sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Inflação Semântica: Por que tudo no jornalismo brasileiro virou “histórico”?



Enquanto o Banco Central se ancora na taxa Selic para conter a inflação de demanda, uma outra variante inflacionária — muito mais silenciosa, porém onipresente — toma conta das redações brasileiras: a inflação semântica do adjetivo "histórico". De decisões do STF a recordes de temperatura, passando por eliminações de reality shows, o jornalismo parece ter abandonado a secura dos fatos para mergulhar em um "eterno presente" onde tudo é vendido como épico, inédito ou lendário. Neste texto, mergulhamos no abismo que separa o tempo da notícia do tempo da história e investigamos como o "Efeito Heisenberg" de Neil Gabler transformou a realidade em uma performance adjetivada para saciar a economia da atenção. Afinal, se tudo é proclamado histórico no grito da manchete, o que realmente restará para a História?

Fala-se muito em inflação. Afinal, é nome dela (ou contra ela) que a política monetária do Banco Central impõe uma taxa Selic de 15%. Sob a chantagem da chamada “inflação de demanda”, usar os juros como dispositivo para “esfriar” a economia.

Mas nesse momento está acontecendo um outro e inusitado tipo de inflação. Ironicamente, uma inflação que está se expandindo na mesma mídia que bate bumbo das medidas neoliberais para controlar as ameaças econômicas inflacionárias.

Uma galopante inflação semântica no jornalismo brasileiro. Uma inflação semântica de adjetivações. Mais precisamente, o uso inflacionado do termo “histórico”.

Esse humilde blogueiro tem que confessar incomodo e perplexidade de como esse adjetivo está sendo utilizado para designar qualquer tipo de acontecimento, evento, fenômeno etc. Não importa o tema ou a editoria a qual se refere a notícia. Está lá na manchete ou no lead de abertura: “histórico” e as suas variantes: “icônica”, “lendária”, “devastadora”, “sem precedentes” etc.

"Dólar atinge patamar histórico e gera pânico no mercado financeiro."; "Decisão histórica do STF muda os rumos da democracia brasileira hoje." "Onda de calor histórica e sem precedentes castiga o Brasil”; “Ibovespa recua mais de 2% após recorde histórico na véspera”; “O jogo do século”; “Uma eleição histórica nos EUA”; “Relembre o julgamento histórico da condenação de Bolsonaro no STF”.

No que este humilde blogueiro possa lembrar em 35 anos no jornalismo e pesquisas acadêmicas na área de comunicação e semiótica, não consigo encontrar algo parecido. Nem como modismo linguístico momentâneo de um campo profissional que gostaria de ser valorizado. Criticado como sempre foi pela superficialidade e efemeridade.

O tempo jornalístico e o tempo histórico sempre foram diferentes. Antigamente, um evento levava anos ou décadas para ser filtrado pela historiografia e receber o selo de "histórico".

Pela própria natureza da periodicidade diária (e hoje imediata, em tempo real) da mídia e das ferramentas disponíveis para registrar os acontecimentos, o tempo jornalístico sempre foi o instante. Para escapar das armadilhas ideológicas e políticas da efemeridade (o esquecimento), o máximo que o jornalismo podia dispor era o esforço do jornalista em contextualizar, interpretar e investigar as relações causais – a dinâmica dos acontecimentos.



Muito diferente do tempo histórico, no sentido atribuído por Fernand Braudel: para compreendê-lo exige-se o distanciamento. O historiador espera a "poeira baixar". O tempo histórico exige que os desdobramentos de um fato ocorram para que se possa julgar sua verdadeira importância. A história é feita de silêncios e análises, não de gritos.

Em outras palavras: são dois registros diferentes do tempo. Enquanto jornalismo registra o momento e as relações causais (o o "como?"), a historiografia busca compreender o "porquê?", isto é, aquilo que fica e permanece depois da espuma midiática.

Uma queda de 2% na bolsa pode ser "histórica" para o jornalismo das 10h da manhã. Para a história, será apenas uma flutuação estatística irrelevante dentro de um ciclo econômico de 20 anos.

Mas o que vemos nos últimos tempos (históricos) é a inflação semântica do termo. Quando usamos "histórico" para descrever desde uma decisão do STF até o preço da gasolina ou um recorde de audiência de um reality show, o termo perde seu peso real. Se tudo é histórico, nada é.

Como explicar esse fenômeno midiático?

Este Cinegnose vai aqui propor algumas hipóteses. E veremos que o uso inflacionado do termo "histórico" no jornalismo brasileiro — e global — não é apenas uma coincidência linguística; é o sintoma de uma mudança estrutural na forma como consumimos informação.



1. A Economia da Atenção e o "Clickbait" Semântico

No ecossistema digital, o jornalismo compete com dancinhas de TikTok, memes e notificações de WhatsApp. Para que um usuário clique em uma notícia, o fato não pode ser apenas "relevante" ou mesmo um “furo” (como se dizia antigamente sobre ficar sabendo de algo que ninguém mais sabe); ele precisa parecer único ou irrepetível.

Usar um superlativo como Isca ou qualificar instantaneamente um evento de "histórico" cria um senso de urgência e importância imediata.

Busca-se despertar no usuário o sintoma da era das Redes sociais, telefones celulares e demais dispositivos móveis: a atazagorafogia (o medo irracional de ser esquecido ou ignorado) e o “medo do desaparecimento” (Fear Of Missing Out - FOMO). Se você não ler aquilo, estará perdendo um marco da humanidade - a preocupação compulsiva de a qualquer instante estar perdendo uma oportunidade de interação social, uma nova experiência, alguma oportunidade de negócio lucrativo - clique aqui.




2. A Aceleração do Tempo e o "Tempo Real"

Vivemos o que historiadores ou teóricos da literatura chamam de amplo presente” ou “presente extenso” (Gumbrecht), “eterno presente” (F. Jameson), “presenteísmo” (Françoise Hartog) ou “choque do presente” (Douglas Hushkoff).

 No passado, um evento levava anos ou décadas para ser filtrado pela historiografia em arquivos, anais, fontes primárias etc.

Nesse novo ecossistema digital, privilegia-se o veredito instantâneo: hoje, o jornalista (ou o influenciador de notícias) quer ser o primeiro a carimbar a importância de um fato. A análise histórica, que antes era retrospectiva, tornou-se prospectiva. Tenta-se prever o peso que o hoje terá no futuro, muitas vezes errando a mão.

O paradoxo da inflação semântica do histórico é que é um fenômeno em um presente que não passa. Em vez de ser um ponto curto entre o passado e o futuro, o presente tornou-se um espaço vasto onde todas as informações e épocas coexistem (graças à internet).

3.  A Adjetivação e a Perda da "objetividade" Jornalística

Esse “presente extenso” talvez explique a atual adjetivação no jornalismo: em um "amplo presente" saturado de informação, o adjetivo "histórico" é uma tentativa desesperada de criar uma hierarquia, de dizer "isso aqui importa mais do que o resto".

O jornalismo clássico prezava pelo substantivo e pelo verbo (o fato). A adjetivação era vista como uma "intromissão" da opinião. No entanto, o jornalismo moderno migrou para a narratividade:

  • Engajamento Emocional: Adjetivos como "histórico", "devastador", "surpreendente" ou "polêmico" servem para guiar a emoção do leitor.
  • A "Opiniatização" da Notícia: Com a crise do modelo de negócios tradicional, muitos veículos abandonaram a neutralidade absoluta para adotar tons mais passionais para buscar engajamento, onde o adjetivo é a ferramenta principal.


4. Jornalismo e o “Efeito Heisenberg”

               Podemos também qualificar essa inflação semântica como uma formação reativa da própria mídia: como se essa atual natureza narrativa do jornalismo atual (o jornalismo não está mais em busca de notícias, mas de personagens e protagonistas) fizessem as notícias e os acontecimentos perigosamente ficarem cada vez mais parecidos com a ficção.

               Portanto, nesse ecossistema que confunde realidade e ficção, fazer a “História no Grito” é uma forma hiperbólica e desesperada para diferenciar a realidade da ficção e fake news.

Para Neil Gabler — um dos críticos culturais mais perspicazes dos EUA — a aplicação do Princípio da Incerteza de Heisenberg (da física quântica) ao jornalismo é a chave para entender por que a realidade hoje parece um filme constante.

Se na física o "Efeito Heisenberg" diz que o ato de observar uma partícula altera o comportamento dela, no jornalismo de Gabler, o ato de cobrir um evento altera a natureza do próprio evento.

“as mídias não estavam de fato relatando o que as pessoas faziam; estavam relatando o que as pessoas faziam para obter a atenção da mídia. Em outras palavras, à medida que a vida estava sendo vivida cada vez mais para a mídia, esta estava cada vez mais cobrindo a si mesma e o seu impacto sobre a vida” (GABLER, Neal. Vida, O Filme. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 97).

               No jornalismo tradicional, o repórter deveria ser uma "mosca na parede": observa sem ser notado. No efeito Heisenberg isso é impossível.

A Performance para a Câmera: quando uma câmera ou um microfone aparecem, os envolvidos deixam de agir de forma natural e passam a performar.

Um político não está apenas "discutindo um projeto"; ele está criando soundbites (frases curtas e de efeito) e gestos pensados para a edição do jornal nacional. O evento real é substituído pela sua representação.

Gabler cunhou o termo Lifenment (Life + Entertainment). Ele argumenta que o jornalismo parou de relatar a vida e passou a produzir entretenimento baseado na vida real.

Lembra da nossa conversa sobre o uso do termo "histórico"?

No efeito Heisenberg, o evento é fabricado para ser histórico. Cria-se um cenário, convidam-se as pessoas certas e usa-se uma iluminação épica. O jornalismo então cobre aquilo como se fosse um fato espontâneo, chamando-o de "marco histórico", quando, na verdade, foi um roteiro executado para as câmeras.

Para Gabler, quase nada no jornalismo de hoje (especialmente na política e nas celebridades) é puramente factual. São "Pseudo-eventos" (conceito original de Daniel Boorstin que Gabler expandiu):

  1. A Causa: O evento não acontece espontaneamente; ele é planejado.
  2. A Relação com a Mídia: Ele é planejado para ser convenientemente noticiado.
  3. A Ambiguidade: Sua relação com a realidade é ambígua (aconteceu de verdade ou foi só uma encenação?).

O Efeito Heisenberg cria um ciclo vicioso com o uso do termo "histórico":

  • O Produtor do Evento sabe que o jornalismo precisa de adjetivos para vender a notícia.
  • Ele entrega um evento já "adjetivado" (com pompa, frases prontas e drama).
  • O Jornalista, afetado pelo que vê, carimba o rótulo de "Histórico".
  • O Público consome aquilo como se estivesse assistindo a um filme, perdendo a noção de que a realidade foi alterada pela presença da própria mídia.

No limite do pensamento de Gabler, a mídia não cobre o mundo; ela cria um mundo paralelo que é muito mais interessante, adjetivado e "histórico" do que a realidade sem câmeras.

  

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