Paralisada entre a negação e a barganha enquanto assiste ao avanço avassalador da extrema-direita no Congresso e à ameaça real de um desastre eleitoral no segundo turno, a "constelação de progressismos" brasileira enfrenta sua maior crise de identidade. Cooptada pelo neoliberalismo progressista, viciada na estética do engajamento algorítmico e sucessivamente capturada pela armadilha do pânico moral — onde trocou a crítica material ao capitalismo pelo policiamento comportamental de rede e pelo sensacionalismo moralista —, a esquerda perdeu o chão da fábrica, a periferia e a linguagem da classe trabalhadora. Diante do colapso das ilusões de conciliação e do doisladismo da mídia corporativa, não há atalho em frentes amplas ou peças publicitárias: para estancar a própria irrelevância e reconstruir um projeto de poder popular, a esquerda precisa parar de barganhar com a realidade e descer no abismo para encontrar a si mesma.
Nesse momento,
a “esquerda” (ou a “constelação de progressismos”, como nomeou certa vez o
filósofo Vladimir Safatle) está nos primeiros estágios do processo psíquico do
luto: negação e barganha.
“Buscar a
receita para ganhar de virada”, “buscar uma frente ampla”, “reduzir abstenções
e falar ao centro político”, “o jogo vai começar, vamos comparar as duas biografias”,
“20 dias para impedir o desastre total”, “o jogo está sendo jogado”, “jogo de
volta” etc., foram a tônica das exortações do Governo aos sites progressistas: entre
a negação e uma tentativa de barganhar com o destino.
E o destino
está lá, no Congresso: o PL (a legenda do Bolsonarismo, o demiurgo da chamada
trama golpista do 8/1) como o grande vencedor ao emergir das eleições com a
maior bancada do Senado Federal (com 19 senadores eleitos nesse domingo, a
legenda ocupara 28 cadeiras da Casa Alta em 2027) e a eleição de 121 deputados
federais.
Realiza-se
totalmente aquilo que esse Cinegnose veio denominando como “modulação
semiótica” do jornalismo corporativo: sim! Lula até pode vencer as eleições.
Mas, se ganhar, será com a faca no pescoço, desidratado politicamente.
E, pior,
diante de um Congresso vingativo. Pronto para fazer impeachments contra os
ministros do STF, impor as emendas constitucionais que quiserem e impor mudanças
no próprio regimento interno do Congresso. Uma hecatombe institucional!
Se o “parlamentarismo
orçamentário” foi a grande bomba armada pelo governo Jair Bolsonaro para Lula,
agora a explosão desse artefato rendeu os frutos: As emendas parlamentares,
principalmente as emendas Pix e o extinto "orçamento secreto"
(emendas de relator RP-9), funcionaram como motores de hiperfragmentação e
hiperfidelização de bases eleitorais, favorecendo fortemente a reeleição de
parlamentares com mandato e a expansão de legendas associadas ao bolsonarismo e
ao Centrão.
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Será que a extrema direita leu Gramsci e Althusser?
Enquanto o PT
se especializou em eleições majoritárias, a extrema direita “comeu pelas bordas”,
isto é, ocupou território do cotidiano do brasileiro: neopentecostalismo e a
teologia da prosperidade, o consolo da precarização pelo coach motivacional, o
dinheiro “carimbado” pelos deputados e senadores para obras em municípios de
apelo visual imediato (como praças, asfalto ou compra de ambulâncias) e assim
por diante.
Enquanto as
constelações progressistas falam em “avanço do fascismo”, a extrema direita
apenas aplica, ironicamente, as lições marxistas de Antonio Gramsci (a
liderança política, cultural e ideológica que uma classe social exerce sobre as
demais, obtendo o consentimento voluntário da sociedade em vez de governar
apenas pela força) e Louis Althusser (o controle da ideologia, persuasão e do
consenso pela família, escola, igreja, mídia, instituições culturais e
esportivas).
Além de tudo,
esse movimento de negação e barganha em plena ressaca eleitoral revela a
cooptação que a esquerda sofreu pelas pautas moralistas (nas quais a extrema
direita se sente mais à vontade com suas propostas punitivistas). Abandonando,
a esquerda, seu terreno histórico da crítica estrutural, material e econômica.
O conceito de
"pânico moral", frequentemente dissecado por nossas análises
midiáticas deste Cinegnose, descreve uma tática de agendamento que
captura o debate público através de reações emocionais e indignação focada em
comportamentos ou valores.
Restando à
esquerda atuar de forma reativa no campo comportamental, um território onde a
extrema-direita possui vantagem mobilizatória natural. Nesse cenário de avanço
conservador no Congresso, a dinâmica do pânico moral opera como uma cortina de
fumaça que despolitiza os crimes do capital e os transforma em falhas de
caráter individual.
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Das ruas ao ecossistema digital
Como na
armadilha moral do caso do Banco Master que as constelações progressistas caíram
– principalmente porque essas constelações abandonaram as ruas e se concentraram
no ecossistema digital. Onde essa pauta moral das denúncias de sexo, orgias e
corrupção das elites viraliza e engaja audiência.
No escândalo
envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master, foram dado destaque para relatórios
da Polícia Federal apontaram a suposta realização de festas sexuais para
estreitar laços e costurar negociações com políticos, empresários e autoridades
do Judiciário.
Sob a ótica
da captura pelo pânico moral, o debate público foi rapidamente desviado para o
escândalo comportamental, ignorando as engrenagens do poder do Estado
Patrimonialista.
Ao focar nas
orgias e na conduta sexual privada das autoridades, a oposição e a opinião
pública reduzem uma crise institucional a um roteiro de tabloide. O debate passou
a girar em torno da hipocrisia ou da imoralidade dos atores envolvidos, algo
que gera engajamento rápido nas redes, mas não ameaça a estrutura financeira.
O que
desaparece é a anatomia do Estado patrimonialista brasileiro. O foco real
deveria ser a captura do Judiciário e do Legislativo pelo capital financeiro,
as suspeitas de fraudes financeiras de grande porte, a lavagem de dinheiro e a
promiscuidade entre o dinheiro público e os interesses privados.
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O Pânico Moral cotidiano
Para além do
espetacular escândalo de Vorcaro em festas e orgias com autoridades, no dia a
dia, o jornalismo corporativo tocava a agenda do Pânico Moral.
Desde o
início do ano a grande mídia veio "empilhando” notícias sobre
feminicídios, estupros, violência doméstica, assédio, decisões equivocadas do
Judiciário que absolvem estupradores e adultos em vida conjugal com meninas
menores de idade em situação análoga à casamento etc.
Esse
"empilhamento" de notícias moralmente pesadas refletia um fenômeno
real de agendamento midiático que costuma atingir o ápice justamente em
anos eleitorais, como este 2026.
A pauta de
costumes, do pânico moral e da guerra cultural é o terreno pantanoso no qual a
extrema direita se sai melhor. Esse campo do espectro político foge do debate
econômico como o vampiro foge da réstia de alho.
Afirmávamos
na oportunidade (clique aqui) que a
agenda do Pânico Moral iria canibalizar o ano eleitoral. E canibalizou a
própria esquerda, como vimos no resultado das eleições nesse domingo.
O “doisladismo” midiático e o Pânico Moral
Em artigo,
Paulo Henrique Arantes sentenciava que “o doisladismo hipócrita da mídia já
feriu a democracia, agora pode matá-la – clique aqui.
O
"doisladismo" ocorre quando o jornalismo tenta apresentar dois lados
de uma questão como tendo o mesmo peso, mesmo quando há uma desproporção
factual, histórica ou de poder entre eles.
Essa prática
editorial busca criar uma falsa simetria entre forças políticas para manter uma
aparência de neutralidade jornalística.
Criando, em
primeiro lugar, a falsa equivalência: A mídia equipara pautas econômicas
ou sociais da esquerda com ataques diretos às instituições promovidos pela
extrema-direita, tratando ambos como polos naturais do jogo democrático.
Mas,
principalmente, opera a hipernormalização: Ao tratar o aparelhamento de
instituições, a leniência com escândalos bilionários ou a retórica anti-sistema
como meras "posições conservadoras", a imprensa normaliza o
extremismo.
A sociedade é
anestesiada; o inaceitável passa a ser visto como apenas mais um dia no
noticiário político.
Certamente
esse doisladismo acaba se conectando com a agenda do pânico moral no porquê de todo
o caso Banco Master e os escandalosos caminhos do financiamento do filme Dark
Horse a partir do banqueiro Daniel Vorcaro não terem sequer chamuscado a
imagem e os votos de Flávio Bolsonaro – dentro da perspectiva do “doisladismo” o
jornalismo corporativo avaliou como “resiliência do candidato”...
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As falsas
equivalências criadas pela bomba semiótica do Pânico Moral (do caso “Lulinha”
ao financiamento suspeito de Dark Horse) acabou por criar a atmosfera na
qual a extrema-direita vive: a dissonância cognitiva – o empilhamento das
notícias de escândalos morais reforça a aversão à Política (“todos os políticos
são ladrões!”). Sabendo-se que Flávio não é visto como um “político” stricto
sensu, mas “o filho de Bolsonaro”.
Descer no abismo
De tudo isso,
esse humilde blogueiro argumenta que a esquerda brasileira caiu em uma
armadilha: foi cooptada pelos “progressismos”, expondo a reconfiguração da
própria esquerda ocidental nas últimas décadas: a substituição do projeto
histórico de emancipação econômica e combate à exploração de classe pela adesão
ao que a filósofa Nancy Fraser conceitua como neoliberalismo progressista.
Nessa aliança
tácita com o capital financeiro, a esquerda aceitou a estrutura de mercado como
insuperável, restringindo sua atuação à disputa simbólica de reconhecimento e à
representatividade corporativa.
Essa
reconfiguração encontrou o ambiente perfeito na economia das plataformas
digitais, gerando uma troca trágica: a militância de território deu lugar à
performance algorítmica. A organização popular em sindicatos, associações
de bairro e periferias exige um trabalho lento, presencial e invisível. Já as
redes sociais operam pela lógica da atração do conflito, onde os algoritmos
remuneram a indignação instantânea e a sinalização de virtude.
A esquerda
passou a medir sua relevância por métricas de engajamento (likes, alcance,
viralizações) em vez da sua capacidade de mobilização de massa ou paralisação
econômica. Ao trocar a praça pública e o chão de fábrica pela linha do tempo, o
discurso esquerdista desaprendeu a linguagem da classe trabalhadora e adotou o
dialeto acadêmico e punitivo da bolha digital.
Ao focar a
sua atuação no engajamento de rede, a esquerda caiu na armadilha do pânico
moral reverso. Ela deixou de analisar o capitalismo sob a ótica da
mais-valia, da precarização do trabalho uberizado e da espoliação bancária para
atuar como uma patrulha comportamental. O debate público foi deslocado da
economia para o policiamento do vocabulário, dos hábitos de consumo e dos
escândalos morais do momento.
Enquanto o
trabalhador informal enfrenta jornadas exaustivas e inflação, a esquerda
institucional transmite a sensação de gastar suas energias em litígios
estéticos. O resultado é a alienação do seu eleitorado histórico, que passa a
enxergar a esquerda como uma elite cultural pretensiosa e encontra na
extrema-direita um canal de vazão para sua raiva e desespero econômico.
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Nesse
contexto, uma derrota de Lula no segundo turno para a extrema-direita
representa o choque de realidade e a descida ao abismo indispensáveis
para a sobrevivência da própria esquerda. Esse abismo simboliza o fim da ilusão
de que é possível conter o fascismo apenas gerindo o capitalismo com maquiagem
social e discursos moralistas.
Para
reencontrar sua identidade no fundo desse poço, a reconstrução exige:
- Ruptura com a ditadura do engajamento: Compreender
que o país real não habita as métricas das redes sociais e que a
indignação digital não se traduz em força política orgânica.
- Retorno ao materialismo visceral: Voltar
a pautar o debate nacional em torno das dores materiais da maioria:
salário, custo de vida, moradia, precarização do trabalho, juros bancários
e transporte público.
- Abandono do tom professoral ou “republicano”:
Substituir a postura moralista de "educar o povo" pela humildade
pedagógica de organizar o povo a partir das suas demandas concretas.
Somente ao
encarar o abismo da própria irrelevância eleitoral e cultural é que a esquerda
poderá abandonar a cômoda indignação das redes e reconstruir um projeto de
poder popular enraizado onde a vida real acontece: no trabalho, nas periferias
e nas ruas.
segunda-feira, outubro 05, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira






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