Dois pais entram em uma corrida contra o relógio quando recebem um telefonema angustiante de sua filha tarde da noite depois que ela causou um trágico acidente de carro. Quase todo o filme se passa no interior do carro em tempo real, com os pais desesperados tentando manter contato telefônico com a filha, enquanto a tela do Waze vai dando instruções de rota e o tempo que falta para chegar ao destino, numa angustiante contagem regressiva. Aparentemente apenas um drama familiar. Mais aos poucos vai virando outra coisa: entra um ambíguo toque sobrenatural (morte e carma). É o filme “Hallow Road – Caminho Sem Volta (2025), do diretor britânico-iraniano Babak Anvari, onde a estrada é uma alegoria da incapacidade dos pais de se reconciliar com a verdade que os condena: a “família renitente” – a ideia idílica de pais como porto de segurança e que supostamente manteria os filhos blindados das consequências dos seus próprios atos. Incapazes de lidar com dilemas morais.
Você é uma pedra preciosa, você
está por aí sozinha.
Você conhece todos no mundo, mas se sente sozinha.
Papai não te deixa chorar, Papai não te deixa sofrer
Papai te dá tanto quanto você aguenta ter.
Papai está com você aonde você for.
Papai te consola, Papai é seu melhor amigo
Papai segura firme sua mão até o fim
Papai irá pagar o seu carro batido
“Daddy’s Gonna Pay Your Crash Car”
(U2)
É interessante observar a mutação do significado da instituição da
Família, desde a Era Vitoriana de Freud do século XIX até os tempos atuais, partindo
de um modelo patriarcal, rígido e hierárquico na Antiguidade, para um conceito
plural e multifacetado na contemporaneidade, caracterizado pela flexibilidade,
subjetividade, e a aceitação de diversas formas de parentesco e relações
afetivas, refletindo as transformações sociais e legais.
Da Pater Potestas romana (a autoridade do pai sobre esposa e descendentes),
passando pelo casamento cristão como o sacramento principal da formação da
família, a unidade produtora de renda na Revolução Industrial chegando à Flexibilidade
e Individualidade atuais - as posições hierárquicas tornaram-se mais
flexíveis, e a subjetividade e individualidade dos membros foram valorizadas.
Foram muitas transformações do sentido da Família na História. Mas
na mente dos pais continua a existir uma espécie de, por assim dizer, “família
renitente”. Uma família ideal que permaneceria sobre as sucessivas mudanças na
qual os pais acabam criando uma falsa sensação de segurança, dificultando o
crescimento do indivíduo e criando um ciclo de dependência.
Embora a família moderna valorize a trajetória individual de cada membro, ainda a estrutura promocional e mercadológica da publicidade e do marketing promove, a cada dia dos pais ou das mães, a imagem idílica dos pais como super-heróis protetores e porto seguro para qualquer tempestade que se abata sobre a vida dos filhos.
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Criando uma nova e paradoxal estrutura repressiva. Agora, pelo
excesso de indulgência no cuidado com os filhos, chegando a pusilanimidade - padrão
de comportamento parental que envolve dar aos filhos excesso de coisas,
experiências ou liberdade, impedindo o desenvolvimento saudável e a
aprendizagem de limites e consequências, o que pode resultar em adultos com
dificuldades na vida real.
Uma atitude, muitas vezes, motivada por necessidades não atendidas,
frustrações ou culpa dos próprios pais – compensação pela ausência física ou
simbólica etc.
Hallow Road – Caminho Sem Volta
(2025), dirigido pelo britânico-iraniano Babak Anvari, coloca dois pais na
típica situação em que recebem no meio da madrugada uma ligação angustiante da
filha jovem adulta em idade universitária depois que causou um trágico acidente
de carro. E, de repente, são colocados num dilema moral agonizante: proteger a
filha a todo custo para cumprir uma suposta função parental ou deixar a filha
confrontar com as consequências dos seus próprios atos como situação necessária
para o próprio crescimento pessoal.
Hallow Road parece
no início um simples drama familiar e parental, com as previsíveis tensões
entre pais benevolentes que tentam poupar das potenciais consequências de um
acidente que podem comprometer todo o futuro: uma bolsa de estudos na Austrália
como complementação dos estudos universitários.
Mas aos poucos vai se transformando em outra coisa: um thriller de
suspense envolvente em tempo real com um toque macabro (metafísico), um filme
sobre culpa familiar e o retorno freudiano do reprimido.
O roteiro é instigante: quase todo o filme se passa no interior do
carro numa espécie de câmera veicular, com os pais desesperados tentando manter
contato telefônico com a filha, enquanto a tela do Waze vai dando instruções de
rota e o tempo que falta para chegar ao destino, numa angustiante contagem
regressiva.
Um filme que desconstrói essa imagem da “família relutante”, ou
seja, de como pais ainda tentam manter o papel de protetores indulgentes. Sem
se aperceberem que, no final, as trajetórias de vida são individuais. E que a
família, no máximo, serve de amortecedor ao drama cármico da trajetória de cada
ser nesse mundo.
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Principalmente quando somos informados da fama da densa floresta
que envolve um complexo de pequenas estradas que formam uma espécie de labirinto
– no passado ocupado por cultos pagãos de invocação e apaziguamento de demônios.
E na atualidade, um recanto para jovens beberem e se drogarem em festas.
O Filme
Hallow Road começa de
forma envolvente. Em um silêncio desconcertante, a câmera percorre uma casa,
buscando pistas de um crime ou talvez de uma discussão
acalorada: um jantar inacabado, uma taça de vinho quebrada e meio
varrida.
Logo descobrimos que foi a última, uma discussão doméstica, que
parece ter terminado com uma jovem saindo furiosa e dirigindo noite adentro no
carro do pai.
Acordando de madrugada, Maddie (Rosamund Pike) e Frank (Matthew Rhys)
a princípio estão preocupados apenas com o paradeiro de sua filha Alice (Megan McDonnell).
Ela é uma experiente paramédica e ele um diretor de marketing.
Mas então ela liga com a notícia alarmante de que houve um
acidente; dirigindo por uma floresta, pela Hallow Road, ela atropelou uma
mulher mais ou menos da sua idade. A mulher parece estar morrendo.
Horrorizados, Maddie e Frank partem em busca dela. Frank dirige o
carro de Maddie enquanto ela mantém contato com Alice por celular,
explicando-lhe os procedimentos de ressuscitação cardiopulmonar. Para sua
comodidade, Maddie é paramédica. Ela já deu treinamento de RCP para Alice
antes, mas realizá-lo na prática é outra coisa muito mais difícil e dramática.
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Durante a viagem frenética, verdades enterradas vêm à tona. Alice
admite que nunca chamou uma ambulância. Ela está sob efeito de MDMA há horas e
está grávida, algo que seus pais argumentaram anteriormente na discussão
anterior que deveria ser "resolvido".
Maddie confessa seu próprio fracasso profissional: um diagnóstico
errado de um paciente, levando-o à morte. Pediu demissão do Samu, revelando
como a culpa a corrói.
Enquanto Frank tenta combinar com a filha de que ele assumirá a
culpa do atropelamento. Para não comprometer o futuro universitário de Alice. Ou
seja, poderá condenar a filha ao mesmo sentimento de culpa corrosivo de Maddie.
Essa viagem de carro se
torna literal e metafórica, com a estrada os unindo, mas também acelerando em
direção ao colapso.
Quando Alice afirma que outro carro chegou, Frank ordena que ela
esconda o corpo. Uma mulher misteriosa aparece, aparentemente gentil, mas cada
vez mais predatória, interrogando Alice. Apesar dos apelos de Maddie, a mulher
não vai embora. Em vez disso, Alice relata mais tarde que a garota que
atropelou está viva e sendo cuidada pelo marido. A mulher se torna mais
ameaçadora, alegando que ela e o marido já "adotaram" garotas
perdidas antes, e agora Alice, grávida e vulnerável, será deles.
Tudo isso, os pais vão acompanhando pelo áudio do celular,
enquanto acabam se perdendo no labirinto de pequenas estradas. Atrasando a
chegada.
É quando o filme vai se transformando em algo totalmente outro:
toques sobrenaturais e metafísicos vão aos poucos se inserindo na narrativa.
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Morte e carma – Alerta de Spoilers à
frente
A mulher e seu marido invisível são a ambiguidade central do
filme. Seriam predadores sobrenaturais, traficantes de pessoas ou projeções do
trauma de Maddie e Frank? Em certo nível, a mulher é terrivelmente real:
persistente, manipuladora e perturbadoramente calma, ela personifica o perigo
que espreita jovens mulheres desprotegidas. Sua fala sobre "retificar"
Alice e seu filho ainda não nascido ecoa um condicionamento sectário, sugerindo
uma dimensão ritualística ou sobrenatural.
Em outro nível, ela pode ser uma alucinação nascida da dor de
Maddie e Frank. A polícia insiste que Alice já estava morta, e os telefonemas
podem ter sido manifestações de sua negação, incapazes de aceitar o cadáver
como sua filha.
O brilhantismo da narrativa reside no fato de ambas as leituras
permanecerem possíveis.
Explicação Sobrenatural: Alice está morta e de alguma forma
consegue se comunicar do além (sugerindo a célebre crença de Thomas Edison e
Tesla sobre a possibilidade de o telefone ser também um dispositivo para
conversar com os mortos – clique aqui) e descreve como está
sendo conduzida por entidades metafísicas que pretendem “retificá-la”,
sugerindo algum tipo de responsabilidade cármica.
Explicação Psicológica: As ligações são uma ilusão compartilhada,
nascida da recusa de Maddie e Frank em aceitar a morte da filha. A culpa
conflitante (o erro de Maddie no trabalho, o fracasso de Frank como protetor)
alimenta a alucinação.
De qualquer forma, a incapacidade de se reconciliar com a verdade
os condena.
Ficha Técnica |
Título: Hallow
Road – Caminho Sem Volta |
Diretor: Babaki
Anvari |
Roteiro: William Gillies |
Elenco: Rosamund Pike, Matthew
Rhys, Megan MacDonnell |
Produção: Screen Ireland,
London Film & TV |
Distribuição: XYZ Films |
Ano: 2025 |
País: Reino Unido |