As creepypastas são, essencialmente, as lendas urbanas da
era digital. O termo nasceu na internet por volta de 2007, unindo as palavras creepy
(assustador) e copypasta (gíria da internet para textos copiados e
colados repetidamente em fóruns, o famoso "ctrl+c / ctrl+v").
Diferente das lendas tradicionais que eram passadas de boca em
boca ao redor de uma fogueira, as creepypastas se espalham por fóruns
(como 4chan e Reddit), redes sociais e wikis dedicadas, ganhando vida através
da colaboração coletiva de milhares de usuários.
Nessas creepypastas destacam-se as histórias sobre espaços
liminares – shoppings completamente vazios, corredores, estações de metrô,
estacionamentos subterrâneos etc.
A conexão entre as creepypastas de espaços liminares
(cujo ápice são os Backrooms) e o conceito de "não-lugar" do
antropólogo francês Marc Augé (Não Lugares: introdução a uma antropologia da
hipermodernidade, Papirus, 2019), é uma das convergências mais fascinantes
entre a cultura pop digital e a teoria sociológica contemporânea.
O horror dessas histórias não nasce do medo do escuro ou de um
monstro clássico, mas sim da crise existencial causada pela própria
arquitetura da hipermodernidade.
Para Marc Augé, o não-lugar é definido pela sua função efêmera:
ele existe para ser transitado (corredores, aeroportos), consumido (shoppings,
redes de fast-food) ou comunicado (telas, caixas eletrônicos). Você não
"habita" um aeroporto; você passa por ele.
Nas creepypastas de espaços liminares, o terror começa
exatamente quando a função utilitária do não-lugar é removida, mas a
estrutura permanece. Uma piscina coberta à noite, um shopping completamente
vazio, ou o labirinto de escritórios geram desconforto porque foram despojados
de sua única razão de ser: as pessoas e a atividade econômica. Ao esvaziar o
não-lugar, o que sobra é um esqueleto arquitetônico absurdo e sem propósito.
![]() |
A essência da hipermodernidade seria quando os não-lugares começam
a substituir ou contaminar os lugares antropológicos – o espaço de memória e
construção de identidade. Os lugares de convivência seriam cada vez mais invadidos
pelos não-lugares: pátios de alimentação de shoppings, eventos culturais em estacionamentos
ou saguões de aeroportos. E as próprias redes sociais, mediados pelos nossos avatares,
os nossos eus espectrais.
E a ascensão dos creepypastas sobre espaços liminares seria o
sintoma desse zeitgeist do século XXI.
O filme de terror psicológico e ficção científica lançado pela A24
sob a direção de Kane Parsons chama-se, Backrooms – Um Não-Lugar (2026) é
baseado nesse fenômeno da internet dos creepypastas de espaços liminares.
O filme expande de forma brilhante esse universo.
O labirinto de carpetes úmidos e luzes fluorescentes oculto num
espaço interdimensional em uma grande e monótona loja suburbana de móveis. O
filme é, literalmente, a materialização cinematográfica do conceito de "não-lugar"
do antropólogo Marc Augé. E como a hipermodernidade estaria criando um estranho
inconsciente coletivo.
O youtuber Kane Parsons estreia na direção de longas-metragens com
este filme de terror conceitual, brilhantemente gélido e genuinamente
perturbador, baseado em sua websérie e com roteiro de Will Soodik.
![]() |
Trata-se de pessoas enclausuradas em suas próprias memórias,
aprisionadas em cenas infinitamente lembradas de seu passado, ou em versões
miseravelmente percebidas de suas existências presentes, nas quais se tornaram
caricaturas de si mesmas, estrelas gárgulas de seu mundo interior paralisado de
fracasso.
O Filme
Estamos no início dos anos 90 e Clark (Chiwetel Ejiofor) é um
arquiteto fracassado, separado da esposa e alcoólatra que, para sobreviver,
administra com autodesprezo uma loja de móveis enorme e sinistra, chamada “Império
Otomano do Capitão Clark”.
Ele faz comerciais de TV bobos vestido de pirata, enquanto tem a
vaga noção de que deveria ser um sultão para que o trocadilho com "Império
Otomano" fizesse sentido.
Ele consulta uma terapeuta, Mary (Renate Reinsve), uma pessoa
triste e gentil que vende suas próprias fitas de áudio de autoajuda e é
assombrada por memórias de infância de sua mãe abusiva.
O pobre Clark tem que dormir na própria loja, em uma das camas dos
pequenos cenários que simulam quartos, estranhas representações de espaços
reais onde as pessoas vivem.
Mas um dia, no enorme porão, ele descobre uma seção da parede
sobrenaturalmente porosa, através da qual pode caminhar e descobrir uma vasta
rede secreta de salas nos fundos – estranhas instalações que exibem
instantâneos do que parecem ser diferentes versões da realidade. E isso se
estende infinitamente. Clark percebe que sair desses não-lugares não é fácil, e
Mary também não, quando entra para procurá-lo.
![]() |
O filme se torna uma jornada claustrofóbica pela sobrevivência e
pela sanidade. Eles descobrem que o local é habitado por distorções físicas e
entidades malevolentes (como, por exemplo, uma versão corrompida do próprio
Clark).
O antropólogo francês Marc Augé definiu os "não-lugares"
como os espaços de circulação, consumo e comunicação característicos da hipermodernidade. Ao contrário dos "lugares antropológicos"
tradicionais — que geram identidade, têm história e criam relações sociais
(como a casa de infância, a praça de uma cidade histórica) —, os não-lugares
são transitórios, padronizados e solitários. Exemplos clássicos são aeroportos,
hotéis de rede, supermercados, rodovias e... lojas de móveis planejados.
O filme de Kane Parsons eleva esse conceito ao nível do terror
metafísico de três formas:
1. A Padronização e a Perda de Identidade
Nos Backrooms, não há marcas de historicidade. As salas de
escritório vazias não pertencem a nenhuma empresa, as paredes não têm quadros e
o carpete é genérico. É a arquitetura corporativa da hipermodernidade despida
de sua função utilitária. O indivíduo que entra ali perde sua individualidade;
ele se torna apenas um corpo em trânsito, exatamente como o usuário de um
terminal de aeroporto de madrugada.
![]() |
2. A Solidão no Espaço de Trânsito
Augé aponta que o não-lugar cria uma "solidão
contratual". Você está cercado por uma estrutura feita para a massa, mas
está radicalmente sozinho. No filme, a imensidão do labirinto gera uma
claustrofobia invertida: o horror não vem de estar preso em um quarto pequeno,
mas de estar preso no infinito vazio. O zumbido das lâmpadas
fluorescentes substitui qualquer som humano ou natural, representando o
silêncio existencial da vida hipermoderna.
3. A Fusão entre Realidade e Não-Lugar
O desfecho do filme é onde o conceito de Augé se consolida de
forma mais pessimista.
Quando Mary retorna e percebe que o mundo real se transformou em
um grande não-lugar, o filme critica a nossa própria realidade atual. Passamos
nossas vidas transitando entre cubículos de escritório, telas de computador,
shoppings padronizados e conexões de Wi-Fi em hotéis.
Backrooms nos mostra
que o verdadeiro terror não é cair em uma dimensão paralela de salas amarelas
vazias; o terror é perceber que o design da nossa sociedade hipermoderna já
transformou o nosso mundo em um eterno e alienante não-lugar.
Ficha Técnica |
|
Título: Backrooms – Um Não-Lugar |
|
Direção: Kane Parsons |
|
Roteiro: Will Soodik, Kane
Parsons |
|
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate
Reinsve, Mark Duplass |
|
Produção: A24 |
|
Distribuição: Imagem Filmes |
|
Ano: 2026 |
|
País: EUA |
quinta-feira, junho 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




.jpeg)
Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




