sexta-feira, abril 10, 2026

Influenciadores, colunistas e exorcismos: o triunfo da precarização sobre a notícia


Vinte e seis anos após o alerta de Ciro Marcondes Filho sobre a divisão entre o jornalista que 'trabalha em pé' e o que 'trabalha sentado', o campo jornalístico parece ter sucumbido a uma mutação ontológica sob a cortina de fumaça das redes sociais. Entre a contratação de influenciadores para a Copa do Mundo, a priorização de colunistas em vez de repórteres para as eleições e a espetacularização do trash digital de petistas sendo exorcizados em busca de engajamento, o que emerge é um cenário onde a precarização do trabalho e o império do infotenimento tornaram-se faces indissociáveis no Jornalismo. Ao trocar a apuração de campo pela gestão do afeto, o jornalismo corporativo e independente arrisca abandonar sua função de mediador factual para se transformar em um ringue de narrativas movido pela economia da atenção.

Muito já se escreveu e se discutiu sobre os impactos da Internet e o advento dos dispositivos de convergência tecnológica (tablets, smartphones etc.) e das redes sociais no jornalismo.

Tudo começou com uma constatação empírica de Ciro Marcondes Filho em seu livro de início desse século “Comunicação e Jornalismo: a Saga dos Cães Perdidos” (2000): apontava que as rápidas transformações tecnológicas estavam dividindo o campo jornalístico em duas categorias de profissionais: aqueles que trabalham sentados diante de computadores (limitando-se ao tratamento de releases de agências e assessorias de comunicação) e os que trabalham em pé – a minoria que vai à campo investigar.

Mas esse debate sobre o início das transformações da própria ontologia do Jornalismo pela tecnologia foi esquecido com a ascensão das redes sociais e dispositivos móveis. Que acabaram oferecendo uma ótima cortina de fumaça, desviando a atenção do debate.

Memes, desinformação, fake News, pós-verdade etc. passaram a ser o foco das discussões. E a ascensão da noção de “jornalismo profissional” para se distinguir das “mentiras” e “manipulações” da Internet e redes. Enquanto o “jornalismo profissional” teria protocolos de checagem, editoração e curadoria da informação, as redes seriam uma terra sem lei. Onde correm soltas as mentiras e golpes. Tendo por trás ardilosos hackers.

Passa a impressão nessas discussões que o tal “jornalismo profissional” (unicamente o jornalismo corporativo, claro!) é uma instituição estoica e que corajosamente resistiria aos ataques das redes sociais.  



Enquanto as redes seriam intrinsecamente criminógenas, o “jornalismo profissional” seria a pièce de résistance da verdade...

Alguns eventos recentes do jornalismo revelam que, se aquela discussão proposta por Ciro Marcondes Filho no início desse século driblasse a cortina de fumaça e fosse continuada, estaríamos ocupados com uma outra questão: como redes sociais e dispositivos de convergência estão alterando a própria ontologia do Jornalismo. Isto é, a prática social de investigar, apurar, checar e distribuir informações de interesse público.

Se não, vejamos.

Em chamada na primeira página do domingo (08/02), o jornal O Globo estampava: “Novas vozes reforçam a cobertura do Globo em ano de eleições; veja quem são os colunistas estreantes”.

Imagina-se o “colunista” como aquele jornalista que “trabalha sentado” (diferentes dos repórteres que trabalham “em pé”).

Também se imagina (ou espera-se) que o jornal convoque um número maior de repórteres para cobrir o principal evento da Democracia que ocorre nas ruas e postos eleitorais. Ao contrário, o jornal jactou-se de reforçar a cobertura de um ano de eleições com “novas vozes”.

Prefere colocar profissionais sentados diante de seus dispositivos do que em pé, nas ruas e coletivas, fazendo perguntas e reportando.

Ao mesmo tempo, a Globo nessa semana noticiou que chegou a um acordo para contar com 26 “influenciadores renomados” na produção de conteúdo para a Copa do Mundo, que acontece em pouco mais de dois meses. A parceria foi fechada em conjunto com a Play9, agência especializada em criadores digitais dos mais variados públicos e níveis de alcance. 



Novamente, espera-se que numa cobertura tão extensiva como a de uma Copa do Mundo de Futebol sejam destacados repórteres e jornalistas especializados no esporte para uma cobertura “substantiva” – pelo menos é o que se aprende em faculdades de Jornalismo.

Influenciadores são contratados para “produzir conteúdo”. E qual a ontologia desse conteúdo? Criar quadros de “zoação” com jogadores (promovidos a celebridades), demonstrar que o influenciador é amigo de todo mundo em conversas informais, muitas piadas sem graça, trocadilhos etc.

Muito disso vemos em um telejornal de TV aberta como o Globo Esporte, apresentada pelo influenciador Fred Bruno (“Desimpedidos”) em que as hard news são substituídas por quadros de humor do estilo “o povo fala” (quadros com populares “sem noção” fazendo comentários “espontâneos nas ruas) e “na pele do lobo” (situações de humor onde Fred tenta repetir performances de ginastas, lutadores etc.) e assim por diante.

Esses episódios revelam uma mudança na própria estrutura produtiva do jornalismo, alterando sua própria natureza: da informação para o infotenimento - fusão de informação com entretenimento para aumentar o engajamento e a retenção da audiência nas redes sociais.

  • A Substituição da Reportagem pelo Comentário: Reportagem custa caro. Exige deslocamento, verificação, tempo e risco. O colunista (opinião) e o influenciador (entretenimento/engajamento) são muito mais baratos e já trazem seu próprio público ("comunidades").
  • Terceirização da Credibilidade: Ao contratar influenciadores, a emissora não busca apenas "novas linguagens", mas sim "alugar" a confiança que esses nomes possuem em nichos onde a marca institucional do jornalismo tradicional já não penetra.
  • O Fim do "Chão de Fábrica": Quando o principal jornal do país prioriza colunistas em vez de repórteres para cobrir eleições, ele admite que a interpretação dos fatos é mais rentável que a apuração deles. Isso esvazia o papel do jornalismo como mediador da realidade factual, transformando-o em um ringue de narrativas.



O Infotenimento: A Transformação do Pânico em Espetáculo

Talvez, o mais dramático e, ao mesmo tempo, o outro lado da moeda dessa transformação da própria ontologia do jornalismo pela tecnologia desse novo ecossistema digital seja a reação do apresentador e jornalista Leandro Demori no programa ICL Notícias no YouTube.

Demori denunciou nessa sexta-feira (10/04) um perfil no Tik Tok que divulgava vídeos produzidos com ferramentas de Inteligência Artificial (cada um com milhares de views) destacando narrativas bizarras de pastores neopentecostais exorcizando petistas endemoniados. Na verdade, perfeitas caricaturas ou parodias do pior do terror B hollywoodiano.

Com uma fisionomia entre assustado e compenetrado pela “gravidade” do tema, preocupado com o espectador, avisou que reproduziria alguns dos vídeos curtos (shorts). Alertou para a “violência” do conteúdo e contou de um a três antes de dar o play.

A reação de Leandro Demori aos vídeos de IA ilustra a outra face: a necessidade de manter o espectador em um estado de constante hiperestimulação emocional.

  • A "Serialização" do Trash: Ao tratar vídeos visivelmente toscos e caricatos como algo "violento" que exige um aviso de gatilho (trigger warning), o apresentador opera um deslocamento semiótico. Ele retira o objeto do campo do ridículo (onde ele morreria por falta de relevância) e o eleva ao campo da ameaça existencial.
  • Atribuição de Verossimilhança: ao levar a sério o que é trash, o jornalismo acaba validando a existência daquele conteúdo como uma "peça de guerra". Isso gera o efeito colateral de dar ao autor do vídeo (por mais tosco que seja) o status de agente político relevante.
  • Economia da Atenção e Medo: O infotenimento não é apenas "diversão", é a gestão do afeto. O medo engaja mais que a análise racional. Se o vídeo é "demoníaco" e "violento", o espectador não consegue tirar o olho da tela, mesmo que o conteúdo seja esteticamente indigesto.

Podemos sintetizar essas duas faces da mesma moeda (precarização e o infotenimento) no quadro abaixo:






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