Se os clássicos filmes de terror slasher dos anos 1980 usavam assassinos mascarados para punir o despertar sexual adolescente e impor uma moralidade conservadora, o longa Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte (2026) decide virar essa lâmina contra o próprio gênero. Vencedor da Queer Palm no Festival de Cannes, o metalinguístico e nostálgico filme de Jane Schoenbrun subverte as regras de Hollywood: a matança deixa de ser um castigo puritano para se transformar em um delírio catártico indispensável para a quebra da repressão e a verdadeira libertação dos traumas, da identidade queer e do próprio Desejo.
Além dos
filmes de perseguição (movie chase), Hollywood possui outras duas
obsessões: filmes de acampamentos - É para onde as crianças iriam todos os anos
para fazer amigos, encontrar seu irmão gêmeo perdido ou até
mesmo escapar de um slasher que surge, do nada, da floresta querendo
massacrar campistas e monitores. Pelo menos é isso que o cinema e audiovisual
hollywoodiano quer nos fazer acreditar.
E outro, os
filmes em torno de sexo e morte entre adolescentes, o terror gore e slasher
cujo ápice estava lá nos anos 1980: Sexta-Feira 13, Halloween e a
franquia de Freddy Kruger perseguindo adolescentes nos seus pesadelos com
garras metálicas.
A proposta era
clara: quem faz sexo ou experimenta drogas ilícitas (ou, pior, as duas ao mesmo
tempo), é assassinado de forma gloriosa – decapitação, estripamento, empalamento
etc.
Em postagem
anterior, observávamos que esses filmes funcionariam para gerações de
adolescentes como rituais de sacrifícios humanos como rituais de passagem para jovens:
formas institucionalizadas para impor o conformismo aos jovens, desarmando
qualquer ímpeto de contestação, crítica ou inconformismo radical.
Permanecem na
sociedade moderna através de ritos fundamentados no medo, humilhação e
submissão: processos seletivos corporativos, trotes nas universidades... e
os slasher movies na esfera do entretenimento.
Acampamento
Miasma – Adolescência Sexo e Morte (Teenage, Sex and Death at Camp Miasma, 2026) é mais do
que uma metalinguagem nostálgica sobre o terror slasher dos anos 1980. Vencedor
da Queer Palm no Festival de Cannes, dirigido por Jane Schoenbrun, a produção
tenta ressignificar esse verdadeiro ritual de passagem secularizado: a matança
não mais como um terror literal ou como forma de punição para manterem os
jovens na linha da velha Ordem da sociedade.
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Mas sim como delírio
catártico necessário para destruírem as versões encapsuladas que as
protagonistas (ou os próprios jovens) têm de si mesmas e alcançarem uma nova
vida.
Em outras
palavras, fugir do velho clichê da “quebra-da-ordem-e-retorno-à-ordem” (o
transgressor tem que ser punido) para glorificar estética e moralmente a quebra
da ordem.
Por isso, O
filme captura com precisão o zeitgeist contemporâneo, no qual a cultura pop não
é apenas escapismo, mas o principal vocabulário com o qual processamos nossos
traumas, nossos corpos e nossos desejos.
A obra de
Schoenbrun examina como tropos clássicos impactam diretamente o espectador
marginalizado. Historicamente, obras referenciais de suspense e terror, como Psicose
(1960) e O Silêncio dos Inocentes (1991), muitas vezes codificaram o
"desvio de gênero" e a transgeneridade como sinônimos de
monstruosidade psicopata.
A nostalgia
no filme não é um retorno seguro e acolhedor ao passado; ela é carnal e
desestabilizadora. A metalinguagem do "filme dentro do filme"em Campo
Miasma, sublinha como o que assistimos molda quem nos tornamos.
Schoenbrun
utiliza o antagonista sobrenatural da franquia, apelidado de Little Death
— uma referência direta à expressão francesa la petite mort, um
eufemismo para o orgasmo — para brincar com os limites do slasher.
Nesse
contexto, a clássica "punição sexual" pelas facas dos assassinos (e o
ato hiperbólico da penetração pelo vilão) transforma-se em uma alegoria
metalinguística sobre as vulnerabilidades do desejo.
O Filme
Os créditos
iniciais nos guiam, com humor inteligente, pelo sucesso inicial estrondoso de
uma franquia de terror fictícia chamada “Camp Miasma” e sua decadência nos
filmes posteriores, pelos produtos licenciados, pelos videogames, fitas VHS,
anúncios de jornal, brinquedos e outras parafernálias.
Os paralelos
com o universo de "Sexta-Feira 13 " são
descaradamente gloriosos, incluindo referências a como uma sequência dessa
série fictícia fracassou ao levar seu assassino para Manhattan. Schoenbrun
nunca se esconde do ambiente que está satirizando e homenageando com carinho,
usando a estética de personagens como Jason Voorhees e Michael Myers para criar
um comentário instigante e extremamente ambicioso sobre identidade e obsessão.
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Agora, a
jovem cineasta independente Kris (Hannah Einbinder) é contratada para dirigir
um lucrativo reboot da história de origem de Camp Miasma. Um emprego dos
sonhos, já que ela é obcecada pela série desde que assistiu clandestinamente ao
primeiro filme aos oito anos de idade,
Kris tem uma
relação pessoal com o filme: ela ainda se emociona com os sentimentos que ainda
não consegue compreender diante do perigo mortal da “Garota Final” (a garota
que vai morrer enquanto faz sexo), enquanto, de alguma forma, el, no filme, experimenta
o ponto de vista do próprio assassino: sensações que as experiências pessoais infelizes
e dolorosas de Kris com sexo jamais conseguiram igualar.
Agora ela
precisa convencer aquela icônica "Final Girl" do primeiro filme,
Billy Presley (Gillian Anderson) a participar – a estrela que desistiu depois
disso e nunca mais atuou em nenhum episódio ou filme subsequente, tornando-se uma
reclusa.
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Kris precisa
visitar Billy pessoalmente para apresentar sua proposta e fica desconcertada ao
descobrir que ela mora no remoto acampamento abandonado que serviu de locação
para o primeiro filme, onde construiu uma mini sala de projeção para assistir
repetidamente a uma cópia em 35mm do seu filme.
O jeito
elegante e sedutor de Billy perturba e, ao mesmo tempo, excita a pobre Kris.
A ressignificação da matança – Alerta de Spoilers à frente
Conforme a
intimidade sexual e psicológica entre Kris e Billy escala, as barreiras entre a
realidade, o trauma e a ficção entram em colapso. O mundo "real" das
protagonistas passa a adotar fisicamente a granulação e a textura das velhas
películas de VHS.
No ápice do
filme, a libertação das vontades reprimidas de ambas explode não através do
sexo tradicional, mas de sequências surreais e oníricas pontuadas por caricatos
gêiseres de sangue, decapitações e efeitos práticos exagerados.
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Historicamente,
o subgênero slasher dos anos 80 funcionava como um conto de fadas moralista e
reacionário. O assassino mascarado operava como o braço armado do puritanismo,
um agente da Ordem cuja função era punir com lâminas fálicas qualquer
adolescente que ousasse cruzar as fronteiras da heteronormatividade, da
virgindade ou da sobriedade.
O sangue
derramado era um sacrifício ritualístico para restaurar o status quo
conservador, deixando viva apenas a Final Girl — a garota pura,
andrógina e vigilante que rejeitava os prazeres da carne.
Ao contrário,
em Acampamento Miasma, Jane Schoenbrun sequestra essa estrutura
narrativa e a vira do avesso. Se no slasher clássico a morte é o preço que se
paga pelo Desejo, na obra de Schoenbrun, a morte figurativa é o único caminho
para que o Desejo possa nascer.
Para
Schoenbrun, a violência opera como quebra da repressão. A matança é ressignificada,
transformando-a de uma punição em um mecanismo de emancipação. Para as
protagonistas Kris e Billy, viver sob as regras do "mundo real" —
alienadas de seus corpos, engolidas por traumas passados ou identidades
reprimidas — é o verdadeiro estado de morte.
Ficha Técnica |
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Título:
Acampamento Miasma – Adolescência Sexo
e Morte |
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Diretor:
Jane Schoebrun |
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Roteiro:
Jane Schoebrun |
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Elenco:
Jack Haven, Hannah Einbinder, Gillian Anderson |
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Produção:
MUBI, Plan B Entertainment |
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Distribuição:
Retrato Filmes (cinema) |
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Ano: 2026 |
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País: EUA, Reino Unido |
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Um
dia as meninas serão devoradoras de homens em “Grave”
quinta-feira, agosto 27, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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