"Os homens que participam são convidados a se tornarem
invencíveis, não por suas próprias forças, mas pela fé em um Deus que é
invicto."
Isso quem diz é o site da “Invictos Trekking”. Mulheres não entram
nos eventos promovidos do grupo que engrossa um movimento pelo país que alia
religião com a busca de uma suposta masculinidade perdida, em trilhas por
montanhas e discursos coaching de autossuperação – clique aqui.
Grupos que replicam a mesma fórmula do “Legendários”, o mais pop
dos grupos. Despontam como uma resposta conservadora (e, politicamente, expressa
pela extrema direita) à masculinidade em crise, com doses fartas de
religiosidade e a promessa de resgatar um macho alfa supostamente desempoderado
pela modernidade.
Ou, para ser mais ideologicamente preciso, pelo que consideram uma
“feminização” da sociedade.
Há uma atmosfera Incel (acrônimo relativo a homens que não
conseguem ter relacionamentos românticos ou sexuais, culpando as mulheres e as
transformações da sociedade por suas frustrações - evoluindo a grupos de apoio
online e toda uma subcultura misógina e extremista) contaminando o noticiário
nas últimas semanas – atmosfera reforçada pelo crescimento desses grupos
caracterizados pelo fenômeno que vamos definir aqui como “machismo renitente”.
“Em apenas 10 meses, casos
de feminicídios em SP aumentaram em mais de 10% (CNN Brasil); “2025 já é o ano
com maior número de feminicídios na capital paulista” (Agência Brasil); “Brasil
tem mais de mil casos de feminicídio registrados em 2025” (G1); “Epidemia
secular: feminicídios explodem no Brasil, reflexo da estrutura violenta da
sociedade” (O Globo); esses são algumas manchetes do final do ano passado.
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Principalmente nas últimas semanas, quase diariamente uma série de
crimes bárbaros chocou a opinião pública.
Entre as mais impactantes, em Jaborandi, na Bahia, uma mulher de
27 anos, foi arrancada do banho e assassinada a tiros pelo ex-namorado. Na Zona
Norte do Rio, um servidor público matou a tiros uma professora e uma psicóloga
no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), no
Maracanã.
Em São Paulo, uma mulher foi morta na pastelaria onde trabalhava
pelo ex-marido, e uma jovem foi atropelada e, ainda presa no veículo, arrastada
pelas ruas. Ela teve as pernas amputadas e foi internada em estado grave. Até
não resistir aos ferimentos e morrer. O suspeito do crime, segundo a família da
vítima, teve um breve relacionamento com ela.
As estatísticas são espantosas. Desde que o feminicídio foi
tipificado em 2015, houve um aumento contínuo do crime, sendo que a partir de
2023 houve um crescimento de 19%. Cerca de 80% dos crimes foram cometidos por
companheiros ou ex-companheiros das vítimas, e a maioria ocorreu dentro da casa
da mulher (64%).
É claro que esse humilde blogueiro não quer especular sobre uma
possível relação causal entre o crescimento desses grupos híbridos incel-coach-religiosos no País com as assustadoras estatísticas sobre feminicídios nos
últimos dez anos.
Mas é impossível não perceber que são fenômenos não causais, isto
é, eventos correlacionados, variáveis que mudam em sincronia – ambas aumentam.
São duas manifestações (a primeira de violência simbólica; e a
segunda, de violência explícita) que aqui analisaremos como relacionados a dois
fenômenos reflexos da guerra híbrida brasileira (midiática e geopolítica) que
envenenou o psiquismo coletivo: o machismo renitente e a psicologia reversa
da tipificação do crime de feminicídio.
Diante desses números, a grande mídia bate-bumbo, como solução, sobre
a necessidade de “reeducar homens e educar filhos contra o machismo para
reduzir casos de violência contra a mulher” – clique aqui.
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“Educação” é o grande clichê sobre qualquer solução sobre qualquer
problema para o jornalismo corporativo. Por isso, há décadas o Brasil é o “País
do futuro” – basta investir em “educação”...
Veremos que não se trata mais de questão de “educação”. E mais!
Que a grande mídia insiste nesse clichê para se eximir do problema do qual ela
faz importante parte: abriu a garrafa para que o gênio do Brasil Profundo saísse
e ganhasse visibilidade midiática para reforçar sua expressão política: a antipolítica,
o bolsonarismo e a extrema direita. E o golpe militar híbrido de nas eleições
de 2018 com a conquista do Estado pelo bolsonarismo.
O problema é que não será com “educação” que o gênio voltará para
a garrafa.
O machismo renitente
Em um artigo na Folha de São Paulo, em 2011, incomodado com a
ascensão da classe C nos tempos neodesenvolvimentistas do PT e o
desaparecimento das empregadas domésticas, o publicitário Nizan Guanaes reclamou:
“preciso de uma Dona Flor, mas que não precisa ter o corpo de Sônia Braga.
Precisa é cozinhar!”. Nizan quer uma cozinheira para fazer “aquela grande e
vasta comida brasileira” – clique aqui.
Estava iniciando o resgate e visibilidade desse Brasil Profundo,
começando pelo resgate de um, por assim dizer, “Brasil renitente”. O Brasil de
um passado idílico em que a Casa Grande escravizava a senzala. Um país que só
pode ser maravilhoso se mantiver a ordem.
Afirmações como essa passaram a ser veiculadas pela grande mídia
em diferentes versões e modos. Porém, o mais importante, é que esse tipo pensamento
metonímico de justapor “Dona Flor”, “corpo da Sonia Braga”, “cozinheira” e “cozinha”
acabou errando no que viu e acertando no que não viu: serviu de apito de
cachorro para um movimento que já ocorria nas redes sociais com memes e
postagens de haters.
O momento em que o “Brasil renitente” de nostálgicos como Nizan
Guanaes de transformou na ascensão do “machismo renitente” – a atmosfera Incel
que serviu de bomba semiótica para engrossar o caldo da extrema direita
brasileira.
Filmes antissistema como Matrix (a história da pílula azul
e vermelha que serviria de mote para muitos memes extremistas) e Clube da
Luta se transformaram em matéria-prima semiótica.
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Principalmente Clube da Luta - a resposta ambígua para o
mal-estar da masculinidade, apontando para uma identidade do macho nostálgica e
renitente que dominaria o século XXI: de uma lado, uma ácida crítica do
consumismo e alienação corporativa e social. E, do outro, a figura de
Tyler Durden que busca a essência de uma masculinidade perdida em uma sociedade
de que se feminilizou, usando o “Clube da Luta” para a recuperação
da identidade pela luta, força física e, principalmente, a dor como ferramenta
pedagógica.
No auge da guerra híbrida, em 2016, o jornalismo corporativo deu
toda visibilidade a espécimes desse Brasil profundo para engrossar as
manifestações verde-amarelas das ruas das capitais brasileiras: nomes como Ju
Isen (modelo anônima, famosa por tirar a roupa em uma das manifestações
Anti-Dilma na Avenida Paulista em São Paulo), Junior de França (ajudou a
organizar o acampamento de manifestantes pró-impeachment em frente ao prédio da
Fiesp em São Paulo e recrutador de mulheres para feiras corporativas, acusado
de estelionato e de tentar fazer sexo com modelos).
Além de Douglas Kirchner (procurador do Ministério Público Federal
transformado em personagem nacional atuando em parceria com a revista Época no
vazamento de denúncias contra Lula, acusado de agredir fisicamente a esposa e
mantê-la em cárcere privado no interior de uma das igrejas da seita; ministrava
o seminário “Casamento Gay e Marxismo Cultural” onde ataca a igualdade de sexos
e defende que o feminismo é um “ideal agnóstico das esquerdas”) – clique aqui.
Toda essa argamassa ideológica e imaginária acabou solidificando o
machismo renitente. Que, paralelo ao crescimento do coach motivacional e do
neopentecostalismo, chega nesse momento ao “estado da arte”: o crescimento
online grupos com “Legendários” e “Invictos Trekking” que tentam resgatar a
masculinidade alfa e a religiosidade supostamente perdidas numa sociedade
feminista ateia e esquerdista.
A guerra híbrida brasileira, que precisou empoderar esse Brasil
profundo por motivos logísticos (engrossar os movimentos das ruas e redes
sociais), ideológicos (viralizar a paranoia anticomunismo 2.0 via guerra
cultural) e políticos (alcançar uma representação político-partidária no
bolsonarismo), transformou-se no pano de fundo de toda uma geração masculina
que passou da adolescência para a vida adulta embalada por essa guerra cultural
e cismogênese: o homem supostamente humilhado (desemprego, precarização etc.
como uma grande complô feminista contra a masculinidade) descarrega a sua fúria
na mulher ao seu lado – a companheira, a namorada, a ex etc.
Quando a grande mídia clama pela necessidade de “educação”
masculina para reverter esse quadro, obviamente pretende colocar-se de fora e
não parte do problema: seu jornalismo de guerra empoderou, deu visibilidade e
apoio logístico (lembram da transferência dos jogos de futebol do domingo para
as manhãs para liberar as tardes para as manifestações?) a esses personagens do
Brasil profundo.
Fazendo vistas grossas e tampando o nariz para toda a onda de ódio
e intolerância que envenenou o psiquismo coletivo.
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Psicologia reversa
Por que desde que o feminicídio foi tipificado em 2015 o crime teve
um aumento contínuo?
A primeira resposta poderia ser que esse crime sempre existiu numa
sociedade tão conservadora e misógina como a brasileira. Estava apenas ocultada
pela tipificação do “homicídio”.
Mas também é inegável o contexto geopolítico da ação da guerra
híbrida contra o Brasil. Principalmente pelo comportamento da grande mídia no
modo jornalismo de guerra, dando visibilidade e apoio editorial ao arco de
oposição, do Centrão à extrema direita.
Guerra híbrida é uma guerra por procuração. Ao invés das táticas
convencionais de invasão militar desgasta-se o adversário - campanhas de
desinformação, uso de "fábricas de trolls" e bots para criar
narrativas falsas e polarizar a sociedade. Isso se chama criação de
cismogênese, isto é, tornar o debate político na opinião pública tão
irracional que temas religiosos, culturais ou de costumes acabam se sobrepondo.
Dividindo a sociedade, no qual a luta de classes é substituída pela luta
identitária, de gênero e cultural.
Dentro das estratégias de criação de cismogênese em países
adversários, a utilização da psicologia reversa é um dos dispositivos mais
utilizados.
A psicologia reversa é uma técnica de
persuasão que consiste em encorajar alguém a adotar um comportamento ou
atitude, sugerindo o oposto do que se deseja, explorando a tendência
humana de resistir a ordens diretas (reatância psicológica) para que a pessoa
faça, por conta própria, o que você realmente queria.
A psicologia reversa é uma operação psicológica que está dentro
daquela estratégia que Andrew Korybko define como “caos administrado”:
O estudo detalhado da sociedade de um estado-alvo e das tendências gerais da natureza humana (auxiliado por pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas e outras) permite construir um quadro de como é o funcionamento “natural” daquela sociedade. Armados com esse conhecimento, os praticantes da Guerra Híbrida podem prever com precisão quais “botões apertar” por meio de provocações para obter respostas esperadas de seus alvos, tudo com a intenção de perturbar o status quo por processos locais de desestabilização manipulados por forças externas. Podem ser conflitos étnicos, movimentos de protesto (“Revoluções Coloridas”) ou a exacerbação de rivalidades regionais – clique aqui.
Dentro do conjunto de feridas abertas do psiquismo coletivo brasileiro
que os “brasilianistas” do Departamento de Estado norte-americano inventariaram
(como as questões mal resolvidas da escravidão, o militarismo etc.) está o
conservadorismo moral e familiar do Brasil profundo – cujo reacionarismo é
retroalimentado pelas questões não resolvidas por uma país que passou pela Casa
Grande, Senzala e uma república parida por um golpe militar.
O crime do feminicídio não ocorre num momento racional – isto é, o
agressor em nenhum momento vai parar para pensar na pena, nas consequências
pessoais ou jurídicas de um crime que passou a ter uma tipificação distinta.
A tipificação do feminicídio por um lado alimentou a onda moralista
do punitivismo penal que apenas retroalimentou o problema. Nas palavras de
Leonardo Stoppa, “O feminicídio é uma tragédia real, brutal e cotidiana. Não há
relativização possível. Mas é justamente por isso que ele não pode ser
transformado em ativo eleitoral, em mercadoria discursiva, nem em pauta de
gestão simbólica do horror. Quando isso acontece, algo se rompe no próprio
campo progressista” - clique aqui.
Criada a cismogênese, passa a se viver politicamente do
feminicídio: de um lado, o reforço da narrativa permanente da guerra entre homens
e mulheres; e do outro, o capital simbólico para a extrema direita para
reforçar o discurso sobre uma sociedade autoritária dominada por feministas e
comunistas que querem destruir a identidade masculina.
É o mecanismo perverso da psicologia reversa: reforça aquilo que
pretendia combater. Das discussões político-estruturais (enfrentar o
capitalismo, reconstruir políticas públicas de cuidado, mediação, saúde mental
e proteção material real), passamos para o campo da extrema direita das “guerras
culturais” e das abstrações burocráticas como as “medidas protetivas” que
apenas estimulam a psicologia reversa.
Por isso que o gênio não quer voltar para a garrafa, depois que
foi libertado pelo jornalismo de guerra de, no mínimo, duas décadas de guerra
híbrida.
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Pós-meritocracia:
grande mídia foi traída pela Faria Lima |
domingo, janeiro 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




