sexta-feira, outubro 09, 2026

'O Aniversário': como se destrói uma democracia por dentro



Quando o filósofo alemão Theodor Adorno concluiu, na década de 1950, após pesquisa empírica nos EUA, que o fascismo era uma tendência latente na própria sociedade americana, poucos imaginaram o quão profético seria seu alerta. Sete décadas após a publicação do clássico estudo "A Personalidade Autoritária", o suspense político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa, transforma o veredito de Adorno em ficção assustadora: a história de como uma democracia sólida pode ser corroída por dentro não por um golpe de Estado, mas pelo ressentimento e pelo autoritarismo adormecido no cidadão comum. Em “Aniversário” acompanhamos o crescimento de uma família, a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha pela sociedade. 

Entre os anos 1944 e 1947, Theodor Adorno e sua equipe (Nevitt Sanford, Else Frenkel-Brunswik e Daniel Levinson) fizeram uma pesquisa empírica nos EUA, envolvendo questionários, testes clínicos e entrevistas.

Sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, Adorno queria saber se numa democracia burguesa como a norte-americana seria possível a ascensão de um regimeme político totalitário fascista. Como foi na Alemanha nazista.

O estudo, publicado em 1950 sob o título "A Personalidade Autoritária", levou Adorno descobriu que sim! Concluiu que o fascismo não era um fenômeno exclusivo da Alemanha ou decorrente apenas de uma crise econômica pontual, mas sim uma tendência estrutural da modernidade.

A pesquisa revelou que uma fatia significativa da população possuía traços de personalidade profundamente autoritários (o tipo "potencialmente fascista"). Essas pessoas não se declaravam abertamente fascistas, mas apresentavam uma estrutura de caráter suscetível à demagogia autoritária.

A "Síndrome Autoritária" e a célebre Escala F (de Fascismo) foi desenvolvida para medir essa predisposição sem fazer perguntas políticas diretas. Adorno identificou características marcantes no indivíduo autoritário: Submissão autoritária: Respeito acrítico e obediência cega às figuras de autoridade do seu in-group; Agressão autoritária: Hostilidade e desejo de punir qualquer pessoa que violasse normas convencionais ou pertencesse a grupos minoritários (out-groups) etc. – sobre isso clique aqui.

O filme O Aniversário (Anniversary, 2025), dirigido pelo polonês Jan Komasa (Suicide Room, Corpus Christi), funciona como uma assustadora construção cinematográfica do exato cenário que Theodor Adorno e sua equipe temiam. A obra ilustra como uma democracia burguesa sólida como a dos Estados Unidos pode ser corroída por dentro.

Não por meio de um golpe militar clássico, mas pela ativação orgânica da "personalidade autoritária" latente em cidadãos comuns por meio de um movimento populista de massa.

Komasa enxerga os Estados Unidos com mais clareza do que a maioria dos cineastas americanos, tendo crescido em um país que foi ocupado pela Alemanha nazista e pela antiga URSS, e tendo dirigido outros filmes sobre a vida sob regimes autoritários, incluindo o híbrido documentário-drama Warsaw 44. 



A princípio, o título do filme parece se referir apenas a um evento familiar que abre a história: o 25º aniversário de casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora de ciência política com ideias progressistas que leciona na Universidade de Georgetown; e seu marido Paul (Kyle Chandler), um chef que se tornou dono de restaurante em Washington, D.C., um ponto de encontro para as figuras influentes da cidade e lucrativo o suficiente para financiar a educação de elite dos quatro filhos do casal, três dos quais já saíram de casa.

Mas o filme se constrói em torno de vários encontros que ocorrem ao longo de cinco anos, culminando no 30º aniversário do casal. Acompanhamos o crescimento da família, a mudança na dinâmica de poder e a sua desintegração à medida que um movimento autoritário se espalha pela sociedade. 

Adorno concluiu que o fascismo não era uma anomalia distante, mas uma potencialidade inerente à modernidade.

Em O Aniversário, o autoritarismo não se instaura pelas margens extremas ou por invasores de fardas negras, mas pelo mercado editorial, pelas conversas de jantar e pelo conforto das soluções fáceis. A democracia americana colapsa rapidamente porque a ideologia encontra terreno fértil nas frustrações e desejos da população, ilustrando o veredito de Adorno: a democracia formal de um país cai se a estrutura psíquica do seu povo for predisposta ao autoritarismo.

O Filme

A trama começa como um drama familiar tenso durante a comemoração de 25 anos de casamento da professora universitária Ellen e do dono de restaurante Paul.



A dinâmica sofre um abalo severo quando o filho do casal, Josh (Dylan O'Brien), um escritor em busca de sucesso (e ressentido, cujo primeiro livro foi rejeitado pelas editoras), traz sua nova namorada, Liz (Phoebe Dynevor). Ellen a reconhece imediatamente: anos antes, ela havia sido fundamental para a expulsão de Liz da universidade após a jovem apresentar uma tese acadêmica de inclinações violentamente antidemocráticas.

Liz, com suas convicções políticas de extrema direita, se sentiu rejeitada e humilhada por sua professora. Mas que agora está prestes a se tornar uma estrela da mídia conservadora. O primeiro livro de Liz, "The Change: A New Social Compact" — um livro-manifesto tão grosso quanto uma caixa de sapatos — está prestes a ser publicado. 

Liz e Josh possuem a disposição psíquica principal da Escala F de Adorno: o ressentimento e o sabor autoritário da vingança. Josh se sente um fracassado diante da sua mãe, uma intelectual pública que é convocada pelo chefe de seu departamento para aparecer em um programa de notícias nacional. E Liz nutre um projeto secreto de se infiltrar na família da sua algoz, e implodi-la – e levar o país junto.

Liz é mais falsa que as lágrimas de um desses televangelistas, mas nem todos na festa percebem isso porque ela domina o olhar compassivo e o tom afável.

Um exemplo disso é Paul, que insiste que todos que participam de uma reunião familiar deixem suas opiniões políticas pessoais na porta. Inicialmente, não temos ideia da posição de Paul sobre os assuntos do momento. Ele também é progressista, embora menos expressivo que Ellen, ou um conservador que ama sua esposa mais do que detesta suas posições políticas? Também não temos certeza sobre a filha caçula, Birdie (McKenna Grace), uma cientista promissora que parece focada nos mecanismos da infecção viral e cuja formação política ainda está em desenvolvimento.



Não há dúvidas quanto às outras irmãs. Anna (Madeline Brewer) é uma lésbica cômica, movida por política de esquerda e solidariedade feminista. Cynthia (Zoey Deutch) é advogada e trabalha em casos ambientais com seu namorado Rob (Daryl McCormick)

Com o passar dos anos e sob a fachada do convívio familiar, o rancor intelectual dá lugar a um pesadelo sociopolítico. Josh e Liz finalmente publicam o grosso manifesto chamado The Change ("A Mudança"), que prega um recomeço radical além das estruturas políticas tradicionais e rapidamente se torna um fenômeno cultural avassalador.

Apoiado por uma megacorporação chamada Cumberland Company, o movimento ganha proporções imensas e evolui para um regime totalitário e um Estado policial.

A família Taylor é inteiramente esfacelada pelas engrenagens desse novo mundo. Pensadores e jornalistas fogem ou são expurgados, e Ellen é demitida da Universidade e cancelada nas redes após ser flagrada rasgando a bandeira do movimento. Uma das filhas, Anna, entra para a resistência e vira alvo do governo, enquanto a caçula, Birdie, articula um plano bioterrorista contra a corporação por trás do governo totalitário.



Aniversário e Escala F – Alerta de Spoilers à frente

A relação entre a película e os achados da Escala F de Adorno é profunda e mapeia as estruturas psicológicas do autoritarismo:

Por exemplo, através de suas pesquisas, Adorno mediu a necessidade que indivíduos inseguros têm de se submeter acriticamente a líderes ou movimentos fortes. Na trama, Josh personifica esse homem comum suscetível. Frustrado e ressentido profissionalmente e buscando desesperadamente uma identidade para aplacar suas falhas pessoais, ele abraça cegamente as ideias extremistas da esposa. Ele é a materialização de como a demagogia fascista prospera ao se aproveitar da carência de propósito individual.

Uma das principais marcas do indivíduo autoritário para a equipe de Adorno era a aversão ao intelectualismo. A trajetória de Ellen é simbólica. Ela é perseguida, gravada clandestinamente e expurgada do debate público justamente por ser a voz do pensamento crítico que, anos antes, havia identificado o germe autoritário em Liz. Quando o movimento “The Change” toma o poder, os primeiros a serem esmagados ou forçados a fugir do país são acadêmicos, jornalistas e artistas.

Adorno defendia que a educação emancipatória era o antídoto do autoritarismo; no filme, vemos a erradicação metódica dessa barreira.

O Aniversário ilustra também a Agressão Autoritária e a Punição do "Out-Group" quando a sanidade pública desmorona: vizinhos denunciam vizinhos, drones patrulham os bairros e agentes governamentais do censo ameaçam os cidadãos. O desfecho ultraviolento, em que a polícia usa força letal para intervir e fuzilar os próprios filhos do casal para expurgar a "subversão", retrata exatamente o desejo totalitário de eliminar fisicamente as minorias e os opositores.

A obra funciona essencialmente como uma versão roteirizada do livro A Personalidade Autoritária. O filme reitera o aviso de Adorno: a ascensão de um regime de controle absoluto em solo americano é sempre possível, bastando que líderes mal-intencionados ofereçam ordem, poder e falsas soluções para as fraturas psicológicas dos seus próprios cidadãos.


 


Ficha Técnica


Título: Aniversário

Diretor: Jan Komasa

Roteiro: Lori Rosene-Gambino, Jan Komasa

Elenco: Diane Lane, Kyle Chandler, Madeline Brewer

Produção: Lionsgate

Distribuição: Prime Video

Ano: 2025

País:  EUA

 

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