Ao migrar da criação de conteúdo no YouTube para o cinema de gênero, Curry Barker trouxe na bagagem algo raro nas produções tradicionais: a fluência nativa da linguagem digital. Em “Obsessão” (Obsession,2025), o cineasta dobra a própria gramática audiovisual das redes para construir um alt-horror visceral - um espelho cirúrgico das neuroses sociológicas e afetivas da Geração Z. O que começa com o tom inocente de uma comédia romântica sobre a dor do amor não correspondido desmorona rapidamente em um horror claustrofóbico quando o protagonista recorre a um atalho sobrenatural para "programar" o afeto de sua amiga de infância. Em “Obsessão”, a maldição mística é mero pretexto: o verdadeiro horror reside na incapacidade de lidar com a imprevisibilidade do outro e na tentativa desesperada de transformar relacionamentos humanos em algoritmos previsíveis. Como num aplicativo de relacionamentos.
A trajetória de Curry Barker — que ganhou destaque no YouTube
criando curtas e esquetes com o canal That's a Bad Idea e dirigindo o
viral de horror micro-orçamentário Milk & Serial — é fundamental
para entender a eficiência e a estética de Obsessão (Obsession,2025).
Barker não é um cineasta tradicional tentando
"interpretar" a internet de fora; ele é um nativo da criação de
conteúdo digital. Essa bagagem se reflete no filme em dois aspectos:
primeiro, como consegue traduzir para as telas a sensibilidade e ansiedades da sua
geração dos nativos digitais: a geração Z.
O cinema contemporâneo tem servido como um espelho cirúrgico das
angústias sociológicas da Geração Z. Diferente das gerações anteriores —
cujas narrativas românticas frequentemente oscilavam entre a rebeldia, o medo
do compromisso ou a estafa corporativa (burnout) —, a Gen Z vivencia o
afeto sob uma lente de precariedade sistêmica e paranoia emocional.
Também, como a estética e linguagem cinematográficas se tornam,
por assim dizer, híbridas pela forma como são influenciadas pela gramática audiovisual
da Internet.
Acompanhamos o romântico incurável Bear (Michael Johnston), que
logo descobrimos estar profundamente apaixonado por sua amiga e colega de
trabalho Nikki (Inde Navarrette). Para conquistar seu coração, Bear, como
último recurso, quebra o sinistro "Salgueiro dos Desejos" que
encontra por acaso em uma loja misteriosa que parece saída diretamente de Gremlins.
Para sua surpresa, o objeto realiza seu desejo de que ela o ame mais do que
qualquer outra pessoa no mundo, dando-lhe tudo o que sempre quis.
Tudo isso é relativamente inocente e fácil de se identificar. O
que acontece depois que Bear realiza seu desejo é o que torna Obsessão
uma experiência tão complexa e perturbadora. O amor de Nikki por Bear se
torna cada vez mais obcecado, a um nível perigoso e assustador.
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O filme constrói gradualmente o incidente que desencadeia a trama
com uma espécie de introdução leve, embora um pouco sinistra por parte de Bear,
típica de um filme romântico.
Obssesão captura com perfeição a dolorosa
e desconfortável sensação de amor não correspondido, a ponto de parecer até
inocente por um instante. E então, depois de cumprir sua promessa, ele se
transforma lentamente em um dos filmes de terror mais perturbadores e sinistros
que se possa imaginar, lembrando-o de que não é um filme romântico, mas sim um
filme de terror puro e simples.
Em Obsession, o ponto de partida — um jovem que recorre a
um artefato sobrenatural para forçar sua paixão de infância a se apaixonar por
ele — funciona como uma alegoria sobre o desejo de controle micro-afetivo. Em
um mundo imprevisível (crises climáticas, instabilidade econômica, precarização
do trabalho), a Gen Z busca desesperadamente exercer controle absoluto sobre
aquilo que sente e sobre como é percebida.
Entretanto, o filme transforma a reciprocidade forçada em um
pesadelo sufocante.
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Embora sejam de gêneros diferentes, é inevitável a comparação
desse filme com Drama, de Kristoffer Borgli – ambos os filmes são
narrativas egressas do imaginário da Gen Z aonde volta o olhar para a
fragilidade das instituições tradicionais, tanto do amor (Obsessão) como
do casamento (Drama).
Eventos que não são isolados, mas uma condição atmosférica - o dia
mais feliz da vida de alguém está sempre a um passo de ser desmantelado por uma
falha sistêmica: em Drama, a metáfora do tiroteio no dia do casamento; e
em Obsessão, o alerta para termos cuidado com os perigos sobre não só
sobre o que desejamos. Mas a maneira como formulamos os nossos desejos.
Tudo isso para dizer que Obsessão não é um filme de terror
convencional. Qual é a natureza ou procedência daquela caixinha “Salgueiro dos
Desejos” ou qual espécie de entidade é aquela que tomou o corpo de Nikki são
questões que o filme não quer responder. Aliás, parecem ser meros pretextos
para ser discutida outra questão: a relação abusiva entre gêneros.
Dessa maneira, Obsessão é um alt-horror: os temas do
horror são colocados como pano de fundo para explorar questões existenciais, relacionamentos
humanos e questões de gênero como relações abusivas, o controle do corpo e
violência.
O Filme
O protagonista do filme — apelido de "Barão" — é o
típico "cara legal", tímido e reservado quanto a não revelar sua
enorme paixão por Nikki, sua amiga de infância e atual colega de trabalho em
uma loja de música familiar.
Ele sabe que contar a ela o que realmente sente provavelmente
arruinará o relacionamento deles e também criará uma situação estranha com seus
amigos em comum, Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless). Mesmo assim, o
que o coração quer não pode ser evitado. Embora Ian o avise para não estragar o
próxima noite de jogos e bebidas do encontro semanal do grupo confessando seu
amor, Bear não consegue guardar segredo por muito mais tempo.
A vida dos protagonistas é a existência comum das inúmeras cidadezinhas
da América profunda: amigos de infância que cresceram e trabalham em bullshit
jobs e estão imersos em um cotidiano provinciano sem a menor perspectiva.
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Mas Nikki almeja algo maior: pedir demissão e se tornar uma
escritora famosa. Até o amor possessivo de Bear estragar tudo com o misterioso
produto “Salgueiro do Amor” que encontra em uma estranha loja de produtos esotéricos
new age no início do filme.
A natureza maligna de sua obsessão por Nikki começa a se revelar
quase imediatamente, quando a jovem inteligente e sarcástica que ele conhece é
substituída por uma sósia volátil. Como se, de repente, fosse possuída por alguma
entidade.
A nova Nikki claramente não está bem: seus olhos estão vidrados,
sua fala é hesitante, seu comportamento é maníaco e perturbador, e ela
ocasionalmente se sobressalta e começa a gritar como se tivesse acabado de
acordar de um terrível pesadelo.
E isso antes mesmo de começar a cometer atos de violência
horríveis contra si mesma e contra os outros. Mesmo assim, essa nova Nikki está
apaixonada por Bear, e por isso ele, egoisticamente, escolhe ficar com ela
mesmo depois de descobrir que a Nikki original está sofrendo no inferno
enquanto sua sósia está abraçada a ele.
Até o final do filme, as decisões de Bear são covardes e
desprezíveis, o que lhe rende a punição das forças invisíveis, porém
inescapáveis, que agora controlam seu destino.
Recorrer a um artefato sobrenatural para garantir que Nikki se
apaixone por ele é simbólico por representar duas ansiedades centrais da Gen Z em
relação ao amor:
(a) A cultura do "atalho": Criada em um ecossistema digital
pautado por otimização, filtros e controle de narrativa, a Gen Z frequentemente
desenvolve uma baixa tolerância à incerteza.
(b) O amor programado: A atitude de Bear espelha o desejo de eliminar a fase do risco. O amor deixa de ser uma construção mútua e passa a ser tratado como um resultado que precisa ser "hackeado" ou garantido sem passar pela dor do processo interpessoal. Uma ansiedade bem alusiva à cultura dos aplicativos, em particular dos apps de namoros e relacionamentos – o algoritmo como um “atalho” para evitar “ruídos” e decepções.
Quando o
pedido de Bear se realiza, Nikki não desenvolve um afeto orgânico, mas uma
obsessão cega, invasiva e doentia. O "sonho" do relacionamento
perfeito torna-se uma armadilha.
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O filme
captura o padrão de apego ansioso-evitativo. A mesma geração que
fantasia conexões profundas e validação constante é a que entra em pânico
quando o vínculo se torna real, denso e sem escapatória.
A devoção
forçada de Nikki se torna assustadora porque elimina a individualidade. Obsession
mostra que o amor desconectado da escolha livre da outra pessoa não é afeto — é
claustrofobia.
O Protagonista anti-herói
Em vez de
retratar Bear como um herói romântico trágico, Curry Barker o expõe como a
força desestabilizadora da história.
Ao forçar um
sentimento por meio de um desejo egoísta, a atitude de Bear se torna uma
metáfora para a invasão e a violação de limites relacionais.
O filme
dialoga diretamente com as discussões contemporâneas sobre entitlement (o
sentimento de ter direito ao corpo e ao afeto do outro) e como a solidão jovem
pode se degenerar em comportamentos possessivos e tóxicos sob o disfarce de
"amor puro".
Por trás da
premissa sobrenatural, a força motivadora do filme é a solidão crônica.
Bear busca a aprovação de Nikki não apenas por paixão, mas para preencher um
vazio de identidade.
Ficha Técnica |
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Título:
Obsessão |
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Diretor:
Curry Barker |
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Roteiro:
Curry Barker |
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Elenco:
Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson |
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Produção:
Blumhouse Productions |
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Distribuição:
Universal Pictures |
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Ano: 2025 |
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País: EUA |
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coletivo
sexta-feira, agosto 14, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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