sexta-feira, outubro 30, 2026

Mídia e financismo rentista flertam com o abismo: "circuit breaker" e fuga



Da volatilidade ao colapso: a "segunda-feira sangrenta" do mercado financeiro e a fuga cinematográfica de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos expuseram a engrenagem oculta em que a burguesia rentista da Faria Lima e a grande mídia corporativa flertam com o abismo institucional. Embalados por projeções de mercado que davam como certa a vitória do senador e sob os auspícios de um jornalismo que hipernormalizou figuras umbilicalmente ligadas ao submundo da milícia e da lavagem de dinheiro, esses dois setores demonstraram estar dispostos a transformar o país em uma grande plataforma de apostas de alto risco. No entanto, enquanto as "sardinhas" da classe média no mercado financeiro absorvem os prejuízos e o país encara o risco social, as elites seguem protegidas por suas salvaguardas privadas, revelando que o verdadeiro "Plano B" do financismo não é evitar a crise, mas lucrar com a sua gestão.

Embalada pela pesquisa Nexus/BTG (apontava Flávio à frente na reta final do segundo turno) e pelo inacreditável vídeo do “bandeirante-frankenstein” Tarcísio de Freitas cravando a vitória do senador, em um quadro branco, com fórmulas, gráficos e simulações de cenários de probabilidades, a Faria Lima precificou a vitória do candidato do PL.

 Com a virada de Lula, o dia seguinte foi tomado por um clima de pânico e terra arrasada nos mercados financeiros. As viúvas de Paulo Guedes sofreram um prejuízo de 15 bilhões de dólares.

O fundador do BTG Pactual, André Esteves, registrou a maior perda individual. Segundo o índice da Bloomberg, sua fortuna diminuiu US$ 4,4 bilhões, cerca de 30%, passando a ser estimada em US$ 11,3 bilhões.

E acompanhando esse clima de “barata voa”, no dia seguinte, Flávio Bolsonaro faz uma fuga cinematográfica do País para os EUA, depois que o ministro Alexandre Moraes intimou a Flávio entregar os passaportes às autoridades. Depois da PF apontar risco de o senador fugir do Brasil em meio ao inquérito sobre lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz.

Estes dois episódios numa sequência estonteante, depois do resultado da eleição de domingo que levou milhares de pessoas comemorarem nas ruas das capitais do Brasil.

A “segunda-feira sangrenta” do mercado financeiro e a fuga do candidato derrotado na eleição logo no dia seguinte guardam uma secreta conexão, para além da sequência cronológica: foram eventos sincrônicos porque revelaram o quanto dois setores da elite brasileira estão dispostos a flertar o abismo: a burguesia financista rentista e as famílias proprietárias das mídias corporativas.



O “Plano B”

A fuga do senador Flávio revelou o que até as pedras do cais do Porto de Santos sabiam: por muito pouco uma figura emergente de uma família aliada com o pior do submundo da política e sustentada pelo dinheiro do crime organizado foi eleita presidente da República.

E mais. O roteiro da fuga, envolvendo uma sucessão de deslocamentos destinados a dificultar o acompanhamento das autoridades, o sistemático trabalho de desinformação ao longo do dia com informações desencontradas de agências de notícias e portais dos jornalões e a logística envolvendo três países (Departamento de Estado dos EUA, Casa Rosada na Argentina e parada para reabastecimento no Equador), revela que não foi uma fuga de alguém desesperado sendo perseguido e tentando proteger sua esposa e filhas.

Revela um “Plano B” planejado com muita antecedência. No mínimo, um modus operandi de alguém que, se vencesse a eleição, não subiria a rampa do Palácio do Planalto apenas com o seu pai. Mas também carregaria ao Poder um complexo ecossistema formado pelo oportunismo da grande mídia, a burguesia financista e rentista e a engenharia de lavagem de dinheiro dos “camelôs da Faria Lima” – fintechs, bancos digitais e corretoras com UX de cassino.

Que se encaixam tal como peça numa engrenagem internacional que começa com as memecoins de Trump e Milei.

Flertando com o abismo

  Isso talvez explique o porquê grande mídia e os mercados dos “camelôs digitais” da Faria Lima flertaram com o abismo.

Para começar a estratégia diária de hipernormalização do jornalismo corporativo construindo a imagem de Flávio Bolsonaro como “candidato da oposição” que fazia parte de uma “festa da Democracia”, cujo ápice seria a eleição domingueira.




O episódio do almoço de Flávio com a cúpula da TV Globo é o símbolo perfeito. A emissora confirmou que recebera o senador Flávio Bolsonaro para um almoço na sede da emissora, no Rio de Janeiro, horas antes da sabatina do parlamentar no Jornal Nacional. O encontro estava agendado para sexta-feira, 16/10/2026, poucas horas antes de sua participação na sabatina, com João Roberto Marinho e Paulo Tonet. 

Esse almoço selou toda a estratégia de hipernormalização cotidiana no jornalismo da emissora, com as estratégias semióticas do doisladismo, estetização do absurdo através do “pesquisismo” e as falsas equivalências – sobre isso clique aqui.

 Esse flerte com o abismo era uma aposta da grande mídia e dos camelôs digitais: legalizar, desregular e normalizar essa fronteira entre investimento e aposta. Por isso precisavam de um presidente que fosse, ele mesmo, um produto desse ecossistema que ocupa a zona cinza entre a legalidade, contravenção e crime.

Não são dois mercados que se encontraram. São um só. A mesma lógica de monetização da atenção sustenta o Jornal Nacional, o programa esportivo, o influencer de finanças e a casa de bet.

O que os une é o modelo: transformar acontecimento em fluxo contínuo, transformar fluxo em odd, transformar odd em clique. A grande mídia fornece o palco de credibilidade, as bets fornecem o caixa infinito de patrocínio, e os dois vendem a mesma promessa: o futuro é imprevisível, mas você pode acertar se apostar agora.

Daí o comentarista esportivo que vira garoto-propaganda de bet, o portal de notícias que tem editoria de "palpites", o telejornal que trata eleição como disputa de cotações.



Gestão do abismo

Tudo bem. A aposta deu errada. Flávio foi derrotado e o circuit breaker fechou a segunda-feira sangrenta do mercado financeiro. Onde quem perdeu não foram os “tubarões” que apostaram no senador bolsonarista. Mas as “sardinhas” da classe média que se consideram “day traders” por terem no celular um aplicativo de alguma corretora digital e se informarem através das colunas de economia dos jornalões.

A questão é que o financismo rentista não tem medo do abismo. Ele precisa dele.

O pânico gera liquidez, gera notícia, gera necessidade de "salvamento". O sistema mantém-se não apesar das crises, mas através delas.

É a gestão do abismo como modelo de negócio.

A legalização total das bets sem regulação, a transformação da CVM em balcão de apostas, a fintech que lava dinheiro do jogo virando banco oficial do governo, o miliciano virando operador de crédito consignado. O Brasil como uma grande plataforma de aposta, com a grande mídia como seu departamento de marketing.

Por pouco um senador com investigação por lavagem, com ligações históricas com a milícia e com o submundo das apostas, não se tornou presidente sob os auspícios do jornalismo corporativo que o tratou como igual.

O apoio a uma candidatura como a de Flávio Bolsonaro, mesmo com todo o histórico de milícia, com as rachadinhas, com a relação com o crime organizado, não é um erro de cálculo da elite. É o cálculo!

É preferível um governo que garanta a desregulação total, a privatização do risco e a criminalização da pobreza, mesmo que traga uma hecatombe institucional, do que um governo que regule o cassino.

Eles flertam com o abismo coletivo - democrático, social, econômico - porque sabem que têm um paraquedas privado: dólar, passaporte estrangeiro, offshore, blindagem jurídica.

O abismo é para a Nação. Para eles, é só volatilidade.

 

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