O vazamento pelo The Intercept de um áudio em que o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), cobra intimamente recursos do banqueiro Daniel Vorcaro para salvar o filme Black Horse detonou uma crise sistêmica que tornou natimorta sua campanha ao Planalto. O episódio escancara a maior ironia da política contemporânea: enquanto anos de graves denúncias sobre vínculos com o "crime de sangue" das milícias cariocas foram absorvidos pela opinião pública como mero ruído, bastou um escândalo estético sobre os bastidores da própria imagem para implodir o clã. É a prova definitiva de que, na era da Media Life, o "crime de narrativa" destrói muito mais do que a dura realidade dos fatos jurídicos.
O áudio
vazado pelo "The Intercept" em que o pré-candidato à presidência pelo PL, Flávio
Bolsonaro, pede recursos financeiros a Daniel Vorcaro para evitar a paralisação
do filme Black Horse (sobre a vida do próprio pai, Jair Bolsonaro) chama a
atenção de duas coisas que revelam a natureza da política atual:
(a)
O tom da conversa: a relação não parece institucional
(de um realizador de uma produção audiovisual discutindo aporte financeiro com
um patrocinador), mas de uma conversa pessoal entre dois “parças”: “mermão”, “irmão”,
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, “Um
abração, fica com Deus, cara”. Um tom de alguém que, sem graça, cobra dinheiro
prometido de um amigo próximo.
(b)
O que
lembra um outro áudio: a homenagem de Flávio Bolsonaro na Alerj a Adriano da
Nóbrega (ex-Bope e conhecido miliciano no Rio de Janeiro) em 2005.
Esses dois
elementos acabam também revelando uma ironia aguda. As relações de Flávio
Bolsonaro e família com o chamado Escritório do Crime (grupo de matadores de
aluguel ligado a milícias), sem falar das investigações do Ministério Público
sobre as “rachadinhas” do gabinete de Flávio na Alerj abastecendo contas de
milícias com dinheiro público, sempre ficaram encobertas e inconclusas.
Além das
investigações sobre a suspeitíssima vizinhança de Jair Bolsonaro no Condomínio
Vivendas da Barra - Ronnie Lessa, acusado de disparar contra a vereadora
Marielle Franco, era vizinho de Jair Bolsonaro. Além de Élcio de Queiroz,
o motorista no atentado, ter fotos e conexões com o círculo da família. Tudo
sempre descartado pelas investigações oficiais.
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Enquanto negócios
cinematográficos com um banqueiro corrupto da Faria Lima acabaram imediatamente
repercutindo na mídia, criando uma crise política sistêmica no bolsonarismo e tornando
natimorta a pré-candidatura à presidência.
Em outros
termos: enquanto os vínculos com o "crime de sangue" das milícias
foram, em grande parte, absorvidos pela base eleitoral e opinião pública como ruído
político ou "perseguição", o escândalo do filme Dark Horse
parece atingir um nervo político diferente. Um áudio vazado às vésperas da
prisão de Vorcaro por fraudes bilionárias — desloca o debate para a corrupção
institucional e estética.
Este nervo
político certamente é o ponto nevrálgico da transformação da política
contemporânea: a transição de denúncias de "crime de rua" (milícias)
para "crime de narrativa" (financiamento de um filme biográfico)
ilustra perfeitamente o deslocamento da realidade para o espetáculo.
Por que o escândalo
do filme parece doer mais? É irônico, mas explicável. As denúncias de
envolvimento com milícias são graves no mundo físico/jurídico, mas muitas vezes
são abstratas para o grande público ou filtradas por vieses ideológicos.
Já um
escândalo sobre a construção da própria imagem (o filme) ataca o núcleo do
capital político dessa família: a narrativa.
Quando a
denúncia envolve o financiamento de uma obra que visa mitificar o líder Jair Bolsonaro,
o feitiço acaba virando contra o feiticeiro". A mídia que os elegeu é a
mesma que agora processa a sua queda através de um subproduto midiático (o
áudio vazado).
As denúncias
de envolvimento da família Bolsonaro com milícias no Rio de Janeiro, formando
um mosaico complexo que mistura laços de amizade, empregos em gabinetes e
honrarias públicas, não resultaram no mesmo impacto de placas tectônicas da
política se movendo.
Como expressas
na voz titubeante de Flávio Bolsonaro tentando justificar o patrocínio
milionário do “mermão” Vorcaro. Isso diante do enquadro tomado, ao vivo, na
Globo News, da (imagina!) “colonista” Malu Gaspar.
Essa ironia
entre o “crime cinematográfico” ser mais relevante para a mídia do que o “crime
das ruas” teria duas explicações: uma de natureza semiótica; e outra de
natureza da própria transformação histórica da política em “media life”:
(a) Contaminação semiótica do campo da Política
Enquanto o “crime
de rua” da família Bolsonaro (as ligações promíscuas e perigosas com os
negócios das milícias no RJ) é pessoal e intransferível (tem as digitais de uma
família que sempre viveu de “rachadinhas” legislativas e milicianas), o “crime
cinematográfico” tem um potencial polissêmico inegável.
Confirmado
pela coluna de Lauro Jardim em O Globo (“Vorcaro também financiou filmes sobre
Lula e Temer”) e a capa da revista “Veja” com as fotos de Lula e Flávio
Bolsonaro ao lado da de Vorcaro em fotogramas de um rolo de filme – a corrupção
não seria dos Bolsonaros, mas do próprio campo da Política. Contaminar
semioticamente todo o campo da Política, para reforçar a aversão “antissistema”
e turbinar um novo campeão branco “outsider” à direita do espectro político.
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(b) Media Life
Para Mark Deuze,
a mídia não é mais uma ferramenta que ligamos e desligamos; ela é o nosso
ambiente natural. Assim como um peixe não sabe o que é a água até ser retirado
dela, nós não percebemos a mediação midiática porque ela é onipresente – Leia DEUZE,
Mark. Media Life, Polity Press, 2012).
No passado vivíamos
"com" a mídia: o político dava uma entrevista ou fazia um
comício. Havia um "fora" da mídia. A mídia era apenas um conjunto de
ferramentas para se fazer propaganda.
Ao contrário,
hoje vivemos "na" mídia: cada áudio de WhatsApp, cada
"vazamento" e cada produção cinematográfica (como o filme sobre
Bolsonaro) é a própria substância da política. A política é o conteúdo
que consumimos.
Podemos, então, montar o seguinte quadro comparativo para síntese:
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Se a política
vive dentro da mídia, então o julgamento público não é mais apenas jurídico, é estético
e moral.
Essa
"ironia midiática" sugere que o ciclo se fecha:
uma trajetória que começou desafiando o mainstream através de redes
sociais e "mídias alternativas" agora implode justamente por não
conseguir conter a porosidade dessas mesmas redes. No fim, no regime de Media
Life, a reputação é o único ativo real, e ela é feita (e desfeita) de
pixels e áudios.
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sexta-feira, maio 15, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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