quinta-feira, junho 25, 2026

'Dia D', o puro suco de Spielberg: Ets empáticos, conspirações e nostalgia ideológica



Ao fundir a tradição centenária dos chase movies com ETs empáticos, conspirações governamentais e o maravilhamento infantil, “Dia D” (Disclosure Day, 2026) chega às telas como o "puro suco" da filmografia de Steven Spielberg. No entanto, o que pretendia ser uma catarse humanista capaz de paralisar uma Terceira Guerra Mundial acaba colidindo de frente com o cinismo do público contemporâneo. Em uma era de infodemia e desconfiança digital, a ingênua premissa liberal do filme — de que o amor universal na televisão pode desarmar tanques — reduz crises geopolíticas estruturais a meros problemas de falta de empatia humana. Mais do que uma solução real para os nossos tempos, o novo longa do diretor opera como o diagnóstico perfeito de Carl G. Jung sobre o mito moderno dos discos voadores: uma busca religiosa secularizada por salvação nos céus que, hoje, acabou empurrada para o território da pura nostalgia ideológica.

Desde o clássico filme mudo O Grande Roubo do Trem (1903), o cinema norte-americano criou o seu principal gênero: os filmes de perseguição (o chase movie), transversal a todos os outros gêneros, como o slapstick, road movies, terror etc. O cinema americano nasceu e se estruturou sob a lógica do movimento puro, da montagem paralela e da perseguição.

Acrescente a esse cinematismo da perseguição, a pureza infantil traumatizada pelo mundo adulto, animais ao lado dos humanos em tom de fábula, Ets empáticos e conspirações governamentais, e o leitor terá o puro suco de Steven Spielberg: o filme Dia D (Disclosure Day, 2026).

Disclosure Day é, de fato, a destilação perfeita de toda a filmografia do diretor. Em Dia D estão as primeiras conspirações governamentais de acobertamento de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, o alienígena que dá lições de empatia a humanos em ET: O Extraterrestre, o projeto corporativo baseado no maravilhamento infantil que deu errado em Jurassic Park, e o chase movie que vai às origens em Prenda-me Se For Capaz.             

O maravilhamento infantil como resposta ao trauma, a reconstituição da célula familiar (ou a cura dela através do elemento exótico) e a perseguição cinética que move a narrativa são as características não só emblemáticas do diretor, mas que também ajudam a construir a ideologia do idealismo humanista spielbergiano.

Spielberg sempre coloca em seus filmes protagonistas motivados pelo idealismo, a curiosidade ou o fascínio pelo mistério em choque com estruturas de poder (governamentais e corporativas). Mas para o diretor essas estruturas não são inerentemente perversas ou sistêmicas; elas estão apenas sendo geridas pelas pessoas erradas (como o vilão do filme Noah Scanlon) ou sofrendo de algum tipo de colapso de comunicação.

Falhas inerentemente humanas que somente podem ser resolvidas pela transmissão de amor e empatia universal. No final, a esperança de algum tipo de conversão espiritual coletiva.

A saga spielbergiana sobre Ets e desacobertamentos é certamente o sintoma daquilo que o psicanalista Carl G. Jung interpretou a respeito da onda de avistamento de discos voadores a partir do final da Segunda Guerra Mundial: a busca religiosa secularizada da salvação nos céus.



Uma tentativa da psique do inconsciente coletivo em encontrar nos céus uma salvação para a época apocalíptica em que vivemos. 

As pessoas sempre olharam para o céu em busca da salvação do perigo. Em tais momentos no passado as pessoas tinham visões de deuses, santos, anjos, etc. que supostamente iriam resgatá-las do desastre. (veja JUNG, Carl G. Discos Voadores: Mito Moderno Sobre Coisas Vistas no Céu, Petrópolis: Vozes)

Mas Jung diz que a ciência moderna tornou as pessoas muito céticas para crer em seres sobrenaturais ou imagens mitológicas tradicionais. Como vivemos em uma era de ciência e tecnologia, nós interpretamos os novos sinais no céu como máquinas de alienígenas proveniente de um mundo com tecnologia mais avançada que a nossa.

Porém, nesse século vivemos uma nova espécie de ceticismo: o cinismo de um público imerso em guerras de informação reais no qual até registros da realidade em vídeo são colocados sob suspeita na era da Inteligência Artificial.



A premissa central de Dia D repousa em uma fantasia liberal clássica: a de que a verdade (o “dia do desacobertamento” da conspiração governamental para ocultar a verdade aalienígena), uma vez exposta de forma massiva e transparente na televisão, tem o poder de unificar o consenso público e paralisar as engrenagens de uma guerra. O filme assume que o mundo ainda vive na era da escassez de informação, onde um "furo jornalístico" definitivo altera o curso da história.

Por isso, Dia D em vez de inspirar uma catarse humanista ou uma transformação coletiva, a ingenuidade da resolução do filme é empurrada para o território da nostalgia ideológica.

O Filme

A trama se passa em um cenário tenso, onde o mundo está à beira da Terceira Guerra Mundial.

Dr. Daniel Kellner (Josh O'Connor), um especialista em cibersegurança, decide desertar da Wardex Corporation — um braço secreto do governo americano. Ele rouba uma mochila cheia de discos rígidos contendo 79 anos de dados ocultos sobre contatos alienígenas (desde o caso Roswell) e um pedaço de tecnologia extraterrestre.

Paralelamente, em Kansas City, a carismática apresentadora do tempo Margaret Fairchild (Emily Blunt) vê um pássaro vermelho exótico voar para dentro do seu apartamento antes de ir trabalhar. Esse avistamento ativa algo em seu cérebro. Durante uma transmissão ao vivo na TV, ela começa a falar uma língua alienígena incompreensível e desmaia.

No hospital, ela descobre que ganhou habilidades psíquicas e de empatia, conseguindo ler pensamentos e sentir a dor alheia. Ela foge do hospital após a chegada de agentes misteriosos.

Os caminhos de Daniel e Margaret começam a se cruzar de forma literal e telepática.



Caçada e conexões empáticas

O vilão, o chefe da Wardex, Noah Scanlon (Colin Firth), usa um dispositivo alienígena de visualização remota e telepatia para caçar os desertores. O uso desse aparelho é doloroso e o desgasta fisicamente.

Scanlon localiza Jane (Eve Hewson), a namorada de Daniel, e usa controle mental para forçá-la a tentar matar o próprio parceiro. Jane consegue resistir e foge com outro dispositivo alienígena, mas Daniel acaba sendo capturado e levado para uma base ultrassecreta.

Margaret, guiada por visões telepáticas de Daniel, localiza a base secreta. Ela usa suas novas habilidades de manipulação empática para fazer com que os guardas e perseguidores simplesmente desistam de lutar e os deixem escapar.

Eles são acolhidos por Hugo Wakefield (Colman Domingo), líder de um grupo de resistência que apoia a divulgação da verdade. Em um armazém, Hugo construiu uma réplica exata da casa de infância de Margaret para ajudá-la a recuperar memórias bloqueadas.

Ao explorar o local, Margaret e Daniel descobrem a verdade chocante: ambos foram abduzidos por alienígenas quando eram crianças e submetidos a experimentos que plantaram neles as sementes de suas habilidades psíquicas. Mais do que isso: animais estranhos que os acompanharam discretamente por toda a vida eram, na verdade, os próprios alienígenas disfarçados, vigiando-os.



Como dissemos acima, nos filmes de Spielberg sempre temos protagonistas idealista em choque com estruturas de poder.

Mas a ação frenética de um chase movie funciona como Distração: a correria contra o tempo (hackear o sistema, fugir de jipes pretos, invasão de estúdio) cria uma urgência sensorial que impede o espectador de pensar nas causas estruturais da crise.

O movimento constante substitui a reflexão política. Correr passa a ser sinônimo de "fazer alguma coisa", transformando a resistência política em uma fuga coreografada.

A Máquina de Despolitização: O Afeto contra a Estrutura

O grande truque do filme — e o maior sintoma do cinema humanista-liberal de Hollywood — é a redução do macro ao micro. A iminência de uma Terceira Guerra Mundial e décadas de ocultamento militar não são tratados como frutos do imperialismo, do complexo industrial-militar ou da lógica do capital. Tudo é reduzido a um déficit psicológico e moral: a falta de empatia.

Ao resolver o clímax com uma "transmissão de amor e empatia universal" que faz os tanques recuarem, o filme promove uma profunda despolitização:

Dia D cria a perfeita moralização da crise: se o problema é a falta de empatia, a solução não é a reforma estrutural, a revolução ou a queda das instituições, mas sim uma "conversão espiritual" coletiva.

E a salvação vem de cima, dos céus, como diagnosticava Jung: o alienígena passa a funcionar como um terapeuta existencial: O "Outro" radical (o extraterrestre) perde sua carga de ameaça geopolítica ou de alteridade absoluta. Ele se torna um espelho para a inocência perdida da humanidade. Os ETs não vêm para alterar a órbita da Terra ou questionar nossa ciência; eles vêm para nos lembrar de "sermos pessoas melhores".

No fim, o "puro suco" de Spielberg nos entrega um conforto anestésico: a ilusão de que o mundo pode ser salvo se todos simplesmente chorarem juntos diante da televisão.



Ficha Técnica

Título: Dia D

Diretor: Steven Spielberg

Roteiro: David Koepp, Steven Spielberg

Elenco: Emily Blunt, Josh O´Connor, Colin Firth, Colman Domingo

Produção: Universal Pictures, Amblin Etertainment

Distribuição: Universal Pictures

Ano: 2026

País: EUA

  

Postagens Relacionadas

Mitologia Ufológica e Gnosticismo na ficção científica francesa “La Belle Verte”


Por que "E.T. O Extraterrestre" tornou-se um clássico AstroGnóstico?


OVNIs e Jung na Guerra Cognitiva da Guerra Fria 2.0


Em "Jogador Número 1" a jornada moralista do herói de Spielberg


Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review