sábado, outubro 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre o esgar irônico e a piada lacradora: a participação
de Flávio Bolsonaro no debate da TV Globo nessa última sexta-feira expôs a
fenda aberta entre a comunicação verbal e a não-verbal. Contudo, mais
intrigante do que o próprio déficit comunicacional do candidato é a capacidade
da grande mídia de anestesiar o público e hipernormalizar a farsa, alçando ao
centro da disputa uma figura que desmoronaria sem o amparo do ecossistema
midiático composto pelos cortes das redes e o imparcialismo cênico do jornalismo
corporativo. Para compreender essa anestesia coletiva e a mecânica por trás do
espetáculo, convém recorrer ao neurologista Oliver Sacks e fazer um experimento imaginário sobre como a mente decodifica a mentira política: extrapolar as conclusões que Sacks chegou em um hospital neurológico e aplicá-las ao debate da Globo.
sexta-feira, outubro 16, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Vendido pelo
marketing como um thriller catastrófico sobre os excessos da indústria do
petróleo, “Digger” (2026) pega o público de surpresa ao explodir sua própria
premissa logo no primeiro ato. Através de um recurso de “bait-and-switch” que
expõe as entranhas do cinema e do teatro, o diretor Alejandro González Iñárritu
transforma o mais novo sucesso de bilheteria em uma ácida farsa metalinguística
sobre o "antropoceno". A provocação central não aponta o dedo apenas
para os figurões da política ou da energia, mas para uma plateia acomodada que
converteu o iminente colapso do planeta em mero entretenimento consumível. Fazer rir sem culpa, porque transformou a crise climática num produto cult de entretenimento.
Por
que não paramos de perfurar?
A resposta é simples. Porque você não quer que eu pare!
No fundo, você quer que eu continue insistindo e produzindo. De onde? De onde?
Você quer dirigir com gasolina barata e deixar os faróis e o ar-condicionado
ligados.
Você quer passagens baratas para Maiorca para torrar seu traseiro branco na sua
rede.
Comer um hambúrguer enorme, receber lanches em casa,
Carregar o celular para passar horas no TikTok e no YouTube.
Você quer ter energia para fazer perguntas.
Inteligência artificial para corrigir os desastres que ela mesma provocou.
Você quer liberdade. Liberdade para se entregar ao conforto de uma vida
insustentável.
(Digger
Rockwell)
“Drill, baby,
drill”, “Perfure, baby, perfure!”, exortou o então presidente recém-eleito
Donald Trump para os convidados na sua festa de posse em Washington. Para jogar
na cara do presidente derrotado Biden e toda a intelligentsia do Partido
Democrata que culpa os combustíveis fósseis pelas mudanças climáticas, toda a
sua indiferença pela questão do aquecimento global.
Por isso a
figura caricata e histriônica de Trump virou a própria encarnação do
negacionismo climático, o “meu malvado favorito” responsável por cada enchente,
cada tornado, cada tempestade, secas e outros aspectos das mudanças climáticas
do chamado “antropoceno”.
A busca por
vilões e culpados é a própria essência da mídia corporativa: simplifica a
realidade e tranquiliza o distinto público por identificar rapidamente os
culpados. É o sedativo diário para reduzir a angústia diante de um mundo tão
louco.
Alejandro Gonzaléz
Iñarritu (Birdman, Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades) sabe disso,
e por isso concebeu a “comédia de proporções catastróficas”, Digger
(2026), cuja premissa crua é apresentada nos trailers: “Tom Cruise é Digger
Rockwell, bilionário do petróleo arrogante que ignora especialistas e acaba
provocando o deslocamento de uma placa de gelo colossal na Groenlândia,
ameaçando inundar a Europa”.
Rapidamente o
filme Digger estabeleceu-se como um dos artefatos cinematográficos mais
polarizadores e ambiciosos do ano. O filme utiliza uma audaciosa manobra
estrutural — um "bait-and-switch" narrativo — para subverter as
expectativas do público logo em seu primeiro ato.
"Bait-and-switch":
é um recurso de roteiro em que o público é levado a acreditar que uma história,
um gênero, um personagem ou um desfecho será de um jeito (a isca), mas de
repente é entregue algo totalmente diferente (a troca), subvertendo
expectativas.
Pela premissa
crua entregue no marketing do filme, tudo leva a crer que estaremos diante de
mais um vilão negacionista da indústria do petróleo, cujo dinheiro, poder e
indiferença colocará o planeta sob risco de extinção.
Digger
Rockwell é um Elon Musk + petro-oligarca texano que explora petróleo no Ártico,
amigo pessoal de um presidente histriônico (John Goodman) cercado de generais
doidos para começar uma guerra nuclear, invadir a Groelândia e ferrar com os
russos e chineses. Isso nos parece muito familiar... já vimos isso em algum
lugar...
Mas a linha
de diálogo que abre esse texto revela a essência desse “bait-and-switch"
que Iñarritu joga para o público. Diante de um parlamento europeu hostil,
culpando-o pela catástrofe climática europeia provocada por ele. Digger
dispara: no fundo ninguém quer que a indústria do petróleo pare de perfurar.
Para manter um estilo de vida insustentável - a sociedade de consumo com seus
carros, ar-condicionado e muita energia para sustentar um estilo de vida em
torno de gadgets eletrônicos.
Iñarritu não
pretende entregar uma comédia previsível na qual nos divertimos com um vilão
caricatural e a nossa risada se transforma numa racionalização da boa
consciência - afinal, rimos porque sabemos sobre as causas das mudanças
climáticas. Não somos negacionistas!
Não, Digger
entrega uma audaciosa virada metalinguística, a quebra da quarta parede e a
farsa logo na primeira meia hora do filme.
Iñárritu não
está só satirizando bilionários. Ele está satirizando a nós, que transformamos
o colapso climático em conteúdo de entretenimento.
O Filme
O filme
começa como um thriller ecológico de alta tensão: Tom Cruise interpreta Digger
Rockwell, um magnata do petróleo cuja exploração predatória na Groenlândia
desencadeia o rompimento de uma plataforma de gelo colossal, ameaçando o mundo
com inundações catastróficas.
O gigantesco
bloco de gelo de milhares de quilômetros se desloca para a Europa, projetando
cenários catastróficos como tisunamis, enchentes e destruição econômica.
Vivendo
isolado em uma imensa mansão, Digger está mais precopao com a saúde do seu gato
do que com as dezenas de e-mails não abertos e ligações telefônicas não
atendidas que tentam alertá-lo. Até receber a visita do desesperado Ganesh (Riz
Ahmed), diretor ambiental da petrolífera de Digger, com as notícias alarmantes.
Digger tem muitos
pontos em comum com Não Olhe Para Cima, que satiriza a mesma realidade.
A grande diferença é que Digger possui um lado mais dramático, fazendo uso da
metalinguagem para tecer um poderoso comentário sobre como a humanidade é capaz
de processar tragédias.
No entanto,
após cerca de trinta minutos, o cenário se desfaz literalmente: uma árvore cai
de forma artificial, operários de palco entram em cena com miniaturas e
projeções, e revela-se que tudo não passa de uma peça de teatro futurista
intitulada Fossil Fools, encenada em um mundo pós-apocalíptico. Cruise
não é o bilionário, mas Curtis Markson, um ator veterano lutando para ensaiar o
papel.
A
desconstrução do bode expiatório – Alerta de
Spoilers
Temos uma
sátira dentro da sátira. O twist estrutural, revelado com 30 minutos: tudo que
assistimos até então foi um ensaio de uma peça em que o personagem-título do
filme também é, metalinguisticamente, um personagem dentro do próprio filme.
O Digger que
conhecemos, assim como os outros personagens que entraram e saíram de cena no
primeiro ato, são parte do elenco de uma grande peça que remonta o
passo-a-passo que culminou no colapso da sociedade como a conhecemos.
O filme
constrói uma narrativa que desconstrói convenções do cinema para criar uma
espécie de peça teatral gigantesca, que mistura ficção, documentário, cinema e
metalinguagem.
Na prática, estamos
num futuro distópico assistindo a uma peça teatral chamada "Fossil Fools" sobre o nosso presente. É uma
fábula de futuro pregresso. Nesse futuro uma montagem teatral está encenando o
passado, que é o nosso agora, como revisionismo. A arte está tentando entender
como deixamos o mundo colapsar, e ao fazer isso, ela mesma distorce, suaviza e
glamouriza.
Digger reflete um
mundo onde a própria catástrofe climática e o colapso civilizacional foram
digeridos como entretenimento de massa, feeds de notícias polarizados e
"conteúdo".
A peça Fossil
Fools dentro da história é um produto cultural voltado para uma sociedade
que consome sua própria destruição como espetáculo cult.
Com esse plot
twist metalinguístico, o filme desconstrói a obsessão midiática contemporânea
por encontrar "bodes expiatórios" individuais para crises globais. Ao
revelar que o bilionário é apenas um papel representado por um ator em uma
farsa aplaudida por uma plateia de privilegiados, o filme aponta o dedo para a
cumplicidade coletiva do sistema de consumo tardio, onde todos participam e
aplaudem a máquina que os consome.
No fim, o
propósito metalinguístico de Digger não é ser esperto. É nos encurralar.
Iñárritu usa a metalinguagem não para dizer “olha como o cinema é artificial”,
mas para dizer “olha como vocês precisam que tudo seja artificial para aguentar
a realidade”.
É por isso
que ele incomoda. Ele não quer que você saia do cinema pensando “bilionários
são maus”. Ele quer que você saia pensando “eu acabei de me divertir vendo o
mundo acabar, e paguei IMAX por isso”.
Ficha Técnica
Título: Digger
Diretor: Alejandro G. Iñarritu
Roteiro: Alejandro G. Iñarritu, Alexander Dinelaris,
Nicolás Giacobone
segunda-feira, outubro 05, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Paralisada entre a negação e a barganha enquanto assiste ao avanço
avassalador da extrema-direita no Congresso e à ameaça real de um desastre
eleitoral no segundo turno, a "constelação de progressismos"
brasileira enfrenta sua maior crise de identidade. Cooptada pelo neoliberalismo
progressista, viciada na estética do engajamento algorítmico e sucessivamente
capturada pela armadilha do pânico moral — onde trocou a crítica material ao
capitalismo pelo policiamento comportamental de rede e pelo sensacionalismo
moralista —, a esquerda perdeu o chão da fábrica, a periferia e a linguagem da
classe trabalhadora. Diante do colapso das ilusões de conciliação e do
doisladismo da mídia corporativa, não há atalho em frentes amplas ou peças
publicitárias: para estancar a própria irrelevância e reconstruir um projeto de
poder popular, a esquerda precisa parar de barganhar com a realidade e descer
no abismo para encontrar a si mesma.
sábado, outubro 03, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O inédito cancelamento do debate presidencial na TV Globo, sob a
justificativa de “insegurança jurídica”, revelou o espetacular tiro pela
culatra de uma operação semiótica frustrada: o plano da emissora de blindar
Flávio Bolsonaro ao tentar excluir Renan Santos do estúdio, evitando a sangria
de votos da direita para forçar um segundo turno e desidratar a ameaça de uma
vitória de Lula logo no primeiro turno. Ao ver sua arquitetura ruir com a
liminar de Gilmar Mendes autorizando a presença do candidato do Missão, a
emissora foi confrontada com a debandada de Flávio e a ausência do petista —
resultando em estúdios vazios no Projac, comentaristas constrangidos em
transmissão ao vivo e na demonstração definitiva de que a velha hegemonia
analógica da "bala de prata" perdeu a capacidade de ditar os rumos do jogo político.
sexta-feira, setembro 25, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ao
classificar a ingerência geopolítica dos Estados Unidos na América Latina como
um mero "olhar de Trump", o jornalismo corporativo expõe o paroxismo
de uma nova engenharia de comunicação: o "doisladismo". Ao
substituir a histórica expressividade inflamada dos apresentadores dos anos do
"jornalismo de guerra" por uma rigorosa estética de “Poker Face”, os
telejornais abandonam a indução de pânico para adotar uma frieza retórica. A
manobra desidrata conflitos assimétricos, reduz ameaças soberanas a
"divergências de opinião" e constrói uma falsa equivalência que, sob
o disfarce da neutralidade, atua como uma eficaz tecnologia de manutenção do status
quo. O grau zero do Jornalismo.
sábado, setembro 05, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Muito além da
infantilização de uma classe média viciada em produzir conteúdo para as redes
sociais, o caso do garoto corintiano
hostilizado por pedir a camiseta de Neymar expõe o curto-circuito definitivo do
futebol brasileiro contemporâneo. É a colisão frontal entre dois mundos
irreconciliáveis: de um lado, a "arenização" neoliberal que converte
o estádio em um não-lugar asséptico para clientes em busca de validação
digital; do outro, a resistência trágica do torcedor ritualístico, para quem o
gramado continua sendo um templo sagrado de pertencimento e identidade tribal
onde a lógica do "consumidor que tem sempre razão" não se aplica. De um lado, o novo torcedor das arenas instagramáveis; do outro, a resistência do futebol ritualístico em vias de extinção.
sábado, agosto 22, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A recente
onda de manchetes sobre o filho do presidente Lula expõe a engrenagem central
da comunicação política contemporânea no Brasil: a fabricação de "pânicos
morais" por meio de bombas semióticas. Favorecidas pelo encurtamento do
tempo de campanha eleitoral — reduzido de 90 para 45 dias desde a Reforma de
2015 —, essas operações trocam a persuasão programática pelo impacto afetivo
imediato, tirando proveito da aceleração algorítmica e da impossibilidade de
resposta racional em janelas temporais tão comprimidas. Por que a “Festa da
Democracia” ficou com um tempo tão reduzido? Para criar o ecossistema
informacional perfeito para repercutir a detonação das bombas semióticas.
segunda-feira, agosto 10, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O distinto leitor já reparou em quem realmente segura a batuta da
política brasileira em ano de eleição? Não são os partidos, os programas de
governo ou o debate eleitoral, mas a engrenagem de um "Deep State" à brasileira. Da efêmera cobertura midiática sobre as conexões do PCC na Faria Lima ao
bombardeio diário de vazamentos seletivos envolvendo do filho de Lula ao clã
Bolsonaro, a burocracia do Estado deixou a neutralidade weberiana no papel para
assumir o controle do timing político do país. Através do uso estratégico de
operações policiais, timing judicial e uma simbiose calculada com a imprensa, o
estamento burocrático transformou-se no principal ator do jogo democrático. E a crise entre o ministro André Mendonça e o STF seria a confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State brasileiro.
quinta-feira, julho 30, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A
previsão do tempo deixou de ser um aviso cotidiano sobre levar ou não o
guarda-chuva para se converter em um boletim de sobrevivência saturado de
alertas vermelhos. No entanto, por trás do espetáculo diário das tempestades e
vendavais na grande mídia, opera uma sutil substituição de causalidade: a troca
do “Capitaloceno” pelo “Antropoceno”. Ao enquadrar a crise como fruto do Antropoceno
— uma narrativa de "culpa coletiva" que responsabiliza genericamente
a espécie humana —, a bomba semiótica do pânico climático transforma o colapso
em fatalidade e oculta a verdadeira engrenagem do problema. Trata-se da lógica
do Capitaloceno na periferia global: um modelo socioeconômico extrativista primário-exportador movido
pela expansão do agronegócio sobre o Cerrado e a Amazônia, pela mercantilização
do solo e pela entrega de serviços urbanos essenciais ao lucro privado.
terça-feira, julho 21, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
No
último domingo (19), a Folha de S.Paulo estampava em sua primeira página que o
movimento político de Michelle Bolsonaro prometia ser "imparável". A
absorção literal e desprovida de ironia de uma hipérbole bolsonarista pelo
relato jornalístico é a ponta de um iceberg linguístico profundo. De um lado, a
"bolsonarização"do jornalismo contaminou a cobertura de
Brasília com o jargão da caserna — onde acordos viram "situações
pacificadas" e parlamentares viram "tropas de choque". Do outro,
a "onguização"da linguagem higienizou o debate social,
substituindo denúncias de exploração por eufemismos burocráticos. Embora venham
de polos opostos, ambos os fenômenos erodem a esfera pública ao desarmar a
denúncia das desigualdades na base e transformar a política institucional do
topo em um mero campo de batalha cognitivo.
terça-feira, julho 14, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Quando
a mesa-redonda do SporTV mobilizou seus analistas para decifrar a semântica
exata do "tu, finish" dito por Jorge Jesus a Neymar, o que parecia
apenas preciosismo retórico revelou a engrenagem de uma sofisticada operação de
controle de danos. Após a eliminação traumática do Brasil para a Noruega, a
mídia esportiva corporativa colocou em campo uma verdadeira bomba semiótica
de dispersão e contenção. Sob o pretexto de debater o destino do craque ou
denunciar complôs externos (“VARgentina”), o malabarismo midiático opera para
um fim muito específico: blindar a cúpula da CBF e salvaguardar o modelo
extrativista — o "agronegócio da bola" — que esvazia a identidade
nacional em nome do lucro imediato, convertendo o colapso estrutural do nosso
futebol em um melodrama pop anestésico.
sexta-feira, julho 10, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Já está disponível no YouTube e no Spotify a 13ª edição do Clipando, o clipping comentado e apresentado por este humilde blogueiro para o Sinpro Santos, que traz uma curadoria das notícias mais relevantes para a área da Educação. O programa tem como objetivo enriquecer a formação docente, oferecendo repertório, insights para a sala de aula e reflexões profundas sobre os impactos sociais no cotidiano escolar. Nesta edição, os grandes destaques ficam por conta de uma entrevista exclusiva com a Dra. Madalena Guasco sobre o novo marco regulatório do EaD, os resultados práticos da proibição do celular nas escolas após um ano de implementação e o debate sobre como o letramento midiático pode combater o avanço das apostas online entre os jovens.
sábado, julho 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto
os olhos do país se voltam para os gramados da Copa do Mundo, o Corinthians
selou nos bastidores um polêmico contrato de R$ 22 milhões com a Fatal Fans,
braço da maior plataforma de anúncios de acompanhantes do Brasil. O anúncio,
estrategicamente amortecido pelo frenesi do torneio mundial, encerra semanas de
crises internas, protestos de conselheiros e reuniões de emergência com o
emblemático elenco feminino das "Brabas". Longe de ser apenas uma
jogada de marketing esportivo, o acordo surge como o sintoma definitivo de uma
transformação estrutural do século XXI: a era do capitalismo de plataforma,
onde a moral tradicional é neutralizada pelo pragmatismo financeiro, o corpo
passa pelo processo de "uberização" e as pautas de emancipação social
são precificadas e absorvidas pela lógica implacável da performance.
sábado, junho 27, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto
a imprensa tradicional e a oposição celebram o suposto “fogo no parquinho” e a
ruína iminente do clã Bolsonaro a partir do recente vídeo de Michelle
Bolsonaro, os bastidores da guerra cultural revelam uma realidade oposta. Longe
de ser um racha autodestrutivo, o desabafo público da ex-primeira-dama opera
como uma sofisticada "bomba semiótica": uma engenharia de comunicação
baseada em táticas da alt-right que utiliza o excesso de ruído (flood the zone),
o sequestro da narrativa de gênero e cenários milimetricamente codificados para
neutralizar investigações judiciais, fisgar a oposição em análises infinitas e
pavimentar o caminho de Michelle rumo ao eleitorado de centro.
sexta-feira, junho 19, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Duas
mortes por dia. O trágico balanço do trânsito paulistano apresentado pelo telejornal da TV Globo "Bom
Dia SP" acendeu o alerta para o que a mídia convencionou chamar de
"violência no trânsito". Mas o que parece ser um endurecimento do
termo para chocar o espectador esconde, na verdade, uma sutil e perversa
armadilha linguística. Ao focar a busca por soluções no comportamento do
motorista ("o que cada um pode fazer?"), a narrativa esvazia a
responsabilidade histórica do planejamento urbano focado no automóvel e na
privatização do espaço pública. Trata-se da estetização de um fenômeno maior: a
onguização e a moralização da linguagem que, ao poupar o capital da culpa pela
miséria, pelo burnout e pela morte, entrega de bandeja o palanque perfeito para
o punitivismo e o pânico moral da extrema-direita.
quinta-feira, junho 11, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A extrema
direita digital pode estar morrendo pela boca de seus próprios algoritmos. No
início de mais uma corrida eleitoral, analistas repetem o pavor burocrático
diante do "apocalipse da IA" e das fake news, sem notar que o sistema
de desinformação da alt-right ficou gordo demais para andar. O diagnóstico
atende pelo conceito de "hipertelia", de Jean Baudrillard: o colapso
de um mecanismo pelo seu próprio excesso. Entre o ceticismo radical do público
que anulou o valor das imagens e manobras jurídicas inócuas no TSE para
estancar a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a outrora ágil máquina de
memes de 2018 parece ter se transformado em uma burocracia barulhenta que, na
tentativa de inundar o debate, acabou por provocar um curto-circuito em si
mesma. Como Ourobouros, mordendo a si mesma.
quinta-feira, junho 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A fabricação de narrativas de pânico moral e a simulação de
ameaças políticas deixaram de ser meros boatos de internet para se tornarem
armas centrais da guerra semiótica contemporânea. A engrenagem ficou evidente
após a Jovem Pan News divulgar uma apuração sobre um suposto plano contra a
vida de Flávio Bolsonaro, amarrando figuras midiáticas presas ao fantasma do
crime organizado para desgastar a agenda de soberania do governo federal. Alertando
para a fabricação da bomba semiótica da simulação de atentado contra o senador,
modus operandi alt-right. Esse cenário de "inundação informacional" (flood
the zone) expõe a obsolescência das notas oficiais e das checagens tardias.
Para sobreviver ao massacre de narrativas da extrema-direita aliada ao
trumpismo, o Estado brasileiro enfrenta o desafio urgente de institucionalizar
um Grupo de Inteligência Semiótica, transformando a comunicação pública em uma
barreira proativa de defesa e imunidade da própria democracia.
quinta-feira, maio 28, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Para além da música e da fé que arrastaram milhares de fiéis ao
Centro do Rio no último sábado (23) durante a 19ª Marcha para Jesus, o
megaevento — blindado como “Patrimônio Imaterial” e turbinado com R$ 6 milhões
de dinheiro público — acendeu o estopim de um debate muito mais profundo do que
a simples crítica ao "oportunismo eleitoral" de Silas Malafaia e seus
pré-candidatos para 2026. O que o evento escancara é a consolidação da agenda
do pânico moral, bomba semiótica que produz o novo centro de gravidade da
esfera pública brasileira. Em uma inversão social sem precedentes, enquanto os
projetos de país e o debate ideológico racional são empurrados para o armário
do foro íntimo, as ruas e as instituições são colonizadas por uma cruzada
moralizante e hiperbólica de costumes, transformando a arena política em um
tribunal eclesiástico e o adversário em um inimigo a ser extirpado.
sexta-feira, maio 15, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O vazamento
pelo The Intercept de um áudio em que o senador e pré-candidato à Presidência,
Flávio Bolsonaro (PL), cobra intimamente recursos do banqueiro Daniel Vorcaro
para salvar o filme Black Horse detonou uma crise sistêmica que tornou
natimorta sua campanha ao Planalto. O episódio escancara a maior ironia da
política contemporânea: enquanto anos de graves denúncias sobre vínculos com o
"crime de sangue" das milícias cariocas foram absorvidos pela opinião
pública como mero ruído, bastou um escândalo estético sobre os bastidores da
própria imagem para implodir o clã. É a prova definitiva de que, na era da Media
Life, o "crime de narrativa" destrói muito mais do que a dura
realidade dos fatos jurídicos.
terça-feira, maio 12, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto a
infraestrutura de São Paulo literalmente explode sob o peso de concessões
privatizadas e falhas de segurança, a cúpula política da capital se ocupa com
frascos de detergente. O recente vídeo do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo
(PL) em defesa da marca Ypê — alvo de um recall da Anvisa — não é apenas um
apoio isolado, mas o pavio de uma bomba semiótica meticulosamente calculada.
Entre o risco sanitário de uma bactéria e o risco real de explosões urbanas, a
estratégia bolsonarista aciona mecanismos de psicologia reversa e dissonância
cognitiva para sequestrar o debate público, transformando um fato administrativo
em uma trincheira ideológica de conveniência.
Cinegnose participa do programa Poros da Comunicação na FAPCOM
Este humilde blogueiro participou da edição de número seis do programa “Poros da Comunicação” no canal do YouTube TV FAPCOM, cujo tema foi “Tecnologia e o Sagrado: um novo obscurantismo?
Esse humilde blogueiro participou da 9a. Fatecnologia na Faculdade de Tecnologia de São Caetano do Sul (SP) em 11/05 onde discutiu os seguintes temas: cinema gnóstico; Gnosticismo nas ciências e nos jogos digitais; As mito-narrativas gnósticas e as transformações da Jornada do Herói nas HQs e no Cinema; As semióticas das narrativas como ferramentas de produção de roteiros.
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Coleção Curtas da Semana
Lista semanalmente atualizada com curtas que celebram o Gnóstico, o Estranho e o Surreal
Após cinco temporadas, a premiada série televisiva de dramas, crimes e thriller “Breaking Bad” (2008-2013) ingressou na lista de filmes d...
Bem Vindo
"Cinema Secreto: Cinegnose" é um Blog dedicado à divulgação e discussões sobre pesquisas e insights em torno das relações entre Gnosticismo, Sincromisticismo, Semiótica e Psicanálise com Cinema e cultura pop.
A lista atualizada dos filmes gnósticos do Blog
No Oitavo Aniversário o Cinegnose atualiza lista com 101 filmes: CosmoGnósticos, PsicoGnósticos, TecnoGnósticos, AstroGnósticos e CronoGnósticos.
Esse humilde blogueiro participou do Hangout Gnóstico da Sociedade Gnóstica Internacional de Curitiba (PR) em 03/03 desse ano onde pude descrever a trajetória do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e a sua contribuição no campo da pesquisa das conexões entre Cinema e Gnosticismo.
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
Neste trabalho analiso a produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005) onde é marcante a recorrência de elementos temáticos inspirados nas narrativas míticas do Gnosticismo.>>> Leia mais>>>
"O Caos Semiótico"
Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>