Enquanto a militância se distrai com a espuma das provocações bolsonaristas e o frenesi dos algoritmos digitais, a campanha de Lula corre o risco de perder a batalha pelo futuro. Presa na armadilha da comunicação reativa e sufocada pela espuma midiática da extrema-direita, a campanha de Lula corre o risco de afundar no segundo turno se continuar apostando apenas no discurso do "defenda a democracia" e na exibição do passado. Para furar o transe hipnótico das redes e a histeria do mercado, o campo progressista precisa parar de reagir e detonar um verdadeiro acontecimento comunicacional: transformar a TARIFA ZERO na grande bomba semiótica arma de guerra informacional do segundo turno. Choque de realidade que desliga a máquina de guerra cultural da direita e obriga todos a jogarem no tabuleiro onde a esquerda é mais forte: a transformação material e concreta da vida da classe trabalhadora.
Após o choque
e o processo de luto e barganha (principalmente depois dos números do último
DataFolha, com Flávio na frente, lembrando que também Dilma, em 2014, largou atrás
de Aécio no segundo turno, para depois virar e vencer), agora, perigosamente, a
campanha de Lula ameaça se afogar na espuma midiática.
As notícias
da suspeita de incêndios criminosos na Universidade Federal de Pernambuco (três
em prédios da Universidade em oito dias) – há relatos de estudantes receberam
ameaças de bolsonaristas – clique aqui; tiros contra um ato político a favor do
presidente Lula em frente à Universidade Federal de Sergipe; a provocação de
Flávio, ao dizer que irá “redemocratizar o País” alterando a Constituição etc.
E, como
sempre, o Governo mostra a velha estratégia de comunicação reativa: “comparar
biografias”, a estratégia do medo - Flávio vai acabar com os programas sociais,
cortar as aposentadorias, acabar com o ganho real do salário-mínimo e assim por
diante.
Até como
resposta aos atentados em universidades, estudantes vão às ruas no Rio e em São
Paulo – mais uma variação de comunicação reativa, lembrando em muitos aspectos
o movimento “Ele Não!” no segundo turno das eleições de 2018. Manifestações
ótimas para elevar o moral da tropa, e nada mais. Continuamos presos na bolha
de convertidos.
Ou, tentando
furar a famosa “bolha”, vem o frenesi digital: o “Exército de Lula” de Janones no
WhatsApp, vídeos de Lula no formato selfie no Tik Tok, “força-tarefa” com lideranças
jovens e influenciadores digitais da esquerda com grande votação — como Erika
Hilton, Sâmia Bomfim e Ana Elisa — para atuar ativamente na criação e
distribuição de conteúdo focado em furar as bolhas ideológicas.
Para furar as
bolhas, só falta combinar com os russos, quer dizer, com os algoritmos das Big
Techs – algoritmos, a opinião codificada com lado político-ideológico.
![]() |
Tudo espuma
midiática. Aliás, incentivada pelas provocações bolsonaristas e pauta do
jornalismo corporativo, com a pergunta cínica de 10 entre 10 entrevistadores: “por
que vocês não fizeram isso antes.
Por tudo
isso, o campo progressista costuma sofrer de um "racionalismo
iluminista", acreditando que basta mostrar o legado (programas sociais,
números do passado) para vencer debates. Além de defender a Democracia e a
Soberania, contra Trump e os “mercadores da Pátria”.
Enquanto
isso, a extrema-direita e o jornalismo corporativo dominam a pauta através de
pânicos morais e terrorismo econômico.
Nesse momento
em que digito essas mal traçadas linhas (18h de uma sexta-feira), chove copiosamente
lá fora. Imagino centenas de milhares de usuários de trens, metrô e ônibus
tentando retornar para casa dentro de um sistema de transporte caro, falho e
ineficiente. A última coisa com a qual todos devem estar pensando é sobre a necessidade
da “Defesa da Democracia”...
Por isso,
deixar de defender o legado e sua continuidade e focar no futuro é urgente e
estratégico. Mas não estamos falando em programas, projetos ou promessas
genéricas para o futuro.
Jogar a "TARIFA
ZERO" no centro do segundo turno não seria apenas uma proposta de governo;
seria, principalmente, uma tática de guerra informacional. Vejamos como isso se
desenvolve.
1. A Tarifa Zero como "Bomba Semiótica"
No campo conceitual
desse Cinegnose, uma bomba semiótica é um artefato midiático desenhado
para criar um curto-circuito na narrativa dominante. Ela não é feita para ser
explicada racionalmente logo de cara, mas para gerar um impacto cognitivo
que sequestra a pauta da grande mídia.
Quando Lula
lança a Tarifa Zero, ele detona essa bomba. A explosão imediata traria a
formação reativa esperada: a histeria do jornalismo corporativo - editoriais
furiosos sobre "irresponsabilidade fiscal", "medida
eleitoreira", acompanhados do clássico terrorismo econômico ("dólar
dispara", "bolsa cai").
Aqui estaria
o pulo do gato estratégico: a reação histérica da mídia e do mercado não é
um obstáculo, é a onda de choque que espalha a bomba.
Ao tentar
destruir a proposta, o jornalismo corporativo seria obrigado a falar sobre ela
24 horas por dia. O "vírus" da Tarifa Zero infectaria toda a grade de
programação. Lula dobrar a aposta e confrontar Flávio (perguntando: "Se
você ganhar, vai manter e encampar a Tarifa Zero?") é o gatilho que
transforma a bomba em uma armadilha perfeita (um double bind).
- Se Flávio disser "não", ele se
coloca contra o alívio financeiro imediato de milhões de trabalhadores.
- Se disser "sim", ele trai sua
base neoliberal e o "deus Mercado", implodindo sua própria
narrativa de austeridade.
Lula passa a pautar o adversário e a mídia, algo que a esquerda raramente consegue fazer, saindo das cordas defensivas para o ataque.
2. O Rompimento do Simulacro: o Acontecimento Comunicacional
O jornalismo
corporativo opera criando o que esse Cinegnose (bebendo em Jean
Baudrillard) chama de "simulacros" ou "pseudo-eventos" —
debates vazios sobre costumes, escândalos fabricados, ou a hiper-realidade das
bolhas de redes sociais que giram em falso sem tocar na vida prática das
pessoas.
A Tarifa Zero
atua como um verdadeiro Acontecimento Comunicacional. Um acontecimento
real é aquilo que rompe o roteiro (o script) previsível do espetáculo
midiático. Ele não pode ser contido porque toca no Real traumático e
material da sociedade.
![]() |
A mobilidade é o "sistema circulatório da sociedade". O
transporte não é uma questão de nicho identitário ou disputa ideológica
abstrata: é biologia social pura. O custo da passagem define se o trabalhador
come carne no fim de semana, se o jovem procura emprego mais longe, se a
família tem lazer.
Ao injetar a Tarifa Zero no debate, o acontecimento comunicacional fura a bolha algorítmica da extrema-direita. Por quê? Porque as bolhas se alimentam de abstrações e ódio fantasmagórico (o "fantasma do comunismo", "ideologia de gênero"). A Tarifa Zero puxa o eleitor da hiper-realidade do WhatsApp de volta para a catraca do ônibus lotado.
É impossível para a máquina de fake news lutar contra a materialidade de não pagar passagem.
O desejo imediato de alívio
econômico se sobrepõe ao transe hipnótico das redes sociais.
3. O Futuro
como Arma (Cronopolítica)
A
"cronopolítica" — a política do tempo. No primeiro turno, a
comunicação de Lula, ao focar no legado ("eu já fiz"), operou no
passado. O problema de focar no passado é que a direita se apropria do
monopólio do futuro (ainda que seja um futuro distópico ou reacionário).
A Tarifa Zero
devolve o "Futuro" ao campo progressista. Ela desenha um horizonte
utópico alcançável. O jornalismo corporativo reagirá com o velho cinismo do
"realismo capitalista" (Mark Fisher), dizendo que "não há
dinheiro, é impossível". Mas a bomba semiótica já terá plantado o desejo
na psique das massas.
Em
síntese: a
esquerda precisa aprender com a semiótica política contemporânea. Em vez de
pedir desculpas ao mercado e tentar se provar "responsável" na
linguagem dos seus inimigos, Lula deve criar o seu próprio campo gravitacional.
A
Tarifa Zero é uma bomba de choque de realidade
que desliga a máquina de guerra cultural da direita e obriga todos a jogarem no
tabuleiro onde a esquerda é mais forte: a transformação material e concreta da
vida da classe trabalhadora.
sexta-feira, outubro 09, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




