Se a televisão tradicional é um sanduíche onde o entretenimento é o pão e a publicidade é o recheio, o que acontece quando decidimos servir apenas o recheio, puro e sem disfarces? Ao resgatar o conceito de “Grau Zero” de Roland Barthes — uma escrita despojada de ornamentos e puramente funcional —, descobrimos que os canais de televendas não são uma degeneração do meio, mas sua verdade mais honesta. É sob essa premissa de honestidade brutal que o filme "Up The Catalogue" (2024) mergulha em uma mescla de comédia sombria e sci-fi distópico, transformando o ato de vender em uma prisão existencial onde a apresentadora Hailey Cartin se torna o combustível humano de uma engrenagem que nunca desliga. Um estúdio de TV que é, ao mesmo tempo, um labirinto infinito, uma anomalia em loop tempo-espaço, e uma sentença de prisão.
O semiólogo Roland
Barthes falava em um “grau zero” de um meio: uma escrita neutra, transparente e
despojada de ornamentos. É o que ele chama de écriture blanche (escrita
branca).
Barthes falava
que a escritura é o ato de escolher como você vai usar a língua para se
posicionar no mundo. Muitos autores usam uma escrita "carregada"
(cheia de metáforas, floreios e sinais como se quisesse dizer "estou
fazendo Literatura").
O Grau
Zero seria o oposto: uma escrita que tenta ser puramente funcional, como
uma equação matemática ou um relatório técnico.
Poderíamos
aplicar à TV esse mesmo conceito Barthesiano? A TV se autodescreve como detentora
de uma “função social”: educar, entreter e informar. Está na legislação que
rege a concessão de canais de rádio e TV. O intervalo publicitário seria a
remuneração do negócio: trocar conteúdo por espaço publicitário.
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Mas, do ponto
de vista do proprietário do meio, o conteúdo é uma mera isca para inserção publicitária
e lucro. E telejornais, filmes e musicais como um floreio para criar audiência
e atrair anúncios de produtos.
E se
existisse uma TV “grau zero”, com 24 horas de publicidade? Apenas com uma
variação de gêneros, como, por exemplo, infomerciais, vídeos publicitários etc.?
Pois já
existe. Há muito tempo: os canais de televendas – com um folclore próprio formado por toda sorte de personagens como, por exemplo, Walter Mercado e a sua exortação “ligue já!”, em
portunhol.
Os canais de
televendas não seriam uma "degeneração" folclórica da TV; eles seriam
a sua verdade mais honesta. Eles eliminam a hipocrisia de fingir que a cultura
é o objetivo principal, e revelariam o “grau zero” do meio através da
honestidade brutal do televendas ou assumir que a TV, no final, é puro consumo.
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O surreal
filme Up The Catalogue (2024), dirigido por Alastair Siddons, uma
comédia sombria com pitadas de terror, leva esse grau zero da TV ao extremo ao
mostrar que, no cenário da 4QTV, não existe "fora do ar". A vida da
protagonista apresentadora/vendedora é absorvida pela demonstração do produto.
Se a TV
tradicional é um sanduíche onde o conteúdo é o pão e a publicidade é o recheio,
o infomercial é apenas o recheio servido puro. Chegando ao tom de uma espécie
de ficção científica distópica.
Ambientado em
um misterioso canal de compras chamado 4QTV, Up the Catalogue acompanha
a apresentadora Hailey Cartin enquanto ela tenta vender uma sequência
aparentemente interminável de produtos questionáveis em um programa de
televisão ao vivo.
Determinada a
ser um exemplo em sua área, Hailey está à mercê de seu chefe, Daniel Fortescue,
que se deleita em manipulá-la psicologicamente até o limite da resistência e da
sanidade.
A
"4QTV": O nome do canal é um trocadilho óbvio (pronuncia-se como
"Fuck You TV"), servindo como uma crítica direta à forma como grandes
corporações tratam tanto seus funcionários quanto seu público — como meras
engrenagens ou estatísticas em uma planilha de lucros.
O toque de
sci-fi distópico vem de que o misterioso canal de televenda é um loop
tempo-espaço com corredores infinitos. Com apresentadora prisioneira nessa
anomalia, e que não consegue encontrar a porta de saída – e, sequer, o próprio
camarim. É obrigada a ficar 24 horas no set, diante das câmeras ao vivo, apresentando,
demostrando e provando uma lista interminável de produtos.
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O Filme
O filme
apresenta Hailey Cartin (Lyndsey Marshal) como a rainha indiscutível da 4QTV,
um canal de televendas que opera em um fluxo contínuo de 24 horas. Hailey é uma
veterana capaz de vender qualquer coisa — desde joias de plástico até o bizarro
"Pão Permanente" (um objeto decorativo que imita comida). Ela vive
sob a luz implacável do estúdio, movida a café e pela aprovação maníaca de seus
produtores invisíveis, que se comunicam com ela apenas por fones de ouvido.
A tensão sobe
quando a produção introduz Jamimma Hoare (Morgana Robinson), uma apresentadora
muito mais jovem e conectada à estética das redes sociais. O estúdio começa a
se comportar de forma labiríntica e surreal: as saídas parecem desaparecer e
Hailey é impedida de fazer pausas básicas, como dormir ou ir ao banheiro.
A narrativa
se torna claustrofóbica. Hailey começa a ter alucinações com os produtos que
vende, enquanto a pressão para manter os números de audiência altos a leva a um
colapso físico. Ela descobre que o canal não é apenas uma empresa, mas uma
espécie de entidade autossuficiente que se alimenta da energia vital de
seus apresentadores.
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O Clímax: A Descoberta do Simulacro (Alerta de Spoilers à frente)
Hailey tenta
fugir pelos bastidores, mas encontra apenas corredores infinitos cheios de
telas que exibem versões de si mesma em diferentes épocas. Ela percebe que o
tempo no estúdio não funciona de forma linear.
Em um
confronto final, Hailey descobre a verdade aterradora: o canal está em processo
de "atualização". Ela não está apenas sendo demitida; ela está sendo escaneada.
Cada movimento, cada tom de voz e cada micro-expressão de sua exaustão foram
capturados pelas câmeras para treinar uma Inteligência Artificial.
O filme
captura a sensação de claustrofobia de estar "on-line" 24 horas por
dia. Hailey não pode parar; as câmeras nunca desligam. Isso espelha a nossa
própria exaustão com a economia da atenção no atual ecossistema digital
de feed infinito - assim como Hailey está presa no estúdio, nós estamos
frequentemente presos no scroll infinito. O filme sugere que a cultura
moderna é um estúdio de TV do qual não conseguimos sair, onde a linha entre a
realidade e o roteiro de vendas desaparece.
Hoje, a tese
do "Grau Zero" de Roland Barthes migrou da TV para o celular. O que
são os Stories de influenciadores ou o TikTok Shop senão a
fragmentação do infomercial em doses homeopáticas?
A
protagonista Harley Cartin de Up The Catalogue personifica o colapso
dessa barreira. Ela é a "vendedora eterna". O filme sugere que o zeitgeist
do século XXI transformou toda a nossa existência em um infomercial constante,
onde cada postagem é um "pretexto" para vender nossa própria imagem
ou um estilo de vida.
Ficha Técnica |
|
Título: Up
the Catalogue |
|
Criador:
Alastair Siddons |
|
Roteiro:
Alastair Siddons |
|
Elenco:
Lyndsay Marshal, John McMillan, Morgana Robinson |
|
Produção:
4QTV |
|
Distribuição:
Cut Entertainment Group |
|
Ano:
2024 |
|
País: Reino Unido |
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Wilson Roberto Vieira Ferreira





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