quinta-feira, junho 04, 2026
'Backrooms - Um Não-Lugar': espaços liminares e o labirinto existencial do século XXI
quinta-feira, junho 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
sexta-feira, maio 29, 2026
'O Que Há Para Jantar?': como a hipocrisia adulta preparou o colapso cultural e geracional
sexta-feira, maio 29, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Por trás dos comerciais de margarina e dos gramados impecáveis da América dos anos 1950, escondia-se a suspeita de um pesadelo canibal. Lançado em 1989, o clássico cult “O Que Há Para Jantar?” (Parents) usa o humor negro e o terror psicológico para implodir o idílio da família tradicional do pós-guerra. Através dos olhos aterrorizados de um garoto de dez anos que suspeita do cardápio sangrento de casa, o filme funciona como uma perturbadora metáfora psicanalítica e sociológica sobre a hipocrisia adulta, antecipando em plena tela o colapso cultural e a rebeldia jovem que ditariam o zeitgeist da contracultura dos anos 1960.
sábado, maio 09, 2026
'O Diabo Veste Prada 2': o crepúsculo dos deuses da Moda
sábado, maio 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Vinte anos após ditar o exato tom de azul que filtraria das passarelas de luxo até as "trágicas cestas de ofertas" do varejo, Miranda Priestly enfrenta um rival que não pode ser intimidado por um olhar gélido: o algoritmo. Em “O Diabo Veste Prada 2” (2026), a transição da aura sagrada da Alta Costura para o caos horizontal das redes sociais e da Inteligência Artificial ganha contornos de um acerto de contas semiótico. Enquanto o primeiro filme consolidou a mitologia do prêt-à-porter como uma ferramenta de controle cultural, a sequência atua como uma autópsia da autoridade editorial, revelando como o poder de criar mitos e "estilos de vida" foi fragmentado por bombas digitais e pela obsolescência programada do jornalismo impresso.
sexta-feira, maio 01, 2026
'O Drama': hipervigilância irônica da geração Z, casamento e tiroteio
sexta-feira, maio 01, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
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Entre o brilho de uma cerimônia de casamento "à moda antiga" e o trauma latente de um massacre escolar, o filme “O Drama” (The Drama, 2026) surge como uma autópsia definitiva da psique da Geração Z. Um casal jovem e inteligente está organizando o casamento perfeito, regado a rituais vintage e playlists autorais. Mas, sob a superfície do romance idealizado, reside uma revelação perturbadora que transforma o "felizes para sempre" em um thriller psicológico sobre quase-assassinos e traumas geracionais. “O Drama” coloca em rota de colisão a busca nostálgica por autenticidade com o que se convencionou chamar de "hipervigilância irônica", o cerne do psiquismo dessa geração: um estado mental onde o dia mais feliz da vida está sempre à beira do caos sistêmico. Mais do que um filme de gênero, é o reflexo de uma geração que aprendeu a mapear as saídas de emergência antes mesmo de brindar ao futuro.
Televendas é a televisão brutalmente honesta em 'Up The Catalogue'
sexta-feira, maio 01, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se a televisão tradicional é um sanduíche onde o entretenimento é o pão e a publicidade é o recheio, o que acontece quando decidimos servir apenas o recheio, puro e sem disfarces? Ao resgatar o conceito de “Grau Zero” de Roland Barthes — uma escrita despojada de ornamentos e puramente funcional —, descobrimos que os canais de televendas não são uma degeneração do meio, mas sua verdade mais honesta. É sob essa premissa de honestidade brutal que o filme "Up The Catalogue" (2024) mergulha em uma mescla de comédia sombria e sci-fi distópico, transformando o ato de vender em uma prisão existencial onde a apresentadora Hailey Cartin se torna o combustível humano de uma engrenagem que nunca desliga. Um estúdio de TV que é, ao mesmo tempo, um labirinto infinito, uma anomalia em loop tempo-espaço, e uma sentença de prisão.
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
Bananas, "haciendas", Mutantes e Bad Bunny na guerra híbrida
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre o "Cantor de Mambo" dos Mutantes em 1972 e a apoteose de Bad Bunny no Super Bowl em 2026, a percepção crítica da intelectualidade brasileira parece ter sofrido uma curiosa involução. Enquanto a Tropicália identificava na estética das bananas e das "haciendas" uma paródia do controle geopolítico norte-americano, o progressismo atual celebra o espetáculo da indústria cultural como uma vitória política, ignorando que a cenografia do "quintal ideal" dos EUA continua intacta — apenas devidamente atualizada pelo verniz do empreendedorismo neoliberal. A performance de Bad Bunny, longe de ser um manifesto de ruptura, reafirma o fetiche da "hacienda" colonial e expõe uma esquerda carente de heróis, que hoje confunde a reafirmação de estereótipos com resistência política e soberania cultural.
quinta-feira, fevereiro 05, 2026
Somos todos punks e alienígenas em 'Como Falar com Garotas em Festas'
quinta-feira, fevereiro 05, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se em Quase Todo Mundo Morto (Shawn of Dead, 2004) a piada era a indiferença britânica que confundia zumbis com bêbados, em Como Falar com Garotas em Festas (How to Talk to Girls at Parties, 2017, disponível na Prime Video) essa "bizarra normalidade" ganha contornos cósmicos. Ao ambientar o encontro entre o movimento punk de 1977 e turistas intergalácticos no subúrbio de Croydon, o diretor John Cameron Mitchell transforma o desencontro adolescente em uma metáfora existencial. Mais do que uma comédia de ficção científica, o filme disseca a figura existencial gnóstica do "Estrangeiro" e a barreira intransponível da incomunicabilidade entre gêneros, revelando que, no vácuo entre o punk e o alienígena, a verdadeira distância galáctica está na dificuldade humana de se conectar.
sexta-feira, janeiro 23, 2026
Trump e o fenômeno do "Loop de Feedback da Hiper-realidade"
sexta-feira, janeiro 23, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Donald Trump em Davos: presidente ou comediante de stand-up? O comportamento bizarro do líder norte-americano diante dos aliados europeus levanta uma questão central para a comunicação moderna: quem imita quem? Da paródia no programa Saturday Night Live ao "mimetismo reverso", exploramos como a política contemporânea se tornou um reflexo circular de simulacros, onde a verossimilhança é ditada pela ficção e o poder é exercido através de um estranho, porém eficaz, efeito de realidade. A performance de Donald Trump subverte a diplomacia tradicional para instaurar a era da "canastrice política". Entre o mimetismo reverso das paródias do SNL e a construção ficcional de líderes como Zelensky, o que vemos não é mais a política dos fatos, mas o triunfo do simulacro. Neste texto, analisamos como o stand-up de Trump fecha o “Loop de Feedback da Hiper-realidade”, onde a autenticidade não reside na verdade factual, mas na fidelidade absoluta do líder à sua própria caricatura.
quinta-feira, janeiro 22, 2026
A barbárie higienizada da eliminação do envelhecimento em 'Plano 75'
quinta-feira, janeiro 22, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O que acontece quando uma cultura milenar que reverenciava a sabedoria dos mais velhos é engolida pelo culto ocidental à novidade e pela performance ininterrupta? No sensível e perturbador “Plano 75” (Plan 75, 2022, disponível na Prime Video), a diretora Chie Hayakawa explora as cicatrizes de um Japão que transformou o envelhecimento em um 'erro de sistema'. Analisando o filme sob a ótica da 'Sociedade do Cansaço' de Byung-Chul Han, percebemos como a quebra do elo geracional e o conceito japonês de “meiwaku” criaram o cenário perfeito para uma barbárie higienizada: o momento em que a eutanásia estatal passa a ser aceita como a solução lógica para quem já não consegue mais acompanhar o ritmo da produção e performance do eu.
terça-feira, janeiro 13, 2026
Uma "necrospectiva" de Natal em 'A Última Noite'
terça-feira, janeiro 13, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
sábado, novembro 01, 2025
Já faz muito tempo que é o fim do mundo em 'Sirât'
sábado, novembro 01, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
“Já faz muito tempo que o mundo está acabando”, diz um personagem no filme “Sirât” (2025, Prêmio do Juri em Cannes e indicado pela Espanha ao Oscar de Filme Estrangeiro), de Oliver Laxer e produzido por Almodóvar, que transforma raves e desertos em uma travessia do fim: “Sirât” acompanha uma caravana de corpos e veículos pelo Marrocos em busca de uma última festa — e, talvez, de algo que ainda pareça futuro. Entre batidas eletrônicas, paisagens em Super 16 mm e notícias de uma guerra indeterminada no rádio, o road movie se desloca da aventura para uma meditação lenta sobre morte, perda e luto, onde a rave vira rito coletivo e o deserto, uma catedral vazia do século XXI. No centro da jornada, um pai e um filho procuram a filha desaparecida; ao redor, uma comunidade improvisada tenta dançar enquanto a ponte para o inferno se estreita.
sexta-feira, outubro 24, 2025
O zumbi precarizado e explorado pelo Capitalismo Tardio em 'Nós Somos Zumbis'
sexta-feira, outubro 24, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Em um mundo onde os mortos-vivos já não devoram cérebros dos vivos, mas são tratados como mão de obra descartável em trabalhos precarizados (são chamados de “deficientes vivos”), “Nós Somos Zumbis” (We Are Zombies, 2023), produção franco-canadense dirigida pelo trio canadense François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell (os mesmos de Turbo Kid), transforma o apocalipse em sátira social. Uma comédia ácida que reinventa a mitologia zumbi ao retratar uma sociedade que normalizou a presença dos “não-mortos”, expondo com humor e irreverência o zeitgeist do século XXI — da precarização do trabalho à indiferença diante da crise permanente. Um trio de geeks perdedores hackeiam os serviços da Coleman Co. – uma empresa especializada em “aposentar” zumbis, retirando-os das famílias para os colocar em asilos. Mas os planos são outros, mais perversos. O zumbi deixa de ser metáfora do apocalipse e passa a simbolizar populações descartáveis, invisíveis ou exploradas pelo capitalismo tardio.
sexta-feira, agosto 15, 2025
Tirem os adultos da sala porque as crianças salvarão o dia em 'A Hora do Mal'
sexta-feira, agosto 15, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Zach Gregger é um diretor/roteirista que está chamando a atenção. Principalmente, porque seus filmes de terror (“Noites Mortais”) retiram o gênero da clássica matriz edipiana (sedução da inocência, culpa etc.) para tirar o horror de alegorias contemporâneas. Como em “A Hora do Mal” (Weapons, 2025) que parte da alegoria a um evento tão recorrente nos EUA que se tornou iconicamente pop: tiroteios em escolas. Aqui representado pelo desaparecimento de todas as crianças de uma sala de aula: em estado de transe, deixaram suas casas no meio da madrugada. Para desaparecerem. Uma pequena cidade que não consegue dar uma resposta ao trauma, a não ser procurar um bode expiatório, como a caça às bruxas na História. Crianças veem o mundo adulto, que deveria protegê-las, caótico e irracional. Alargando o abismo daquilo que a sociologia chama de “perda do elo geracional”. Parece que Gregger está querendo nos dizer: “tirem os adultos da sala, porque serão as crianças que salvarão o dia!”.
terça-feira, julho 29, 2025
Morango do Amor é o amor da Sociedade do Cansaço
terça-feira, julho 29, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Lá em 2015, o hype da gourmetização invadiu festas juninas, com suas “releituras” dos “clássicos” populares, dentro da retórica do “artesanal” e do “rústico”. Era a época da guerra híbrida pré-impeachment, uma reação a ascensão da classe C. Dez anos depois acompanhamos um hype ainda mais radical: sai a maçã, entra o morango do amor! Vídeos ensinando a receita, provando o doce e até memes sobre o assunto somam milhões de visualizações no Instagram e no TikTok. Nova releitura de um clássico popular? Só que dessa vez menos um movimento de guerra híbrida e muito mais um sismógrafo do zeitgeist do século XXI: a Sociedade do Cansaço – a representação instagramável do amor na qual a maçã (o fruto mais carregado de simbolismos do Ocidente) é substituído pelo morango. A encenação intensiva do eu chega ao amor, mas com uma dinâmica psíquica carregada de simbolismos: o simbolismo do fruto, a natureza da cobertura, o ato de consumo e a fantasia de amor subjacente. Encenar o amor cansa!
sexta-feira, julho 25, 2025
O brutal cinema sul-coreano da luta de classes em 'Meus 84 m2'
sexta-feira, julho 25, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O cinema e audiovisual sul-coreano é brutal: conta histórias de vinganças numa sociedade marcada pelo abismo social e movida a ressentimento e humilhação. Com uma cultura que reflete a rápida ocidentalização com o K-Pop e a neopentecostalização. A produção Netflix da Coréia do Sul “Meus 84 m2” (84 Jegopmeteo, 2025) é mais um filme de uma extensa lista dessas histórias sobre luta de classes. Trabalhando como assistente de gerente em algum labirinto corporativo, um jovem investe todas as suas economias para comprar um pequeno apartamento no Centro de Seul, símbolo do sucesso da classe média. Três anos depois, ele está um caco, afogado em dívidas, fazendo malabarismos com empregos precarizaods, ignorado pelos bancos e caindo em um golpe de criptomoedas. Até descobrir que as paredes guardam ruídos perturbadores, vizinhos hostis e segredos inquietantes.
quinta-feira, julho 03, 2025
A desconstrução gnóstica e metalinguística de 'Marshmallow'
quinta-feira, julho 03, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
sexta-feira, junho 20, 2025
'Theaters of War': como tornar armas e torturas menos sombrias e criminosas no cinema e TV
sexta-feira, junho 20, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
sexta-feira, maio 30, 2025
'Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes': na vida inautêntica cantar não espanta os seus males
sexta-feira, maio 30, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
sexta-feira, maio 23, 2025
Cultura mashup e gameficiação de Hollywood no filme 'Until Dawn: Noite de Terror'
sexta-feira, maio 23, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A gameficação chegou a Hollywood com o sucesso estrondoso de “Minecraft Movie”. Porém, uma coisa é a adaptação fílmica de jogos eletrônicos. Outra coisa é a cultura mashup que resulta em filmes como “Until Dawn: Noite de Terror” (Until Dawn, 2025): baseado no popular videogame para PlayStation 4, lançado em 2015, com dinâmica slasher que tinha como fontes "Evil Dead II" e "Poltergeist", e de jogos como Resident Evil e Silent Hill, que já haviam sido adaptados para o cinema. Total mashup: um filme baseado em um jogo baseado em filmes, alguns dos quais baseados em jogos. O efeito é uma espécie de amnésia social: em um suporte de alta tecnologia, conteúdos mashups a partir de tudo que a velha mídia produziu são exibidos com aparência de novidade para uma geração cada vez mais nativa digital. Mas cumpre uma função social antiquíssima do ritual de passagem: jovens oferecidos em sacrifício para sofrerem mortes cada vez piores com uma moral da história: o destino pune exemplarmente aqueles que ousarem a desafiar a ordem moral.
sábado, maio 17, 2025
Cinderela na cultura coaching vira um conto de horror em 'The Ugly Stepsister'
sábado, maio 17, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O filme “The Ugly Stepsister” (Den Stygge Stesøsteren, 2025), da diretora norueguesa Emilie Blichfeldt, é mais uma releitura de contos de fada da cinematografia recente. Ela pega o conto clássico dos irmãos Grimm, “Cinderela”, e inverte o foco: acompanhamos a história não mais do ponto de vista da heroína, mas da ótica da meia-irmã feia que a todo custo quer ser a escolhida do príncipe. Qual o preço da beleza? É quando o conto “Cinderela” se encontra com o horror corporal cronenbergiano. E também quando descobrimos que Cinderela, desde o início com os irmãos Grimm, foi uma história de horror. Até ser embelezada pela Disney. Mas os irmãos Grimm ainda buscavam ensinar para o leitor uma “moral da história”. Ao contrário da versão de Emilie Blichfeldt: vira um conto de advertência sobre zeitgeist atual da hegemonia das tecnologias do Eu da cultura coaching – gerir a si mesmo como marca para ter o maior impacto num mercado competitivo.




















![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




