sexta-feira, junho 26, 2026

O J-Horror de 'Pulse': fantasmas, Glitch e solidão na Internet


Mais do que uma viagem nostálgica à era da internet discada e dos disquetes de 3,5 polegadas, o clássico do J-Horror Pulse (Kairo, 2001) revelou-se uma profecia sombria sobre a nossa própria solidão digital. Ao cruzar as fronteiras entre a cibernética, a tecnomagia e o ocultismo clássico, o filme de Kiyoshi Kurosawa desafia a lógica de que o sobrenatural depende da continuidade do mundo analógico para se manifestar. Através do glitch e da entropia, a obra demonstra como o invisível coloniza as falhas do código binário, transformando o ciberespaço em um circuito eterno de isolamento existencial e antecipando, na virada do milênio, a transformação da própria humanidade em avatares espectrais.

Assistir ao filme clássico japonês do J-Horror, Pulse (Kairo, 2001) é uma experiência nostálgica: a Internet discada, disquetes de 3,5 polegadas, drives de CD-ROM abrindo no gabinete, monitores de computador de tubo, jovens que ainda ignoravam o que era a Internet e usuários que consultavam manuais para saber como acessá-la.

Mas, paradoxalmente, em meio à popularização da Word Wide Web ainda discada com a ajuda de CD-ROMs fornecidos por provedores, crescia aquilo que podemos nomear como cyber-ocultismo, tecnomagia ou hiperstição: os primeiros sites sobre de teorias conspiratórias ufológicas e governamentais e fóruns de discussões sobre magia, ocultismo, satanismo e toda sorte de temas esotéricos.

Pulse reflete esse zeitgeist de virada de século em torno desse novo mundo desconhecido e inédito que se abria: o ciberespaço a potencial realização de distopias ciberpunks como as de Neuromancer de William Gibson (1984) – a misteriosa hibridização real/virtual, homem/máquina.

Pesquisadores como Erik Davis (Techgnosis – myth, magic and mysticism in the age of information) acreditam que o Espiritualismo foi a primeira religião da Era da Informação. Os fenômenos mediúnicos, mesas girantes, escritas automáticas etc. estudados por Alan Kardec e pela Teosofia de Madame Blavatsky e Leadbater no século XIX, surgem simultaneamente à descoberta do eletromagnetismo e na transformação da eletricidade em informação com o telégrafo.

Eram mídias analógicas conectadas com o revival do ocultismo e espíritualismo naquele século. Conectadas, porque se partirmos estritamente do princípio clássico da magia — como a Lei da Semelhança e a Lei do Contágio de James George Frazer —, o oculto opera por continuidade e gradação.




Na magia analógica, o mundo espiritual e o físico estão conectados por uma espécie de "éter", fluido ou espectro vibratório contínuo. Uma fotografia analógica captura a alma porque há um feixe de luz físico e contínuo que tocou o corpo do sujeito e impressionou quimicamente a película. Existe um liame direto.

Mas o que podemos dizer sobre filmes em que o Mal ou entidades espirituais manifestam-se por meio de tecnologias digitais?

Em filmes como Tron (1982 e 2010), Pulse (2006) ou Unfriended (2015) o espírito humano ou do além manifestam-se através de bytes ou sinais descontínuos – em Tron um usuário é digitalizado para o interior de um computador onde encontra programas malignos, em Pulse onde fantasmas provenientes do além pretendem controlar as pessoas levando-as ao suicídio através da Internet e em Unfriended um espírito de alguém que se matou vítima de cyberbullying busca vingança nas redes sociais.

Ora, espíritos não viram bytes, na estrita interpretação do Ocultismo clássico.

O criador da cibernética, Norbert Wiener, dizia uma frase célebre: "A informação é informação, não é matéria nem energia". “Matéria e Energia”, a própria definição ontológica do espírito, fantasmas e toda a gama de fenômenos do Oculto. Portanto, Norbert Wiener sepultaria essas pretensões de “espiritualizar” o ciberespaço.

Se o ambiente digital é estrito e lógico, como o caos do sobrenatural penetra nele? O filme Pulse apresenta uma resposta: o Glitch e a Entropia são as oportunidades através das quais o sobrenatural se esconde nos códigos.



E mais do que isso, Pulse é uma metáfora sombria sobre a solidão, a alienação urbana e como a tecnologia (especificamente a internet comercial inicial) pode isolar as pessoas em vez de conectá-las.

O Filme

Michi (Kumiko Asô) é uma jovem que trabalha em uma floricultura. Ela e seus colegas estão preocupados com Taguchi (Kenji Mizuhashi), um colega de trabalho que sumiu há dias enquanto trabalhava em um disquete de computador.

Michi vai até o apartamento de Taguchi. Ele age de forma estranha, aérea e distante. Enquanto Michi procura o disquete, Taguchi, sem qualquer aviso ou drama, caminha até o fundo do quarto e se enforca.

Ao examinarem o disquete que Taguchi estava usando, os amigos de Michi veem uma imagem fantasmagórica do próprio Taguchi olhando para o monitor de seu computador, criando um reflexo infinito e aterrorizante.

Logo após, o outro colega de Michi, Yabe (Masatoshi Matsuo), recebe uma ligação fantasmagórica dizendo "Me ajude". Ele vai ao apartamento de Taguchi e encontra apenas uma mancha preta na parede (onde ele se enforcou). Na mesma noite, Yabe entra em uma fábrica abandonada, encontra uma porta selada com fita isolante vermelha, entra e dá de cara com um fantasma que se move de forma distorcida. Yabe perde a força de viver e, pouco depois, também comete suicídio.

À medida que o filme avança, o fenômeno se espalha por Tóquio. Portas seladas com fita isolante vermelha começam a aparecer por toda a cidade. Essas são as "Salas Proibidas": locais onde as pessoas encontraram fantasmas e perderam a alma.



Ao contrário dos fantasmas de terror tradicionais, os fantasmas de Pulse não atacam fisicamente. Eles simplesmente expõem os vivos à solidão absoluta e eterna da morte. Ao entrarem em contato com essa verdade dolorosa, as pessoas perdem a vontade de viver. Algumas se matam; outras simplesmente se dissolvem em manchas pretas de cinzas na parede.

Tóquio se transforma em uma cidade fantasma. Não há explosões ou pânico em massa; as pessoas simplesmente pararam de sair de casa, se mataram ou evaporaram. As ruas estão vazias, tomadas pelo silêncio e por fumaça esporádica.

Solidão, Glitch e Entropia

O primeiro tema é a solidão. Depois da morte, não há céu ou inferno, mas apenas a continuidade da solidão existencial do mundo dos vivos. E agora a Internet é o meio para os fantasmas contaminarem os vivos com o seu testemunho de horror de que com a morte nada muda.



Pulse antecipa, na virada do milênio, o fenômeno da solidão digital: a Internet nos afasta, porque colocamos avatares de nós mesmos dialogando com outros avatares. O ciberespaço tomado por eus espectrais, no lugar dos reais.

Em Pulse essas entidades espectrais nas quais nos transformamos em chats e redes sociais, assume a literalidade: viram fantasmas.

Porém, resta a questão que Norbert Wiener tentou sepultar: informação não é aquilo que constituem os fantasmas - matéria e energia.

No filme, o glitch (o erro de sistema, a quebra do código) é o próprio tecido de que são feitos os espíritos. Kurosawa utiliza a compressão digital primitiva para criar terror.

A Baixa Resolução e o Artefato Digital: Quando os personagens acessam o site "Você quer ver um fantasma?", as imagens das webcams são borradas, pixeladas e cheias de "ruído". Os rostos dos mortos se misturam aos artefatos de compressão de vídeo (os famosos quadradinhos da imagem digital ruim). O fantasma se esconde na incapacidade do código de renderizar a realidade perfeitamente. Ele é o pixel corrompido.

O "Loop" como Bug Temporal: vários fantasmas no filme aparecem presos em repetições mecânicas: um homem sentado que cai repetidamente de uma cadeira, ou alguém que olha para a câmera e desvia o olhar em um ciclo eterno. Na programação, um loop infinito é um erro crítico que trava o sistema. Em Pulse, o loop digital é a metáfora da alma condenada: uma consciência travada em um circuito lógico, incapaz de avançar.

Outro elemento pelo qual o sobrenatural se manifestaria no meio digital é a entropia - a medida da desordem e da perda de energia de um sistema fechado até que ele atinja o colapso absoluto.

Em Pulse, a entropia digital transborda para o mundo físico, esvaziando a realidade.

As Manchas de Cinza (A Entropia Humana): O ápice do contato com o fantasma não é a morte violenta, mas a dissolução. Os personagens perdem a força vital (informação/energia) e evaporam, deixando apenas uma mancha preta e cinzenta na parede. Quimicamente, a cinza é o estado de carbono mais simples, o resíduo do que já teve forma. É a entropia máxima do corpo humano: a redução da complexidade da vida a um borrão bidimensional.

A Sucata Tecnológica (Entropia do Meio): O laboratório de informática onde Harue trabalha e os apartamentos dos jovens são claustrofóbicos, escuros e cheios de fios revirados, poeira e computadores obsoletos. Kurosawa filma o hardware como matéria em decomposição. A tecnologia, que deveria representar o ápice do progresso humano, é mostrada como lixo eletrônico, um ambiente entrópico perfeito para atrair o plano dos mortos.



Ficha Técnica

Título: Pulse

Diretor: Kiyoshi Korosawa

Roteiro: Kiyoshi Korosawa

Elenco: Haruiko Katô, Kumiko Asô, Koyuki

Produção: Imagica

Distribuição: Miramax

Ano: 2001

País: Japão

  

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