Nem derrubado, nem preso: Nicolás Maduro foi "extraído" da Venezuela como um boneco em uma máquina de garra de shopping. Entre o entusiasmo e a perplexidade, o jornalismo brasileiro — do corporativo ao progressista — parece ter perdido o dicionário diante da "extração" de Maduro. Enquanto as redações se equilibram em saias justas semânticas para diferenciar "autocratas" de "ditadores", a realidade geopolítica de Donald Trump atropela narrativas estabelecidas: em vez de ungir a oposição tradicional, o magnata americano aposta em um "chavismo sem Maduro" sob o comando de Delcy Rodriguez. Diante de uma transgressão que "caminha de andador", a mídia se vê atônita, tentando conceituar um fluxo de eventos que seu antigo arcabouço já não alcança. O que resta é uma curiosa salada semiótica onde o jornalismo tenta esconder o fato de que a nova ordem mundial não segue roteiros de Hollywood, mas a lógica crua dos negócios.
"Tempos interessantes”, diria a escritora irlandesa Noise Dolan em seu “Tempos Interessantes”, romance feminista afiado e marxista de amor e cinismo.
Tão caótico quanto a vida da protagonista (uma recém-formada se muda para Hong Kong para dar aulas de inglês para alunos ricos sem ter um plano pessoal preciso) é a perplexidade da mídia (seja a corporativa ou a progressista) diante da ação dos EUA na Venezuela.
Nesse momento, o jornalismo (seja corporativo ou progressista) está diante de uma guinada geopolítica do Império tão caótica, desde a onda dos tarifaços, que o seu glossário ou arcabouço semântico não está conseguindo conceitualizar o fluxo dos acontecimentos.
Por exemplo, nem consegue nomear o ponto de partida de toda a crise na Venezuela: o que aconteceu com Nicolas Maduro? Foi “derrubado?” Ou foi “preso?” Ou, então, será que foi “sequestrado?”, questionaria alguém de viés mais progressista.
Não! Simplesmente ele foi “extraído”, cuja melhor analogia pode ser feita com aquelas máquinas de shopping em que um boneco de pelúcia é sacado por uma garra controlada externamente por um usuário em um dispositivo de grua – voltaremos a esse ponto à frente.
O viés reativo da cobertura midiática revelou essa “interessante” perplexidade: de um lado, o jornalismo corporativo do grupo Globo, aqui e ali, mobilizando algum “colonista” (como Miriam Leitão) para lamentar a “violação do direito internacional”, a “segurança internacional” ou até lembrar a existência da “Carta da ONU” etc.
![]() |
Mas no todo, o clima era de entusiasmo com a narrativa do “ditador acuado e contra a parede”, frisando que esse é “o destino de todos os ditadores”. Chegando a mostrar o veterano jornalista, Jorge Pontual, diretamente de Nova York, celebrando um “novo futuro” para a Venezuela.
E, claro, sempre fazendo questão de colocar imagens de Lula recepcionando Nicolaas Maduro com tapete vermelho e aperto de mão, em Brasília, em 2023, para o encontro do Mercosul - é a mais-valia semiótica para as eleições presidenciais, mostrando que, mesmo involuntariamente, Trump já está operando nas eleições brasileiras.
E, do outro, o viés da CNN revelado pela forma como repercutiu o editorial do New York Times, condenando a operação de Trump como “ilegal e infeliz”. E destacando que tudo foi menos uma ação política e muito mais empresarial.
Mas quem é o “autocrata” ou “ditador” na história? Algumas vezes, o jornalismo corporativo crava o ex-presidente Maduro como “ditador”. Outras vezes, como “autocrata”.
Mas Trump não está muito distante disso. E o jornalismo do Grupo Globo (que mais comemora o suposto fim do chavismo) é o que mais se enrola nessa taxonomia do caos geopolítico.
Por exemplo, desde que os agentes federais de imigração mataram uma mulher que, segundo Trump, “cometia ato terrorista”, em Minneapolis (EUA), o jornalismo da Globo está semanticamente confuso. Não podem cravar no presidente dos EUA a pecha de “ditador” - essa é exclusiva de Maduro. Então... toca a dizer que “Trump é um autocrata em vias de se transformar num ditador”...
Ficaria muito estranho e não pegaria bem para o distinto público comemorar a “queda” do “ditador da Venezuela”, derrubado por outro ditador! A não ser que se acredite no provérbio “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”.
Curiosa salada semântica: em Maduro, “autocrata” e “ditador” são sinônimos. Mas em Trump há uma sutil diferença: Trump é “autocrata”, mas está em um perigoso limiar (“em vias de”) para virar um ditador pleno. Igual Maduro?
![]() |
Saias justas factuais
Saindo do campo das saias justas semânticas (sentida principalmente pelo jornalismo do Grupo Globo, ansiosa em aproximar ditadores latino-americanos de Lula), entramos em outro campo paradoxalmente complicado para jornalistas: o campo factual dos acontecimentos.
Aqui a perplexidade foi geral, tanto na mídia corporativa quanto na progressista: Donald Trump resolveu apoiar a vice-presidenta de Maduro, Delcy Rodriguez, para iniciar um “governo de transição”. E mais! Delcy ofereceu colaboração aos Estados Unidos em uma agenda de “desenvolvimento compartilhado”, marcando a primeira mudança de tom desde que forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
Para os exasperados “colonistas” do jornalismo corporativo, Trump simplesmente dispensou a “líder da oposição venezuelana” Corina Machado de estar à frente de uma eventual transição. E, junto com ela, Edmundo Gonzalez, supostamente vítima de uma fraude eleitoral. E, para a mídia, o presidente verdadeiro.
Em outras palavras: diante da incredulidade das mídias, o que Trump decidiu foi uma espécie de continuidade de um chavismo sem Maduro.
Assim como em Zelensky, o jornalismo corporativo tinha feito um grande investimento semiótico em Corina Machado – o último lance foi a construção narrativa da “fuga arriscada” da Venezuela para receber o prêmio Nobel da Paz na Noruega. Envolveu disfarces, barco em mar revolto e ajuda internacional, após ser impedida de sair do país pelo governo Maduro. Sua filha recebeu o prêmio em Oslo, enquanto ela, ainda em trânsito, deu entrevistas, confirmando o apoio dos EUA e sua luta pela democracia venezuelana.
Como fez com Zelensky, Trump também mandou Corina e Edmundo Gonzalez às favas: “Ela é uma mulher muito simpática. Mas não tem o apoio nem o respeito do país".
Trump sabe que a “mídia OTAN”, ainda ressentida com o fim da geopolítica da globalização dos democratas de Biden e Kamala, inventou esses personagens híbridos de ficção e realidade. Nada mais a ver com o seu estilo de sobrepor os negócios à política: primeiro criar uma crise, para depois negociar sempre em vantagem.
O atônito jornalismo corporativo até tentou racionalizar o apoio de Trump a uma espécie de continuidade do governo chavista.
Primeiro, sugerindo uma retaliação contra o prêmio Nobel da Paz ganho pela venezuelana e cobiçado por ele no ano passado - “Ela não deveria tê-lo vencido. Mas isto não tem nada a ver com a minha decisão”, disse o republicano. Mas para o viés cognitivo da mídia é tentador simplificar um cenário complexo de guinada geopolítica e de transformações da cadeia de produção de valor do capitalismo em um simples capricho de uma personalidade narcisista.
E, mais tentador ainda, sugerir que Trump estaria com “demência frontotemporal”, como noticia o Portal Band News sobre um “alerta” de um tal de doutor Frank George, psicólogo e neurocientista PhD do Centro para o Bem-Estar Cognitivo e Comportamental da Universidade de Boulder, no Colorado – clique aqui.
![]() |
Tudo a partir de um texto que viralizou nas redes sociais e em plataformas como Substack e LinkedIn – para o jornalismo atual, motivo suficiente para ser publicado como notícia “científica”.
Transgressão caminha de andador
Por falar em viés cognitivo, é flagrante como a cobertura jornalística da “extração” de Nicolas Maduro da Venezuela na calada da madrugada reportou os acontecimentos com um a espécie de fascínio ficcional: uma suposta ação norte-americana rápida, precisa e cirúrgica típica de um filme hollywoodiano do tipo das operações da “Força Delta” (Comando Delta, 1986) em que Chuck Norris e Lee Marvin salvam um avião de passageiros sequestrado por terroristas árabes. Eles fazem parte do esquadrão de elite “Delta Force”, convocado pelo Presidente dos Estados Unidos para ajudar no resgate.
Agora, substituída pela “Operação Resolução Absoluta” na Venezuela, formada por espiões da CIA e tropas de elite da... Delta Force...
O que só reforça todos os estereótipos latino-americanos gerados pelos EUA – repúblicas bananeiras completamente vulneráveis a ataques cibernéticos que podem vir de qualquer parte: “celulares de seguranças, tablets de assessores, talvez até geladeiras e aparelhos de ar-condicionado "inteligentes" nas instalações presidenciais”, como teoriza o historiador Fernando Horta – clique aqui.
Esse é o argumento do “colonialismo 2.0” que parece ignorar (ou acredita ser coisa do passado) o velho “terreno humano”: divisões, traições e acomodação de interesses das potências mundiais [EUA-América Latina, China-Taiwan e Rússia-Ucrânia] em coordenação com o chavismo, como aponta Jeferson Miola – clique aqui.
Ainda mais com informações de que no fim de outubro a vice de Maduro, Delcy Rodriguez, esteve no Catar em reuniões com enviados da Casa Branca e foi sondada por emissários de Donald Trump sobre a possibilidade de assumir um governo de transição após a saída de Nicolás Maduro. A resposta nunca foi tornada pública, mas decisões recentes pós “extração” de Maduro do poder, parecem ter caminhado na direção desejada por Washington – clique aqui.
O que faz esse humilde blogueiro lembrar de uma afirmação do compositor e filósofo pop Fausto Fawcett, numa entrevista à Live Cinegnose 360 (clique aqui): “atualmente a transgressão caminha de andador”.
sexta-feira, janeiro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




