Donald Trump em Davos: presidente ou comediante de stand-up? O comportamento bizarro do líder norte-americano diante dos aliados europeus levanta uma questão central para a comunicação moderna: quem imita quem? Da paródia no programa Saturday Night Live ao "mimetismo reverso", exploramos como a política contemporânea se tornou um reflexo circular de simulacros, onde a verossimilhança é ditada pela ficção e o poder é exercido através de um estranho, porém eficaz, efeito de realidade. A performance de Donald Trump subverte a diplomacia tradicional para instaurar a era da "canastrice política". Entre o mimetismo reverso das paródias do SNL e a construção ficcional de líderes como Zelensky, o que vemos não é mais a política dos fatos, mas o triunfo do simulacro. Neste texto, analisamos como o stand-up de Trump fecha o “Loop de Feedback da Hiper-realidade”, onde a autenticidade não reside na verdade factual, mas na fidelidade absoluta do líder à sua própria caricatura.
“Fila de uma hora e meia para entrar no auditório...
parecia dia de jogo no Maracanã”. Assim a correspondente internacional da Globo
News, Bianca Rothier, descreveu as horas que antecederam a palestra de Donald
Trump em que o presidente dos EUA falaria à elite global no Fórum Econômico Mundial
realizado anualmente em Davos, Suíça.
Como fosse a entrada de um show.
E o que se viu foi um profundo desprezo
irônico de Trump com os aliados europeus: zombou de Macron e seus óculos
escuros "Eu o vi ontem, com aqueles lindos óculos de sol. Que diabos
aconteceu?", chamou da Groelândia de “pedaço de gelo” e diversas vezes a confundiu
com a Islândia; referiu-se à presidenta da Suíça como “uma senhora que me ligou
para pedir para não tarifar um país tão pequeno como a Suíça”; reclamou dos EUA
terem gastos bilhões de dólares na Ucrânia etc.
E preferiu muito mais falar dos “billions and trillions”
de uma suposta reindustrialização do país (“o mundo está produzindo seus
produtos nos EUA”), consertando “os fracassos das administrações anteriores”,
do que sobre “ordem global” ou coisa que o valha. Tudo embalado com uma
retórica exageradamente adjetivada e irônica.
Diante do nível de beligerância e belicosidade
com o qual Trump vem se mostrando aos seus próprios aliados e ao resto do
planeta nos últimos meses, no mínimo o que esse humilde blogueiro esperava reações
da plateia parecidas com o que ocorreu com Netanyahu na plenária da ONU: pessoas
em fila se retirando, burburinhos de reprovação etc.
Mas o que se viu foi o contrário: aqui e ali
algumas risadas e o silêncio – ou de cemitério, ou de consentimento.
A impressão geral é que diferente dos chefes
de Estado tradicionais que usam teleprompters e discursos estruturados, o que
assistimos foi uma espécie de show de stand-up comedy com suas características principais:
(a) Crowd work: Trump interage com a plateia, está
atento ao feed-back não verbal da audiência e testa "piadas" ou
apelidos (como, por exemplo, Crooked Hillary, Sleepy Joe) para
ver qual gera mais risada.
(b) Timing e
Pausas: Ele utiliza o silêncio e
as expressões faciais de uma forma que lembra os mestres da comédia americana
como Don Rickles (o “mercador de veneno”) ou Rodney Dangerfield (piadas depreciativas
em alto ritmo).
(c) O "Bit" recorrente: Ele
tem histórias que repete em quase todos os “shows”, como se fossem um
"repertório" esperado pelos fãs.
(d) Roll Over: Um certo senso de
“esportividade” (relaxamento mesclado com performance) e jogo. Tal como no stand-up
comedy, o ritmo vocal de Trump sugere a existência de uma batida rítmica
imaginária. Trump é verborrágico, mas com um estranho ritmo hipnótico, roll
over.
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Demência e verossimilhança
Para além do deleite particular desse humilde blogueiro,
como alguém que pesquisa as conexões entre Comunicação, Política e Semiótica
(vamos combinar! Com Trump as reuniões de cúpula globais deixaram de ser previsíveis
e entediantes para ficarem mais divertidas...), há algo de incômodo em tudo
isso: como a elite econômica global, a comunidade política internacional, jornalistas
e demais profissionais de mídia naturalizam a bizarra situação em que o líder
do Império faz um show de stand-up comedy ao vivo?
Como, para todos, Donald Trump é um personagem
verossímil (excêntrico, vá lá, mas chefe de Estado da maior potência militar do
planeta), cujos discursos devem ser interpretados, compreendidos, para ser
descoberta suas verdadeiras intenções? Como se os seus discursos contivessem alguma
ontologia, isto é, pudessem ser dissecados por alguma hermenêutica, para
encontrar alguma verdade oculta por trás das camadas de retórica.
Será que aquela plateia no auditório em Davos ficou
“pianinho” por temerem estar diante de um Nero incendiário sentado sobre o
maior arsenal militar do planeta?
Será que todos estão pensando “louco não pode
contrariar... então, deixa ele falar”?
Embora a grande mídia Ocidental esteja
buscando alguma evidência clínica de demência no mandatário – chegou-se até a noticiar
uma recorrente “mão roxa” com a presença de hematoma na mão do presidente, além
da ingestão de aspirina em doses muito maiores do que a recomendado pelos
médicos – clique aqui.
Esse Cinegnose prefere ir por um outro
caminho: na verdade, apenas o medo de que um demente esteja com o dedo do lado
do botão que pode mandar o planeta para os ares não explica.
Isso dá no que pensar: as duas personalidades
que mais catalizaram a atenção de microfones e objetivas das câmeras no Fórum
Econômico de Davos são personagens NÃO oriundos das contendas do campo político
ou geopolítico – Trump, cuja imagem do “magnata bilionário de Nova York” foi
diligentemente construída através de tabloides, fazendo pontas em cenas de
filmes, aparições em programas de TV e, fundamentalmente, pela sua atuação como
apresentador de reality show. Transformou sua merca pessoal em um ativo midiático.
E Zelensky, um comediante que alcançou a notoriedade
numa série ucraniana Netflix de baixo orçamento, replicou a ficção tornando-se
presidente e contou com todo o investimento semiótico da Mídia OTAN para transformá-lo
num líder político e herói geopolítico.
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Loop de Feedback da Hiper-realidade
Isso quer dizer que principalmente Donald
Trump é uma resultante de um fenômeno media life (Apud Mark Deuze) que muitos
teóricos da comunicação e sociólogos chamam de "Loop de Feedback da
Hiper-realidade”.
A fronteira entre o político e o performer não
apenas se tornou tênue; ela se tornou circular. O paradoxo de quem imita quem (será
que os comediantes do “Saturday Night Live”, como Alec Baldwin ou James Austin
Johnson, parodiam Trump ou Trump parodia suas próprias parodias?) sugere
que não estamos mais lidando com uma "realidade" que é parodiada,
mas com uma paródia que dita o ritmo da realidade.
Chamamos esse fenômeno de “canastrice política”:
esse estranho efeito de verossimilhança circular que cada vez mais substitui o
poder persuasivo da retórica política clássica. Um século de cultura visual e
do espetáculo fizeram a nossa percepção da realidade ficar invertida. Tomamos o
real não a partir dele mesmo, mas tomando como referencia imagens anteriormente
feitas do próprio real.
O efeito estranho ocorre porque:
(a) Mimetismo Reverso: Muitas vezes, Trump parece adotar os
maneirismos que os comediantes exageraram. Se o SNL o retrata como alguém que
se perde em tangentes absurdas, ele passa a abraçar essas tangentes de forma
ainda mais performática.
(b) Verossimilhança Midiática: Para o público que consome política via redes
sociais, o Trump "real" parece mais verdadeiro quando ele age como o
"Trump da TV". A "verdade" do personagem não está na
precisão dos fatos, mas na coerência com a sua própria caricatura.
Mas há uma diferença fundamental entre Trump e
Zelensky, muito embora o mecanismo do Loop de Feedback da Hiper-realidade
seja idêntico.
Zelensky interpretou um presidente na série Servo do Povo. O público
votou no personagem Vasyl Holoborodko tanto quanto no homem Volodymyr Zelensky.
A ficção serviu de "ensaio" para a realidade. A Ficção se torna
realidade.
Enquanto em Trump temos o inverso: o fato
que se torna ficção. Ele veio do reality “O Aprendiz”, onde
interpretava a "ideia" de um bilionário de sucesso. Ao chegar à
presidência, ele não abandonou o papel; ele transformou a Casa Branca no set da
segunda temporada...
Tanto que em suas postagens nas redes sociais
tornou-se uma assinatura formal do presidente a expressão "Obrigado pela
sua atenção a este assunto" (ou "TYFYATTM") como se não fosse um
comunicado de cunho presidencial, mas um mero informe comercial para usuários
de algum serviço comercial ou corporativo.
O que chamamos de "estranho efeito de
realidade" é o que o filósofo Jean Baudrillard certa vez definiu como Hiper-realidade:
o momento em que o simulacro (a cópia) é mais real para as pessoas do que o
próprio objeto original.
Trump é considerado "autêntico" por
seus seguidores não porque ele diz a verdade factual, mas porque ele é fiel
ao personagem midiático que ele e seus parodistas criaram. Ele é
"verdadeiro" por ser uma performance perfeita de si mesmo.
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sexta-feira, janeiro 23, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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