O autoelogio de “O Globo” ao reforçar seu time de colunistas para as eleições de 2026 acende um alerta sobre o modus operandi da grande mídia brasileira: a consolidação do "colonismo" como ferramenta de disputa de narrativa. Através de relações promíscuas com fontes em off e da estética da hiper-realidade, figuras como Andreia Sadi operam bombas semióticas que atingem a percepção do público antes mesmo que qualquer crítica racional possa ser formulada. Como o tosco powerpoint da GloboNews sobre as conexões de Vorcaro, emulando aqueles murais de investigação criminal comum na ficção policial das plataformas de streaming. O resultado é um cenário onde o erro técnico serve de álibi para a manutenção de um antipetismo latente, imune a desmentidos e profundamente eficaz na retroalimentação da extrema-direita.
Em meus quase quarenta anos de jornalismo e pouco
menos do que isso como professor universitário na área da comunicação, nunca vi
um jornal se jactar de ter contratado novos colunistas para reforçar a
cobertura em ano de eleições.
Assim o fez o jornal O Globo em chamada na primeira
página do domingo (08/02): “Novas vozes reforçam a cobertura do Globo em ano de
eleições; veja quem são os colunistas estreantes”.
Eleições exigem uma cobertura extensiva, dada conta
por equipes de jornalistas tanto para reportagens de campo, quanto para a
maratona de pesquisas e reuniões em redações.
Ao contrário, imagina-se o “colunista” como aquele
jornalista que “trabalha sentado” (diferentes dos repórteres que trabalham “em
pé”). No passado, um profissional que exercia o chamado “jornalismo de opinião”.
Paulo Henrique Amorim preferia na atualidade chamá-los
de “colonistas”. Ele era mestre em criar apelidos e neologismos para alfinetar
seus adversários, e o termo "colonista" era uma das suas
críticas mais ácidas e frequentes.
Ao trocar o "u" pelo "o" na
palavra colunista, ele queria dizer que determinados jornalistas da
grande mídia brasileira não eram apenas escritores de colunas, mas sim mentes
colonizadas.
Um tipo de jornalismo que se tornou modus operandi nos
tempos de guerra semiótica do Mensalão e da Lava Jato: jornalismo das declarações
em off e suas relações promíscuas com as fontes e informantes de pauta. Tão
normalizado que parece ser da própria essência da prática jornalística
profissional o trabalho do “colonistas” servir de correia de transmissão para
balões de ensaio, pseudo-eventos, factoides, boatos etc.
O autoelogio sincericida de O Globo na capa de um
domingo apenas comprova como será esse ano de maldades político-eleitorais: um batalhão
de “colonistas” servindo de correia de transmissão para vazamentos e balões de
ensaio ou a repercussão dirigida do pesquisismo dos institutos de pesquisa – algumas
capas de O Globo chegam a fazer chamadas de mais de dez colunas de “colonistas”.
A jornalista e apresentadora do programa Estudio I
da GloboNews, Andreia Sadi, é um flagrante exemplo dessa geração que sabe que
para prosperar na grande mídia deve-se investir nas “networks” para apresentar,
a autoridades e políticos, deter poder midiático em ser um eficiente e
confiável canal de vazamentos. Ou de permuta entre pequenos favores: conquista
de espaço na mídia em troca de prestígio com futuras fontes ou informantes de
pauta.
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O
controvertido powerpoint (apud Deltan Dallagnol) na edição de 20/03 do Estúdio
I (emulando um mural de investigação criminal com evidências e conexões, comum
em filmes e programas de TV de suspense e ficção policial) colocando Lula e o
PT no centro das articulações do banqueiro Daniel Vorcaro no escândalo do Banco
Master, é apenas uma pequena avant-première do ano que nos espera.
Uma pequena amostra da autoconfiança do espaço que
sabe que conquistou como “colonista”, mesmo apresentando um infográfico tão
tosco e, além de tudo, malfeito, parecendo ter sido confeccionado às pressas.
Ansiosa em provocar um frisson político para repercutir no final de semana.
O ardil do pedido de desculpas
Mais ainda sintomático foi o pedido de desculpas da
jornalista na segunda-feira, tornando evidente o ardil do powerpoint das
conexões de Vorcaro: tanto a calculada repercussão de sexta-feira, quanto o
pedido de desculpas posterior falando em “erro” foram coerentes no objetivo de
criar um acontecimento comunicacional.
Em poucas palavras, no pedido de “desculpas” da “colonista”,
o “erro” foi, segundo Sadi, não ter colocado as outras conexões com o Centrão,
bolsonarismo e Campos Neto.
Candidamente, Sadi pediu desculpas pelos personagens que não entraram na
ilustração, não se desculpar em relação aos que entraram. Não explica, nem se
desculpa, pelo logotipo do PT, pela inclusão de Lula, de Gabriel Galípolo.
Seu ardil foi misturar no infográfico relações
institucionais com as pouco republicanas de Daniel Vorcaro.
Preocupante foi ver sites progressistas cairem na
cilada semiótica: “cadê o Centrão, o bolsonarismo e Campos Neto?”, quando a
questões deveria ser “o que Lula e o PT da Bahia estão fazendo lá?”.
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Para Sadi o erro foi apenas técnico: faltou espaço
para colocar todo o espectro político no “quadro criminal”.
Ao final, o “colonismo” de Sadi atingiu dois objetivos:
(a) Ao sugerir apenas um
erro técnico que não se alinha à “qualidade editorial” do jornalismo da Globo,
foi como se quisesse dizer: “errei, mas é tudo verdade!”...
(b) Manteve a dissonância cognitiva
que alimenta a extrema-direita: o escândalo Banco Master não pouparia ninguém,
da esquerda à direita, gerando a aversão antipolítica que alimenta o
bolsonarismo.
Porém o que mais preocupa esse humilde blogueiro é:
por que uma estratégia semiótica tão tosca, um infográfico visivelmente feito
nas coxas antes de entrar no ar, tornou-se verossímil?
Isto é, por que se leva tudo tão a sério, como se a
jornalista tivesse apresentado uma peça de denúncia política e não algum
involuntário sketch de humor?
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Como dizia o Coringa de Heath Ledger em O
Cavaleiro das Trevas: “Why So Serious?”.
Há um quê de canastrice visual em tudo isso: a verossimilhança
dessas estratégias semióticas como, por exemplo, sua performance, fotogenia e
composição visual remetem à fotogenia ou telegenia das primeiras representações
da realidade feitas pelo cinema e TV.
Em palavras mais diretas: o sketch de humor
involuntário ganha seriedade e verossimilhança por fazer lembrar ao distinto
público aqueles murais de investigação criminal comum na ficção policial das
plataformas de streaming, presentes em séries como True Detective e Dexter.
Paradoxalmente, podemos dizer que estratégias políticas
se tornam reais na medida em que imitam a ficção.
Hiper-realidade: o real torna-se “realista” quanto mais
imita a imagem estilizada do próprio real.
O ardil semiótico da “colonista” Andreia Sadi foi o
típico ardil da bomba semiótica alt-right: atinge a percepção e não a
opinião, tornando-se autoimune a qualquer crítica ou tentativa racional-opinativa
de crítica ou desconstrução.
Um think tank progressista prestando
assessoria semiótica ou um gabinete de inteligência semiótica no governo já
poderia antever esse contra-ataque da Faria Lima, desde a Operação Carbono
Oculto, no ano passado, no qual ficaram visíveis as conexões do Banco Master
com lavagem de dinheiro do crime organizado.
Haveria tempo suficiente para o Governo antecipar-se e imunizar-se. E não como agora, como de costume agindo de forma reativa.
terça-feira, março 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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