sexta-feira, janeiro 23, 2026

Trump e o fenômeno do "Loop de Feedback da Hiper-realidade"




Donald Trump em Davos: presidente ou comediante de stand-up? O comportamento bizarro do líder norte-americano diante dos aliados europeus levanta uma questão central para a comunicação moderna: quem imita quem? Da paródia no programa Saturday Night Live ao "mimetismo reverso", exploramos como a política contemporânea se tornou um reflexo circular de simulacros, onde a verossimilhança é ditada pela ficção e o poder é exercido através de um estranho, porém eficaz, efeito de realidade. A performance de Donald Trump subverte a diplomacia tradicional para instaurar a era da "canastrice política". Entre o mimetismo reverso das paródias do SNL e a construção ficcional de líderes como Zelensky, o que vemos não é mais a política dos fatos, mas o triunfo do simulacro. Neste texto, analisamos como o stand-up de Trump fecha o “Loop de Feedback da Hiper-realidade”, onde a autenticidade não reside na verdade factual, mas na fidelidade absoluta do líder à sua própria caricatura.

“Fila de uma hora e meia para entrar no auditório... parecia dia de jogo no Maracanã”. Assim a correspondente internacional da Globo News, Bianca Rothier, descreveu as horas que antecederam a palestra de Donald Trump em que o presidente dos EUA falaria à elite global no Fórum Econômico Mundial realizado anualmente em Davos, Suíça.

Como fosse a entrada de um show.

E o que se viu foi um profundo desprezo irônico de Trump com os aliados europeus: zombou de Macron e seus óculos escuros "Eu o vi ontem, com aqueles lindos óculos de sol. Que diabos aconteceu?", chamou da Groelândia de “pedaço de gelo” e diversas vezes a confundiu com a Islândia; referiu-se à presidenta da Suíça como “uma senhora que me ligou para pedir para não tarifar um país tão pequeno como a Suíça”; reclamou dos EUA terem gastos bilhões de dólares na Ucrânia etc.

E preferiu muito mais falar dos “billions and trillions” de uma suposta reindustrialização do país (“o mundo está produzindo seus produtos nos EUA”), consertando “os fracassos das administrações anteriores”, do que sobre “ordem global” ou coisa que o valha. Tudo embalado com uma retórica exageradamente adjetivada e irônica.

Diante do nível de beligerância e belicosidade com o qual Trump vem se mostrando aos seus próprios aliados e ao resto do planeta nos últimos meses, no mínimo o que esse humilde blogueiro esperava reações da plateia parecidas com o que ocorreu com Netanyahu na plenária da ONU: pessoas em fila se retirando, burburinhos de reprovação etc.

Mas o que se viu foi o contrário: aqui e ali algumas risadas e o silêncio – ou de cemitério, ou de consentimento.

A impressão geral é que diferente dos chefes de Estado tradicionais que usam teleprompters e discursos estruturados, o que assistimos foi uma espécie de show de stand-up comedy com suas características principais:

(a) Crowd work: Trump interage com a plateia, está atento ao feed-back não verbal da audiência e testa "piadas" ou apelidos (como, por exemplo, Crooked Hillary, Sleepy Joe) para ver qual gera mais risada.

(b) Timing e Pausas: Ele utiliza o silêncio e as expressões faciais de uma forma que lembra os mestres da comédia americana como Don Rickles (o “mercador de veneno”) ou Rodney Dangerfield (piadas depreciativas em alto ritmo).

(c) O "Bit" recorrente: Ele tem histórias que repete em quase todos os “shows”, como se fossem um "repertório" esperado pelos fãs.

(d) Roll Over: Um certo senso de “esportividade” (relaxamento mesclado com performance) e jogo. Tal como no stand-up comedy, o ritmo vocal de Trump sugere a existência de uma batida rítmica imaginária. Trump é verborrágico, mas com um estranho ritmo hipnótico, roll over.



Demência e verossimilhança

Para além do deleite particular desse humilde blogueiro, como alguém que pesquisa as conexões entre Comunicação, Política e Semiótica (vamos combinar! Com Trump as reuniões de cúpula globais deixaram de ser previsíveis e entediantes para ficarem mais divertidas...), há algo de incômodo em tudo isso: como a elite econômica global, a comunidade política internacional, jornalistas e demais profissionais de mídia naturalizam a bizarra situação em que o líder do Império faz um show de stand-up comedy ao vivo?

Como, para todos, Donald Trump é um personagem verossímil (excêntrico, vá lá, mas chefe de Estado da maior potência militar do planeta), cujos discursos devem ser interpretados, compreendidos, para ser descoberta suas verdadeiras intenções? Como se os seus discursos contivessem alguma ontologia, isto é, pudessem ser dissecados por alguma hermenêutica, para encontrar alguma verdade oculta por trás das camadas de retórica.

Será que aquela plateia no auditório em Davos ficou “pianinho” por temerem estar diante de um Nero incendiário sentado sobre o maior arsenal militar do planeta?

Será que todos estão pensando “louco não pode contrariar... então, deixa ele falar”?

Embora a grande mídia Ocidental esteja buscando alguma evidência clínica de demência no mandatário – chegou-se até a noticiar uma recorrente “mão roxa” com a presença de hematoma na mão do presidente, além da ingestão de aspirina em doses muito maiores do que a recomendado pelos médicos – clique aqui.

Esse Cinegnose prefere ir por um outro caminho: na verdade, apenas o medo de que um demente esteja com o dedo do lado do botão que pode mandar o planeta para os ares não explica.

Isso dá no que pensar: as duas personalidades que mais catalizaram a atenção de microfones e objetivas das câmeras no Fórum Econômico de Davos são personagens NÃO oriundos das contendas do campo político ou geopolítico – Trump, cuja imagem do “magnata bilionário de Nova York” foi diligentemente construída através de tabloides, fazendo pontas em cenas de filmes, aparições em programas de TV e, fundamentalmente, pela sua atuação como apresentador de reality show. Transformou sua merca pessoal em um ativo midiático.

E Zelensky, um comediante que alcançou a notoriedade numa série ucraniana Netflix de baixo orçamento, replicou a ficção tornando-se presidente e contou com todo o investimento semiótico da Mídia OTAN para transformá-lo num líder político e herói geopolítico.



Loop de Feedback da Hiper-realidade

Isso quer dizer que principalmente Donald Trump é uma resultante de um fenômeno media life (Apud Mark Deuze) que muitos teóricos da comunicação e sociólogos chamam de "Loop de Feedback da Hiper-realidade”.

A fronteira entre o político e o performer não apenas se tornou tênue; ela se tornou circular. O paradoxo de quem imita quem (será que os comediantes do “Saturday Night Live”, como Alec Baldwin ou James Austin Johnson, parodiam Trump ou Trump parodia suas próprias parodias?) sugere que não estamos mais lidando com uma "realidade" que é parodiada, mas com uma paródia que dita o ritmo da realidade.

Chamamos esse fenômeno de “canastrice política”: esse estranho efeito de verossimilhança circular que cada vez mais substitui o poder persuasivo da retórica política clássica. Um século de cultura visual e do espetáculo fizeram a nossa percepção da realidade ficar invertida. Tomamos o real não a partir dele mesmo, mas tomando como referencia imagens anteriormente feitas do próprio real.

O efeito estranho ocorre porque:

(a) Mimetismo Reverso: Muitas vezes, Trump parece adotar os maneirismos que os comediantes exageraram. Se o SNL o retrata como alguém que se perde em tangentes absurdas, ele passa a abraçar essas tangentes de forma ainda mais performática.

(b) Verossimilhança Midiática: Para o público que consome política via redes sociais, o Trump "real" parece mais verdadeiro quando ele age como o "Trump da TV". A "verdade" do personagem não está na precisão dos fatos, mas na coerência com a sua própria caricatura.

Mas há uma diferença fundamental entre Trump e Zelensky, muito embora o mecanismo do Loop de Feedback da Hiper-realidade seja idêntico.

Zelensky interpretou um presidente na série Servo do Povo. O público votou no personagem Vasyl Holoborodko tanto quanto no homem Volodymyr Zelensky. A ficção serviu de "ensaio" para a realidade. A Ficção se torna realidade.

Enquanto em Trump temos o inverso: o fato que se torna ficção. Ele veio do reality “O Aprendiz”, onde interpretava a "ideia" de um bilionário de sucesso. Ao chegar à presidência, ele não abandonou o papel; ele transformou a Casa Branca no set da segunda temporada...

Tanto que em suas postagens nas redes sociais tornou-se uma assinatura formal do presidente a expressão "Obrigado pela sua atenção a este assunto" (ou "TYFYATTM") como se não fosse um comunicado de cunho presidencial, mas um mero informe comercial para usuários de algum serviço comercial ou corporativo.

O que chamamos de "estranho efeito de realidade" é o que o filósofo Jean Baudrillard certa vez definiu como Hiper-realidade: o momento em que o simulacro (a cópia) é mais real para as pessoas do que o próprio objeto original.

Trump é considerado "autêntico" por seus seguidores não porque ele diz a verdade factual, mas porque ele é fiel ao personagem midiático que ele e seus parodistas criaram. Ele é "verdadeiro" por ser uma performance perfeita de si mesmo.



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