sábado, outubro 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre o esgar irônico e a piada lacradora: a participação
de Flávio Bolsonaro no debate da TV Globo nessa última sexta-feira expôs a
fenda aberta entre a comunicação verbal e a não-verbal. Contudo, mais
intrigante do que o próprio déficit comunicacional do candidato é a capacidade
da grande mídia de anestesiar o público e hipernormalizar a farsa, alçando ao
centro da disputa uma figura que desmoronaria sem o amparo do ecossistema
midiático composto pelos cortes das redes e o imparcialismo cênico do jornalismo
corporativo. Para compreender essa anestesia coletiva e a mecânica por trás do
espetáculo, convém recorrer ao neurologista Oliver Sacks e fazer um experimento imaginário sobre como a mente decodifica a mentira política: extrapolar as conclusões que Sacks chegou em um hospital neurológico e aplicá-las ao debate da Globo.
sexta-feira, outubro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Quando o
filósofo alemão Theodor Adorno concluiu, na década de 1950, após pesquisa
empírica nos EUA, que o fascismo era uma tendência latente na própria sociedade
americana, poucos imaginaram o quão profético seria seu alerta. Sete décadas
após a publicação do clássico estudo "A Personalidade Autoritária", o suspense
político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa,
transforma o veredito de Adorno em ficção assustadora: a história de como uma
democracia sólida pode ser corroída por dentro não por um golpe de Estado, mas
pelo ressentimento e pelo autoritarismo adormecido no cidadão comum. Em
“Aniversário” acompanhamos o crescimento de uma família, a mudança na dinâmica
de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha
pela sociedade.
Entre os anos
1944 e 1947, Theodor Adorno e sua equipe (Nevitt Sanford, Else Frenkel-Brunswik
e Daniel Levinson) fizeram uma pesquisa empírica nos EUA, envolvendo
questionários, testes clínicos e entrevistas.
Sob o impacto
da Segunda Guerra Mundial, Adorno queria saber se numa democracia burguesa como
a norte-americana seria possível a ascensão de um regimeme político totalitário
fascista. Como foi na Alemanha nazista.
O estudo,
publicado em 1950 sob o título "A Personalidade Autoritária", levou Adorno
descobriu que sim! Concluiu que o fascismo não era um fenômeno exclusivo da Alemanha
ou decorrente apenas de uma crise econômica pontual, mas sim uma tendência
estrutural da modernidade.
A pesquisa
revelou que uma fatia significativa da população possuía traços de
personalidade profundamente autoritários (o tipo "potencialmente
fascista"). Essas pessoas não se declaravam abertamente fascistas, mas
apresentavam uma estrutura de caráter suscetível à demagogia autoritária.
A
"Síndrome Autoritária" e a célebre Escala F (de Fascismo) foi
desenvolvida para medir essa predisposição sem fazer perguntas políticas
diretas. Adorno identificou características marcantes no indivíduo autoritário:
Submissão autoritária: Respeito acrítico e obediência cega às figuras de
autoridade do seu in-group; Agressão autoritária: Hostilidade e desejo
de punir qualquer pessoa que violasse normas convencionais ou pertencesse a
grupos minoritários (out-groups) etc. – sobre isso clique aqui.
O filme O Aniversário
(Anniversary, 2025), dirigido pelo polonês Jan Komasa (Suicide Room,
Corpus Christi), funciona como uma assustadora construção cinematográfica
do exato cenário que Theodor Adorno e sua equipe temiam. A obra ilustra como
uma democracia burguesa sólida como a dos Estados Unidos pode ser corroída por
dentro.
Não por meio
de um golpe militar clássico, mas pela ativação orgânica da "personalidade
autoritária" latente em cidadãos comuns por meio de um movimento populista
de massa.
Komasa
enxerga os Estados Unidos com mais clareza do que a maioria dos cineastas
americanos, tendo crescido em um país que foi ocupado pela Alemanha nazista e
pela antiga URSS, e tendo dirigido outros filmes sobre a vida sob regimes
autoritários, incluindo o híbrido documentário-drama Warsaw 44.
A princípio,
o título do filme parece se referir apenas a um evento familiar que abre a
história: o 25º aniversário de casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora
de ciência política com ideias progressistas que leciona na Universidade de
Georgetown; e seu marido Paul (Kyle Chandler), um chef que se tornou dono de
restaurante em Washington, D.C., um ponto de encontro para as figuras
influentes da cidade e lucrativo o suficiente para financiar a educação de
elite dos quatro filhos do casal, três dos quais já saíram de casa.
Mas o filme
se constrói em torno de vários encontros que ocorrem ao longo de cinco anos,
culminando no 30º aniversário do casal. Acompanhamos o crescimento da família,
a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento
autoritário se espalha pela sociedade.
Adorno
concluiu que o fascismo não era uma anomalia distante, mas uma potencialidade
inerente à modernidade.
Em O Aniversário,
o autoritarismo não se instaura pelas margens extremas ou por invasores de
fardas negras, mas pelo mercado editorial, pelas conversas de jantar e pelo
conforto das soluções fáceis. A democracia americana colapsa rapidamente porque
a ideologia encontra terreno fértil nas frustrações e desejos da população,
ilustrando o veredito de Adorno: a democracia formal de um país cai se a
estrutura psíquica do seu povo for predisposta ao autoritarismo.
O Filme
A trama
começa como um drama familiar tenso durante a comemoração de 25 anos de
casamento da professora universitária Ellen e do dono de restaurante Paul.
A dinâmica
sofre um abalo severo quando o filho do casal, Josh (Dylan O'Brien), um
escritor em busca de sucesso (e ressentido, cujo primeiro livro foi rejeitado
pelas editoras), traz sua nova namorada, Liz (Phoebe Dynevor). Ellen a
reconhece imediatamente: anos antes, ela havia sido fundamental para a expulsão
de Liz da universidade após a jovem apresentar uma tese acadêmica de
inclinações violentamente antidemocráticas.
Liz, com suas
convicções políticas de extrema direita, se sentiu rejeitada e humilhada por
sua professora. Mas que agora está prestes a se tornar uma estrela da mídia
conservadora. O primeiro livro de Liz, "The Change: A New Social
Compact" — um livro-manifesto tão grosso quanto uma caixa de sapatos —
está prestes a ser publicado.
Liz e Josh
possuem a disposição psíquica principal da Escala F de Adorno: o ressentimento
e o sabor autoritário da vingança. Josh se sente um fracassado diante da sua
mãe, uma intelectual pública que é convocada pelo chefe de seu departamento
para aparecer em um programa de notícias nacional. E Liz nutre um projeto
secreto de se infiltrar na família da sua algoz, e implodi-la – e levar o país
junto.
Liz é mais
falsa que as lágrimas de um desses televangelistas, mas nem todos na festa
percebem isso porque ela domina o olhar compassivo e o tom afável.
Um exemplo
disso é Paul, que insiste que todos que participam de uma reunião familiar
deixem suas opiniões políticas pessoais na porta. Inicialmente, não temos ideia
da posição de Paul sobre os assuntos do momento. Ele também é progressista,
embora menos expressivo que Ellen, ou um conservador que ama sua esposa mais do
que detesta suas posições políticas? Também não temos certeza sobre a filha
caçula, Birdie (McKenna Grace), uma cientista promissora que parece focada nos
mecanismos da infecção viral e cuja formação política ainda está em
desenvolvimento.
Não há
dúvidas quanto às outras irmãs. Anna (Madeline Brewer) é uma lésbica cômica,
movida por política de esquerda e solidariedade feminista. Cynthia (Zoey
Deutch) é advogada e trabalha em casos ambientais com seu namorado Rob (Daryl
McCormick)
Com o passar
dos anos e sob a fachada do convívio familiar, o rancor intelectual dá lugar a
um pesadelo sociopolítico. Josh e Liz finalmente publicam o grosso manifesto
chamado The Change ("A Mudança"), que prega um recomeço
radical além das estruturas políticas tradicionais e rapidamente se torna um
fenômeno cultural avassalador.
Apoiado por
uma megacorporação chamada Cumberland Company, o movimento ganha proporções
imensas e evolui para um regime totalitário e um Estado policial.
A família
Taylor é inteiramente esfacelada pelas engrenagens desse novo mundo. Pensadores
e jornalistas fogem ou são expurgados, e Ellen é demitida da Universidade e
cancelada nas redes após ser flagrada rasgando a bandeira do movimento. Uma das
filhas, Anna, entra para a resistência e vira alvo do governo, enquanto a
caçula, Birdie, articula um plano bioterrorista contra a corporação por trás do
governo totalitário.
Aniversário e Escala F –
Alerta de Spoilers à frente
A relação
entre a película e os achados da Escala F de Adorno é profunda e mapeia as
estruturas psicológicas do autoritarismo:
Por exemplo,
através de suas pesquisas, Adorno mediu a necessidade que indivíduos inseguros
têm de se submeter acriticamente a líderes ou movimentos fortes. Na trama, Josh
personifica esse homem comum suscetível. Frustrado e ressentido profissionalmente
e buscando desesperadamente uma identidade para aplacar suas falhas pessoais,
ele abraça cegamente as ideias extremistas da esposa. Ele é a materialização de
como a demagogia fascista prospera ao se aproveitar da carência de propósito
individual.
Uma das
principais marcas do indivíduo autoritário para a equipe de Adorno era a
aversão ao intelectualismo. A trajetória de Ellen é simbólica. Ela é
perseguida, gravada clandestinamente e expurgada do debate público justamente
por ser a voz do pensamento crítico que, anos antes, havia identificado o germe
autoritário em Liz. Quando o movimento “The Change” toma o poder, os primeiros
a serem esmagados ou forçados a fugir do país são acadêmicos, jornalistas e
artistas.
Adorno
defendia que a educação emancipatória era o antídoto do autoritarismo; no
filme, vemos a erradicação metódica dessa barreira.
O Aniversário ilustra
também a Agressão Autoritária e a Punição do "Out-Group" quando
a sanidade pública desmorona: vizinhos denunciam vizinhos, drones patrulham os
bairros e agentes governamentais do censo ameaçam os cidadãos. O desfecho ultraviolento,
em que a polícia usa força letal para intervir e fuzilar os próprios filhos do
casal para expurgar a "subversão", retrata exatamente o desejo
totalitário de eliminar fisicamente as minorias e os opositores.
A obra
funciona essencialmente como uma versão roteirizada do livro A Personalidade
Autoritária. O filme reitera o aviso de Adorno: a ascensão de um regime de
controle absoluto em solo americano é sempre possível, bastando que líderes
mal-intencionados ofereçam ordem, poder e falsas soluções para as fraturas
psicológicas dos seus próprios cidadãos.
sexta-feira, setembro 25, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ao
classificar a ingerência geopolítica dos Estados Unidos na América Latina como
um mero "olhar de Trump", o jornalismo corporativo expõe o paroxismo
de uma nova engenharia de comunicação: o "doisladismo". Ao
substituir a histórica expressividade inflamada dos apresentadores dos anos do
"jornalismo de guerra" por uma rigorosa estética de “Poker Face”, os
telejornais abandonam a indução de pânico para adotar uma frieza retórica. A
manobra desidrata conflitos assimétricos, reduz ameaças soberanas a
"divergências de opinião" e constrói uma falsa equivalência que, sob
o disfarce da neutralidade, atua como uma eficaz tecnologia de manutenção do status
quo. O grau zero do Jornalismo.
segunda-feira, agosto 10, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O distinto leitor já reparou em quem realmente segura a batuta da
política brasileira em ano de eleição? Não são os partidos, os programas de
governo ou o debate eleitoral, mas a engrenagem de um "Deep State" à brasileira. Da efêmera cobertura midiática sobre as conexões do PCC na Faria Lima ao
bombardeio diário de vazamentos seletivos envolvendo do filho de Lula ao clã
Bolsonaro, a burocracia do Estado deixou a neutralidade weberiana no papel para
assumir o controle do timing político do país. Através do uso estratégico de
operações policiais, timing judicial e uma simbiose calculada com a imprensa, o
estamento burocrático transformou-se no principal ator do jogo democrático. E a crise entre o ministro André Mendonça e o STF seria a confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State brasileiro.
sexta-feira, julho 17, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O que
acontece quando a utopia do "casamento perfeito" se choca com a
exaustão existencial da geração Millennial? A resposta está em “O Convite” (The
Invite, 2026), comédia dramática que transforma um jantar entre vizinhos em um
campo de batalha conjugal. Adaptando o longa espanhol Sentimental (2020), a
diretora Olivia Wilde e os roteiristas Rashida Jones e Will McCormack colocam
em xeque o modelo do "casamento tudo-ou-nada" conceituado pelo
psicólogo Eli Finkel. Entre o vocabulário terapêutico e o ressentimento
silencioso, o filme contrapõe o puritanismo norte-americano ao apetite desinibido
da personagem de Penélope Cruz. O resultado é uma radiografia precisa do
mal-estar contemporâneo. No entanto, por trás de sua fachada desconstruída e
provocativa, a produção acaba cedendo a antigos clichês hollywoodianos: permite
a transgressão temporária apenas para restaurar a ordem e salvar a tradicional
instituição da família.
quinta-feira, junho 25, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ao
fundir a tradição centenária dos chase movies com ETs empáticos, conspirações
governamentais e o maravilhamento infantil, “Dia D” (Disclosure Day, 2026)
chega às telas como o "puro suco" da filmografia de Steven Spielberg.
No entanto, o que pretendia ser uma catarse humanista capaz de paralisar uma
Terceira Guerra Mundial acaba colidindo de frente com o cinismo do público
contemporâneo. Em uma era de infodemia e desconfiança digital, a ingênua
premissa liberal do filme — de que o amor universal na televisão pode desarmar
tanques — reduz crises geopolíticas estruturais a meros problemas de falta de
empatia humana. Mais do que uma solução real para os nossos tempos, o novo
longa do diretor opera como o diagnóstico perfeito de Carl G. Jung sobre o mito
moderno dos discos voadores: uma busca religiosa secularizada por salvação nos
céus que, hoje, acabou empurrada para o território da pura nostalgia ideológica.
quinta-feira, junho 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um labirinto infinito de paredes amarelas, carpetes úmidos e o
zumbido incessante de luzes fluorescentes. O horror de “Backrooms – Um Não-Lugar”
(Backrooms, 2026), novo thriller psicológico da A24 dirigido pelo jovem youtuber
Kane Parsons, não nasce de monstros clássicos, mas sim da própria arquitetura
do século XXI. Ao adaptar o fenômeno das creepypastas de espaços liminares para
o cinema, o longa funciona como um sintoma do nosso zeitgeist: uma tradução
gélida e perturbadora do conceito de "não-lugar" de Marc Augé,
mostrando que o verdadeiro terror da hipermodernidade não é ficar preso em uma
dimensão paralela, mas perceber que o mundo real já se transformou em um eterno
vazio existencial. O filme transforma o isolamento, a padronização e o vazio da
arquitetura hipermoderna em um labirinto de horror existencial e absoluto.
segunda-feira, junho 01, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O que
acontece quando o capitalismo de plataforma, a mercantilização absoluta do
afeto e o reacionarismo estético se encontram no mesmo endereço icônico da
extrema-direita, Balneário Camboriú? O release enviado para a imprensa sobre a
"MP Party 2026" — festa exclusiva do site de relacionamentos
MeuPatrocínio, com ingressos masculinos de até R$ 19.999 e localização secreta
— funciona como uma perfeita bomba semiótica e sintoma psicossocial do nosso
tempo. Sob o verniz do "luxo" e das máscaras venezianas, o evento
materializa o ápice do "Amor Líquido" de Zygmunt Bauman e a sobrevida
do "Machismo Zumbi" dentro do ecossistema urbano e político mais caro
ao bolsonarismo.
sexta-feira, abril 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre o sol
implacável da Grécia e a privatização invisível da água pela corporação
Goldblue, o filme “Sol Ardente” (2015, disponível na Prime Video) dá corpo a uma tese perturbadora do
psiquiatra radical Wilhelm Reich: a de que, enquanto a infraestrutura econômica
e técnica avança para controles absolutos, o imaginário social regride ao
preconceito arcaico. Ao acompanhar o isolamento de um imigrante em meio a uma
crise hídrica e ao assédio policial, a diretora libanesa Joyce A. Nashawati
revela como a xenofobia atua como uma "bomba semiótica" e válvula de
escape para um colapso sistêmico que a sociedade moderna, ancorada em valores
reacionários, ainda é incapaz de decifrar ou enfrentar.
sexta-feira, abril 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Da potência do nome próprio na
construção de vínculos à resistência do livro impresso na era das telas, a nona edição do Clipando – O
Clipping Comentado da Educação (editado e apresentado por esse humilde
blogueiro) mergulha em temas essenciais para a prática docente contemporânea. O
programa apresenta uma curadoria que vai além da informação, trazendo
estratégias para engajar alunos na matemática através de crônicas e reflexões
sobre como transformar a sala de aula em um espaço de real comunicação. Confira
a edição completa, disponível em vídeo e podcast, e acesse as referências para
inspirar seu planejamento. Explore nosso guia de referências — com links e
minutagem — para facilitar o seu acesso aos temas que estão moldando a educação
hoje.
terça-feira, abril 14, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Da integração da inteligência artificial à desconstrução de estereótipos sobre os povos originários, a oitava edição do "Clipando" (clipping comentado da educação produzido para o Sinpro Santos por esse humilde blogueiro) consolida-se como um recurso estratégico para o aperfeiçoamento da prática pedagógica. O programa, que parte da filosofia de formação do professor do Sinpro Santos, oferece nesta edição uma curadoria que conecta temas urgentes, como o uso de jornais em sala de aula e guias práticos sobre IA, a referências clássicas da sociologia brasileira. O objetivo é proporcionar aos docentes uma ampliação de repertório que estimule novas dinâmicas educacionais e insights para os desafios do ensino atual.
sexta-feira, abril 10, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Vinte e seis anos após o alerta de Ciro
Marcondes Filho sobre a divisão entre o jornalista que 'trabalha em pé' e o que
'trabalha sentado', o campo jornalístico parece ter sucumbido a uma mutação
ontológica sob a cortina de fumaça das redes sociais. Entre a contratação de
influenciadores para a Copa do Mundo, a priorização de colunistas em vez de
repórteres para as eleições e a espetacularização do trash digital de petistas sendo exorcizados em busca de
engajamento, o que emerge é um cenário onde a precarização do trabalho e o
império do infotenimento tornaram-se faces indissociáveis no Jornalismo. Ao
trocar a apuração de campo pela gestão do afeto, o jornalismo corporativo e
independente arrisca abandonar sua função de mediador factual para se
transformar em um ringue de narrativas movido pela economia da atenção.
sexta-feira, fevereiro 13, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Por que o
presente se tornou tão tóxico? Em busca de respostas para os sintomas
colaterais das redes sociais, o cinema recente tem promovido uma verdadeira
autópsia do início do século XXI. No visceral “The Plague”(2025), o
diretor Charlie Polinger utiliza o cenário de um acampamento de polo aquático
em 2003 não como um refúgio nostálgico, mas como um laboratório freudiano. Ao
transformar o bullying adolescente em um terror atmosférico, o filme revela que
o "cancelamento" e o ostracismo digital não são subprodutos da
tecnologia, mas heranças de uma mecânica primitiva de grupo que as Big Techs
apenas aprenderam a monetizar. “The Plague” serve como um espelho sombrio: o
problema nunca foi apenas a ferramenta digital, mas o que sempre fomos capazes
de fazer uns com os outros quando o grupo exige um bode expiatório.
sexta-feira, outubro 17, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Desde o Bates Motel do vilão Norman bates no filme "Psicose" de Hitchcock, os hotéis
renderam uma longa filmografia do terror ao drama e humor negro – lugares misteriosos,
decadentes, habitado por fantasmas, assassinos, golpistas etc. Isso porque os
hotéis parecem espaços inerentemente estranhos: um lugar que podemos chamar de
lar por um tempo limitado. Mas, mesmo assim, compartilhamos nossa experiência
com pessoas que nunca conheceremos. “Mr. K” (2024, disponível na Apple TV), produção europeia dirigida por
Talluah Hazekamp Schwab, dá continuidade a esse imaginário com uma interessante
combinação entre referências literárias a Kafka e a antiga mitologia gnóstica. A
jornada labiríntica e surreal de seu protagonista, um mágico aprisionado em um
hotel bizarro e inescapável, serve como uma poderosa alegoria gnóstica. Através
de sua atmosfera kafkiana e de seus temas de aprisionamento, busca por
conhecimento e a natureza ilusória da realidade, o filme espelha os princípios
fundamentais do Gnosticismo.
quinta-feira, setembro 25, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Toda as manhãs acordamos com os contos motivacionais dos
telejornais sobre pessoas que venceram com foco e resiliência. Porém, ainda
vivemos em tempos nos quais essas pílulas de otimismo resolvem. Imagine em um
futuro distópico em que uma América em depressão econômica precise de algo mais
do que pérolas motivacionais na TV. Mas de uma competição em que os perdedores,
que por algum motivo abandonam a prova, sejam literalmente punidos com um tiro
mortal. Para levantar o moral da Nação e elevar o Produto Interno Bruto. Esse é
o futuro imaginado por Stephen King, e adaptado por Francis Lawrence (“Jogos
Mortais”), em “A Longa Marcha – Caminhe ou Morra” (The Long Walk, 2025). Um
grupo de adolescentes participa de um concurso anual transmitido ao vivo, no
qual eles devem caminhar em uma velocidade constante ou levar um tiro mortal
por soldados que acompanham os competidores. O timing da adaptação ao cinema da
primeira obra de Stephen King é perfeito: os EUA estão à beira de uma distopia
muito próxima da ficção do mestre do terror.
quinta-feira, julho 17, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A indústria do turismo promete para seus clientes experiências
renovadoras, alegria, aventura e diversão. Para fugirem de suas rotinas
cinzentas. Mas às vezes descobrimos, da pior maneira possível, que não importa
o quão distante nós vamos. Carregamos conosco as mazelas da civilização. É o
que nos revela o documentário Netflix “Desastre Total: Cruzeiro do Cocô” (Trainwreck:
Poop Cruise, 2025): em 2013 um navio de cruzeiro (com mais de 4 mil pessoas e
treze andares) ficou sem energia após um incêndio na casa das máquinas. À
deriva no Golfo do México, estarrecidos, passageiros e tripulantes viram
excrementos humanos tomando corredores e escorrendo paredes abaixo: sem
energia, simplesmente o sistema de esgotos deixou de funcionar. De repente, o
navio de cruzeiro virou o microcosmo de tudo aquilo do qual queremos fugir
viajando: dos excrementos, sejam humanos ou sociais – lixo, pobreza ou,
simplesmente, o outro. Até a mídia descobrir e tudo virar um show de horrores
sensacionalistas e uma catástrofe de relações públicas.
quarta-feira, maio 28, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Nesse momento acompanhamos um grande esforço promocional para
mostrar que a Inteligência Artificial é de fato... inteligente. Um esforço sofisticado,
porque mobiliza também supostos críticos, como o filósofo Yuval Harari, que
acha que por conta própria os algoritmos poderão achar que o ser humano é
redundante e decidir dominar o muno. Nesse esforço tenta-se
rebaixar a noção de “inteligência”: o exercício diário de tratar máquinas ou
aplicativos como formas de inteligência reais. Por isso, Karl Marx tornou-se
tão atual - o trabalho morto (os algoritmos) domina o trabalho vivo (o
saber-fazer). O modus operandi do Capitalismo desde Revolução Industrial –
tirar do trabalhador o controle e capacidade criativa para incorporá-lo nas
máquinas e ferramentas. Do tear mecânico até a Inteligência Artificial que se
transforma num zeitgeist-fetiche que oculta a luta de classes. O que sobraria ao
trabalhador expropriado do seu conhecimento acumulado é transformar o próprio
eu como marca para se diferenciar no mercado. Resultando na “Sociedade do Cansaço”
(Byung-Chul Han): encenar a si mesmo cansa!
sábado, maio 17, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O filme “The Ugly Stepsister” (Den Stygge Stesøsteren, 2025), da
diretora norueguesa Emilie Blichfeldt, é mais uma releitura de contos de fada
da cinematografia recente. Ela pega o conto clássico dos irmãos Grimm, “Cinderela”,
e inverte o foco: acompanhamos a história não mais do ponto de vista da heroína,
mas da ótica da meia-irmã feia que a todo custo quer ser a escolhida do príncipe.
Qual o preço da beleza? É quando o conto “Cinderela” se encontra com o horror
corporal cronenbergiano. E também quando descobrimos que Cinderela, desde o
início com os irmãos Grimm, foi uma história de horror. Até ser
embelezada pela Disney. Mas os irmãos Grimm ainda buscavam ensinar para o
leitor uma “moral da história”. Ao contrário da versão de Emilie Blichfeldt:
vira um conto de advertência sobre zeitgeist atual da hegemonia das tecnologias
do Eu da cultura coaching – gerir a si mesmo como marca para ter o maior
impacto num mercado competitivo.
quarta-feira, abril 09, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Nesse momento
acompanhamos a publicação frenética de números e gráficos de pesquisas de opinião,
diligentemente repercutidas pelo jornalismo corporativo: o derretimento da
popularidade de Lula é o prato servido principal. Mas também quer municiar a
oposição com simulações de cenários eleitorais com nomes de outsiders como. p.ex.,
Gustavo Lima. É o “pesquisismo”. Sob o álibi metodológico científico da “pesquisa
de opinião pública”. PsyOp clássica de guerra híbrida: transformar em números e
gráficos não opiniões, mas PERCEPÇÕES. É o paroxismo de um alerta feito pelo
sociólogo francês Pierre Bourdieu há 58 anos: a opinião pública não
existe! O que existe é a fabricação de um artefato que impõe a ilusão de de que
existe algo que seria uma coisa assim como a média das opiniões ou a opinião
média. Dissimula sistema de forças e tensão política. Se o Governo aceitasse
essa natureza viciada do pesquisismo, mudaria sua estratégia: da
Comunicação-propaganda para a Comunicação-acontecimento.
sábado, abril 05, 2025
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ele já foi influenciador-militante nos tempos
do jornalismo de guerra, dizendo que a Dilma Rousseff tinha “escarrado na Nação”.
Depois se arrependeu e disse que era um “babaca”, que precisava “estudar”. E
estudou. Leu o livro “1984” de George Orwell. E nessa semana divulgou um vídeo em que
se lançava pré-candidato à presidência porque gostaria de ser o “Grande Irmão”
do Brasil... A grande mídia acreditou e deu como notícia séria... assim como,
há pouco tempo, acreditou na candidatura do milionário cantor sertanejo Gustavo
Lima. Mas tudo não passou de uma ação de marketing de Felipe Neto para promover
o audiobook do livro que ele orgulhosamente diz ter lido. Involuntariamente,
Felipe Neto criou uma “media prank” (pegadinha) em que o jornalismo corporativo
experimentou do próprio veneno. Ou melhor, revela a boca torta de tanto fumar o
cachimbo de querer sangrar Lula com pesquisas. Foi tentador para o jornalismo corporativo:
um outsider com bons serviços prestados querendo aloprar o cenário
pré-eleitoral... só que não!
Cinegnose participa do programa Poros da Comunicação na FAPCOM
Este humilde blogueiro participou da edição de número seis do programa “Poros da Comunicação” no canal do YouTube TV FAPCOM, cujo tema foi “Tecnologia e o Sagrado: um novo obscurantismo?
Esse humilde blogueiro participou da 9a. Fatecnologia na Faculdade de Tecnologia de São Caetano do Sul (SP) em 11/05 onde discutiu os seguintes temas: cinema gnóstico; Gnosticismo nas ciências e nos jogos digitais; As mito-narrativas gnósticas e as transformações da Jornada do Herói nas HQs e no Cinema; As semióticas das narrativas como ferramentas de produção de roteiros.
Publicidade
Coleção Curtas da Semana
Lista semanalmente atualizada com curtas que celebram o Gnóstico, o Estranho e o Surreal
Após cinco temporadas, a premiada série televisiva de dramas, crimes e thriller “Breaking Bad” (2008-2013) ingressou na lista de filmes d...
Bem Vindo
"Cinema Secreto: Cinegnose" é um Blog dedicado à divulgação e discussões sobre pesquisas e insights em torno das relações entre Gnosticismo, Sincromisticismo, Semiótica e Psicanálise com Cinema e cultura pop.
A lista atualizada dos filmes gnósticos do Blog
No Oitavo Aniversário o Cinegnose atualiza lista com 101 filmes: CosmoGnósticos, PsicoGnósticos, TecnoGnósticos, AstroGnósticos e CronoGnósticos.
Esse humilde blogueiro participou do Hangout Gnóstico da Sociedade Gnóstica Internacional de Curitiba (PR) em 03/03 desse ano onde pude descrever a trajetória do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e a sua contribuição no campo da pesquisa das conexões entre Cinema e Gnosticismo.
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
Neste trabalho analiso a produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005) onde é marcante a recorrência de elementos temáticos inspirados nas narrativas míticas do Gnosticismo.>>> Leia mais>>>
"O Caos Semiótico"
Composto por seis capítulos, o livro é estruturado em duas partes distintas: a primeira parte a “Psicanálise da Comunicação” e, a segunda, “Da Semiótica ao Pós-Moderno >>>>> Leia mais>>>