Entre o sol implacável da Grécia e a privatização invisível da água pela corporação Goldblue, o filme “Sol Ardente” (2015, disponível na Prime Video) dá corpo a uma tese perturbadora do psiquiatra radical Wilhelm Reich: a de que, enquanto a infraestrutura econômica e técnica avança para controles absolutos, o imaginário social regride ao preconceito arcaico. Ao acompanhar o isolamento de um imigrante em meio a uma crise hídrica e ao assédio policial, a diretora libanesa Joyce A. Nashawati revela como a xenofobia atua como uma "bomba semiótica" e válvula de escape para um colapso sistêmico que a sociedade moderna, ancorada em valores reacionários, ainda é incapaz de decifrar ou enfrentar.
Psiquiatra radical
e analista freudiano, Wilhelm Reich (1897-1957) foi uma das mais emblemáticas
figuras no seu tempo que melhor refletiu as rápidas mudanças econômicas e
políticas do cenário da civilização europeia pré-ascensão do nazismo e Segunda
Guerra Mundial.
A velha
Europa vitoriana do século XIX estava rapidamente sendo substituída pelas
vanguardas artísticas, tecnológicas, industriais e militares, apontando para um
futuro que jamais distopias como as de HG Wells, Kafka ou Aldous Huxley
poderiam imaginar.
Mais do que
ninguém, Reich percebia um descompasso entre as aceleradas mudanças da
infraestrutura econômica e política e a superestrutura imaginária, psíquica e
cultural da sociedade. Por exemplo, ele notava o paradoxo de como os operários
organizados em torno de partidos comunistas e sindicatos podiam, ao mesmo
tempo, serem politicamente de vanguarda e moralmente conservadores, criando famílias
orientadas pelos valores e costumes pequeno-burgueses mais mesquinhos e
reacionários – machismo, misoginia etc.
Principalmente
em seu livro “Psicologia de Massas do Fascismo”, Reich descreve as
consequências políticas e psíquicas desse descompasso – a infraestrutura
econômica avança para estágios de exploração e controle social a partir de rápidas
reconfigurações tecnoindustriais, enquanto a superestrutura ideológica (o
imaginário social) permanece ancorada em estruturas reacionárias e arcaicas.
Tornando a
sociedade não só incapaz de enfrentar regressões políticas como o nazismo na
Alemanha, como também lidar com grandes setores da sociedade que acabam sendo
cooptados como apoio de opinião pública. Numa combinação inesperada entre o
racionalismo moderno e um imaginário arcaico renitente da sociedade.
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A II Guerra
Mundial foi marcada pela primeira guerra tecnológica da História, uma expressão
desse descompasso. Cujo paroxismo foi a primeira explosão da bomba atômica no
final dos conflitos mundiais.
Parece que esse
descompasso descrito por Reich começa aa acelerar nesse século XXI, com o maior
de todos os paradoxos: a Internet (o auge do mix tecnológico da eletricidade,
eletrônica, ótica, engenharia de comunicação, nanotecnologia etc.) torna-se o
espaço para o revival de filosofias, ideologias e religiões arcaicas e
politicamente reacionárias – da teoria da terra plana a seitas e ideologias
supremacistas.
Nada como o
filme Sol Ardente (Blind Sun, 2015, disponível na Prime Video) para
dar uma tradução visual perturbadora a esse descompasso entre infra e superestrutura
da sociedade.
Sol Ardente é o
primeiro longa-metragem da diretora libanesa Joyce A. Nashawati.
O filme
acompanha Ashraf Idriss, um imigrante muçulmano na Grécia que tenta se
estabelecer em outro país. Idriss enfrenta discriminação constante, mas
persevera para concluir seu trabalho como zelador de uma mansão luxuosa no
ensolarado litoral mediterrâneo. Em meio ao seu trabalho, Idriss se vê obrigado
a lidar com uma crise hídrica que assola o país e com um misterioso estranho
que o assedia, bem como tentativas de invasão naquela residência que trabalha
como caseiro.
A narrativa é
bem conhecida: um imigrante do Oriente Médio tenta se estabelecer na Europa em
trabalhos de baixa remuneração. Enquanto vive um cotidiano de ataques racistas,
desconfiança, intolerância e autoridades policiais arbitrárias.
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Porém, o que
mais chama a atenção são os eventos periféricos que permeiam o filme: uma séria
crise hídrica que assola o país, incêndios florestais vistos à distância e,
através da TV, imagens de grandes protestos nas ruas da capital Atenas.
E a
onipresente empresa transnacional de água e saneamento “Goldblue”, sugerindo um
velho problemas que bem conhecemos: a privatização da água, que deveria ser um
bem público. E a decorrente escassez, como estratégia de mercado para valorizar
o produto.
Xenofobia e
racismo europeus arcaicos se encontram com a moderna engenharia social
neoliberal representado pela “Goldblue”.
O Filme
Com paisagens
panorâmicas tão ensolaradas que é preciso usar óculos Ray-Ban para enxergá-las
com clareza, o filme acompanha a trajetória sinistra e traiçoeira
de Ashraf Idriss (o ator palestino Ziad Bakri), que
chega a uma cidade litorânea grega desolada para proteger uma
mansão ultramoderna pertencente a um casal de turistas franceses
mimados (Louis-Do de Lencquesaing e Gwendoline Hamon).
Mas antes
mesmo de chegar lá, Ashraf é abordado por um policial abusivo (Yannis Stankoglou)
vestido com uma jaqueta de couro, que, provavelmente, foi visto pela última vez
em algum filme de terror de Dario Argento.
O homem confisca
os documentos de Ashraf, deixando-o à própria sorte em uma terra hostil
onde a temperatura não para de subir e estrangeiros são totalmente indesejados.
A trama
praticamente termina aí, com Ashraf entrincheirado dentro da rica
mansão depois que seus patrões voltam para a França. Enquanto tenta evitar o
calor e o policial mal-encarado que parece persegui-lo, fazendo saídas
ocasionais para comprar suprimentos ou dar um mergulho nas águas convidativas
próximas.
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A diretora Nashawati encontra
maneiras puramente visuais de aumentar a tensão à medida que o tempo passa e a
atmosfera se torna cada vez mais insustentável, embora os espectadores não
aprendam quase nada sobre os personagens ou as situações — mesmo que qualquer
pessoa que acompanhe as notícias veja semelhanças entre a situação de
Ashraf e a de muitos solicitantes de asilo que atualmente tentam
sobreviver na União Europeia.
Outros pontos
da trama giram em torno da escassez de água em todo o país e da imigração. A
primeira é mais importante que a segunda, e é aí que entra a importância de
manter a piscina escondida – o patrão francês recomenda esvaziar e esconder a piscina
para esconder privilégios de classe.
Fica claro em
Sol Ardente o descompasso entre infra e superestrutura da sociedade
descrito por Reich.
A Infraestrutura: O Biopoder da Goldblue
A presença da
Goldblue no filme representa a fronteira final do capitalismo: a transformação
de um elemento essencial à biologia humana em uma mercadoria escassa e privada.
Representa a
própria Abstração do Capital: A empresa é uma entidade quase invisível, mas
onipresente. Ela dita quem vive e quem morre através do controle dos canos e
das senhas.
O Novo
Realismo Econômico: A infraestrutura mudou; a Grécia do filme não lida mais
apenas com uma crise de dívida soberana, mas com uma crise de soberania
biológica. A água não pertence mais ao território, mas ao contrato.
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A Superestrutura: O "Couraçamento" da Xenofobia
Enquanto a
economia se torna "fluida" (e privatizada), a mentalidade da
população local e da polícia sofre o que Reich chamaria de couraçamento. Em vez
de a cultura evoluir para lidar com a nova realidade climática e econômica, ela
regride para mecanismos de defesa primitivos.
O Desvio do
Alvo: a infraestrutura (Goldblue) é a responsável pela sede, mas a
superestrutura (a cultura local) não consegue processar essa abstração. O ódio,
então, é canalizado para o que é tangível: o corpo de Ashraf.
Fica claro
como a xenofobia acaba funcionando como Válvula de Escape. Como Reich observou,
quando as massas sofrem uma opressão econômica que não conseguem combater
racionalmente, elas tendem a projetar suas frustrações em "bodes
expiatórios" que representam o "não-pertencimento".
O imigrante
torna-se a "bomba semiótica" perfeita para absorver a culpa pelo
colapso que, na verdade, é sistêmico.
Ficha Técnica |
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Título: Sol
Ardente |
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Direção:
Joyce A. Nashawati |
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Roteiro:
Joyce A. Nashawati |
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Elenco:
Ziadi Bakri, Mimi Denissi, Louis-Do de Lencquesaing |
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Produção:
Good Lap Production |
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Distribuição:
Prime Video |
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Ano:
2015 |
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País:
França, Grécia |
sexta-feira, abril 24, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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