quinta-feira, agosto 27, 2026

'Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte': a matança é o delírio catártico do desejo


Se os clássicos filmes de terror slasher dos anos 1980 usavam assassinos mascarados para punir o despertar sexual adolescente e impor uma moralidade conservadora, o longa Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte (2026) decide virar essa lâmina contra o próprio gênero. Vencedor da Queer Palm no Festival de Cannes, o metalinguístico e nostálgico filme de Jane Schoenbrun subverte as regras de Hollywood: a matança deixa de ser um castigo puritano para se transformar em um delírio catártico indispensável para a quebra da repressão e a verdadeira libertação dos traumas, da identidade queer e do próprio Desejo.

Além dos filmes de perseguição (movie chase), Hollywood possui outras duas obsessões: filmes de acampamentos - É para onde as crianças iriam todos os anos para fazer amigos, encontrar seu irmão gêmeo perdido ou até mesmo escapar de um slasher que surge, do nada, da floresta querendo massacrar campistas e monitores. Pelo menos é isso que o cinema e audiovisual hollywoodiano quer nos fazer acreditar.

E outro, os filmes em torno de sexo e morte entre adolescentes, o terror gore e slasher cujo ápice estava lá nos anos 1980: Sexta-Feira 13, Halloween e a franquia de Freddy Kruger perseguindo adolescentes nos seus pesadelos com garras metálicas.

A proposta era clara: quem faz sexo ou experimenta drogas ilícitas (ou, pior, as duas ao mesmo tempo), é assassinado de forma gloriosa – decapitação, estripamento, empalamento etc.

Em postagem anterior, observávamos que esses filmes funcionariam para gerações de adolescentes como rituais de sacrifícios humanos como rituais de passagem para jovens: formas institucionalizadas para impor o conformismo aos jovens, desarmando qualquer ímpeto de contestação, crítica ou inconformismo radical.  

Permanecem na sociedade moderna através de ritos fundamentados no medo, humilhação e submissão: processos seletivos corporativos, trotes nas universidades... e os slasher movies na esfera do entretenimento.

Acampamento Miasma – Adolescência Sexo e Morte (Teenage, Sex and Death at Camp Miasma, 2026) é mais do que uma metalinguagem nostálgica sobre o terror slasher dos anos 1980. Vencedor da Queer Palm no Festival de Cannes, dirigido por Jane Schoenbrun, a produção tenta ressignificar esse verdadeiro ritual de passagem secularizado: a matança não mais como um terror literal ou como forma de punição para manterem os jovens na linha da velha Ordem da sociedade.



Mas sim como delírio catártico necessário para destruírem as versões encapsuladas que as protagonistas (ou os próprios jovens) têm de si mesmas e alcançarem uma nova vida.

Em outras palavras, fugir do velho clichê da “quebra-da-ordem-e-retorno-à-ordem” (o transgressor tem que ser punido) para glorificar estética e moralmente a quebra da ordem.

Por isso, O filme captura com precisão o zeitgeist contemporâneo, no qual a cultura pop não é apenas escapismo, mas o principal vocabulário com o qual processamos nossos traumas, nossos corpos e nossos desejos.

A obra de Schoenbrun examina como tropos clássicos impactam diretamente o espectador marginalizado. Historicamente, obras referenciais de suspense e terror, como Psicose (1960) e O Silêncio dos Inocentes (1991), muitas vezes codificaram o "desvio de gênero" e a transgeneridade como sinônimos de monstruosidade psicopata.

A nostalgia no filme não é um retorno seguro e acolhedor ao passado; ela é carnal e desestabilizadora. A metalinguagem do "filme dentro do filme"em Campo Miasma, sublinha como o que assistimos molda quem nos tornamos.

Schoenbrun utiliza o antagonista sobrenatural da franquia, apelidado de Little Death — uma referência direta à expressão francesa la petite mort, um eufemismo para o orgasmo — para brincar com os limites do slasher.

Nesse contexto, a clássica "punição sexual" pelas facas dos assassinos (e o ato hiperbólico da penetração pelo vilão) transforma-se em uma alegoria metalinguística sobre as vulnerabilidades do desejo.

O Filme

Os créditos iniciais nos guiam, com humor inteligente, pelo sucesso inicial estrondoso de uma franquia de terror fictícia chamada “Camp Miasma” e sua decadência nos filmes posteriores, pelos produtos licenciados, pelos videogames, fitas VHS, anúncios de jornal, brinquedos e outras parafernálias.

Os paralelos com o universo de "Sexta-Feira 13 " são descaradamente gloriosos, incluindo referências a como uma sequência dessa série fictícia fracassou ao levar seu assassino para Manhattan. Schoenbrun nunca se esconde do ambiente que está satirizando e homenageando com carinho, usando a estética de personagens como Jason Voorhees e Michael Myers para criar um comentário instigante e extremamente ambicioso sobre identidade e obsessão.



Agora, a jovem cineasta independente Kris (Hannah Einbinder) é contratada para dirigir um lucrativo reboot da história de origem de Camp Miasma. Um emprego dos sonhos, já que ela é obcecada pela série desde que assistiu clandestinamente ao primeiro filme aos oito anos de idade,

Kris tem uma relação pessoal com o filme: ela ainda se emociona com os sentimentos que ainda não consegue compreender diante do perigo mortal da “Garota Final” (a garota que vai morrer enquanto faz sexo), enquanto, de alguma forma, el, no filme, experimenta o ponto de vista do próprio assassino: sensações que as experiências pessoais infelizes e dolorosas de Kris com sexo jamais conseguiram igualar.

Agora ela precisa convencer aquela icônica "Final Girl" do primeiro filme, Billy Presley (Gillian Anderson) a participar – a estrela que desistiu depois disso e nunca mais atuou em nenhum episódio ou filme subsequente, tornando-se uma reclusa.



Kris precisa visitar Billy pessoalmente para apresentar sua proposta e fica desconcertada ao descobrir que ela mora no remoto acampamento abandonado que serviu de locação para o primeiro filme, onde construiu uma mini sala de projeção para assistir repetidamente a uma cópia em 35mm do seu filme.

O jeito elegante e sedutor de Billy perturba e, ao mesmo tempo, excita a pobre Kris.

A ressignificação da matança – Alerta de Spoilers à frente

Conforme a intimidade sexual e psicológica entre Kris e Billy escala, as barreiras entre a realidade, o trauma e a ficção entram em colapso. O mundo "real" das protagonistas passa a adotar fisicamente a granulação e a textura das velhas películas de VHS.

No ápice do filme, a libertação das vontades reprimidas de ambas explode não através do sexo tradicional, mas de sequências surreais e oníricas pontuadas por caricatos gêiseres de sangue, decapitações e efeitos práticos exagerados.



Historicamente, o subgênero slasher dos anos 80 funcionava como um conto de fadas moralista e reacionário. O assassino mascarado operava como o braço armado do puritanismo, um agente da Ordem cuja função era punir com lâminas fálicas qualquer adolescente que ousasse cruzar as fronteiras da heteronormatividade, da virgindade ou da sobriedade.

O sangue derramado era um sacrifício ritualístico para restaurar o status quo conservador, deixando viva apenas a Final Girl — a garota pura, andrógina e vigilante que rejeitava os prazeres da carne.

Ao contrário, em Acampamento Miasma, Jane Schoenbrun sequestra essa estrutura narrativa e a vira do avesso. Se no slasher clássico a morte é o preço que se paga pelo Desejo, na obra de Schoenbrun, a morte figurativa é o único caminho para que o Desejo possa nascer.

Para Schoenbrun, a violência opera como quebra da repressão. A matança é ressignificada, transformando-a de uma punição em um mecanismo de emancipação. Para as protagonistas Kris e Billy, viver sob as regras do "mundo real" — alienadas de seus corpos, engolidas por traumas passados ou identidades reprimidas — é o verdadeiro estado de morte.

 

 

Ficha Técnica

Título: Acampamento Miasma – Adolescência Sexo e Morte

Diretor: Jane Schoebrun

Roteiro: Jane Schoebrun

Elenco: Jack Haven, Hannah Einbinder, Gillian Anderson

Produção: MUBI, Plan B Entertainment

Distribuição: Retrato Filmes (cinema)

Ano: 2026

País:  EUA, Reino Unido

 

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