Enquanto o Banco Central se ancora na taxa Selic para conter a inflação de demanda, uma outra variante inflacionária — muito mais silenciosa, porém onipresente — toma conta das redações brasileiras: a inflação semântica do adjetivo "histórico". De decisões do STF a recordes de temperatura, passando por eliminações de reality shows, o jornalismo parece ter abandonado a secura dos fatos para mergulhar em um "eterno presente" onde tudo é vendido como épico, inédito ou lendário. Neste texto, mergulhamos no abismo que separa o tempo da notícia do tempo da história e investigamos como o "Efeito Heisenberg" de Neil Gabler transformou a realidade em uma performance adjetivada para saciar a economia da atenção. Afinal, se tudo é proclamado histórico no grito da manchete, o que realmente restará para a História?
Fala-se muito em inflação. Afinal, é nome dela
(ou contra ela) que a política monetária do Banco Central impõe uma taxa Selic
de 15%. Sob a chantagem da chamada “inflação de demanda”, usar os juros como
dispositivo para “esfriar” a economia.
Mas nesse momento está acontecendo um outro e
inusitado tipo de inflação. Ironicamente, uma inflação que está se expandindo
na mesma mídia que bate bumbo das medidas neoliberais para controlar as ameaças
econômicas inflacionárias.
Uma galopante inflação semântica no jornalismo
brasileiro. Uma inflação semântica de adjetivações. Mais precisamente, o uso inflacionado
do termo “histórico”.
Esse humilde blogueiro tem que confessar
incomodo e perplexidade de como esse adjetivo está sendo utilizado para
designar qualquer tipo de acontecimento, evento, fenômeno etc. Não importa o
tema ou a editoria a qual se refere a notícia. Está lá na manchete ou no lead
de abertura: “histórico” e as suas variantes: “icônica”, “lendária”, “devastadora”,
“sem precedentes” etc.
"Dólar atinge patamar histórico e
gera pânico no mercado financeiro."; "Decisão histórica do STF
muda os rumos da democracia brasileira hoje." "Onda de calor histórica e sem
precedentes castiga o Brasil”; “Ibovespa recua mais de 2% após recorde
histórico na véspera”; “O jogo do século”; “Uma eleição histórica nos EUA”; “Relembre
o julgamento histórico da condenação de Bolsonaro no STF”.
No que este humilde blogueiro possa lembrar em
35 anos no jornalismo e pesquisas acadêmicas na área de comunicação e semiótica,
não consigo encontrar algo parecido. Nem como modismo linguístico momentâneo de
um campo profissional que gostaria de ser valorizado. Criticado como sempre foi
pela superficialidade e efemeridade.
O tempo jornalístico e o tempo histórico
sempre foram diferentes. Antigamente, um evento levava anos ou décadas para ser
filtrado pela historiografia e receber o selo de "histórico".
Pela própria natureza da periodicidade diária
(e hoje imediata, em tempo real) da mídia e das ferramentas disponíveis para registrar
os acontecimentos, o tempo jornalístico sempre foi o instante. Para escapar das
armadilhas ideológicas e políticas da efemeridade (o esquecimento), o máximo que
o jornalismo podia dispor era o esforço do jornalista em contextualizar,
interpretar e investigar as relações causais – a dinâmica dos acontecimentos.
Muito diferente do tempo histórico, no sentido
atribuído por Fernand Braudel: para compreendê-lo exige-se o distanciamento.
O historiador espera a "poeira baixar". O tempo histórico exige que
os desdobramentos de um fato ocorram para que se possa julgar sua verdadeira
importância. A história é feita de silêncios e análises, não de gritos.
Em outras palavras: são dois registros
diferentes do tempo. Enquanto jornalismo registra o momento e as relações causais
(o o "como?"), a historiografia busca compreender o "porquê?", isto é, aquilo que fica
e permanece depois da espuma midiática.
Uma queda de 2% na bolsa pode ser
"histórica" para o jornalismo das 10h da manhã. Para a história, será
apenas uma flutuação estatística irrelevante dentro de um ciclo econômico de 20
anos.
Mas o que vemos nos últimos tempos
(históricos) é a inflação semântica do termo. Quando usamos
"histórico" para descrever desde uma decisão do STF até o preço da
gasolina ou um recorde de audiência de um reality show, o termo perde seu peso
real. Se tudo é histórico, nada é.
Como explicar esse fenômeno midiático?
Este Cinegnose vai aqui propor algumas
hipóteses. E veremos que o uso inflacionado do termo "histórico"
no jornalismo brasileiro — e global — não é apenas uma coincidência
linguística; é o sintoma de uma mudança estrutural na forma como consumimos
informação.
1. A Economia da Atenção e o "Clickbait" Semântico
No ecossistema digital, o jornalismo compete
com dancinhas de TikTok, memes e notificações de WhatsApp. Para que um usuário
clique em uma notícia, o fato não pode ser apenas "relevante" ou mesmo
um “furo” (como se dizia antigamente sobre ficar sabendo de algo que ninguém
mais sabe); ele precisa parecer único ou irrepetível.
Usar um superlativo como Isca ou qualificar
instantaneamente um evento de "histórico" cria um senso de
urgência e importância imediata.
Busca-se despertar no usuário o sintoma da era
das Redes sociais, telefones celulares e demais dispositivos móveis: a atazagorafogia
(o medo irracional de ser esquecido ou ignorado) e o “medo do
desaparecimento” (Fear Of Missing Out - FOMO). Se você não ler
aquilo, estará perdendo um marco da humanidade - a preocupação compulsiva de a
qualquer instante estar perdendo uma oportunidade de interação social, uma nova
experiência, alguma oportunidade de negócio lucrativo - clique aqui.
2. A Aceleração do Tempo e o "Tempo Real"
Vivemos o que historiadores ou teóricos da
literatura chamam de “amplo presente” ou “presente extenso” (Gumbrecht),
“eterno presente” (F. Jameson), “presenteísmo” (Françoise Hartog) ou “choque do
presente” (Douglas Hushkoff).
No
passado, um evento levava anos ou décadas para ser filtrado pela historiografia
em arquivos, anais, fontes primárias etc.
Nesse novo ecossistema digital, privilegia-se o
veredito instantâneo: hoje, o jornalista (ou o influenciador de notícias)
quer ser o primeiro a carimbar a importância de um fato. A análise histórica,
que antes era retrospectiva, tornou-se prospectiva. Tenta-se prever o
peso que o hoje terá no futuro, muitas vezes errando a mão.
O paradoxo da inflação semântica do histórico
é que é um fenômeno em um presente que não passa. Em vez de ser um ponto curto
entre o passado e o futuro, o presente tornou-se um espaço vasto onde todas as
informações e épocas coexistem (graças à internet).
3. A Adjetivação e a Perda da "objetividade" Jornalística
Esse “presente extenso” talvez explique a atual
adjetivação no jornalismo: em um "amplo presente" saturado de
informação, o adjetivo "histórico" é uma tentativa desesperada de
criar uma hierarquia, de dizer "isso aqui importa mais do que o
resto".
O jornalismo clássico prezava pelo substantivo
e pelo verbo (o fato). A adjetivação era vista como uma "intromissão"
da opinião. No entanto, o jornalismo moderno migrou para a narratividade:
- Engajamento
Emocional: Adjetivos como "histórico",
"devastador", "surpreendente" ou "polêmico"
servem para guiar a emoção do leitor.
- A
"Opiniatização" da Notícia: Com a crise do modelo de negócios tradicional, muitos veículos
abandonaram a neutralidade absoluta para adotar tons mais passionais para
buscar engajamento, onde o adjetivo é a ferramenta principal.

4. Jornalismo e o “Efeito Heisenberg”
Podemos
também qualificar essa inflação semântica como uma formação reativa da própria
mídia: como se essa atual natureza narrativa do jornalismo atual (o jornalismo
não está mais em busca de notícias, mas de personagens e protagonistas)
fizessem as notícias e os acontecimentos perigosamente ficarem cada vez mais
parecidos com a ficção.
Portanto,
nesse ecossistema que confunde realidade e ficção, fazer a “História no Grito”
é uma forma hiperbólica e desesperada para diferenciar a realidade da ficção e
fake news.
Para Neil Gabler — um dos críticos culturais
mais perspicazes dos EUA — a aplicação do Princípio da Incerteza de
Heisenberg (da física quântica) ao jornalismo é a chave para entender por que a
realidade hoje parece um filme constante.
Se na física o "Efeito Heisenberg"
diz que o ato de observar uma partícula altera o comportamento dela, no
jornalismo de Gabler, o ato de cobrir um evento altera a natureza do próprio
evento.
“as mídias não estavam de fato relatando o que as pessoas faziam; estavam relatando o que as pessoas faziam para obter a atenção da mídia. Em outras palavras, à medida que a vida estava sendo vivida cada vez mais para a mídia, esta estava cada vez mais cobrindo a si mesma e o seu impacto sobre a vida” (GABLER, Neal. Vida, O Filme. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 97).
No jornalismo tradicional, o repórter deveria
ser uma "mosca na parede": observa sem ser notado. No efeito
Heisenberg isso é impossível.
A Performance para a Câmera: quando uma câmera
ou um microfone aparecem, os envolvidos deixam de agir de forma natural e
passam a performar.
Um político não está apenas "discutindo
um projeto"; ele está criando soundbites (frases curtas e de
efeito) e gestos pensados para a edição do jornal nacional. O evento real é
substituído pela sua representação.
Gabler cunhou o termo Lifenment (Life +
Entertainment). Ele argumenta que o jornalismo parou de relatar a vida e passou
a produzir entretenimento baseado na vida real.
Lembra da nossa conversa sobre o uso do termo
"histórico"?
No efeito Heisenberg, o evento é fabricado
para ser histórico. Cria-se um cenário, convidam-se as pessoas certas e
usa-se uma iluminação épica. O jornalismo então cobre aquilo como se fosse um
fato espontâneo, chamando-o de "marco histórico", quando, na verdade,
foi um roteiro executado para as câmeras.
Para Gabler, quase nada no jornalismo de hoje
(especialmente na política e nas celebridades) é puramente factual. São "Pseudo-eventos"
(conceito original de Daniel Boorstin que Gabler expandiu):
- A Causa:
O evento não acontece espontaneamente; ele é planejado.
- A
Relação com a Mídia: Ele é planejado para ser convenientemente noticiado.
- A
Ambiguidade: Sua relação com a realidade é ambígua (aconteceu de verdade
ou foi só uma encenação?).
O Efeito Heisenberg cria um ciclo vicioso com
o uso do termo "histórico":
- O
Produtor do Evento sabe que o jornalismo precisa de adjetivos para vender
a notícia.
- Ele
entrega um evento já "adjetivado" (com pompa, frases prontas e
drama).
- O
Jornalista, afetado pelo que vê, carimba o rótulo de
"Histórico".
- O
Público consome aquilo como se estivesse assistindo a um filme, perdendo a
noção de que a realidade foi alterada pela presença da própria mídia.
No limite do pensamento de Gabler, a mídia
não cobre o mundo; ela cria um mundo paralelo que é muito mais
interessante, adjetivado e "histórico" do que a realidade sem
câmeras.
sexta-feira, fevereiro 06, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




