sexta-feira, agosto 14, 2026

'Obsessão': em tempos de algoritmos, o amor pode virar um horror claustrofóbico



Ao migrar da criação de conteúdo no YouTube para o cinema de gênero, Curry Barker trouxe na bagagem algo raro nas produções tradicionais: a fluência nativa da linguagem digital. Em “Obsessão” (Obsession,2025), o cineasta dobra a própria gramática audiovisual das redes para construir um alt-horror visceral - um espelho cirúrgico das neuroses sociológicas e afetivas da Geração Z. O que começa com o tom inocente de uma comédia romântica sobre a dor do amor não correspondido desmorona rapidamente em um horror claustrofóbico quando o protagonista recorre a um atalho sobrenatural para "programar" o afeto de sua amiga de infância. Em “Obsessão”, a maldição mística é mero pretexto: o verdadeiro horror reside na incapacidade de lidar com a imprevisibilidade do outro e na tentativa desesperada de transformar relacionamentos humanos em algoritmos previsíveis. Como num aplicativo de relacionamentos.

A trajetória de Curry Barker — que ganhou destaque no YouTube criando curtas e esquetes com o canal That's a Bad Idea e dirigindo o viral de horror micro-orçamentário Milk & Serial — é fundamental para entender a eficiência e a estética de Obsessão (Obsession,2025).

Barker não é um cineasta tradicional tentando "interpretar" a internet de fora; ele é um nativo da criação de conteúdo digital. Essa bagagem se reflete no filme em dois aspectos: primeiro, como consegue traduzir para as telas a sensibilidade e ansiedades da sua geração dos nativos digitais: a geração Z.

O cinema contemporâneo tem servido como um espelho cirúrgico das angústias sociológicas da Geração Z. Diferente das gerações anteriores — cujas narrativas românticas frequentemente oscilavam entre a rebeldia, o medo do compromisso ou a estafa corporativa (burnout) —, a Gen Z vivencia o afeto sob uma lente de precariedade sistêmica e paranoia emocional.

Também, como a estética e linguagem cinematográficas se tornam, por assim dizer, híbridas pela forma como são influenciadas pela gramática audiovisual da Internet.

Acompanhamos o romântico incurável Bear (Michael Johnston), que logo descobrimos estar profundamente apaixonado por sua amiga e colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette). Para conquistar seu coração, Bear, como último recurso, quebra o sinistro "Salgueiro dos Desejos" que encontra por acaso em uma loja misteriosa que parece saída diretamente de Gremlins. Para sua surpresa, o objeto realiza seu desejo de que ela o ame mais do que qualquer outra pessoa no mundo, dando-lhe tudo o que sempre quis. 

Tudo isso é relativamente inocente e fácil de se identificar. O que acontece depois que Bear realiza seu desejo é o que torna Obsessão uma experiência tão complexa e perturbadora. O amor de Nikki por Bear se torna cada vez mais obcecado, a um nível perigoso e assustador.



O filme constrói gradualmente o incidente que desencadeia a trama com uma espécie de introdução leve, embora um pouco sinistra por parte de Bear, típica de um filme romântico.

Obssesão captura com perfeição a dolorosa e desconfortável sensação de amor não correspondido, a ponto de parecer até inocente por um instante. E então, depois de cumprir sua promessa, ele se transforma lentamente em um dos filmes de terror mais perturbadores e sinistros que se possa imaginar, lembrando-o de que não é um filme romântico, mas sim um filme de terror puro e simples.

Em Obsession, o ponto de partida — um jovem que recorre a um artefato sobrenatural para forçar sua paixão de infância a se apaixonar por ele — funciona como uma alegoria sobre o desejo de controle micro-afetivo. Em um mundo imprevisível (crises climáticas, instabilidade econômica, precarização do trabalho), a Gen Z busca desesperadamente exercer controle absoluto sobre aquilo que sente e sobre como é percebida.

Entretanto, o filme transforma a reciprocidade forçada em um pesadelo sufocante.



Embora sejam de gêneros diferentes, é inevitável a comparação desse filme com Drama, de Kristoffer Borgli – ambos os filmes são narrativas egressas do imaginário da Gen Z aonde volta o olhar para a fragilidade das instituições tradicionais, tanto do amor (Obsessão) como do casamento (Drama).

Eventos que não são isolados, mas uma condição atmosférica - o dia mais feliz da vida de alguém está sempre a um passo de ser desmantelado por uma falha sistêmica: em Drama, a metáfora do tiroteio no dia do casamento; e em Obsessão, o alerta para termos cuidado com os perigos sobre não só sobre o que desejamos. Mas a maneira como formulamos os nossos desejos.

Tudo isso para dizer que Obsessão não é um filme de terror convencional. Qual é a natureza ou procedência daquela caixinha “Salgueiro dos Desejos” ou qual espécie de entidade é aquela que tomou o corpo de Nikki são questões que o filme não quer responder. Aliás, parecem ser meros pretextos para ser discutida outra questão: a relação abusiva entre gêneros.

Dessa maneira, Obsessão é um alt-horror: os temas do horror são colocados como pano de fundo para explorar questões existenciais, relacionamentos humanos e questões de gênero como relações abusivas, o controle do corpo e violência.

O Filme

O protagonista do filme — apelido de "Barão" — é o típico "cara legal", tímido e reservado quanto a não revelar sua enorme paixão por Nikki, sua amiga de infância e atual colega de trabalho em uma loja de música familiar.

Ele sabe que contar a ela o que realmente sente provavelmente arruinará o relacionamento deles e também criará uma situação estranha com seus amigos em comum, Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless). Mesmo assim, o que o coração quer não pode ser evitado. Embora Ian o avise para não estragar o próxima noite de jogos e bebidas do encontro semanal do grupo confessando seu amor, Bear não consegue guardar segredo por muito mais tempo. 

A vida dos protagonistas é a existência comum das inúmeras cidadezinhas da América profunda: amigos de infância que cresceram e trabalham em bullshit jobs e estão imersos em um cotidiano provinciano sem a menor perspectiva.



Mas Nikki almeja algo maior: pedir demissão e se tornar uma escritora famosa. Até o amor possessivo de Bear estragar tudo com o misterioso produto “Salgueiro do Amor” que encontra em uma estranha loja de produtos esotéricos new age no início do filme.

A natureza maligna de sua obsessão por Nikki começa a se revelar quase imediatamente, quando a jovem inteligente e sarcástica que ele conhece é substituída por uma sósia volátil. Como se, de repente, fosse possuída por alguma entidade.

A nova Nikki claramente não está bem: seus olhos estão vidrados, sua fala é hesitante, seu comportamento é maníaco e perturbador, e ela ocasionalmente se sobressalta e começa a gritar como se tivesse acabado de acordar de um terrível pesadelo.

E isso antes mesmo de começar a cometer atos de violência horríveis contra si mesma e contra os outros. Mesmo assim, essa nova Nikki está apaixonada por Bear, e por isso ele, egoisticamente, escolhe ficar com ela mesmo depois de descobrir que a Nikki original está sofrendo no inferno enquanto sua sósia está abraçada a ele.

Até o final do filme, as decisões de Bear são covardes e desprezíveis, o que lhe rende a punição das forças invisíveis, porém inescapáveis, que agora controlam seu destino.

Recorrer a um artefato sobrenatural para garantir que Nikki se apaixone por ele é simbólico por representar duas ansiedades centrais da Gen Z em relação ao amor:

(a)    A cultura do "atalho": Criada em um ecossistema digital pautado por otimização, filtros e controle de narrativa, a Gen Z frequentemente desenvolve uma baixa tolerância à incerteza.

(b)    O amor programado: A atitude de Bear espelha o desejo de eliminar a fase do risco. O amor deixa de ser uma construção mútua e passa a ser tratado como um resultado que precisa ser "hackeado" ou garantido sem passar pela dor do processo interpessoal. Uma ansiedade bem alusiva à cultura dos aplicativos, em particular dos apps de namoros e relacionamentos – o algoritmo como um “atalho” para evitar “ruídos” e decepções.

Quando o pedido de Bear se realiza, Nikki não desenvolve um afeto orgânico, mas uma obsessão cega, invasiva e doentia. O "sonho" do relacionamento perfeito torna-se uma armadilha.



O filme captura o padrão de apego ansioso-evitativo. A mesma geração que fantasia conexões profundas e validação constante é a que entra em pânico quando o vínculo se torna real, denso e sem escapatória.

A devoção forçada de Nikki se torna assustadora porque elimina a individualidade. Obsession mostra que o amor desconectado da escolha livre da outra pessoa não é afeto — é claustrofobia.

O Protagonista anti-herói

Em vez de retratar Bear como um herói romântico trágico, Curry Barker o expõe como a força desestabilizadora da história.

Ao forçar um sentimento por meio de um desejo egoísta, a atitude de Bear se torna uma metáfora para a invasão e a violação de limites relacionais.

O filme dialoga diretamente com as discussões contemporâneas sobre entitlement (o sentimento de ter direito ao corpo e ao afeto do outro) e como a solidão jovem pode se degenerar em comportamentos possessivos e tóxicos sob o disfarce de "amor puro".

Por trás da premissa sobrenatural, a força motivadora do filme é a solidão crônica. Bear busca a aprovação de Nikki não apenas por paixão, mas para preencher um vazio de identidade.


 

Ficha Técnica

Título: Obsessão

Diretor: Curry Barker

Roteiro: Curry Barker

Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson

Produção: Blumhouse Productions

Distribuição: Universal Pictures

Ano: 2025

País:  EUA

 

  

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