sábado, fevereiro 28, 2026

Agenda midiática do Pânico Moral vai canibalizar ano eleitoral



O ano de 2026 mal começou e a 'Guerra de Narrativas' já atingiu o volume máximo. Entre a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva e o barulho em torno de verbas públicas para o Carnaval, emerge uma estratégia clara: a consolidação de uma agenda de Pânico Moral. Ao 'empilhar' notícias sobre feminicídios, falhas judiciais sobre condenados de estupro, assédios, insegurança pública e escândalos de corrupção, a grande mídia não apenas informa, mas molda o campo de batalha eleitoral, trocando o debate econômico pelo medo visceral — um terreno onde a extrema direita joga em casa. Esqueça o PIB ou a inflação; em 2026, o cardápio servido pelo jornalismo corporativo é regado a escândalos morais, crimes bárbaros e manobras parlamentares duvidosas. A pauta do Pânico Moral canibaliza a realidade econômica e o medo e ódio voltam a ser a principal moeda política.

Enquanto o ministro “terrivelmente evangélico” do STF, André Mendonça, autorizava quebra de sigilo (fiscal, telemático e bancário) do filho do presidente, o Lulinha, minutos depois a CPMI do INSS aprovava a quebra de sigilo de várias pessoas. Entre elas, o filho do presidente, o Lulinha.

Em uma votação caótica e fraudulenta organizada pelo presidente da CPMI do INSS, o senador Carlos Viana (Podemos-MG), foi aprovada a quebra de sigilo de diversas pessoas, entre elas do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Que seria o suposto "sócio oculto" de Antônio Camilo Antunes, o "careca do INSS".

Foi uma fraude tão evidente e constrangedora que até a apresentadora Julia Duailibi e o comentarista Otávio Guedes, da Globo News, tiveram que admitir o “erro de contagem” da mesa coordenadora da CMPI – claro que depois de um raciocínio sinuoso...

Pouco importa se a votação foi manipulada e que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, poderá anulá-la. A estratégia alt-right de comunicação já estava cumprida: foi midiaticamente associada a figura do “filho do Lula” com a do “careca do INSS”. E o esforço do Palácio de Planalto em tentar blindá-lo.

Metonimicamente os clickbaits e a mobilização orgânica nas redes já contaminaram, mais uma vez, o presidente Lula com a pecha da corrupção.

Esses dois eventos quase simultâneos (STF + CPMI) são o ápice da consolidação de uma espécie de “agenda do Pânico Moral”: desde o início do ano o jornalismo corporativo vem "empilhando" notícias sobre feminicídios, estupros, violência doméstica, assédio, decisões equivocadas do Judiciário que absolvem estupradores e adultos em vida conjugal com meninas menores de idade em situação análoga à casamento etc.

Esse "empilhamento" de notícias moralmente pesadas não é apenas uma impressão subjetiva; ela reflete um fenômeno real de agendamento midiático que costuma atingir o ápice justamente em anos eleitorais, como este 2026.



Estamos vivendo o que os sociólogos chamam de Guerra de Narrativas, onde a realidade é fragmentada para servir a propósitos políticos imediatos.

Olhando para as escaladas dos telejornais ou as, manchetes dos portais de notícias, sabemos que não estamos apenas acompanhando o desfile aleatório dos acontecimentos, mas o fenômeno arbitrário do agendamento midiático: como a mídia influencia a percepção do público sobre aquilo que é supostamente mais importante através de um alinhamento temático.

Em termos simples: a mídia não consegue nos dizer o que pensar, mas é extremamente eficaz em nos dizer sobre o que pensar.

Fenômeno de “empilhamento

Desde o início do ano, acompanhamos esse alinhamento temático: um “empilhamento” de notícias que começaram com o crescimento dos casos de feminicídios – maridos ou namorados que não se conformam com o fim do relacionamento, ciúmes obsessivos, ataques em pontos de ônibus ou lugares ermos que resultam em estupros e crimes, violência doméstica e uma variedade de casos que acabam tangenciando até com crime organizado.

Essa acumulação do noticiário se acentuou com o carnaval, com os casos de assédio em blocos de rua e o destaque midiático de dispositivos e canais para as mulheres denunciarem.

Se paralelo a isso já corria um processo de desconstrução do Judiciário (o caso Dias Toffoli, Alexandre Moraes e Banco Master, os escândalos dos “penduricalhos” de magistrados etc.), a pauta da demolição Judiciário se conectou com a agenda do Pânico Moral, em Minas Gerais: a decisão de magistrado do TJMG de absolver um homem de 35 anos acusado de manter um relacionamento com uma criança de 12 anos.

Com ampla repercussão nacional e internacional que está fazendo o desembargador Magid Nauef Lauar rever sua própria decisão.



O tripé dessa agenda midiática do Pânico Moral fecha com o tema da corrupção – que volta à ribalta depois das sucessivas anulações das decisões da Lava Jato.

O escândalo do samba enredo de Lula da escola de samba Acadêmicos de Niterói (com suposto dinheiro público envolvido em propaganda eleitoral antecipada) e o filho de Lula e a ameaça do escândalo do INSS se aproximarem do Palácio do Planalto fecham esse tripé que compõe a Agenda do Pânico Moral: escândalo moral, (in)segurança pública e corrupção.

Um flagrante desse alinhamento dos acontecimentos a essa estratégia de agendamento foi o viés construído pelo jornalismo corporativo sobre empurra-empurra e bate-boca após quebra de sigilo de Lulinha na CPMI do INSS: “Confusão na CPMI do INSS: Veja bate-boca após quebra de sigilo de Lulinha”, crava a CNN.

Ou a confusão e bate-boca foram muito mais protestos contra a fraude na votação? Qual a verdadeira relação causal?

Até a cobertura internacional é canibalizada pelo Pânico Moral.

Enquanto na Argentina ocorriam protestos de rua e greve geral no dia de votação da reforma trabalhista (flexibilização das regras de contratação, a alteração do sistema de férias, a extensão da jornada de trabalho de oito para 12 horas e o pagamento de salários em moeda estrangeira), o jornalismo corporativo brasileiro prefere repercutir a vitória de Milei com o Senado reduzindo a maioridade penal de 16 para 14 anos.



Ou então o caso exemplar de contaminação metonímica na cobertura das prisões do ex-príncipe Andrews e do ex-embaixador britânico Peter Mandelson. Ambos foram presos por “má conduta em cargo público” após revelações dos Epstein Files.

Por “má conduta no cargo” refere-se a terem recebido dinheiro de Jeffrey Epstein para compartilharem informações sigilosas comerciais – o ex-príncipe Andrews, por exemplo, compartilhava documentos referentes a negócios no Afeganistão.

Mas, a alcunha de “criminoso sexual” de Epstein transforma um escândalo econômico (as relações promíscuas entre negócios públicos e privados) em escândalo moral, num exemplo clássico de contaminação semiótica metonímica.

O ardil da grande mídia

Qual o ardil da grande mídia em querer dar tração a essa pauta do Pânico Moral em ano de eleições?

A pauta de costumes (moralidade, família, segurança) tende a canibalizar o debate econômico. Para a oposição (especialmente a ala bolsonarista), o pânico moral é uma ferramenta de mobilização orgânica.



E para a grande mídia, esses temas geram altos índices de engajamento e cliques.

Temos, portanto, uma convergência de agendas: quando a mídia noticia casos reais de violência e decisões judiciais polêmicas, ela "aquece" o terreno.

A comunicação alt-right então captura essas notícias, aplicando uma moldura de "colapso civilizatório" ou "falência das instituições sob o atual governo", criando uma sinergia que pressiona o eleitorado pelo medo.

A pauta de costumes, do pânico moral e da guerra cultural é o terreno pantanoso no qual a extrema direita se sai melhor. Esse campo do espectro político foge do debate econômico como o vampiro da réstia de alho.

A grande mídia sabe disso. Portanto, não tem tu, vai tu mesmo! Com fim do personagem “Tarcísio, o Moderado” e do sonho da “terceira via”, restou à mídia corporativa empoderar a oposição de extrema direita mesmo...

Como esse humilde blogueiro vem dizendo, 2026 será um ano de maldades!

 

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