sábado, outubro 31, 2026

Somos todos primatas digitais em 'Aaaaaaaah!'


O ser humano não é um animal racional; é um animal racionalizante que usa a tecnologia high-tech apenas para adornar seus impulsos mais primitivos. É partindo dessa premissa freudiana que o cineasta britânico Steve Oram concebeu “Aaaaaaaah!” (2015), uma das obras mais perturbadoras, bizarras e subversivas do cinema independente britânico recente. Uma sátira social onde subúrbios modernos e videogames convivem com sociedades estritamente regida por hierarquias de primatas, disputas de território e grunhidos de ódio. De alguma maneira, diante de nossos consoles de videogames e telas de celulares, regredimos aos impulsos mais primitivos. O resultado é um raio-X macabro e profético da nossa era digital e política.

Desde que o vocalista Greg Lake deixou a banda de rock progressivo King Crimson para fazer parte do Emerson, Lake and Palmer (EL&P), em 1970, o líder e guitarrista da banda, Robert Fripp, deu uma série de entrevistas e escreveu artigos atacando a decisão do cantor.

Durante quase a metade da década de 1970, Fripp insistia em dizer que o EL&P fazia parte de um mundo tecnológico de computadores, sintetizadores e eletrônica. Fripp insistia em dizer que, pelo contrário, o mundo do futuro era o da “flauta de bambu”.

Certamente, o diretor e roteirista britânico Steve Oram deve ter se lembrado dessa visão distópica do futuro de Robert Fripp para convidá-lo a fazer parte do filme Aaaaaaaah! (2015), uma das obras mais perturbadoras, bizarras e subversivas do cinema independente britânico recente. Uma sátira sombria e experimental.

Fripp colocou à disposição da produção da trilha vários arranjos do “The ProjeKts” (uma sucessão de músicas de grupos spin-offs do King Crimson, do início desse século). Que termina com uma versão em xilofone do monumental hino do rock progressivo “21th Century Schizoid Man” - a letra da música descreve um cenário distópico de poluição, guerras, políticos corruptos e desumanização. Ela sintetiza a figura do homem esquizofrênico do século XXI: aquele que domina a alta tecnologia científica, mas cuja alma continua aprisionada em um estado de selvageria atroz.

Uma escolha musical para o encerramento do filme que é um golpe de mestre conceitual.

A história de Aaaaaaaah! se passa em um mundo moderno e familiar — com casas, ruas, TV e tecnologia atuais —, mas com uma única e chocante alteração: todos os seres humanos agem, pensam e se comunicam inteiramente como primatas e neandertais.



Não há diálogos reais: os personagens se expressam através de gritos, uivos, gestos, rosnados e linguagem corporal.

A narrativa acompanha disputas de território, hierarquias de "machos alfa", rituais de acasalamento e dinâmicas familiares urbanas vistas sob uma ótica crua e animalesca.

O ponto forte de Aaaaaaaah! é o empenho físico do elenco (que inclui o próprio diretor Steve Oram, Julian Rhind-Tutt, Tom Meeten e Toyah Willcox) impressionante por manter a seriedade do conceito sem cair no riso fácil o tempo todo. Ele usa o absurdo para fazer uma crítica ácida e desconfortável aos rituais de gênero, violência e poder da sociedade "civilizada".

Lembrando uma ideia freudiana bem provocativa: é errado considerar o homem como um ser racional. Na verdade o homem seria um animal racionalizante. O homem não é um ser que, através da lógica, da evidência e da análise crítica avalia a realidade e toma decisões. Pelo contrário, nossos atos são basicamente motivados por impulsos inconscientes e primitivos. Posteriormente fabricamos justificativas pseudológicas para nos convencer de que fomos totalmente coerentes, “racionais”.

Aaaaaaaaah! imagina uma sociedade sem racionalizações hipócritas. Por algum motivo, a sociedade “regrediu” ao estado primata. Ou simplesmente se cansou de álibis para justificar impulsos animalescos.

E resolveu assumir de vez o estado regressivo.



O Filme

O filme se passa em um subúrbio britânico cinzento e banal. A premissa central acompanha Smith (Steve Oram) e seu capacho/subordinado Keith (Tom Meeten), que chegam a uma nova vizinhança com o objetivo claro de usurpar o poder do "macho alfa" local, Ryan (Julian Rhind-Tutt).

A convivência doméstica mimetiza a rotina moderna — as pessoas assistem TV, cozinham, usam micro-ondas e jogam videogames —, mas tudo é subvertido por comportamentos animalescos: eles urinam nos eletrodomésticos para marcar território, disputam comida com violência física brutal, trocam olhares de intimidação e se limpam por meio de catação de piolhos e gestos de submissão.

Smith articula sua invasão social aproximando-se da fêmea dominante da casa rival, Barbara (Toyah Willcox), enquanto o antigo alfa Ryan resiste violentamente. Ao longo da trama, vemos subtramas degradantes, como a de Og, um pária humilhado nas ruas que desconta seus instintos em crueldades mesquinhas.

Há uma ironia fundamental na premissa do filme: embora os personagens usem consoles de videogame, assistam a telas e vivam em casas modernas, a tecnologia em Aaaaaaaah! não serve para elevar o intelecto humano; ela é apenas um adereço oco dentro de uma jaula.

O filme capturou com precisão cirúrgica o zeitgeist da era digital: a ilusão de que o hiperdesenvolvimento tecnológico nos tornou mais civilizados, quando, na verdade, facilitou uma regressão tribal coletiva.



O comportamento dos personagens espelha diretamente a dinâmica das redes sociais modernas — a busca obsessiva por validação do "grupo", o cancelamento sumário, o linchamento virtual guiado por manada e a polarização onde o contraditório é respondido apenas com gritos, emojis agressivos e urros de ódio (grunhidos digitais).

Na internet, abandonamos a retórica complexa em troca de reflexos viscerais de aprovação ou repulsa. O filme satiriza essa condição ao mostrar que, por baixo da fina película de verniz da nossa civilização digitalizada, habita um macaco raivoso faminto por poder e hierarquia instantânea.

Aaaaaaaah! foi profético

Produzido e lançado pouco antes do referendo do Brexit em 2016, Aaaaaaaah! funciona como uma alegoria sombria e involuntariamente profética da psique nacional britânica que culminaria na saída da União Europeia e no fortalecimento do populismo de extrema-direita.



A premissa do Brexit em proteger o "território" a qualquer custo, a desconfiança paranoica em relação aos estranhos que entram no bairro e a hostilidade visceral contra o "outro" são os pilares da narrativa do filme. É o retrato cru do nativismo político levado ao seu absurdo biológico.

A política da extrema-direita contemporânea alimenta-se do apelo à força bruta, à testosterona performática, à rejeição de consensos democráticos e à promessa de restaurar uma suposta "glória perdida" através da subjugação do adversário.

A luta de Smith para destronar Ryan e impor sua lei marcial doméstica antecipa a retórica política baseada em "homens fortes", nacionalismos paroquiais e o descarte de instituições civilizatórias em favor de impulsos primitivos.

Em síntese: Steve Oram propõe um experimento sociológico e estético radical: um mundo contemporâneo onde os seres humanos caminham erguidos e usam tecnologia, mas retiram completamente a fala articulada, agindo rigorosamente como primatas (chimpanzés e gorilas).


 

 

 

 

 

 

Ficha Técnica

Título: Aaaaaaaah!

Diretor: Steve Oram

Roteiro: Steve Oram

Elenco: Steve Oram, Tom Meeten, Julian Rhind-Tutt, Toya Willcox, Lucy Velik

Produção: Boum Productions, Rook Films

Distribuição: Monster Pictures

Ano: 2015

País:  Reino Unido

 

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