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O ser humano não é um animal racional; é um animal racionalizante que usa a tecnologia high-tech apenas para adornar seus impulsos mais primitivos. É partindo dessa premissa freudiana que o cineasta britânico Steve Oram concebeu “Aaaaaaaah!” (2015), uma das obras mais perturbadoras, bizarras e subversivas do cinema independente britânico recente. Uma sátira social onde subúrbios modernos e videogames convivem com sociedades estritamente regida por hierarquias de primatas, disputas de território e grunhidos de ódio. De alguma maneira, diante de nossos consoles de videogames e telas de celulares, regredimos aos impulsos mais primitivos. O resultado é um raio-X macabro e profético da nossa era digital e política.
Desde que o
vocalista Greg Lake deixou a banda de rock progressivo King Crimson para fazer
parte do Emerson, Lake and Palmer (EL&P), em 1970, o líder e guitarrista da
banda, Robert Fripp, deu uma série de entrevistas e escreveu artigos atacando a
decisão do cantor.
Durante quase
a metade da década de 1970, Fripp insistia em dizer que o EL&P fazia parte
de um mundo tecnológico de computadores, sintetizadores e eletrônica. Fripp
insistia em dizer que, pelo contrário, o mundo do futuro era o da “flauta de
bambu”.
Certamente, o
diretor e roteirista britânico Steve Oram deve ter se lembrado dessa visão distópica
do futuro de Robert Fripp para convidá-lo a fazer parte do filme Aaaaaaaah!
(2015), uma das obras mais perturbadoras, bizarras e subversivas do cinema
independente britânico recente. Uma sátira sombria e experimental.
Fripp colocou
à disposição da produção da trilha vários arranjos do “The ProjeKts” (uma
sucessão de músicas de grupos spin-offs do King Crimson, do início desse
século). Que termina com uma versão em xilofone do monumental hino do rock
progressivo “21th Century Schizoid Man” - a letra da música descreve um cenário
distópico de poluição, guerras, políticos corruptos e desumanização. Ela
sintetiza a figura do homem esquizofrênico do século XXI: aquele que domina a
alta tecnologia científica, mas cuja alma continua aprisionada em um estado de
selvageria atroz.
Uma escolha
musical para o encerramento do filme que é um golpe de mestre conceitual.
A história de
Aaaaaaaah! se passa em um mundo moderno e familiar — com casas, ruas, TV
e tecnologia atuais —, mas com uma única e chocante alteração: todos os seres
humanos agem, pensam e se comunicam inteiramente como primatas e neandertais.
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Não há
diálogos reais: os personagens se expressam através de gritos, uivos, gestos,
rosnados e linguagem corporal.
A narrativa
acompanha disputas de território, hierarquias de "machos alfa",
rituais de acasalamento e dinâmicas familiares urbanas vistas sob uma ótica
crua e animalesca.
O ponto forte
de Aaaaaaaah! é o empenho físico do elenco (que inclui o próprio diretor Steve
Oram, Julian Rhind-Tutt, Tom Meeten e Toyah Willcox) impressionante por manter
a seriedade do conceito sem cair no riso fácil o tempo todo. Ele usa o absurdo
para fazer uma crítica ácida e desconfortável aos rituais de gênero, violência
e poder da sociedade "civilizada".
Lembrando uma
ideia freudiana bem provocativa: é errado considerar o homem como um ser
racional. Na verdade o homem seria um animal racionalizante. O homem não é
um ser que, através da lógica, da evidência e da análise crítica avalia a
realidade e toma decisões. Pelo contrário, nossos atos são basicamente
motivados por impulsos inconscientes e primitivos. Posteriormente fabricamos
justificativas pseudológicas para nos convencer de que fomos totalmente
coerentes, “racionais”.
Aaaaaaaaah! imagina uma
sociedade sem racionalizações hipócritas. Por algum motivo, a sociedade “regrediu”
ao estado primata. Ou simplesmente se cansou de álibis para justificar impulsos
animalescos.
E resolveu
assumir de vez o estado regressivo.
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O Filme
O filme se
passa em um subúrbio britânico cinzento e banal. A premissa central acompanha Smith
(Steve Oram) e seu capacho/subordinado Keith (Tom Meeten), que chegam a uma
nova vizinhança com o objetivo claro de usurpar o poder do "macho
alfa" local, Ryan (Julian Rhind-Tutt).
A convivência
doméstica mimetiza a rotina moderna — as pessoas assistem TV, cozinham, usam
micro-ondas e jogam videogames —, mas tudo é subvertido por comportamentos
animalescos: eles urinam nos eletrodomésticos para marcar território, disputam
comida com violência física brutal, trocam olhares de intimidação e se limpam
por meio de catação de piolhos e gestos de submissão.
Smith
articula sua invasão social aproximando-se da fêmea dominante da casa rival, Barbara
(Toyah Willcox), enquanto o antigo alfa Ryan resiste violentamente. Ao longo da
trama, vemos subtramas degradantes, como a de Og, um pária humilhado nas ruas
que desconta seus instintos em crueldades mesquinhas.
Há uma ironia
fundamental na premissa do filme: embora os personagens usem consoles de
videogame, assistam a telas e vivam em casas modernas, a tecnologia em Aaaaaaaah!
não serve para elevar o intelecto humano; ela é apenas um adereço oco dentro de
uma jaula.
O filme
capturou com precisão cirúrgica o zeitgeist da era digital: a ilusão
de que o hiperdesenvolvimento tecnológico nos tornou mais civilizados, quando,
na verdade, facilitou uma regressão tribal coletiva.
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O
comportamento dos personagens espelha diretamente a dinâmica das redes sociais
modernas — a busca obsessiva por validação do "grupo", o cancelamento
sumário, o linchamento virtual guiado por manada e a polarização onde o
contraditório é respondido apenas com gritos, emojis agressivos e urros de ódio
(grunhidos digitais).
Na internet,
abandonamos a retórica complexa em troca de reflexos viscerais de aprovação ou
repulsa. O filme satiriza essa condição ao mostrar que, por baixo da fina
película de verniz da nossa civilização digitalizada, habita um macaco raivoso
faminto por poder e hierarquia instantânea.
Aaaaaaaah! foi
profético
Produzido e
lançado pouco antes do referendo do Brexit em 2016, Aaaaaaaah! funciona
como uma alegoria sombria e involuntariamente profética da psique nacional
britânica que culminaria na saída da União Europeia e no fortalecimento do
populismo de extrema-direita.
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A premissa do
Brexit em proteger o "território" a qualquer custo, a desconfiança
paranoica em relação aos estranhos que entram no bairro e a hostilidade
visceral contra o "outro" são os pilares da narrativa do filme. É o
retrato cru do nativismo político levado ao seu absurdo biológico.
A política da
extrema-direita contemporânea alimenta-se do apelo à força bruta, à
testosterona performática, à rejeição de consensos democráticos e à promessa de
restaurar uma suposta "glória perdida" através da subjugação do
adversário.
A luta de
Smith para destronar Ryan e impor sua lei marcial doméstica antecipa a retórica
política baseada em "homens fortes", nacionalismos paroquiais e o
descarte de instituições civilizatórias em favor de impulsos primitivos.
Em síntese:
Steve Oram propõe um experimento sociológico e estético radical: um mundo
contemporâneo onde os seres humanos caminham erguidos e usam tecnologia, mas
retiram completamente a fala articulada, agindo rigorosamente como primatas
(chimpanzés e gorilas).
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Ficha Técnica |
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Título: Aaaaaaaah! |
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Diretor: Steve Oram |
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Roteiro: Steve Oram |
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Elenco: Steve Oram, Tom Meeten, Julian Rhind-Tutt,
Toya Willcox, Lucy Velik |
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Produção: Boum Productions, Rook Films |
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Distribuição: Monster Pictures |
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Ano: 2015 |
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País: Reino Unido |
sábado, outubro 31, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira



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