sexta-feira, setembro 18, 2026

Freud, Marx e a psicologização do Mito em 'A Odisseia' de Nolan



Ao abrir “A Odisseia” (2026) não pelo texto homérico, mas pelo claustrofóbico ardil do Cavalo de Tróia, Christopher Nolan expõe de imediato a espinha dorsal de sua adaptação: o triunfo da astúcia sobre o destino. Ao converter os deuses gregos em projeções clínicas e neuroses de Odisseu, o diretor mergulha o mito no zeitgeist terapêutico do século XXI, trocando o fatalismo da Tragédia clássica pela autogestão emocional. Contudo, essa tentativa de "psicologizar" o épico produz uma ironia fulminante: longe de apenas modernizar a narrativa, o filme confirma involuntariamente a célebre tese freudomarxista de Theodor Adorno e Max Horkheimer em “A Dialética do Esclarecimento”. Ao subjugar a fé, a honra e o instinto ao cálculo utilitário e à pura gestão de crise, o Odisseu de Nolan reafirma o mito como o berço da razão instrumental — revelando que o sujeito contemporâneo continua, como há milênios, domesticando a própria natureza para servir à fria engrenagem da sobrevivência.

De cara, o que chama a atenção na A Odisseia (The Odyssey, 2026), a interpretação de Christopher Nolan para a obra clássica de Homero, fundadora da literatura ocidental, é começar com a história do Cavalo de Tróia.

Essa história não é contada na “Odisseia” de Homero, e nem na predecessora, “Ilíada”, também de Homero. Ela foi tirada de histórias de outros poetas, muito provavelmente da Eneida de Virgílio, escrita séculos depois de Homero.

E em vez da imagem padrão do cavalo em pé sobre quatro patas (como um brinquedo de criança), ele é apresentado parcialmente enterrado em águas rasas em uma praia, posicionado como se estivesse se erguendo sobre as patas traseiras da areia, e precisa ser arrastado sobre uma plataforma de toras rolantes. Odisseu, seu amigo Menelau (Jon Bernthal) e os outros guerreiros gregos estão amontoados lá dentro, um emaranhado de membros e rostos. Somos informados de que eles estiveram lá por dias e que vários deles morreram antes da chegada dos troianos, o que levanta questões de higiene que o filme, felizmente, não aborda; presumivelmente, o cheiro de carne morta mascarava outros odores.

Na adaptação do roteiro, Nolan tomou algumas liberdades. Em nome da expansão e da unificação simultâneas de vários relatos dos feitos de Odisseu, a serviço de um objetivo maior e mais elusivo: a psicologização do Mito, dentro do zeitgeist do século XXI, e uma secreta conexão com a interpretação que Theodor Adorno e Max Horkheimer fizeram da Odisseia no primeiro capítulo do livre “Dialética do Esclarecimento”.

Em sua essência, A Odisseia ainda é sobre um guerreiro lendário e rei de Ítaca, amado marido de sua esposa Penélope (Anne Hathaway), que espera fielmente por seu retorno enquanto pretendentes desprezíveis comem sua comida, bebem seu vinho e "corrompem" seus servos, na esperança de que ela finalmente ceda, escolha um deles e se case novamente. Odisseu é um pai carinhoso para seu filho Telêmaco (interpretado na fase adulta por Tom Holland).



O filme narra como ele e suas tropas deixaram Ítaca para lutar na Guerra de Troia, ficaram presos naquele atoleiro por dez anos e vagaram por mais uma década por razões que podem ser culpa dele, resultado dos caprichos dos deuses ou uma mistura de ambos. 

O ardil de Odisseu vs. a “Lei de Zeus” é um conflito recorrente por toda a jornada de volta a Ítaca para reencontrar com a esposa Penélope. Desde a artimanha do Cavalo de Troia como um presente mortal até os diversos truque que o protagonista utiliza para enganar o destino e os deuses (o episódio do Ciclope, a bruxa Circe até a armadilha da vingança final em que Odisseu se disfarça de mendigo para enganar os pretendentes da sua esposa), o ponto central é como ele subverte a Lei de Zeus e subverte a ira dos deuses. Como Poseidon, enviando tormentas e rodamoinhos no oceano.

Dessa maneira, os deuses — como Atena (Zendaya) e a ninfa Calipso (Charlize Theron) — não operam como forças externas do destino, mas como manifestações das próprias emoções e traumas de Odisseu. O fatalismo grego cede espaço ao livre-arbítrio.

A interpretação de Nolan captura o espírito do século XXI ao psicologizar o mito. Onde o homem da antiguidade enxergava a vontade dos deuses (daí, a “tragédia” como condição humana diante do arbítrio dos deuses), o indivíduo contemporâneo lê mecanismos de defesa, projeções e ansiedades. A linguagem do filme absorve abertamente o jargão terapêutico atual, refletindo uma era profundamente focada na autogestão emocional e na codificação clínica do sofrimento.

O que acaba ironicamente confirmando a interpretação freudomarxista de Adorno e Horkheimer sobre, para os autores, a obra fundadora do Iluminismo moderno: Odisseu é, originalmente, o homem da astúcia e do cálculo utilitário. O triunfo da Razão Instrumental - a razão burguesa exige que o indivíduo seja intercambiável, um mero número ou ponto de cálculo.

Odisseu sobrevive ao anular a si mesmo, mostrando que a razão instrumental esvazia o sujeito de sua singularidade.



O Filme

Em A Odisseia, de Christopher Nolan, o lendário rei Odisseu (Matt Damon) enfrenta uma travessia física e mental exaustiva para retornar ao seu reino, Ítaca, após a Guerra de Troia, e reencontrar sua esposa, Penélope, após anos de ausência. O que tradicionalmente seria uma aventura marítima ditada pelo destino transforma-se em um tenso thriller psicológico e político de sobrevivência.

Isolado e à beira do colapso, Odisseu confronta os limites de sua própria sanidade. Figuras como a estrategista Atena (Zendaya) e a sedutora Calipso (Charlize Theron) não se manifestam como entidades mágicas dos céus, mas como projeções hiper-realistas e internalizadas de seus próprios traumas, instintos de autopreservação e delírios. A jornada pelo oceano reflete uma luta para domesticar os próprios demônios internos através do cálculo racional – o ardil, inteligência estratégica e cálculo racional.

Ao finalmente ancorar em Ítaca, o herói não encontra alívio, mas um palácio sitiado por 108 pretendentes que buscam usurpar seu poder, sua riqueza e sua esposa.

No épico original de Homero, o clímax da jornada é o massacre brutal no grande salão: Odisseu, auxiliado por Telêmaco e por Atena, tranca as portas e extermina fisicamente os 108 pretendentes que consumiam suas riquezas. Essa violência purificadora e mítica, no entanto, geraria no texto antigo uma guerra civil, interrompida apenas por um deus ex machina (a intervenção mágica da deusa da sabedoria).



Em Nolan, testemunhamos o último ardil de Odisseu: entronar o seu filho como rei enquanto Odisseu e sua esposa saem num “autoexílio” navegando em direção ao crepúsculo. Numa encenação pública em ambiente saturado com signos de paz e conciliação, enquanto, nos bastidores, consolida o poder absoluto e inquestionável do monarca.

O Triunfo Definitivo da Razão Instrumental

Voltando a Adorno e Horkheimer, esse desfecho é a cristalização do sujeito burguês astuto. O Odisseu de Nolan entende que o derramamento de sangue é, no fundo, ineficiente. A paixão vingativa (a natureza mítica, o impulso) é reprimida em favor do cálculo utilitário (a razão instrumental, o lucro). O "tour" de relações públicas é a mercantilização da própria honra; a moralidade e a justiça são reduzidas a puras técnicas de administração de crises e gestão de imagem.

Para os expoentes da Escola de Frankfurt, poema épico não é apenas uma aventura mitológica, mas uma alegoria fundadora da civilização ocidental e o registro do nascimento da razão instrumental.

Odisseu é interpretado como o primeiro indivíduo burguês moderno, um sujeito que utiliza o cálculo e a astúcia para sobreviver e dominar o mundo ao seu redor.



Também é irônico como a passagem simbolicamente mais importante da Odisseia (o canto mortal das sereias) passe rapidamente pelo filme, sem o devido tratamento dramático – arrancando até um humor involuntário.

 O encontro com as sereias é a metáfora mais célebre do livro “Dialética do Esclarecimento” para explicar a divisão de classes e a alienação na sociedade capitalista. Para passar pelas sereias em segurança e ainda assim ouvir seu canto (que representa o prazer, a felicidade e a arte), Odisseu cria uma estratégia baseada na divisão do trabalho:

  • Os marinheiros (O proletariado): Têm os ouvidos tapados com cera e são instruídos a remar com todas as forças, olhando apenas para a frente. Eles não podem ouvir o canto nem se distrair; sua função é apenas o trabalho alienado. A eles é negado o acesso ao prazer e à cultura.
  • Odisseu (A burguesia/O patrão): Ele está amarrado ao mastro, com os ouvidos destapados. Ele tem o privilégio de fruir a arte e o prazer, mas está fisicamente imobilizado. Sua fruição é castrada, separada da ação prática (práxis). Odisseu é o precursor do consumidor moderno de arte: ele contempla, mas não pode agir.

Ou o precursor da “vida inautêntica”, o efeito mais deletério da mercantilização da cultura: a cisão ou contradição entre a teoria e a prática, entre a fala e a ação, entre as ideias que apoiamos e aquilo que efetivamente nós fazemos.

Por exemplo, posso ser um avido comprador de vinis e CDs de rock grunge ou indie. Ir a shows e confraternizar com slogans críticos ao sistema e contra a hipocrisia da sociedade. Enquanto tenho uma perfeita vida pequeno-burguesa, dessas das famílias em tons pasteis de comerciais de margarina ou produtos matinais. Para mim, sonoridade e letras das músicas tornam-se mera “atitude” ou “estilo”.

Não importa se as letras das músicas denunciem a própria hipocrisia da minha vida. Tudo vira apenas uma questão de se entreter com músicas “cabeça”, “críticas”.


 

 

Ficha Técnica


Título: A Odisseia

Diretor: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan

Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson

Produção: Universal Pictures

Distribuição: Universal Pictures International

Ano: 2026

País:  EUA

 

Postagens Relacionadas


 

Minissérie 'Inside Man': ciência e religião na jornada simbólica de Ulisses

 

 

Uma dura lição para as crianças em "A Era do Gelo 4"

 


A humanidade está no fogo cruzado entre deuses e reis no filme "Êxodo"

 


 

Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review