A extrema direita digital pode estar morrendo pela boca de seus próprios algoritmos. No início de mais uma corrida eleitoral, analistas repetem o pavor burocrático diante do "apocalipse da IA" e das fake news, sem notar que o sistema de desinformação da alt-right ficou gordo demais para andar. O diagnóstico atende pelo conceito de "hipertelia", de Jean Baudrillard: o colapso de um mecanismo pelo seu próprio excesso. Entre o ceticismo radical do público que anulou o valor das imagens e manobras jurídicas inócuas no TSE para estancar a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a outrora ágil máquina de memes de 2018 parece ter se transformado em uma burocracia barulhenta que, na tentativa de inundar o debate, acabou por provocar um curto-circuito em si mesma. Como Ourobouros, mordendo a si mesma.
Apesar do ano eleitoral começar com o script midiático tradicional
(a tentativa de criar uma Lava Jato 2.0 com o escândalo Banco Master, a pauta
do pânico moral como diversionismo político ao gosto da extrema direita etc.),
há uma novidade que está passando despercebida pelos analistas políticos:
sinais da “fadiga de material” da estratégia alt-right de comunicação.
Talvez “fadiga” não seja a palavra correta. Mas um fenômeno mais
irônico. Aquilo que o pensador francês Jean Baudrillard chamava de “hipertelia”:
um estado de obsolescência por hiperdesenvolvimento, onde um sistema funciona
"tão bem" que ultrapassa sua própria finalidade, entra em colapso e
começa a produzir o efeito oposto ao desejado.
A comunicação política da extrema direita estaria sendo vítima de
si mesma, dentro de um cenário de “obesidade” e hipérbole tecnológica.
Sabemos que a estratégia Steve Bannon que orienta a comunicação política
alt-right (“flood the zone”) trabalha com a velocidade e a capacidade de
saturação –inundar a mídia e o ecossistema digital com acontecimentos e
notícias tão desconexas que deixe os jornalistas atordoados. Sem tempo, acabam
focando no acessório, deixando de lado o essencial.
A estratégia alt-right de Bannon baseia-se no choque, na
velocidade, na saturação de narrativas e na destruição dos fatos objetivos. O
problema da aceleração infinita é que ela não tem freio.
Ao atingir a hipertelia, a comunicação de rede dessa ala
política tornou-se hiper-real: mais real que o real, barulhenta demais,
pesada demais. Ela perdeu a agilidade felina de 2018 e se transformou em uma
máquina burocrática de gerar memes que só conversam com quem já está
convertido, enquanto entrega munição geopolítica e narrativa de graça para os
seus opositores.
Parece que o paroxismo está sendo atingido: a máquina continua
girando em falso, fazendo muito barulho, mas produzindo vácuo.
Três episódios desse ano eleitoral são evidências claras dessa
tese:
1- O Paroxismo da Imagem: Da Manipulação à Inutilidade
“O Brasil e outros países começam a regular as redes sociais. Mas
o pior está por vir – a IA”. Esse lide de abertura da matéria com o sugestivo
nome de “Antes do Apocalipse”, da edição de junho da revista “Piauí”, sintetiza
o hype em torno dos vídeos e imagens geradas por Inteligência Artificial que
podem firmar a pós-verdade como fator decisivo no cenário de propaganda
eleitoral.
Mas um efeito irônico inesperado está ocorrendo nessa arma tão
incensada pela extrema direita: a hipertelia na Inteligência Artificial visual como
o colapso da própria mentira.
Historicamente, o objetivo da manipulação era fazer crer em uma
falsidade – substituir a noção de verdade pela de “credibilidade” ou “verossimilhança”:
parecer ser verossímil, logo é verdadeiro.
Porém, para que a manipulação desse certo, exigia que a realidade
ainda fosse o padrão.
Quando passamos a produzir imagens e vídeos gerados por IA em
escala industrial, chegamos ao ponto de viragem, seja através do efeito de
saturação, seja como efeito bumerangue.
Saturação: Se absolutamente tudo pode ser falso, o público
ativa uma defesa psíquica: o ceticismo radical. Toda e qualquer imagem
ou vídeo passa a ser colocada sob suspeita, paradoxalmente em torno de todo
hype em torno da IA.
Efeito bumerangue: O sistema de desinformação ficou
"gordo" demais. Ao destruir a confiança na imagem, a alt-right
inviabilizou a sua principal arma. Se nenhuma imagem é real, o vídeo vazado que
incrimina um político vira "IA", mas a foto heroica que o defendia
também perde o valor. A manipulação se anula pelo excesso.
2. O Caso Dark Horse: A Estética Amadora Virou Paródia
O clã Bolsonaro e a alt-right bannonista dominaram as redes
usando a estética do "autêntico", do "tosco" e da quebra de
liturgia. Era a comunicação "orgânica" contra a mídia tradicional
"engessada".
O colapso desse modelo na resposta rápida de Flávio Bolsonaro
sobre o caso Vorcaro/Dark Horse ilustra a perda de funcionalidade por
hipertrofia.
Após a publicação, pela Intercept, dos áudios das conversas de
Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio
Bolsonaro reagiu pelo modus operandi bannonista: gravar rapidamente um vídeo de
reposta para publicar nas redes em que a espontaneidade e timing soariam como “autenticidade”.
Mas se tornou no inverso: o pesadelo para qualquer marqueteiro coordenador de
campanha eleitoral.
O modus operandi se esgotou. A técnica de jogar
fumaça, atacar o mensageiro e gravar um vídeo caseiro em tom de desabafo
saturou. O público prece ter decodificado o truque.
O que antes parecia "autenticidade contra o sistema"
hoje é lido instantaneamente como desespero e amadorismo.
O sistema de comunicação deles continuou operando na mesma lógica
maximalista, mas o receptor mudou. A velocidade (paroxismo do tempo) impediu a
reflexão jurídica e estratégica, gerando o erro tático.
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3. Tarifaço e Facções terroristas: a "obesidade" do discurso
ideológico
O terceiro exemplo é o mais evidente em termos de hipertelia
política. Trump e o bolsonarismo operam na lógica do espetáculo permanente: é
preciso alimentar a máquina com anúncios bombásticos (tarifas, tipificação do
PCC/CV como terroristas) para manter o engajamento da bolha aquecido.
No entanto, o tiro saiu pela culatra:
A Armadilha do Excesso: para inflar o próprio discurso soberanista
e punitivista, eles avançaram tanto o sinal que invadiram a soberania do
próprio Estado brasileiro.
O que acabou virando um presente narrativo para Lula reeditar o
círculo virtuoso do ano passado: a defesa intransigente da Soberania e da
Democracia.
Esse excesso performático "engordou" tanto a retórica
deles que acabou oferecendo a Lula o melhor cenário possível: o papel de
defensor da soberania nacional contra a ingerência estrangeira e o alarmismo
histérico.
O sistema comunicacional deles funcionou no automático (gerar
pânico/reação), mas gerou um subproduto político desastroso para eles mesmos.
Nunes Marques
tenta ajudar...
A tentativa de consertar tudo isso pode, potencialmente, resultar
em outro efeito inverso e irônico.
O ministro Nunes Marques, presidente do TSE (Tribunal
Superior Eleitoral), determinou a suspensão da divulgação da pesquisa eleitoral
realizada pelo Instituto Atlas/Intel que apontou queda do
senador Flávio Bolsonaro (PL). Atendendo a pedido do próprio PL.
A evidente inutilidade da decisão do ministro (a pesquisa foi
publicada em maio, ou seja, tirá-la do ar não reverteria seus efeitos já consolidados
na opinião pública) teve um outro propósito bannonista: uma decisão monocrática
que poderá ser derrubada na votação no plenário da Corte, podendo ainda fazer o
caso parar no STF.
E reforçar a narrativa da “ditadura do Judiciário”. Uma tentativa
diversionista desesperada para diluir os efeitos da hipertelia: o verdadeiro tiro
no pé nos episódios do tarifaço e da tipificação de “terrorismo” contra PCC e
Comando Vermelho.
Mas a ironia da decisão de suspender de Nuno Marques a pesquisa velha da Atlas/Intel é que a pesquisa dessa semana da Genial/Quaest confirmou os números em queda do pré-candidato Flávio Bolsonaro na pesquisa de maio.
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quinta-feira, junho 11, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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