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Assistir
ao filme clássico japonês do J-Horror, Pulse (Kairo, 2001) é uma experiência
nostálgica: a Internet discada, disquetes de 3,5 polegadas, drives de CD-ROM
abrindo no gabinete, monitores de computador de tubo, jovens que ainda
ignoravam o que era a Internet e usuários que consultavam manuais para saber como
acessá-la.
Mas, paradoxalmente,
em meio à popularização da Word Wide Web ainda discada com a ajuda de CD-ROMs
fornecidos por provedores, crescia aquilo que podemos nomear como cyber-ocultismo,
tecnomagia ou hiperstição: os primeiros sites sobre de teorias
conspiratórias ufológicas e governamentais e fóruns de discussões sobre
magia, ocultismo, satanismo e toda sorte de temas esotéricos.
Pulse
reflete esse zeitgeist de virada de século em torno desse novo mundo
desconhecido e inédito que se abria: o ciberespaço a potencial realização de
distopias ciberpunks como as de Neuromancer de William Gibson (1984) – a misteriosa
hibridização real/virtual, homem/máquina.
Pesquisadores
como Erik Davis (Techgnosis – myth, magic and mysticism in the age of
information) acreditam que o Espiritualismo foi a primeira religião da Era
da Informação. Os fenômenos mediúnicos, mesas girantes, escritas automáticas
etc. estudados por Alan Kardec e pela Teosofia de Madame Blavatsky e Leadbater
no século XIX, surgem simultaneamente à descoberta do eletromagnetismo e na
transformação da eletricidade em informação com o telégrafo.
Eram
mídias analógicas conectadas com o revival do ocultismo e espíritualismo
naquele século. Conectadas, porque se partirmos estritamente do princípio
clássico da magia — como a Lei da Semelhança e a Lei do Contágio
de James George Frazer —, o oculto opera por continuidade e gradação.
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Na
magia analógica, o mundo espiritual e o físico estão conectados por uma espécie
de "éter", fluido ou espectro vibratório contínuo. Uma fotografia
analógica captura a alma porque há um feixe de luz físico e contínuo que tocou
o corpo do sujeito e impressionou quimicamente a película. Existe um liame
direto.
Mas o
que podemos dizer sobre filmes em que o Mal ou entidades espirituais
manifestam-se por meio de tecnologias digitais?
Em
filmes como Tron (1982 e 2010), Pulse (2006)
ou Unfriended (2015) o espírito humano ou do além
manifestam-se através de bytes ou sinais descontínuos – em Tron um
usuário é digitalizado para o interior de um computador onde encontra programas
malignos, em Pulse onde fantasmas provenientes do além pretendem
controlar as pessoas levando-as ao suicídio através da Internet e em Unfriended um
espírito de alguém que se matou vítima de cyberbullying busca vingança nas
redes sociais.
Ora,
espíritos não viram bytes, na estrita interpretação do Ocultismo clássico.
O
criador da cibernética, Norbert Wiener, dizia uma frase célebre: "A
informação é informação, não é matéria nem energia". “Matéria e
Energia”, a própria definição ontológica do espírito, fantasmas e toda a gama
de fenômenos do Oculto. Portanto, Norbert Wiener sepultaria essas pretensões de
“espiritualizar” o ciberespaço.
Se o
ambiente digital é estrito e lógico, como o caos do sobrenatural penetra nele? O
filme Pulse apresenta uma resposta: o Glitch e a Entropia são as
oportunidades através das quais o sobrenatural se esconde nos códigos.
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E mais
do que isso, Pulse é uma metáfora sombria sobre a solidão, a alienação
urbana e como a tecnologia (especificamente a internet comercial inicial) pode
isolar as pessoas em vez de conectá-las.
O Filme
Michi (Kumiko
Asô) é uma jovem que trabalha em uma floricultura. Ela e seus colegas estão
preocupados com Taguchi (Kenji Mizuhashi), um colega de trabalho que sumiu há
dias enquanto trabalhava em um disquete de computador.
Michi
vai até o apartamento de Taguchi. Ele age de forma estranha, aérea e distante.
Enquanto Michi procura o disquete, Taguchi, sem qualquer aviso ou drama,
caminha até o fundo do quarto e se enforca.
Ao
examinarem o disquete que Taguchi estava usando, os amigos de Michi veem uma
imagem fantasmagórica do próprio Taguchi olhando para o monitor de seu
computador, criando um reflexo infinito e aterrorizante.
Logo
após, o outro colega de Michi, Yabe (Masatoshi Matsuo), recebe uma ligação
fantasmagórica dizendo "Me ajude". Ele vai ao apartamento de Taguchi
e encontra apenas uma mancha preta na parede (onde ele se enforcou). Na mesma
noite, Yabe entra em uma fábrica abandonada, encontra uma porta selada com fita
isolante vermelha, entra e dá de cara com um fantasma que se move de forma
distorcida. Yabe perde a força de viver e, pouco depois, também comete
suicídio.
À
medida que o filme avança, o fenômeno se espalha por Tóquio. Portas seladas com
fita isolante vermelha começam a aparecer por toda a cidade. Essas são
as "Salas Proibidas": locais onde as pessoas encontraram fantasmas e
perderam a alma.
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Ao
contrário dos fantasmas de terror tradicionais, os fantasmas de Pulse
não atacam fisicamente. Eles simplesmente expõem os vivos à solidão absoluta
e eterna da morte. Ao entrarem em contato com essa verdade dolorosa, as
pessoas perdem a vontade de viver. Algumas se matam; outras simplesmente se
dissolvem em manchas pretas de cinzas na parede.
Tóquio
se transforma em uma cidade fantasma. Não há explosões ou pânico em massa; as
pessoas simplesmente pararam de sair de casa, se mataram ou evaporaram. As ruas
estão vazias, tomadas pelo silêncio e por fumaça esporádica.
Solidão, Glitch e Entropia
O primeiro
tema é a solidão. Depois da morte, não há céu ou inferno, mas apenas a
continuidade da solidão existencial do mundo dos vivos. E agora a Internet é o
meio para os fantasmas contaminarem os vivos com o seu testemunho de horror de
que com a morte nada muda.
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Pulse antecipa,
na virada do milênio, o fenômeno da solidão digital: a Internet nos afasta, porque
colocamos avatares de nós mesmos dialogando com outros avatares. O ciberespaço tomado
por eus espectrais, no lugar dos reais.
Em Pulse
essas entidades espectrais nas quais nos transformamos em chats e redes sociais,
assume a literalidade: viram fantasmas.
Porém,
resta a questão que Norbert Wiener tentou sepultar: informação não é aquilo que
constituem os fantasmas - matéria e energia.
No
filme, o glitch (o erro de sistema, a quebra do código) é o próprio
tecido de que são feitos os espíritos. Kurosawa utiliza a compressão digital
primitiva para criar terror.
A Baixa
Resolução e o Artefato Digital: Quando os personagens acessam o site "Você
quer ver um fantasma?", as imagens das webcams são borradas, pixeladas
e cheias de "ruído". Os rostos dos mortos se misturam aos artefatos
de compressão de vídeo (os famosos quadradinhos da imagem digital ruim).
O fantasma se esconde na incapacidade do código de renderizar a realidade
perfeitamente. Ele é o pixel corrompido.
O
"Loop" como Bug Temporal: vários fantasmas no filme aparecem
presos em repetições mecânicas: um homem sentado que cai repetidamente de uma
cadeira, ou alguém que olha para a câmera e desvia o olhar em um ciclo eterno.
Na programação, um loop infinito é um erro crítico que trava o sistema. Em Pulse,
o loop digital é a metáfora da alma condenada: uma consciência travada em um
circuito lógico, incapaz de avançar.
Outro
elemento pelo qual o sobrenatural se manifestaria no meio digital é a entropia
- a medida da desordem e da perda de energia de um sistema fechado até que ele
atinja o colapso absoluto.
Em Pulse,
a entropia digital transborda para o mundo físico, esvaziando a realidade.
As
Manchas de Cinza (A Entropia Humana): O ápice do contato com o fantasma não
é a morte violenta, mas a dissolução. Os personagens perdem a força vital
(informação/energia) e evaporam, deixando apenas uma mancha preta e cinzenta na
parede. Quimicamente, a cinza é o estado de carbono mais simples, o resíduo do
que já teve forma. É a entropia máxima do corpo humano: a redução da
complexidade da vida a um borrão bidimensional.
A
Sucata Tecnológica (Entropia do Meio): O laboratório de informática onde
Harue trabalha e os apartamentos dos jovens são claustrofóbicos, escuros e
cheios de fios revirados, poeira e computadores obsoletos. Kurosawa filma o
hardware como matéria em decomposição. A tecnologia, que deveria representar o
ápice do progresso humano, é mostrada como lixo eletrônico, um ambiente
entrópico perfeito para atrair o plano dos mortos.
Ficha Técnica |
|
Título: Pulse |
|
Diretor: Kiyoshi Korosawa |
|
Roteiro: Kiyoshi Korosawa |
|
Elenco: Haruiko Katô,
Kumiko Asô, Koyuki |
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Produção: Imagica |
|
Distribuição: Miramax |
|
Ano: 2001 |
|
País: Japão |
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sexta-feira, junho 26, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira



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