O ano de 2026 mal começou e a 'Guerra de Narrativas' já atingiu o volume máximo. Entre a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva e o barulho em torno de verbas públicas para o Carnaval, emerge uma estratégia clara: a consolidação de uma agenda de Pânico Moral. Ao 'empilhar' notícias sobre feminicídios, falhas judiciais sobre condenados de estupro, assédios, insegurança pública e escândalos de corrupção, a grande mídia não apenas informa, mas molda o campo de batalha eleitoral, trocando o debate econômico pelo medo visceral — um terreno onde a extrema direita joga em casa. Esqueça o PIB ou a inflação; em 2026, o cardápio servido pelo jornalismo corporativo é regado a escândalos morais, crimes bárbaros e manobras parlamentares duvidosas. A pauta do Pânico Moral canibaliza a realidade econômica e o medo e ódio voltam a ser a principal moeda política.
Enquanto o
ministro “terrivelmente evangélico” do STF, André Mendonça, autorizava quebra
de sigilo (fiscal, telemático e bancário) do filho do presidente, o Lulinha, minutos
depois a CPMI do INSS aprovava a quebra de sigilo de várias pessoas. Entre elas,
o filho do presidente, o Lulinha.
Em uma votação
caótica e fraudulenta organizada pelo presidente da CPMI do INSS, o senador
Carlos Viana (Podemos-MG), foi aprovada a quebra de sigilo de diversas pessoas,
entre elas do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Que seria o suposto
"sócio oculto" de Antônio Camilo Antunes, o "careca do
INSS".
Foi uma
fraude tão evidente e constrangedora que até a apresentadora Julia Duailibi e o
comentarista Otávio Guedes, da Globo News, tiveram que admitir o “erro de contagem”
da mesa coordenadora da CMPI – claro que depois de um raciocínio sinuoso...
Pouco importa
se a votação foi manipulada e que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, poderá
anulá-la. A estratégia alt-right de comunicação já estava cumprida: foi midiaticamente
associada a figura do “filho do Lula” com a do “careca do INSS”. E o esforço do
Palácio de Planalto em tentar blindá-lo.
Metonimicamente
os clickbaits e a mobilização orgânica nas redes já contaminaram, mais
uma vez, o presidente Lula com a pecha da corrupção.
Esses dois eventos
quase simultâneos (STF + CPMI) são o ápice da consolidação de uma espécie de “agenda
do Pânico Moral”: desde o início do ano o jornalismo corporativo vem
"empilhando" notícias sobre feminicídios, estupros, violência
doméstica, assédio, decisões equivocadas do Judiciário que absolvem
estupradores e adultos em vida conjugal com meninas menores de idade em
situação análoga à casamento etc.
Esse "empilhamento" de notícias moralmente pesadas não é
apenas uma impressão subjetiva; ela reflete um fenômeno real de agendamento
midiático que costuma atingir o ápice justamente em anos eleitorais,
como este 2026.
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Estamos vivendo o que os sociólogos chamam de Guerra de
Narrativas, onde a realidade é fragmentada para servir a propósitos
políticos imediatos.
Olhando para as escaladas dos telejornais ou as, manchetes dos portais
de notícias, sabemos que não estamos apenas acompanhando o desfile aleatório dos
acontecimentos, mas o fenômeno arbitrário do agendamento midiático: como a
mídia influencia a percepção do público sobre aquilo que é supostamente mais importante
através de um alinhamento temático.
Em termos simples: a mídia não consegue nos dizer o que pensar,
mas é extremamente eficaz em nos dizer sobre o que pensar.
Fenômeno de “empilhamento”
Desde o início do ano, acompanhamos esse alinhamento temático: um “empilhamento”
de notícias que começaram com o crescimento dos casos de feminicídios – maridos
ou namorados que não se conformam com o fim do relacionamento, ciúmes
obsessivos, ataques em pontos de ônibus ou lugares ermos que resultam em
estupros e crimes, violência doméstica e uma variedade de casos que acabam
tangenciando até com crime organizado.
Essa acumulação do noticiário se acentuou com o carnaval, com os
casos de assédio em blocos de rua e o destaque midiático de dispositivos e
canais para as mulheres denunciarem.
Se paralelo a isso já corria um processo de desconstrução do Judiciário
(o caso Dias Toffoli, Alexandre Moraes e Banco Master, os escândalos dos “penduricalhos”
de magistrados etc.), a pauta da demolição Judiciário se conectou com a agenda
do Pânico Moral, em Minas Gerais: a decisão de magistrado do TJMG de absolver um
homem de 35 anos acusado de manter um relacionamento com uma criança de 12 anos.
Com ampla repercussão nacional e internacional que está fazendo o desembargador
Magid Nauef Lauar rever sua própria decisão.
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O tripé dessa agenda midiática do Pânico Moral fecha com o tema da
corrupção – que volta à ribalta depois das sucessivas anulações das decisões da
Lava Jato.
O escândalo do samba enredo de Lula da escola de samba Acadêmicos
de Niterói (com suposto dinheiro público envolvido em propaganda eleitoral
antecipada) e o filho de Lula e a ameaça do escândalo do INSS se aproximarem do
Palácio do Planalto fecham esse tripé que compõe a Agenda do Pânico Moral: escândalo
moral, (in)segurança pública e corrupção.
Um flagrante desse alinhamento dos acontecimentos a essa
estratégia de agendamento foi o viés construído pelo jornalismo corporativo
sobre empurra-empurra e bate-boca após quebra de sigilo de Lulinha na CPMI do
INSS: “Confusão na CPMI do INSS: Veja bate-boca após quebra de sigilo de
Lulinha”, crava a CNN.
Ou a confusão e bate-boca foram muito mais protestos contra a fraude
na votação? Qual a verdadeira relação causal?
Até a cobertura internacional é canibalizada pelo Pânico Moral.
Enquanto na Argentina ocorriam protestos de rua e greve geral no
dia de votação da reforma trabalhista (flexibilização das regras de
contratação, a alteração do sistema de férias, a extensão da jornada de
trabalho de oito para 12 horas e o pagamento de salários em moeda estrangeira),
o jornalismo corporativo brasileiro prefere repercutir a vitória de Milei com o
Senado reduzindo a maioridade penal de 16 para 14 anos.
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Ou então o caso exemplar de contaminação metonímica na cobertura
das prisões do ex-príncipe Andrews e do ex-embaixador britânico Peter Mandelson.
Ambos foram presos por “má conduta em cargo público” após revelações dos
Epstein Files.
Por “má conduta no cargo” refere-se a terem recebido dinheiro de Jeffrey
Epstein para compartilharem informações sigilosas comerciais – o ex-príncipe
Andrews, por exemplo, compartilhava documentos referentes a negócios no
Afeganistão.
Mas, a alcunha de “criminoso sexual” de Epstein transforma um escândalo econômico (as relações promíscuas entre negócios públicos e privados) em escândalo moral, num exemplo clássico de contaminação semiótica metonímica.
O ardil da grande mídia
Qual o ardil da grande mídia em querer dar tração a essa pauta do
Pânico Moral em ano de eleições?
A pauta de costumes (moralidade, família, segurança) tende a
canibalizar o debate econômico. Para a oposição (especialmente a ala
bolsonarista), o pânico moral é uma ferramenta de mobilização orgânica.
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E para a grande mídia, esses temas geram altos índices de
engajamento e cliques.
Temos, portanto, uma convergência de agendas: quando a mídia
noticia casos reais de violência e decisões judiciais polêmicas, ela
"aquece" o terreno.
A comunicação alt-right então captura essas notícias,
aplicando uma moldura de "colapso civilizatório" ou "falência
das instituições sob o atual governo", criando uma sinergia que pressiona
o eleitorado pelo medo.
A pauta de costumes, do pânico moral e da guerra cultural é o
terreno pantanoso no qual a extrema direita se sai melhor. Esse campo do
espectro político foge do debate econômico como o vampiro da réstia de alho.
A grande mídia sabe disso. Portanto, não tem tu, vai tu mesmo! Com
fim do personagem “Tarcísio, o Moderado” e do sonho da “terceira via”, restou à
mídia corporativa empoderar a oposição de extrema direita mesmo...
Como esse humilde blogueiro vem dizendo, 2026 será um ano de maldades!
sábado, fevereiro 28, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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