sábado, outubro 31, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
É o paroxismo da comunicação alt-right: a urgência da “Flood The
Zone” é tamanha que acabaram criando um Juan Guaidó 2.0. Flávio performando um autonomeado
“President of United States of Brazil” com ares de Napoleão de hospício! Com
Trump e Marco Rubio adorando o wishful thinking da AL transformada em “Nova
América”. Esse e outros temas delirantes vão ser discutidos na Live Cinegnose
360 #263, nesse domingo (01/11), às 18h, no YouTube e Facebook. Começando com a
banda japonesa de jazz fusion “Casiopeia”: entendo o gênio japonês da
estilização do Ocidente. E depois, vamos discutir dois filmes: “Dentro da
Baleia” (o mito bíblico de Jonas e Moby Dick revisitam o século XXI) e “Aaaaaaaah!”
(somos todos primatas digitais). Na sessão dos Livros, vamos retornar ao “Marx para
Gatos”. E na Crítica Midiática: Lula, entre o povo e a “responsabilidade fiscal”;
Operação “Galinha Verde e Amarela”: fuga estava planejada como “Plano B”; Por
que Grande Mídia e financismo rentista flertaram com o abismo; “falhas” do
Smart Samp: crime organizado ocupando o Estado; Flávio à luz da comunicação
alt-right: “Flood the Zone” – grande mídia vai hipernormalizar; site
progressista preocupado com “esquerda radical” no governo Lula 4.0.
sábado, outubro 31, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O ser humano não é um animal racional; é um animal racionalizante
que usa a tecnologia high-tech apenas para adornar seus impulsos mais
primitivos. É partindo dessa premissa freudiana que o cineasta britânico Steve
Oram concebeu “Aaaaaaaah!” (2015), uma das obras mais perturbadoras, bizarras e
subversivas do cinema independente britânico recente. Uma sátira social onde
subúrbios modernos e videogames convivem com sociedades estritamente regida por
hierarquias de primatas, disputas de território e grunhidos de ódio. De alguma
maneira, diante de nossos consoles de videogames e telas de celulares,
regredimos aos impulsos mais primitivos. O resultado é um raio-X macabro e
profético da nossa era digital e política.
Desde que o
vocalista Greg Lake deixou a banda de rock progressivo King Crimson para fazer
parte do Emerson, Lake and Palmer (EL&P), em 1970, o líder e guitarrista da
banda, Robert Fripp, deu uma série de entrevistas e escreveu artigos atacando a
decisão do cantor.
Durante quase
a metade da década de 1970, Fripp insistia em dizer que o EL&P fazia parte
de um mundo tecnológico de computadores, sintetizadores e eletrônica. Fripp
insistia em dizer que, pelo contrário, o mundo do futuro era o da “flauta de
bambu”.
Certamente, o
diretor e roteirista britânico Steve Oram deve ter se lembrado dessa visão distópica
do futuro de Robert Fripp para convidá-lo a fazer parte do filme Aaaaaaaah!
(2015), uma das obras mais perturbadoras, bizarras e subversivas do cinema
independente britânico recente. Uma sátira sombria e experimental.
Fripp colocou
à disposição da produção da trilha vários arranjos do “The ProjeKts” (uma
sucessão de músicas de grupos spin-offs do King Crimson, do início desse
século). Que termina com uma versão em xilofone do monumental hino do rock
progressivo “21th Century Schizoid Man” - a letra da música descreve um cenário
distópico de poluição, guerras, políticos corruptos e desumanização. Ela
sintetiza a figura do homem esquizofrênico do século XXI: aquele que domina a
alta tecnologia científica, mas cuja alma continua aprisionada em um estado de
selvageria atroz.
Uma escolha
musical para o encerramento do filme que é um golpe de mestre conceitual.
A história de
Aaaaaaaah! se passa em um mundo moderno e familiar — com casas, ruas, TV
e tecnologia atuais —, mas com uma única e chocante alteração: todos os seres
humanos agem, pensam e se comunicam inteiramente como primatas e neandertais.
Não há
diálogos reais: os personagens se expressam através de gritos, uivos, gestos,
rosnados e linguagem corporal.
A narrativa
acompanha disputas de território, hierarquias de "machos alfa",
rituais de acasalamento e dinâmicas familiares urbanas vistas sob uma ótica
crua e animalesca.
O ponto forte
de Aaaaaaaah! é o empenho físico do elenco (que inclui o próprio diretor Steve
Oram, Julian Rhind-Tutt, Tom Meeten e Toyah Willcox) impressionante por manter
a seriedade do conceito sem cair no riso fácil o tempo todo. Ele usa o absurdo
para fazer uma crítica ácida e desconfortável aos rituais de gênero, violência
e poder da sociedade "civilizada".
Lembrando uma
ideia freudiana bem provocativa: é errado considerar o homem como um ser
racional. Na verdade o homem seria um animal racionalizante. O homem não é
um ser que, através da lógica, da evidência e da análise crítica avalia a
realidade e toma decisões. Pelo contrário, nossos atos são basicamente
motivados por impulsos inconscientes e primitivos. Posteriormente fabricamos
justificativas pseudológicas para nos convencer de que fomos totalmente
coerentes, “racionais”.
Aaaaaaaaah! imagina uma
sociedade sem racionalizações hipócritas. Por algum motivo, a sociedade “regrediu”
ao estado primata. Ou simplesmente se cansou de álibis para justificar impulsos
animalescos.
E resolveu
assumir de vez o estado regressivo.
O Filme
O filme se
passa em um subúrbio britânico cinzento e banal. A premissa central acompanha Smith
(Steve Oram) e seu capacho/subordinado Keith (Tom Meeten), que chegam a uma
nova vizinhança com o objetivo claro de usurpar o poder do "macho
alfa" local, Ryan (Julian Rhind-Tutt).
A convivência
doméstica mimetiza a rotina moderna — as pessoas assistem TV, cozinham, usam
micro-ondas e jogam videogames —, mas tudo é subvertido por comportamentos
animalescos: eles urinam nos eletrodomésticos para marcar território, disputam
comida com violência física brutal, trocam olhares de intimidação e se limpam
por meio de catação de piolhos e gestos de submissão.
Smith
articula sua invasão social aproximando-se da fêmea dominante da casa rival, Barbara
(Toyah Willcox), enquanto o antigo alfa Ryan resiste violentamente. Ao longo da
trama, vemos subtramas degradantes, como a de Og, um pária humilhado nas ruas
que desconta seus instintos em crueldades mesquinhas.
Há uma ironia
fundamental na premissa do filme: embora os personagens usem consoles de
videogame, assistam a telas e vivam em casas modernas, a tecnologia em Aaaaaaaah!
não serve para elevar o intelecto humano; ela é apenas um adereço oco dentro de
uma jaula.
O filme
capturou com precisão cirúrgica o zeitgeist da era digital: a ilusão
de que o hiperdesenvolvimento tecnológico nos tornou mais civilizados, quando,
na verdade, facilitou uma regressão tribal coletiva.
O
comportamento dos personagens espelha diretamente a dinâmica das redes sociais
modernas — a busca obsessiva por validação do "grupo", o cancelamento
sumário, o linchamento virtual guiado por manada e a polarização onde o
contraditório é respondido apenas com gritos, emojis agressivos e urros de ódio
(grunhidos digitais).
Na internet,
abandonamos a retórica complexa em troca de reflexos viscerais de aprovação ou
repulsa. O filme satiriza essa condição ao mostrar que, por baixo da fina
película de verniz da nossa civilização digitalizada, habita um macaco raivoso
faminto por poder e hierarquia instantânea.
Aaaaaaaah! foi
profético
Produzido e
lançado pouco antes do referendo do Brexit em 2016, Aaaaaaaah! funciona
como uma alegoria sombria e involuntariamente profética da psique nacional
britânica que culminaria na saída da União Europeia e no fortalecimento do
populismo de extrema-direita.
A premissa do
Brexit em proteger o "território" a qualquer custo, a desconfiança
paranoica em relação aos estranhos que entram no bairro e a hostilidade
visceral contra o "outro" são os pilares da narrativa do filme. É o
retrato cru do nativismo político levado ao seu absurdo biológico.
A política da
extrema-direita contemporânea alimenta-se do apelo à força bruta, à
testosterona performática, à rejeição de consensos democráticos e à promessa de
restaurar uma suposta "glória perdida" através da subjugação do
adversário.
A luta de
Smith para destronar Ryan e impor sua lei marcial doméstica antecipa a retórica
política baseada em "homens fortes", nacionalismos paroquiais e o
descarte de instituições civilizatórias em favor de impulsos primitivos.
Em síntese:
Steve Oram propõe um experimento sociológico e estético radical: um mundo
contemporâneo onde os seres humanos caminham erguidos e usam tecnologia, mas
retiram completamente a fala articulada, agindo rigorosamente como primatas
(chimpanzés e gorilas).
Ficha Técnica
Título: Aaaaaaaah!
Diretor: Steve Oram
Roteiro: Steve Oram
Elenco: Steve Oram, Tom Meeten, Julian Rhind-Tutt,
Toya Willcox, Lucy Velik
sexta-feira, outubro 30, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Da volatilidade ao colapso: a "segunda-feira
sangrenta" do mercado financeiro e a fuga cinematográfica de Flávio
Bolsonaro para os Estados Unidos expuseram a engrenagem oculta em que a
burguesia rentista da Faria Lima e a grande mídia corporativa flertam com o
abismo institucional. Embalados por projeções de mercado que davam como certa a
vitória do senador e sob os auspícios de um jornalismo que hipernormalizou
figuras umbilicalmente ligadas ao submundo da milícia e da lavagem de dinheiro,
esses dois setores demonstraram estar dispostos a transformar o país em uma
grande plataforma de apostas de alto risco. No entanto, enquanto as
"sardinhas" da classe média no mercado financeiro absorvem os prejuízos e o país encara o
risco social, as elites seguem protegidas por suas salvaguardas privadas,
revelando que o verdadeiro "Plano B" do financismo não é evitar a crise,
mas lucrar com a sua gestão.
terça-feira, outubro 27, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
“Saída pela direita!”, era o bordão da inesquecível animação da
Hanna Barbera, Leão da Montanha, sempre perseguido por um implacável pequeno caçador.
Pois o senador da República, candidato recebido por um tapete vermelho pela
cúpula da Globo em almoço horas antes da sua sabatina no Jornal Nacional e
hipernormalizado pelo jornalismo corporativo (“oposição”, “candidato” etc.)
lembrou o Leão da Montanha: “Saída pela direita!”... Argentina, jatinho, EUA...
Fugiu! Deixando para trás o pesado desafio midiático de normalizar o bizarro. Como
a grande mídia e a Faria Lima flertaram com o abismo é o que vamos discutir na
Live Extra Cinegnose 360 #151, nessa quarta-feira (28/10), às 18h, no YouTube e
Facebook. Temos as trepidantes “Conversas Aleatórias” sobre um país que não é
para amadores. E na Crítica Midiática: Flertando com o abismo 1: como Faria
Lima precificou vitória de Flávio; Flertando com o abismo 2: almoçando com
Flávio; flertando com o abismo 3: as tentativas da mídia normalizar a fuga de
Flávio; flertando com o abismo 4: a saudação nazista na eleição do Rio; flertando
com o abismo 5: desmonte do Estado e crime organizado. E outras distopias!
sábado, outubro 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Na reta final, o “doisladismo” do jornalismo corporativo está delirante!
Não obstante as recorrentes denúncias contra Flávio (compra de mansão, vínculo
com apostas, Willer Tomaz, Vorcaro e milícias), a gafe no debate (trocando o
nome da mãe pelo nome da filha assassinada por miliciano) e o candidato ser o
filho de um ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado, para a mídia
tudo é a “Festa da Democracia”! Apenas dois oponentes numa “festa democrática”.
Venha discutir esse negacionismo midiático e acompanhar ao vivo as apurações na
Live Cinegnose 360 #262, nesse domingo (25/10), às 18h, no YouTube e Facebook. Na
Crítica Midiática, uma análise principalmente semiótica do debate da Globo e
outras bombinhas semióticas das primeiras páginas dos jornais. E acompanhamento
ao vivo das apurações, com análises e pitacos de Enzo Ferreira (FEA-USP). Venha
comemorar ou ficar de luto nessa Live. Pode acontecer de tudo!
sábado, outubro 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre o esgar irônico e a piada lacradora: a participação
de Flávio Bolsonaro no debate da TV Globo nessa última sexta-feira expôs a
fenda aberta entre a comunicação verbal e a não-verbal. Contudo, mais
intrigante do que o próprio déficit comunicacional do candidato é a capacidade
da grande mídia de anestesiar o público e hipernormalizar a farsa, alçando ao
centro da disputa uma figura que desmoronaria sem o amparo do ecossistema
midiático composto pelos cortes das redes e o imparcialismo cênico do jornalismo
corporativo. Para compreender essa anestesia coletiva e a mecânica por trás do
espetáculo, convém recorrer ao neurologista Oliver Sacks e fazer um experimento imaginário sobre como a mente decodifica a mentira política: extrapolar as conclusões que Sacks chegou em um hospital neurológico e aplicá-las ao debate da Globo.
sexta-feira, outubro 23, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se a literatura e o cinema clássicos usaram o monstro marinho como
símbolo de um castigo divino (como no mito bíblico de Jonas e a baleia) ou de
uma rebelião cósmica contra um criador opressor (como em “Moby Dick”, de Herman
Melville), o século XXI reescreve essa jornada nas profundezas sob uma ótica
estritamente psicológica. É o que propõe o visceral thriller de sobrevivência “Dentro
da Baleia” (Whalefall, 2026), dirigido por Brian Duffield: na trama, o estômago
de um imenso cachalote deixa de ser um abismo externo para se transformar no
cadinho definitivo de acerto de contas com o luto, o trauma geracional e os
fantasmas da relação entre pai e filho.
terça-feira, outubro 20, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Qual será o clima desse Halloween? Só de doces ou travessuras? Ou
distópico, amargo e sangrento com tesouraços assassinos e massacres de serra
elétrica? Depende! Se a vitória no mundo virtual do Exército de Lula repercutir
no mundo real e a aposta na bomba semiótica do pânico moral da quebra de
sigilos bancários de Lula der certo. Se não... É nessa atmosfera de aposta
distópica que acontecerão os debates da Live Extra Cinegnose #150, nessa quarta-feira
(21/10), às 18h, no YouTube e Facebook. Com as sempre trepidantes “Conversas
Aleatórias” com perguntas, comentários e sugestões livres no Chat. E, logo em
seguida, a Crítica Midiática: Lula retrocede à bomba semiótica do pânico moral
da quebra de sigilos bancários; CNN, Luciano Huck, Valor Econômico: como
Vorcaro fez a mídia encarar o próprio abismo; Flávio acena com capitalismo de
choque para a Faria Lima; o sabotagem da troca de locais das sessões eleitorais
no segundo turno; Dúvidas Justificadas: Fim da Escala 6X1, VAT e ONG 4 Days
Week; Mais dúvidas justificadas: manifestações estudantis na Europa e o modus
operandi “Jornadas de Junho de 2013” no Brasil.
sábado, outubro 17, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Como já disse
Groucho Marx (e Milton Friedman também): “Não existe almoço grátis!”... Como
interpretar a “coincidência” de um almoço “institucional” oferecido pela cúpula
da Globo para o candidato Flávio Bolsonaro? Para, algumas horas depois, Flávio
ser sabatinado no JN. Enquanto Lula, no dia anterior, só mereceu mesmo um copo
d’água na sabatina do JN. Não há coincidências em política, só sincronismos! Venha
interpretar conosco esse e outros assuntos na Live Cinegnose 360 #261, nesse
domingo (18/10), às 18h, no YouTube e Facebook. Que contará com uma entrevista
com o nosso convidado, o ativista cívico Ricardo Julio da Silva, para
entendermos o porquê do Antipetismo no imaginário político brasileiro. Na
sessão dos Vinis e CDs vamos ver Najee: Jazz e Forças Armadas nos EUA. Depois,
vamos conversar sobre o novo filme de Tom Cruise, “Digger” ("Perfure,
baby, perfure" ou como fazer o público rir sem culpa). Na sessão dos
Livros do Humilde Blogueiro: Marx para Gatos. E na Crítica Midiática: O que a
cúpula da Globo queria no almoço com Flávio? Depois da interferência dos algoritmos
da Meta, a denúncia do hackeamento dos sistemas cibernéticos do Brasil por
agências americanas: Síndrome de Brian? CNN e a “Operação Miriam Cordeiro” com
a lobista Luchsinger; Lula começa a “usar a caneta”: é disruptivo? E outras
bombinhas semióticas!
sábado, outubro 17, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O papel do professor como storyteller, os caminhos para engajar os alunos com Inteligência Artificial e a superação do medo da matemática na infância são os grandes destaques da 19ª edição do "Clipando". Desenvolvido como um observatório de mídia e curadoria pedagógica, o programa do Sinpro traz reflexões, notícias comentadas e ideias práticas para inspirar novas estratégias na sala de aula. Confira o episódio completo no YouTube e no Spotify!
sexta-feira, outubro 16, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Vendido pelo
marketing como um thriller catastrófico sobre os excessos da indústria do
petróleo, “Digger” (2026) pega o público de surpresa ao explodir sua própria
premissa logo no primeiro ato. Através de um recurso de “bait-and-switch” que
expõe as entranhas do cinema e do teatro, o diretor Alejandro González Iñárritu
transforma o mais novo sucesso de bilheteria em uma ácida farsa metalinguística
sobre o "antropoceno". A provocação central não aponta o dedo apenas
para os figurões da política ou da energia, mas para uma plateia acomodada que
converteu o iminente colapso do planeta em mero entretenimento consumível. Fazer rir sem culpa, porque transformou a crise climática num produto cult de entretenimento.
Por
que não paramos de perfurar?
A resposta é simples. Porque você não quer que eu pare!
No fundo, você quer que eu continue insistindo e produzindo. De onde? De onde?
Você quer dirigir com gasolina barata e deixar os faróis e o ar-condicionado
ligados.
Você quer passagens baratas para Maiorca para torrar seu traseiro branco na sua
rede.
Comer um hambúrguer enorme, receber lanches em casa,
Carregar o celular para passar horas no TikTok e no YouTube.
Você quer ter energia para fazer perguntas.
Inteligência artificial para corrigir os desastres que ela mesma provocou.
Você quer liberdade. Liberdade para se entregar ao conforto de uma vida
insustentável.
(Digger
Rockwell)
“Drill, baby,
drill”, “Perfure, baby, perfure!”, exortou o então presidente recém-eleito
Donald Trump para os convidados na sua festa de posse em Washington. Para jogar
na cara do presidente derrotado Biden e toda a intelligentsia do Partido
Democrata que culpa os combustíveis fósseis pelas mudanças climáticas, toda a
sua indiferença pela questão do aquecimento global.
Por isso a
figura caricata e histriônica de Trump virou a própria encarnação do
negacionismo climático, o “meu malvado favorito” responsável por cada enchente,
cada tornado, cada tempestade, secas e outros aspectos das mudanças climáticas
do chamado “antropoceno”.
A busca por
vilões e culpados é a própria essência da mídia corporativa: simplifica a
realidade e tranquiliza o distinto público por identificar rapidamente os
culpados. É o sedativo diário para reduzir a angústia diante de um mundo tão
louco.
Alejandro Gonzaléz
Iñarritu (Birdman, Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades) sabe disso,
e por isso concebeu a “comédia de proporções catastróficas”, Digger
(2026), cuja premissa crua é apresentada nos trailers: “Tom Cruise é Digger
Rockwell, bilionário do petróleo arrogante que ignora especialistas e acaba
provocando o deslocamento de uma placa de gelo colossal na Groenlândia,
ameaçando inundar a Europa”.
Rapidamente o
filme Digger estabeleceu-se como um dos artefatos cinematográficos mais
polarizadores e ambiciosos do ano. O filme utiliza uma audaciosa manobra
estrutural — um "bait-and-switch" narrativo — para subverter as
expectativas do público logo em seu primeiro ato.
"Bait-and-switch":
é um recurso de roteiro em que o público é levado a acreditar que uma história,
um gênero, um personagem ou um desfecho será de um jeito (a isca), mas de
repente é entregue algo totalmente diferente (a troca), subvertendo
expectativas.
Pela premissa
crua entregue no marketing do filme, tudo leva a crer que estaremos diante de
mais um vilão negacionista da indústria do petróleo, cujo dinheiro, poder e
indiferença colocará o planeta sob risco de extinção.
Digger
Rockwell é um Elon Musk + petro-oligarca texano que explora petróleo no Ártico,
amigo pessoal de um presidente histriônico (John Goodman) cercado de generais
doidos para começar uma guerra nuclear, invadir a Groelândia e ferrar com os
russos e chineses. Isso nos parece muito familiar... já vimos isso em algum
lugar...
Mas a linha
de diálogo que abre esse texto revela a essência desse “bait-and-switch"
que Iñarritu joga para o público. Diante de um parlamento europeu hostil,
culpando-o pela catástrofe climática europeia provocada por ele. Digger
dispara: no fundo ninguém quer que a indústria do petróleo pare de perfurar.
Para manter um estilo de vida insustentável - a sociedade de consumo com seus
carros, ar-condicionado e muita energia para sustentar um estilo de vida em
torno de gadgets eletrônicos.
Iñarritu não
pretende entregar uma comédia previsível na qual nos divertimos com um vilão
caricatural e a nossa risada se transforma numa racionalização da boa
consciência - afinal, rimos porque sabemos sobre as causas das mudanças
climáticas. Não somos negacionistas!
Não, Digger
entrega uma audaciosa virada metalinguística, a quebra da quarta parede e a
farsa logo na primeira meia hora do filme.
Iñárritu não
está só satirizando bilionários. Ele está satirizando a nós, que transformamos
o colapso climático em conteúdo de entretenimento.
O Filme
O filme
começa como um thriller ecológico de alta tensão: Tom Cruise interpreta Digger
Rockwell, um magnata do petróleo cuja exploração predatória na Groenlândia
desencadeia o rompimento de uma plataforma de gelo colossal, ameaçando o mundo
com inundações catastróficas.
O gigantesco
bloco de gelo de milhares de quilômetros se desloca para a Europa, projetando
cenários catastróficos como tisunamis, enchentes e destruição econômica.
Vivendo
isolado em uma imensa mansão, Digger está mais precopao com a saúde do seu gato
do que com as dezenas de e-mails não abertos e ligações telefônicas não
atendidas que tentam alertá-lo. Até receber a visita do desesperado Ganesh (Riz
Ahmed), diretor ambiental da petrolífera de Digger, com as notícias alarmantes.
Digger tem muitos
pontos em comum com Não Olhe Para Cima, que satiriza a mesma realidade.
A grande diferença é que Digger possui um lado mais dramático, fazendo uso da
metalinguagem para tecer um poderoso comentário sobre como a humanidade é capaz
de processar tragédias.
No entanto,
após cerca de trinta minutos, o cenário se desfaz literalmente: uma árvore cai
de forma artificial, operários de palco entram em cena com miniaturas e
projeções, e revela-se que tudo não passa de uma peça de teatro futurista
intitulada Fossil Fools, encenada em um mundo pós-apocalíptico. Cruise
não é o bilionário, mas Curtis Markson, um ator veterano lutando para ensaiar o
papel.
A
desconstrução do bode expiatório – Alerta de
Spoilers
Temos uma
sátira dentro da sátira. O twist estrutural, revelado com 30 minutos: tudo que
assistimos até então foi um ensaio de uma peça em que o personagem-título do
filme também é, metalinguisticamente, um personagem dentro do próprio filme.
O Digger que
conhecemos, assim como os outros personagens que entraram e saíram de cena no
primeiro ato, são parte do elenco de uma grande peça que remonta o
passo-a-passo que culminou no colapso da sociedade como a conhecemos.
O filme
constrói uma narrativa que desconstrói convenções do cinema para criar uma
espécie de peça teatral gigantesca, que mistura ficção, documentário, cinema e
metalinguagem.
Na prática, estamos
num futuro distópico assistindo a uma peça teatral chamada "Fossil Fools" sobre o nosso presente. É uma
fábula de futuro pregresso. Nesse futuro uma montagem teatral está encenando o
passado, que é o nosso agora, como revisionismo. A arte está tentando entender
como deixamos o mundo colapsar, e ao fazer isso, ela mesma distorce, suaviza e
glamouriza.
Digger reflete um
mundo onde a própria catástrofe climática e o colapso civilizacional foram
digeridos como entretenimento de massa, feeds de notícias polarizados e
"conteúdo".
A peça Fossil
Fools dentro da história é um produto cultural voltado para uma sociedade
que consome sua própria destruição como espetáculo cult.
Com esse plot
twist metalinguístico, o filme desconstrói a obsessão midiática contemporânea
por encontrar "bodes expiatórios" individuais para crises globais. Ao
revelar que o bilionário é apenas um papel representado por um ator em uma
farsa aplaudida por uma plateia de privilegiados, o filme aponta o dedo para a
cumplicidade coletiva do sistema de consumo tardio, onde todos participam e
aplaudem a máquina que os consome.
No fim, o
propósito metalinguístico de Digger não é ser esperto. É nos encurralar.
Iñárritu usa a metalinguagem não para dizer “olha como o cinema é artificial”,
mas para dizer “olha como vocês precisam que tudo seja artificial para aguentar
a realidade”.
É por isso
que ele incomoda. Ele não quer que você saia do cinema pensando “bilionários
são maus”. Ele quer que você saia pensando “eu acabei de me divertir vendo o
mundo acabar, e paguei IMAX por isso”.
Ficha Técnica
Título: Digger
Diretor: Alejandro G. Iñarritu
Roteiro: Alejandro G. Iñarritu, Alexander Dinelaris,
Nicolás Giacobone
terça-feira, outubro 13, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Fogo no
Parquinho... ou no puteiro? Daniel Vorcaro não abandona os seus: agora pula do
celular do banqueiro-presidiário mensagens sobre favores libidinosos a um tal
de “Kassio”, pagando “novinhas” russas e ucranianas para uma festa num triplex em
São Paulo com o ministro. Será que o celular do “Dani Lindão” é o grande modulador
semiótico eleitoral? O controlador da narrativa política? Saiba as repostas na
Live Extra Cinegnose 360 #149, nessa quarta-feira (14/10), às 18h, no YouTube e
Facebook. Como o seguidor sabe, começamos com as trepidantes Conversas Aleatórias:
você pergunta o que quiser para esse humilde blogueiro. Em seguida, a Crítica
Midiática: Oooops! Meta reconhece que “falha técnica” prejudicou alcance de
postagens da campanha de Lula; Pix MEI, Desenrola 3.0: é a caneta, estúpido! Bolsa
e Dólar não são sinalizadores: é só especulação; como previsto, Flávio foge dos
debates na TV; Celular de Vorcaro e a modulação semiótica eleitoral; e se as “novinhas”
de Vorcaro começarem a falar? Cadê o “jornalismo investigativo” em tempos de
pauta Woke? Terceira semana de protestos dos estudantes na França: Putin... e
outras detonações semióticas.
sábado, outubro 10, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
É tanta
mutreta semiótica que a mídia corporativa acaba repetindo o mesmo modus operandi.
Obcecada em provar que ainda é relevante, “Veja” inventa mais uma “bala de
prata” na corrida eleitoral. Dessa vez é uma gravação do Daniel “Lindão”
Vorcaro falando que financiou doc sobre Lula, do Oliver Stone. Nem PF e nem os
próprios jornalões levaram a sério... mas as redes sim! Vamos debater esse e
outros assuntos na Live Cinegnose 360 #260, nesse domingo (11/10), às 18h, no
Youtube e Facebook. Nessa edição, a voltas dos Vinis e CDs do humilde blogueiro
com Tom Jones: a sobrevivência e um metamorfo musical. No Cinema e Audiovisual,
o filme “O Aniversário” (como destruir a democracia por dentro) e o sci-fi sueco
“Aniara” (a tecnologia nos protege de qualquer coisa... menos de nós mesmos). E
na Crítica Midiática: jornalismo corporativo cobre as eleições como se fossem
na Suíça: fazendo making offs e prendendo o nariz; Campanha Lula afogando na
espuma midiática: é a Tarifa Zero, estúpido! Para Lula virar: a bomba semiótica
da Tarifa Zero; O estelionato eleitoral no Rio de Janeiro, o laboratório social
brasileiro; E se Lula ganhar a eleição? Campopiano, Carol de Toni, Julia
Zanatta: uma psicanálise das “Tradwifes” brasileiras; Trump inaugura os “shows
de fuzilamentos”: o real imita a ficção. E outras bombas semióticas.
sexta-feira, outubro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto a
militância se distrai com a espuma das provocações bolsonaristas e o frenesi
dos algoritmos digitais, a campanha de Lula corre o risco de perder a batalha
pelo futuro. Presa na armadilha da comunicação reativa e sufocada pela espuma
midiática da extrema-direita, a campanha de Lula corre o risco de afundar no
segundo turno se continuar apostando apenas no discurso do "defenda a
democracia" e na exibição do passado. Para furar o transe hipnótico das
redes e a histeria do mercado, o campo progressista precisa parar de reagir e
detonar um verdadeiro acontecimento comunicacional: transformar a TARIFA ZERO na
grande bomba semiótica arma de guerra informacional do segundo turno. Choque de
realidade que desliga a máquina de guerra cultural da direita e obriga todos a
jogarem no tabuleiro onde a esquerda é mais forte: a transformação material e
concreta da vida da classe trabalhadora.
sexta-feira, outubro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Quando o
filósofo alemão Theodor Adorno concluiu, na década de 1950, após pesquisa
empírica nos EUA, que o fascismo era uma tendência latente na própria sociedade
americana, poucos imaginaram o quão profético seria seu alerta. Sete décadas
após a publicação do clássico estudo "A Personalidade Autoritária", o suspense
político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa,
transforma o veredito de Adorno em ficção assustadora: a história de como uma
democracia sólida pode ser corroída por dentro não por um golpe de Estado, mas
pelo ressentimento e pelo autoritarismo adormecido no cidadão comum. Em
“Aniversário” acompanhamos o crescimento de uma família, a mudança na dinâmica
de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha
pela sociedade.
Entre os anos
1944 e 1947, Theodor Adorno e sua equipe (Nevitt Sanford, Else Frenkel-Brunswik
e Daniel Levinson) fizeram uma pesquisa empírica nos EUA, envolvendo
questionários, testes clínicos e entrevistas.
Sob o impacto
da Segunda Guerra Mundial, Adorno queria saber se numa democracia burguesa como
a norte-americana seria possível a ascensão de um regimeme político totalitário
fascista. Como foi na Alemanha nazista.
O estudo,
publicado em 1950 sob o título "A Personalidade Autoritária", levou Adorno
descobriu que sim! Concluiu que o fascismo não era um fenômeno exclusivo da Alemanha
ou decorrente apenas de uma crise econômica pontual, mas sim uma tendência
estrutural da modernidade.
A pesquisa
revelou que uma fatia significativa da população possuía traços de
personalidade profundamente autoritários (o tipo "potencialmente
fascista"). Essas pessoas não se declaravam abertamente fascistas, mas
apresentavam uma estrutura de caráter suscetível à demagogia autoritária.
A
"Síndrome Autoritária" e a célebre Escala F (de Fascismo) foi
desenvolvida para medir essa predisposição sem fazer perguntas políticas
diretas. Adorno identificou características marcantes no indivíduo autoritário:
Submissão autoritária: Respeito acrítico e obediência cega às figuras de
autoridade do seu in-group; Agressão autoritária: Hostilidade e desejo
de punir qualquer pessoa que violasse normas convencionais ou pertencesse a
grupos minoritários (out-groups) etc. – sobre isso clique aqui.
O filme O Aniversário
(Anniversary, 2025), dirigido pelo polonês Jan Komasa (Suicide Room,
Corpus Christi), funciona como uma assustadora construção cinematográfica
do exato cenário que Theodor Adorno e sua equipe temiam. A obra ilustra como
uma democracia burguesa sólida como a dos Estados Unidos pode ser corroída por
dentro.
Não por meio
de um golpe militar clássico, mas pela ativação orgânica da "personalidade
autoritária" latente em cidadãos comuns por meio de um movimento populista
de massa.
Komasa
enxerga os Estados Unidos com mais clareza do que a maioria dos cineastas
americanos, tendo crescido em um país que foi ocupado pela Alemanha nazista e
pela antiga URSS, e tendo dirigido outros filmes sobre a vida sob regimes
autoritários, incluindo o híbrido documentário-drama Warsaw 44.
A princípio,
o título do filme parece se referir apenas a um evento familiar que abre a
história: o 25º aniversário de casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora
de ciência política com ideias progressistas que leciona na Universidade de
Georgetown; e seu marido Paul (Kyle Chandler), um chef que se tornou dono de
restaurante em Washington, D.C., um ponto de encontro para as figuras
influentes da cidade e lucrativo o suficiente para financiar a educação de
elite dos quatro filhos do casal, três dos quais já saíram de casa.
Mas o filme
se constrói em torno de vários encontros que ocorrem ao longo de cinco anos,
culminando no 30º aniversário do casal. Acompanhamos o crescimento da família,
a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento
autoritário se espalha pela sociedade.
Adorno
concluiu que o fascismo não era uma anomalia distante, mas uma potencialidade
inerente à modernidade.
Em O Aniversário,
o autoritarismo não se instaura pelas margens extremas ou por invasores de
fardas negras, mas pelo mercado editorial, pelas conversas de jantar e pelo
conforto das soluções fáceis. A democracia americana colapsa rapidamente porque
a ideologia encontra terreno fértil nas frustrações e desejos da população,
ilustrando o veredito de Adorno: a democracia formal de um país cai se a
estrutura psíquica do seu povo for predisposta ao autoritarismo.
O Filme
A trama
começa como um drama familiar tenso durante a comemoração de 25 anos de
casamento da professora universitária Ellen e do dono de restaurante Paul.
A dinâmica
sofre um abalo severo quando o filho do casal, Josh (Dylan O'Brien), um
escritor em busca de sucesso (e ressentido, cujo primeiro livro foi rejeitado
pelas editoras), traz sua nova namorada, Liz (Phoebe Dynevor). Ellen a
reconhece imediatamente: anos antes, ela havia sido fundamental para a expulsão
de Liz da universidade após a jovem apresentar uma tese acadêmica de
inclinações violentamente antidemocráticas.
Liz, com suas
convicções políticas de extrema direita, se sentiu rejeitada e humilhada por
sua professora. Mas que agora está prestes a se tornar uma estrela da mídia
conservadora. O primeiro livro de Liz, "The Change: A New Social
Compact" — um livro-manifesto tão grosso quanto uma caixa de sapatos —
está prestes a ser publicado.
Liz e Josh
possuem a disposição psíquica principal da Escala F de Adorno: o ressentimento
e o sabor autoritário da vingança. Josh se sente um fracassado diante da sua
mãe, uma intelectual pública que é convocada pelo chefe de seu departamento
para aparecer em um programa de notícias nacional. E Liz nutre um projeto
secreto de se infiltrar na família da sua algoz, e implodi-la – e levar o país
junto.
Liz é mais
falsa que as lágrimas de um desses televangelistas, mas nem todos na festa
percebem isso porque ela domina o olhar compassivo e o tom afável.
Um exemplo
disso é Paul, que insiste que todos que participam de uma reunião familiar
deixem suas opiniões políticas pessoais na porta. Inicialmente, não temos ideia
da posição de Paul sobre os assuntos do momento. Ele também é progressista,
embora menos expressivo que Ellen, ou um conservador que ama sua esposa mais do
que detesta suas posições políticas? Também não temos certeza sobre a filha
caçula, Birdie (McKenna Grace), uma cientista promissora que parece focada nos
mecanismos da infecção viral e cuja formação política ainda está em
desenvolvimento.
Não há
dúvidas quanto às outras irmãs. Anna (Madeline Brewer) é uma lésbica cômica,
movida por política de esquerda e solidariedade feminista. Cynthia (Zoey
Deutch) é advogada e trabalha em casos ambientais com seu namorado Rob (Daryl
McCormick)
Com o passar
dos anos e sob a fachada do convívio familiar, o rancor intelectual dá lugar a
um pesadelo sociopolítico. Josh e Liz finalmente publicam o grosso manifesto
chamado The Change ("A Mudança"), que prega um recomeço
radical além das estruturas políticas tradicionais e rapidamente se torna um
fenômeno cultural avassalador.
Apoiado por
uma megacorporação chamada Cumberland Company, o movimento ganha proporções
imensas e evolui para um regime totalitário e um Estado policial.
A família
Taylor é inteiramente esfacelada pelas engrenagens desse novo mundo. Pensadores
e jornalistas fogem ou são expurgados, e Ellen é demitida da Universidade e
cancelada nas redes após ser flagrada rasgando a bandeira do movimento. Uma das
filhas, Anna, entra para a resistência e vira alvo do governo, enquanto a
caçula, Birdie, articula um plano bioterrorista contra a corporação por trás do
governo totalitário.
Aniversário e Escala F –
Alerta de Spoilers à frente
A relação
entre a película e os achados da Escala F de Adorno é profunda e mapeia as
estruturas psicológicas do autoritarismo:
Por exemplo,
através de suas pesquisas, Adorno mediu a necessidade que indivíduos inseguros
têm de se submeter acriticamente a líderes ou movimentos fortes. Na trama, Josh
personifica esse homem comum suscetível. Frustrado e ressentido profissionalmente
e buscando desesperadamente uma identidade para aplacar suas falhas pessoais,
ele abraça cegamente as ideias extremistas da esposa. Ele é a materialização de
como a demagogia fascista prospera ao se aproveitar da carência de propósito
individual.
Uma das
principais marcas do indivíduo autoritário para a equipe de Adorno era a
aversão ao intelectualismo. A trajetória de Ellen é simbólica. Ela é
perseguida, gravada clandestinamente e expurgada do debate público justamente
por ser a voz do pensamento crítico que, anos antes, havia identificado o germe
autoritário em Liz. Quando o movimento “The Change” toma o poder, os primeiros
a serem esmagados ou forçados a fugir do país são acadêmicos, jornalistas e
artistas.
Adorno
defendia que a educação emancipatória era o antídoto do autoritarismo; no
filme, vemos a erradicação metódica dessa barreira.
O Aniversário ilustra
também a Agressão Autoritária e a Punição do "Out-Group" quando
a sanidade pública desmorona: vizinhos denunciam vizinhos, drones patrulham os
bairros e agentes governamentais do censo ameaçam os cidadãos. O desfecho ultraviolento,
em que a polícia usa força letal para intervir e fuzilar os próprios filhos do
casal para expurgar a "subversão", retrata exatamente o desejo
totalitário de eliminar fisicamente as minorias e os opositores.
A obra
funciona essencialmente como uma versão roteirizada do livro A Personalidade
Autoritária. O filme reitera o aviso de Adorno: a ascensão de um regime de
controle absoluto em solo americano é sempre possível, bastando que líderes
mal-intencionados ofereçam ordem, poder e falsas soluções para as fraturas
psicológicas dos seus próprios cidadãos.
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"Cinema Secreto: Cinegnose" é um Blog dedicado à divulgação e discussões sobre pesquisas e insights em torno das relações entre Gnosticismo, Sincromisticismo, Semiótica e Psicanálise com Cinema e cultura pop.
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Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
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