústia diante de um mundo tão louco.

Alejandro Gonzaléz Iñarritu (Birdman, Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades) sabe disso, e por isso concebeu a “comédia de proporções catastróficas”, Digger (2026), cuja premissa crua é apresentada nos trailers: “Tom Cruise é Digger Rockwell, bilionário do petróleo arrogante que ignora especialistas e acaba provocando o deslocamento de uma placa de gelo colossal na Groenlândia, ameaçando inundar a Europa”.

Rapidamente o filme Digger estabeleceu-se como um dos artefatos cinematográficos mais polarizadores e ambiciosos do ano. O filme utiliza uma audaciosa manobra estrutural — um "bait-and-switch" narrativo — para subverter as expectativas do público logo em seu primeiro ato.

"Bait-and-switch": é um recurso de roteiro em que o público é levado a acreditar que uma história, um gênero, um personagem ou um desfecho será de um jeito (a isca), mas de repente é entregue algo totalmente diferente (a troca), subvertendo expectativas.

Pela premissa crua entregue no marketing do filme, tudo leva a crer que estaremos diante de mais um vilão negacionista da indústria do petróleo, cujo dinheiro, poder e indiferença colocará o planeta sob risco de extinção.

Digger Rockwell é um Elon Musk + petro-oligarca texano que explora petróleo no Ártico, amigo pessoal de um presidente histriônico (John Goodman) cercado de generais doidos para começar uma guerra nuclear, invadir a Groelândia e ferrar com os russos e chineses. Isso nos parece muito familiar... já vimos isso em algum lugar...

Mas a linha de diálogo que abre esse texto revela a essência desse “bait-and-switch" que Iñarritu joga para o público. Diante de um parlamento europeu hostil, culpando-o pela catástrofe climática europeia provocada por ele. Digger dispara: no fundo ninguém quer que a indústria do petróleo pare de perfurar. Para manter um estilo de vida insustentável - a sociedade de consumo com seus carros, ar-condicionado e muita energia para sustentar um estilo de vida em torno de gadgets eletrônicos.



Iñarritu não pretende entregar uma comédia previsível na qual nos divertimos com um vilão caricatural e a nossa risada se transforma numa racionalização da boa consciência - afinal, rimos porque sabemos sobre as causas das mudanças climáticas. Não somos negacionistas!

Não, Digger entrega uma audaciosa virada metalinguística, a quebra da quarta parede e a farsa logo na primeira meia hora do filme.

Iñárritu não está só satirizando bilionários. Ele está satirizando a nós, que transformamos o colapso climático em conteúdo de entretenimento.

O Filme

O filme começa como um thriller ecológico de alta tensão: Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um magnata do petróleo cuja exploração predatória na Groenlândia desencadeia o rompimento de uma plataforma de gelo colossal, ameaçando o mundo com inundações catastróficas.

O gigantesco bloco de gelo de milhares de quilômetros se desloca para a Europa, projetando cenários catastróficos como tisunamis, enchentes e destruição econômica.



Vivendo isolado em uma imensa mansão, Digger está mais precopao com a saúde do seu gato do que com as dezenas de e-mails não abertos e ligações telefônicas não atendidas que tentam alertá-lo. Até receber a visita do desesperado Ganesh (Riz Ahmed), diretor ambiental da petrolífera de Digger, com as notícias alarmantes.

Digger tem muitos pontos em comum com Não Olhe Para Cima, que satiriza a mesma realidade. A grande diferença é que Digger possui um lado mais dramático, fazendo uso da metalinguagem para tecer um poderoso comentário sobre como a humanidade é capaz de processar tragédias. 

No entanto, após cerca de trinta minutos, o cenário se desfaz literalmente: uma árvore cai de forma artificial, operários de palco entram em cena com miniaturas e projeções, e revela-se que tudo não passa de uma peça de teatro futurista intitulada Fossil Fools, encenada em um mundo pós-apocalíptico. Cruise não é o bilionário, mas Curtis Markson, um ator veterano lutando para ensaiar o papel.



A desconstrução do bode expiatório – Alerta de Spoilers

Temos uma sátira dentro da sátira. O twist estrutural, revelado com 30 minutos: tudo que assistimos até então foi um ensaio de uma peça em que o personagem-título do filme também é, metalinguisticamente, um personagem dentro do próprio filme.

O Digger que conhecemos, assim como os outros personagens que entraram e saíram de cena no primeiro ato, são parte do elenco de uma grande peça que remonta o passo-a-passo que culminou no colapso da sociedade como a conhecemos.

O filme constrói uma narrativa que desconstrói convenções do cinema para criar uma espécie de peça teatral gigantesca, que mistura ficção, documentário, cinema e metalinguagem. 



Na prática, estamos num futuro distópico assistindo a uma peça teatral chamada "Fossil Fools" sobre o nosso presente. É uma fábula de futuro pregresso. Nesse futuro uma montagem teatral está encenando o passado, que é o nosso agora, como revisionismo. A arte está tentando entender como deixamos o mundo colapsar, e ao fazer isso, ela mesma distorce, suaviza e glamouriza.

Digger reflete um mundo onde a própria catástrofe climática e o colapso civilizacional foram digeridos como entretenimento de massa, feeds de notícias polarizados e "conteúdo".

A peça Fossil Fools dentro da história é um produto cultural voltado para uma sociedade que consome sua própria destruição como espetáculo cult.

Com esse plot twist metalinguístico, o filme desconstrói a obsessão midiática contemporânea por encontrar "bodes expiatórios" individuais para crises globais. Ao revelar que o bilionário é apenas um papel representado por um ator em uma farsa aplaudida por uma plateia de privilegiados, o filme aponta o dedo para a cumplicidade coletiva do sistema de consumo tardio, onde todos participam e aplaudem a máquina que os consome.

No fim, o propósito metalinguístico de Digger não é ser esperto. É nos encurralar. Iñárritu usa a metalinguagem não para dizer “olha como o cinema é artificial”, mas para dizer “olha como vocês precisam que tudo seja artificial para aguentar a realidade”.

É por isso que ele incomoda. Ele não quer que você saia do cinema pensando “bilionários são maus”. Ele quer que você saia pensando “eu acabei de me divertir vendo o mundo acabar, e paguei IMAX por isso”.


 

Ficha Técnica


Título: Digger

Diretor: Alejandro G. Iñarritu

Roteiro: Alejandro G. Iñarritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone

Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman

Produção: Legendary Pictures

Distribuição: Warner Bros Pictures

Ano: 2026

País:  EUA

 

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sábado, setembro 26, 2026

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sexta-feira, agosto 21, 2026

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terça-feira, março 31, 2026

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O documentário Netflix “Louis Theroux: Por dentro da Machosfera” (Louis Theroux: Inside the Manosphere, 2026), revela um ecossistema digital que é, ao mesmo tempo, um refúgio de ressentimento e um laboratório de novas formas de dominação. Para entender a profundidade desse fenômeno, a chave não está apenas no machismo clássico, mas em como ele se funde à pós-meritocracia do novo ecossistema digital neoliberal. Esqueça o patriarca conservador de eras vitorianas ou o "macho provedor" do século XX. O que habita as profundezas do ecossistema digital atual não é o velho machismo de nossos avós, mas uma mutação futurista, cínica e profundamente ressentida. No documentário, o jornalista britânico Louis Theroux mergulha em uma subcultura de influenciadores red pill e incels para revelar que a misoginia contemporânea é, na verdade, um "Machismo Zumbi".

sexta-feira, dezembro 19, 2025

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Dizem que ninguém jamais retornou do "Grande Além" para contar a história, mas o cinema nunca precisou de testemunhas para colonizar o pós-morte com nossas próprias angústias. Sob a ótica da Cinetanatologia — o estudo das representações do além como sismógrafos do mundo dos vivos —, as telas revelam que o Céu e o Inferno dizem menos sobre os mortos e muito mais sobre as crises de quem fica. Em seu novo filme, "Eternidade" (2025), o diretor David Freyne leva essa premissa ao limite: ao transformar o luto em um gigantesco centro de convenções e a salvação da alma em um serviço de assinatura, a obra deixa de ser apenas um drama romântico para se tornar um comentário ácido sobre a plataformização da existência e a tirania das escolhas irreversíveis no século XXI. O cinema sempre usou o “Além” para falar do “aqui”.

quinta-feira, novembro 13, 2025

A positividade tóxica da cultura da felicidade na série 'Pluribus'



Vivemos sob o peso de uma contradição moderna: o mundo parece à beira do colapso, mas somos implacavelmente ordenados a "ser felizes". Entre o apocalipse climático e o imperativo da cultura coaching, essa busca frenética pela positividade ameaça nos tornar indiferentes e acríticos. É exatamente essa distopia da "adaptação feliz" que a nova série da Apple TV+, “Pluribus” (2025-), explora, transformando a felicidade compulsória em uma aterrorizante invasão alienígena. Após duas décadas imerso na angústia moral de Breaking Bad e Better Call Saul, Vince Gilligan retorna à TV com “Pluribus”, uma série que troca o crime pela ficção científica. No entanto, o verdadeiro terror não vem de monstros, mas da própria felicidade — uma "mente colmeia" de origem alienígena que pacifica a humanidade. A série funciona como uma crítica afiada ao nosso zeitgeist de positividade tóxica, questionando o que realmente significa ser humano quando a dor e o conflito são erradicados.

sábado, novembro 08, 2025

O Capitalismo não é bom nem mau. Apenas perversamente funciona em 'O Mal Não Existe'



O que a eleição de Zohran Mamdani, o primeiro prefeito muçulmano de Nova York, rotulado de "socialista" por sua oposição a Trump, tem em comum com “O Mal Não Existe” (Aku wa sonzai shina, 2023, filme disponível na MUBI), o novo e perturbador filme do japonês Ryusuke Hamaguchi? Ambos os eventos, um político e um diretor de cinema, servem para expor a insuficiência da visão americana que reduz o capitalismo a um problema moral—uma luta entre ricos "bons" e ricos "maus". O filme de Hamaguchi, no entanto, leva essa discussão ao campo ecológico, dinamitando a ideia de "Bem vs. Mal" para sugerir que o verdadeiro perigo não está nas intenções dos agentes, mas na perturbação de sistemas que, como a natureza ou a economia, são fundamentalmente amorais e cegos. O que começa como uma parábola ecológica comum (um empreendimento para milionários que interfere numa idílica vila rural) termina mostrando que o Capitalismo não é bom e nem mau: ele apenas perversamente funciona.

quarta-feira, novembro 05, 2025

O dilema Lei vs. Moral da Justiça no fim do mundo em 'Kontinental '25'


Depois de explorar o apocalipse silencioso da precarização do trabalho em Não Espere Muito do Fim do Mundo (2023), o diretor romeno Radu Jude retorna ao tema em sua nova comédia de humor negro, Kontinental ’25 (2025). Desta vez, a sátira foca na normalização da gentrificação e da desigualdade na Romênia pós-socialista, acompanhando a crise moral de Orsolya, uma oficial de justiça que testemunha o suicídio de um homem durante uma ação de despejo que ela própria executava. O incidente lança a protagonista numa espiral de culpa, forçando-a a confrontar sua cumplicidade em um sistema difuso e sem rosto, fundado no dilema entre Lei e Moralidade.

sábado, outubro 11, 2025

Filme 'Goat' transforma protofascismo do futebol americano em conto de terror



Um jovem e promissor jogador de futebol americano enfrenta uma semana intensa de treinamentos sob a orientação de seu ídolo, um carismático quarterback que está perto de se aposentar. É possível retirar um conto de terror dessa sinopse? O filme “Goat” (Him, 2025), de Justin Tipping, consegue. Jordan Peele se interessou em produzir esse projeto pela existência de uma lacuna cinematográfica sobre a temática do terror em esportes profissionais. E Peele e Tipping compartilham de uma visão ultracrítica sobre o futebol americano. O slogan promocional de “Goat” (“A Grandeza Exige Sacrifício”) revela a ironia crítica: a conversão do esporte como entretenimento pedagógico para as massas: a celebração da educação pela dor como princípio de uma concepção fascista de vida. Apesar do filme tender para um terror gonzo e slasher que lembra “A Substância”, o filme didaticamente revela os nove traços da personalidade fascista que Theodor Adorno descreveu nos “Estudos Sobre a Personalidade Autoritária”.

sexta-feira, setembro 19, 2025

O novíssimo gótico americano hiper-real no filme 'Holland'

 


Há um fenômeno curioso no Meio-Oeste americano, a chamada “América Profunda”: a criação de enclaves temáticos que buscam replicar um ideal europeu higienizado – de cidades com nomes de capitais europeias a parques temáticos. Uma nação com uma relação mal resolvida com sua própria identidade. Elas representam uma fuga da complexidade e da violência da história americana em direção a um passado europeu imaginado, um simulacro de autenticidade. A produção Prime Video, “Holland” (2025), dirigido por Mimi Cave, é um exemplo de história sobre “segredos por trás de cercas de madeira”. Ambientada em Holland (Michigan), uma cidade que emula paisagens holandesas hiper-reais com festivais de tulipas e réplicas de moinhos de vento e vilarejos europeus, oculta adultério e crimes em série. É o novíssimo gótico americano: a verdadeira arquitetura do horror não reside em porões escuros ou figuras monstruosas, mas na precisão milimétrica de uma maquete e na fachada de tulipas de uma "América Profunda" que sonha em ser Europa.

terça-feira, julho 29, 2025

Morango do Amor é o amor da Sociedade do Cansaço


Lá em 2015, o hype da gourmetização invadiu festas juninas, com suas “releituras” dos “clássicos” populares, dentro da retórica do “artesanal” e do “rústico”. Era a época da guerra híbrida pré-impeachment, uma reação a ascensão da classe C. Dez anos depois acompanhamos um hype ainda mais radical: sai a maçã, entra o morango do amor!  Vídeos ensinando a receita, provando o doce e até memes sobre o assunto somam milhões de visualizações no Instagram e no TikTok. Nova releitura de um clássico popular? Só que dessa vez menos um movimento de guerra híbrida e muito mais um sismógrafo do zeitgeist do século XXI:  a Sociedade do Cansaço – a representação instagramável do amor na qual a maçã (o fruto mais carregado de simbolismos do Ocidente) é substituído pelo morango. A encenação intensiva do eu chega ao amor, mas com uma dinâmica psíquica carregada de simbolismos: o simbolismo do fruto, a natureza da cobertura, o ato de consumo e a fantasia de amor subjacente. Encenar o amor cansa!

sexta-feira, julho 25, 2025

O brutal cinema sul-coreano da luta de classes em 'Meus 84 m2'

 


O cinema e audiovisual sul-coreano é brutal: conta histórias de vinganças numa sociedade marcada pelo abismo social e movida a ressentimento e humilhação. Com uma cultura que reflete a rápida ocidentalização com o K-Pop e a neopentecostalização. A produção Netflix da Coréia do Sul “Meus 84 m2” (84 Jegopmeteo, 2025) é mais um filme de uma extensa lista dessas histórias sobre luta de classes.  Trabalhando como assistente de gerente em algum labirinto corporativo, um jovem investe todas as suas economias para comprar um pequeno apartamento no Centro de Seul, símbolo do sucesso da classe média. Três anos depois, ele está um caco, afogado em dívidas, fazendo malabarismos com empregos precarizaods, ignorado pelos bancos e caindo em um golpe de criptomoedas. Até descobrir que as paredes guardam ruídos perturbadores, vizinhos hostis e segredos inquietantes.

quinta-feira, julho 17, 2025

Turismo e os dejetos humanos e da civilização no documentário 'Desastre Total: Cruzeiro do Cocô'

 


A indústria do turismo promete para seus clientes experiências renovadoras, alegria, aventura e diversão. Para fugirem de suas rotinas cinzentas. Mas às vezes descobrimos, da pior maneira possível, que não importa o quão distante nós vamos. Carregamos conosco as mazelas da civilização. É o que nos revela o documentário Netflix “Desastre Total: Cruzeiro do Cocô” (Trainwreck: Poop Cruise, 2025): em 2013 um navio de cruzeiro (com mais de 4 mil pessoas e treze andares) ficou sem energia após um incêndio na casa das máquinas. À deriva no Golfo do México, estarrecidos, passageiros e tripulantes viram excrementos humanos tomando corredores e escorrendo paredes abaixo: sem energia, simplesmente o sistema de esgotos deixou de funcionar. De repente, o navio de cruzeiro virou o microcosmo de tudo aquilo do qual queremos fugir viajando: dos excrementos, sejam humanos ou sociais – lixo, pobreza ou, simplesmente, o outro. Até a mídia descobrir e tudo virar um show de horrores sensacionalistas e uma catástrofe de relações públicas.

quinta-feira, dezembro 12, 2024

O espírito do Natal é duro de matar em 'Noite Infeliz'


Esses são os filmes que fazem a síntese do que chamamos “espírito do Natal”: as reprises de “Esqueceram de Mim” e as inúmeras adaptações da obra de Charles Dickens “Christmas Carol”. O Mal tentando invadir o lar e o Natal como oportunidade para fazermos uma reforma íntima moral. E tudo isso costurado pela figura aparentemente a-histórica do Papai Noel. O filme “Noite Infeliz” (Violent Night, 2022) junta tudo isso, acrescentando referência ao clássico “Duro de Matar” – um grupo de mercenários ataca a mansão de uma família rica justamente quando Papai Noel está entregando presentes. Ele terá que agir para salvar a noite de Natal – com uma marreta nas mãos. Aproximar a figura do bom velhinho da comédia “gore” talvez seja a coisa mais verdadeira do Natal: Papai Noel é descendente de uma longa linha de soturnos, sujos e peludos deuses remanescentes da era pré-cristã.

quinta-feira, setembro 19, 2024

'Os Fantasmas Ainda se Divertem': como Tim Burton transforma o Gótico em entretenimento


Assim como as animações da Walt Disney, Tim Burton tem a habilidade de transformar temas sombrios em entretenimento. Se em Walt Disney são os temas do abandono e separação, no caso de Tim Burton seus filmes transformam o Gótico americano de Edgard Allan Poe e Herman Melville em diversão para que o sonho americano dê risadas de si mesmo. Em “Os Fantasmas Ainda se Divertem” (Beetlejuice Beetlejuice, 2024), Burton retorna aos seus efeitos práticos e brinquedos analógicos para levar o Estranho, o Fantástico e o Sobrenatural para a típica família suburbana disfuncional: se no primeiro filme de 36 anos atrás a protagonista era a filha adolescente melancólica e depressiva, agora temos uma nova filha adolescente – também melancólica e depressiva, mas dessa vez pela ausência materna. Supostamente, a mãe prefere mais os fantasmas aos vivos. E Michael Keaton retorna sensacional ao rançoso e rabugento demônio, convidado a voltar ao mundo dos vivos exatamente pela disfuncionalidade do sonho americano.

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