Desde o
clássico filme mudo O Grande Roubo do Trem (1903), o cinema
norte-americano criou o seu principal gênero: os filmes de perseguição (o chase
movie), transversal a todos os outros gêneros, como o slapstick, road movies,
terror etc. O cinema americano nasceu e se estruturou sob a lógica do movimento
puro, da montagem paralela e da perseguição.
Acrescente
a esse cinematismo da perseguição, a pureza infantil traumatizada pelo mundo
adulto, animais ao lado dos humanos em tom de fábula, Ets empáticos e
conspirações governamentais, e o leitor terá o puro suco de Steven Spielberg: o
filme Dia D (Disclosure Day, 2026).
Disclosure
Day é, de
fato, a destilação perfeita de toda a filmografia do diretor. Em Dia D estão as
primeiras conspirações governamentais de acobertamento de Contatos Imediatos de
Terceiro Grau, o alienígena que dá lições de empatia a humanos em ET: O Extraterrestre,
o projeto corporativo baseado no maravilhamento infantil que deu errado em
Jurassic Park, e o chase movie que vai às origens em Prenda-me Se For Capaz.
O
maravilhamento infantil como resposta ao trauma, a reconstituição da célula
familiar (ou a cura dela através do elemento exótico) e a perseguição cinética
que move a narrativa são as características não só emblemáticas do diretor, mas
que também ajudam a construir a ideologia do idealismo humanista spielbergiano.
Spielberg
sempre coloca em seus filmes protagonistas motivados pelo idealismo, a curiosidade
ou o fascínio pelo mistério em choque com estruturas de poder (governamentais e
corporativas). Mas para o diretor essas estruturas não são inerentemente
perversas ou sistêmicas; elas estão apenas sendo geridas pelas pessoas erradas
(como o vilão do filme Noah Scanlon) ou sofrendo de algum tipo de colapso de
comunicação.
Falhas
inerentemente humanas que somente podem ser resolvidas pela transmissão de amor
e empatia universal. No final, a esperança de algum tipo de conversão
espiritual coletiva.
A saga
spielbergiana sobre Ets e desacobertamentos é certamente o sintoma daquilo que
o psicanalista Carl G. Jung interpretou a respeito da onda de avistamento de
discos voadores a partir do final da Segunda Guerra Mundial: a busca religiosa
secularizada da salvação nos céus.
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Uma
tentativa da psique do inconsciente coletivo em encontrar nos céus uma salvação
para a época apocalíptica em que vivemos.
As
pessoas sempre olharam para o céu em busca da salvação do perigo. Em tais
momentos no passado as pessoas tinham visões de deuses, santos, anjos, etc. que
supostamente iriam resgatá-las do desastre. (veja JUNG, Carl G. Discos
Voadores: Mito Moderno Sobre Coisas Vistas no Céu, Petrópolis: Vozes)
Mas
Jung diz que a ciência moderna tornou as pessoas muito céticas para crer em
seres sobrenaturais ou imagens mitológicas tradicionais. Como vivemos em
uma era de ciência e tecnologia, nós interpretamos os novos sinais no céu como
máquinas de alienígenas proveniente de um mundo com tecnologia mais avançada
que a nossa.
Porém,
nesse século vivemos uma nova espécie de ceticismo: o cinismo de um público imerso
em guerras de informação reais no qual até registros da realidade em vídeo são
colocados sob suspeita na era da Inteligência Artificial.
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A
premissa central de Dia D repousa em uma fantasia liberal clássica: a de
que a verdade (o “dia do desacobertamento” da conspiração governamental para
ocultar a verdade aalienígena), uma vez exposta de forma massiva e transparente
na televisão, tem o poder de unificar o consenso público e paralisar as
engrenagens de uma guerra. O filme assume que o mundo ainda vive na era da
escassez de informação, onde um "furo jornalístico" definitivo altera
o curso da história.
Por
isso, Dia D em vez de inspirar uma catarse humanista ou uma transformação
coletiva, a ingenuidade da resolução do filme é empurrada para o território da nostalgia
ideológica.
O Filme
A trama
se passa em um cenário tenso, onde o mundo está à beira da Terceira Guerra
Mundial.
Dr.
Daniel Kellner (Josh O'Connor), um especialista em cibersegurança, decide
desertar da Wardex Corporation — um braço secreto do governo americano.
Ele rouba uma mochila cheia de discos rígidos contendo 79 anos de dados ocultos
sobre contatos alienígenas (desde o caso Roswell) e um pedaço de tecnologia
extraterrestre.
Paralelamente,
em Kansas City, a carismática apresentadora do tempo Margaret Fairchild (Emily
Blunt) vê um pássaro vermelho exótico voar para dentro do seu apartamento antes
de ir trabalhar. Esse avistamento ativa algo em seu cérebro. Durante uma
transmissão ao vivo na TV, ela começa a falar uma língua alienígena
incompreensível e desmaia.
No
hospital, ela descobre que ganhou habilidades psíquicas e de empatia,
conseguindo ler pensamentos e sentir a dor alheia. Ela foge do hospital após a
chegada de agentes misteriosos.
Os
caminhos de Daniel e Margaret começam a se cruzar de forma literal e
telepática.
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Caçada e conexões empáticas
O
vilão, o chefe da Wardex, Noah Scanlon (Colin Firth), usa um dispositivo
alienígena de visualização remota e telepatia para caçar os desertores. O uso
desse aparelho é doloroso e o desgasta fisicamente.
Scanlon
localiza Jane (Eve Hewson), a namorada de Daniel, e usa controle mental para
forçá-la a tentar matar o próprio parceiro. Jane consegue resistir e foge com
outro dispositivo alienígena, mas Daniel acaba sendo capturado e levado para
uma base ultrassecreta.
Margaret,
guiada por visões telepáticas de Daniel, localiza a base secreta. Ela usa suas
novas habilidades de manipulação empática para fazer com que os guardas e
perseguidores simplesmente desistam de lutar e os deixem escapar.
Eles
são acolhidos por Hugo Wakefield (Colman Domingo), líder de um grupo de
resistência que apoia a divulgação da verdade. Em um armazém, Hugo construiu
uma réplica exata da casa de infância de Margaret para ajudá-la a recuperar
memórias bloqueadas.
Ao
explorar o local, Margaret e Daniel descobrem a verdade chocante: ambos
foram abduzidos por alienígenas quando eram crianças e submetidos a
experimentos que plantaram neles as sementes de suas habilidades psíquicas.
Mais do que isso: animais estranhos que os acompanharam discretamente por toda
a vida eram, na verdade, os próprios alienígenas disfarçados, vigiando-os.
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Como
dissemos acima, nos filmes de Spielberg sempre temos protagonistas idealista em
choque com estruturas de poder.
Mas a ação
frenética de um chase movie funciona como Distração: a correria
contra o tempo (hackear o sistema, fugir de jipes pretos, invasão de estúdio)
cria uma urgência sensorial que impede o espectador de pensar nas causas
estruturais da crise.
O
movimento constante substitui a reflexão política. Correr passa a ser sinônimo
de "fazer alguma coisa", transformando a resistência política em uma
fuga coreografada.
A Máquina de Despolitização: O Afeto contra a Estrutura
O
grande truque do filme — e o maior sintoma do cinema humanista-liberal de
Hollywood — é a redução do macro ao micro. A iminência de uma Terceira
Guerra Mundial e décadas de ocultamento militar não são tratados como frutos do
imperialismo, do complexo industrial-militar ou da lógica do capital. Tudo é
reduzido a um déficit psicológico e moral: a falta de empatia.
Ao
resolver o clímax com uma "transmissão de amor e empatia universal"
que faz os tanques recuarem, o filme promove uma profunda despolitização:
Dia D
cria a perfeita moralização da crise: se o problema é a falta de
empatia, a solução não é a reforma estrutural, a revolução ou a queda das
instituições, mas sim uma "conversão espiritual" coletiva.
E a salvação
vem de cima, dos céus, como diagnosticava Jung: o alienígena passa a
funcionar como um terapeuta existencial: O "Outro" radical (o
extraterrestre) perde sua carga de ameaça geopolítica ou de alteridade
absoluta. Ele se torna um espelho para a inocência perdida da humanidade. Os
ETs não vêm para alterar a órbita da Terra ou questionar nossa ciência; eles
vêm para nos lembrar de "sermos pessoas melhores".
No fim,
o "puro suco" de Spielberg nos entrega um conforto anestésico: a
ilusão de que o mundo pode ser salvo se todos simplesmente chorarem juntos
diante da televisão.
Ficha Técnica |
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Título: Dia D |
|
Diretor: Steven Spielberg |
|
Roteiro: David Koepp,
Steven Spielberg |
|
Elenco: Emily Blunt, Josh
O´Connor, Colin Firth, Colman Domingo |
|
Produção: Universal
Pictures, Amblin Etertainment |
|
Distribuição: Universal Pictures |
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Ano: 2026 |
|
País: EUA |
quinta-feira, junho 25, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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