Ao abrir “A Odisseia” (2026) não pelo texto homérico, mas pelo claustrofóbico ardil do Cavalo de Tróia, Christopher Nolan expõe de imediato a espinha dorsal de sua adaptação: o triunfo da astúcia sobre o destino. Ao converter os deuses gregos em projeções clínicas e neuroses de Odisseu, o diretor mergulha o mito no zeitgeist terapêutico do século XXI, trocando o fatalismo da Tragédia clássica pela autogestão emocional. Contudo, essa tentativa de "psicologizar" o épico produz uma ironia fulminante: longe de apenas modernizar a narrativa, o filme confirma involuntariamente a célebre tese freudomarxista de Theodor Adorno e Max Horkheimer em “A Dialética do Esclarecimento”. Ao subjugar a fé, a honra e o instinto ao cálculo utilitário e à pura gestão de crise, o Odisseu de Nolan reafirma o mito como o berço da razão instrumental — revelando que o sujeito contemporâneo continua, como há milênios, domesticando a própria natureza para servir à fria engrenagem da sobrevivência.
sexta-feira, setembro 18, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira



















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