Quando o filósofo alemão Theodor Adorno concluiu, na década de 1950, após pesquisa empírica nos EUA, que o fascismo era uma tendência latente na própria sociedade americana, poucos imaginaram o quão profético seria seu alerta. Sete décadas após a publicação do clássico estudo "A Personalidade Autoritária", o suspense político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa, transforma o veredito de Adorno em ficção assustadora: a história de como uma democracia sólida pode ser corroída por dentro não por um golpe de Estado, mas pelo ressentimento e pelo autoritarismo adormecido no cidadão comum. Em “Aniversário” acompanhamos o crescimento de uma família, a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha pela sociedade.
Entre os anos
1944 e 1947, Theodor Adorno e sua equipe (Nevitt Sanford, Else Frenkel-Brunswik
e Daniel Levinson) fizeram uma pesquisa empírica nos EUA, envolvendo
questionários, testes clínicos e entrevistas.
Sob o impacto
da Segunda Guerra Mundial, Adorno queria saber se numa democracia burguesa como
a norte-americana seria possível a ascensão de um regimeme político totalitário
fascista. Como foi na Alemanha nazista.
O estudo,
publicado em 1950 sob o título "A Personalidade Autoritária", levou Adorno
descobriu que sim! Concluiu que o fascismo não era um fenômeno exclusivo da Alemanha
ou decorrente apenas de uma crise econômica pontual, mas sim uma tendência
estrutural da modernidade.
A pesquisa
revelou que uma fatia significativa da população possuía traços de
personalidade profundamente autoritários (o tipo "potencialmente
fascista"). Essas pessoas não se declaravam abertamente fascistas, mas
apresentavam uma estrutura de caráter suscetível à demagogia autoritária.
A
"Síndrome Autoritária" e a célebre Escala F (de Fascismo) foi
desenvolvida para medir essa predisposição sem fazer perguntas políticas
diretas. Adorno identificou características marcantes no indivíduo autoritário:
Submissão autoritária: Respeito acrítico e obediência cega às figuras de
autoridade do seu in-group; Agressão autoritária: Hostilidade e desejo
de punir qualquer pessoa que violasse normas convencionais ou pertencesse a
grupos minoritários (out-groups) etc. – sobre isso clique aqui.
O filme O Aniversário
(Anniversary, 2025), dirigido pelo polonês Jan Komasa (Suicide Room,
Corpus Christi), funciona como uma assustadora construção cinematográfica
do exato cenário que Theodor Adorno e sua equipe temiam. A obra ilustra como
uma democracia burguesa sólida como a dos Estados Unidos pode ser corroída por
dentro.
Não por meio
de um golpe militar clássico, mas pela ativação orgânica da "personalidade
autoritária" latente em cidadãos comuns por meio de um movimento populista
de massa.
Komasa
enxerga os Estados Unidos com mais clareza do que a maioria dos cineastas
americanos, tendo crescido em um país que foi ocupado pela Alemanha nazista e
pela antiga URSS, e tendo dirigido outros filmes sobre a vida sob regimes
autoritários, incluindo o híbrido documentário-drama Warsaw 44.
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A princípio,
o título do filme parece se referir apenas a um evento familiar que abre a
história: o 25º aniversário de casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora
de ciência política com ideias progressistas que leciona na Universidade de
Georgetown; e seu marido Paul (Kyle Chandler), um chef que se tornou dono de
restaurante em Washington, D.C., um ponto de encontro para as figuras
influentes da cidade e lucrativo o suficiente para financiar a educação de
elite dos quatro filhos do casal, três dos quais já saíram de casa.
Mas o filme
se constrói em torno de vários encontros que ocorrem ao longo de cinco anos,
culminando no 30º aniversário do casal. Acompanhamos o crescimento da família,
a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento
autoritário se espalha pela sociedade.
Adorno
concluiu que o fascismo não era uma anomalia distante, mas uma potencialidade
inerente à modernidade.
Em O Aniversário,
o autoritarismo não se instaura pelas margens extremas ou por invasores de
fardas negras, mas pelo mercado editorial, pelas conversas de jantar e pelo
conforto das soluções fáceis. A democracia americana colapsa rapidamente porque
a ideologia encontra terreno fértil nas frustrações e desejos da população,
ilustrando o veredito de Adorno: a democracia formal de um país cai se a
estrutura psíquica do seu povo for predisposta ao autoritarismo.
O Filme
A trama
começa como um drama familiar tenso durante a comemoração de 25 anos de
casamento da professora universitária Ellen e do dono de restaurante Paul.
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A dinâmica
sofre um abalo severo quando o filho do casal, Josh (Dylan O'Brien), um
escritor em busca de sucesso (e ressentido, cujo primeiro livro foi rejeitado
pelas editoras), traz sua nova namorada, Liz (Phoebe Dynevor). Ellen a
reconhece imediatamente: anos antes, ela havia sido fundamental para a expulsão
de Liz da universidade após a jovem apresentar uma tese acadêmica de
inclinações violentamente antidemocráticas.
Liz, com suas
convicções políticas de extrema direita, se sentiu rejeitada e humilhada por
sua professora. Mas que agora está prestes a se tornar uma estrela da mídia
conservadora. O primeiro livro de Liz, "The Change: A New Social
Compact" — um livro-manifesto tão grosso quanto uma caixa de sapatos —
está prestes a ser publicado.
Liz e Josh
possuem a disposição psíquica principal da Escala F de Adorno: o ressentimento
e o sabor autoritário da vingança. Josh se sente um fracassado diante da sua
mãe, uma intelectual pública que é convocada pelo chefe de seu departamento
para aparecer em um programa de notícias nacional. E Liz nutre um projeto
secreto de se infiltrar na família da sua algoz, e implodi-la – e levar o país
junto.
Liz é mais
falsa que as lágrimas de um desses televangelistas, mas nem todos na festa
percebem isso porque ela domina o olhar compassivo e o tom afável.
Um exemplo
disso é Paul, que insiste que todos que participam de uma reunião familiar
deixem suas opiniões políticas pessoais na porta. Inicialmente, não temos ideia
da posição de Paul sobre os assuntos do momento. Ele também é progressista,
embora menos expressivo que Ellen, ou um conservador que ama sua esposa mais do
que detesta suas posições políticas? Também não temos certeza sobre a filha
caçula, Birdie (McKenna Grace), uma cientista promissora que parece focada nos
mecanismos da infecção viral e cuja formação política ainda está em
desenvolvimento.
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Não há
dúvidas quanto às outras irmãs. Anna (Madeline Brewer) é uma lésbica cômica,
movida por política de esquerda e solidariedade feminista. Cynthia (Zoey
Deutch) é advogada e trabalha em casos ambientais com seu namorado Rob (Daryl
McCormick)
Com o passar
dos anos e sob a fachada do convívio familiar, o rancor intelectual dá lugar a
um pesadelo sociopolítico. Josh e Liz finalmente publicam o grosso manifesto
chamado The Change ("A Mudança"), que prega um recomeço
radical além das estruturas políticas tradicionais e rapidamente se torna um
fenômeno cultural avassalador.
Apoiado por
uma megacorporação chamada Cumberland Company, o movimento ganha proporções
imensas e evolui para um regime totalitário e um Estado policial.
A família
Taylor é inteiramente esfacelada pelas engrenagens desse novo mundo. Pensadores
e jornalistas fogem ou são expurgados, e Ellen é demitida da Universidade e
cancelada nas redes após ser flagrada rasgando a bandeira do movimento. Uma das
filhas, Anna, entra para a resistência e vira alvo do governo, enquanto a
caçula, Birdie, articula um plano bioterrorista contra a corporação por trás do
governo totalitário.
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Aniversário e Escala F –
Alerta de Spoilers à frente
A relação
entre a película e os achados da Escala F de Adorno é profunda e mapeia as
estruturas psicológicas do autoritarismo:
Por exemplo,
através de suas pesquisas, Adorno mediu a necessidade que indivíduos inseguros
têm de se submeter acriticamente a líderes ou movimentos fortes. Na trama, Josh
personifica esse homem comum suscetível. Frustrado e ressentido profissionalmente
e buscando desesperadamente uma identidade para aplacar suas falhas pessoais,
ele abraça cegamente as ideias extremistas da esposa. Ele é a materialização de
como a demagogia fascista prospera ao se aproveitar da carência de propósito
individual.
Uma das
principais marcas do indivíduo autoritário para a equipe de Adorno era a
aversão ao intelectualismo. A trajetória de Ellen é simbólica. Ela é
perseguida, gravada clandestinamente e expurgada do debate público justamente
por ser a voz do pensamento crítico que, anos antes, havia identificado o germe
autoritário em Liz. Quando o movimento “The Change” toma o poder, os primeiros
a serem esmagados ou forçados a fugir do país são acadêmicos, jornalistas e
artistas.
Adorno
defendia que a educação emancipatória era o antídoto do autoritarismo; no
filme, vemos a erradicação metódica dessa barreira.
O Aniversário ilustra
também a Agressão Autoritária e a Punição do "Out-Group" quando
a sanidade pública desmorona: vizinhos denunciam vizinhos, drones patrulham os
bairros e agentes governamentais do censo ameaçam os cidadãos. O desfecho ultraviolento,
em que a polícia usa força letal para intervir e fuzilar os próprios filhos do
casal para expurgar a "subversão", retrata exatamente o desejo
totalitário de eliminar fisicamente as minorias e os opositores.
A obra
funciona essencialmente como uma versão roteirizada do livro A Personalidade
Autoritária. O filme reitera o aviso de Adorno: a ascensão de um regime de
controle absoluto em solo americano é sempre possível, bastando que líderes
mal-intencionados ofereçam ordem, poder e falsas soluções para as fraturas
psicológicas dos seus próprios cidadãos.
Ficha Técnica |
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Título: Aniversário |
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Diretor: Jan Komasa |
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Roteiro: Lori Rosene-Gambino, Jan Komasa |
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Elenco: Diane Lane, Kyle Chandler, Madeline Brewer |
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Produção: Lionsgate |
|
Distribuição: Prime Video |
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Ano: 2025 |
|
País: EUA |
sexta-feira, outubro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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