O tédio doméstico e o colapso do ideal conjugal estão longe de ser novidade no cinema, mas nada prepara o espectador para a violência sensorial de “Morra, Amor” (Die My Love, 2025, disponível no MUBI). Sob a direção cirúrgica de Lynne Ramsay, o longa vai muito além do drama tradicional sobre psicose pós-parto ao transformar o isolamento rural de uma jovem mãe (Jennifer Lawrence) em uma arena de batalha existencial. O longa esquiva-se do clichê da depressão pós-parto para realizar uma autópsia semiótica do casamento. O que se vê na tela é o "infarto do signo": o choque brutal entre a energia bruta do tesão extra-linguístico e uma estrutura social implacável que drena a força vital de uma geração que viu seus sonhos serem domesticados pela rotina.
Filmes sobre
donas de casa que veem sua juventude e entusiasmo se perdendo no cotidiano da
vida conjugal, não é exatamente uma novidade no cinema.
Narrativas sobre
o tédio conjugal que já foram contadas diversas vezes e por diversos gêneros,
desde o terror (O Bebê de Rosemary, 1968, no qual o casamento esconde
uma conspiração satânica) até o drama sensível de como o amor pode se esvair em
Histórias de um Casamento (2019).
Mas nada
parecido como Morra, Amor (Die My Love, 2025), dirigido por Lynne Ramsay:
um verdadeiro espelho cirúrgico ao traduzir visualmente e sensorialmente o
colapso de Grace (Jennifer Lawrence) no isolamento rural de Montana – sob a
aparência de ser apenas um drama tradicional sobre psicose pós-parto.
Morra, Amor, é uma desconstrução e refutação feroz
do que a felicidade conjugal e a maternidade são vendidas para jovens casais.
Aqui temos Grace como uma aspirante a escritora
presa em uma inversão apocalíptica de seus sonhos, com a mente confusa por uma
suposta depressão pós-parto e pelo tédio, enquanto o marido, Jackson (Robert
Pattinson), viaja a trabalho. Sim, um típico “bullshit job”. Ele aceita o
trabalho depois que suas ambições como músico definharam e morreram. Mas pelo
menos ele sai de casa e come hambúrgueres e milk-shakes em postos de gasolina,
de um jeito que faz sua amada ferver de ciúmes.
Detalhe para as camisinhas que ela
encontra no porta-luvas do carro do marido.
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Lawrence está presa em uma casa que a
está sufocando, com um bebê que ela e Jackson ainda não nomearam e o cachorro
mais irritantemente latidor e insuportável da história do cinema.
Caminhar sob o céu imenso e os campos
infinitos ao redor de sua casa não oferece alívio real para a sensação de
confinamento de Lawrence. Reforçada pela filmagem 35 mm no formato 4:3 conferindo
ao filme uma incrível fotografia granulada, mas através de uma visão tão
limitada em que até mesmo os milhares de hectares percorridos por Grace se
tornam um lugar sem escapatória.
A princípio, Jackson e Grace são
incrivelmente felizes, fazendo sexo o tempo todo – depois quase sempre, depois
às vezes e, por fim, nunca mais. Há uma cena brutalmente cômica na qual ela
confronta Jackson sobre isso e exige que façam sexo, agora mesmo, no carro,
como faziam antes. O consumo de álcool e as mudanças de humor de Grace estão se
tornando mais explosivos.
A realidade começa a se misturar com
uma alucinação vertiginosa quando Grace começa a fantasiar sobre um cara que
viu em um estacionamento, que se funde com outro desconhecido de moto que
periodicamente ruge por uma floresta próxima; este é Karl, interpretado por
LaKeith Stanfield.
A imaginação de Grace catastrofiza tudo
o que ela vê – criando crises dolorosas e violentas, na verdade, e, na ficção
de sua imaginação, uma forma de automutilação melodramática; mal um conjunto de
cortes começa a cicatrizar, e ela se inflige outro – os estigmas renovados de
seu calvário de tristeza particular.
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Temos que adiantar que a sutileza não
está exatamente entre os atributos deste filme – a narrativa é feroz, raivosa,
engajada e intensamente, sensualmente atenta a cada detalhe do prazer e dor de
Grace.
Morra, Amor explora uma situação que já se tornou
arquetípica para a geração millenial e Z: ela, o sonho de ser uma escritora “do
grande Romance Americano” na suposta paz rural de Montana. E ele, tornar-se um
músico de sucesso. Mas tudo o que encontram são problemas reais para lidar,
como encontrar um lugar para morar, pais idosos, filhos, casamentos, empregos,
círculos de amigos de quem não gostam, contas e a ferida psíquica purulenta de
sonhos não adiados, mas sufocados.
Para Grace, a armadilha perfeita: isolada,
no Meio Oeste dos EUA, tendo como vizinhos os pais do marido e mulheres com
olhares piedosos para ela: Grace estaria apenas vivendo o drama da depressão
pós-parto – claramente uma rede social de contenção para manter Grace num papel
de dona de casa submissa, à espera do marido voltar para casa no final de cada
dia.
Semioticização do tesão
O ponto central em Morra, Amor é a decadência psíquica e social e a
espiral de confusão entre alucinação e realidade de Grace.
Para compreender a espiral de Grace,
precisamos entender como sua experiência de mundo é fragmentada e reconfigurada
através das três categorias da fenomenologia semiótica de Charles S. Peirce: Primeiridade,
Segundidade e Terceiridade — respectivamente ao tesão (pulsação pura), ao
amor (relação/choque) e ao casamento (lei/instituição).
Com isso, Morra, Amor se torna muito mais do que um filme dramático,
mas uma verdadeira crônica visual do aprisionamento de uma relação através de
uma rede de signos. O filme mostra o trajeto da energia vital sendo
domesticada, codificada e, por fim, esgotada pelo choque com a estrutura social
– por assim dizer, uma semioticização do tesão: como uma pulsão pré-linguística
é incorporada por uma rede de signos social e institucional.
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(a) Primeiridade: o tesão (a
qualidade pura)
A Primeiridade é a categoria do
imediato, do potencial, do sentimento puro sem reflexão ou mediação. No filme,
isso é representado pelo tesão, pela libido e pela força vital bruta e
extra-linguística.
É o desejo carnal e animal de Grace, a
sua conexão com a natureza selvagem de Montana, os impulsos corporais que
existem antes de qualquer palavra. É uma energia caótica, sem direção ou
julgamento moral. É o puro "ser" do desejo.
(b) Segundidade: o amor (o choque e a relação)
A Segundidade introduz a alteridade, o
conflito, a ação e reação. É o momento em que a energia pura da Primeiridade
colide com o "Outro". Aqui, localiza-se o amor enquanto experiência
vivida.
O amor entre Grace e Jackson não é uma
abstração; é o choque de dois corpos, a fricção do cuidado, a presença física
do bebê que chora e exige resposta. Na Segundidade, o tesão deixa de ser apenas
uma sensação interna e se torna uma força de atrito com a realidade material do
outro. Há uma resistência, um peso.
(c) Terceiridade: o casamento (a lei e o signo)
A Terceiridade é a categoria da
mediação, da lei, do hábito, da cultura e da linguagem. O casamento, enquanto
instituição, é o ápice da Terceiridade.
O casamento é a estrutura social que
tenta organizar, prever e normatizar o caos da Primeiridade (tesão) e a
volatilidade da Segundidade (amor). Ele transforma o desejo em contrato, em
rotina doméstica e em papéis preestabelecidos (a "boa esposa", o
"provedor").
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A Semiotização do tesão: da energia pura à rede de signos
O grande conflito estético e narrativo
de Morra,
Amor reside na violência da semiotização.
O filme mostra como o tesão — que nasce livre, biológico e extra-linguístico
(Primeiridade) — é forçado a entrar na máquina de significação da sociedade
(Terceiridade).
O desejo selvagem de Grace não pode
simplesmente existir na sociedade contemporânea. Ele precisa ser nomeado,
categorizado e rotulado. Quando ela tenta expressar sua pulsão (seja escrevendo
seu romance ou através de comportamentos erráticos), a sociedade imediatamente
tenta ler esses atos como "sintomas" (depressão pós-parto, loucura,
inadequação).
O tesão é domesticado e incorporado a
uma rede de signos de consumo e funcionalidade. Ele deve se transformar em
"fidelidade conjugal", em "energia produtiva para a
maternidade" ou em "romantismo comercial". A espontaneidade da
qualidade pura é esmagada pela rigidez do símbolo.
O choque contra a estrutura processo de entropia psíquica
Grace resiste desesperadamente a se
tornar apenas um "símbolo" funcional dentro da instituição
matrimonial. Cada ato de rebeldia ou aparente loucura dela é um esforço da Segundidade
(o choque, a reação física) tentando romper as amarras da Terceiridade (as
convenções sociais). Ela usa o próprio corpo, a sujeira e a agressividade para
tentar reverter o processo de domesticação de sua energia.
No entanto, a rede de signos da
sociedade é implacável. Ao tentar traduzir seu tesão extra-linguístico em uma
vida estruturada, Grace descobre que o código (o casamento, as expectativas
sociais) drena sua força vital.
A cinematografia de Ramsay trabalha
essa perda de energia de forma brilhante: as cores outonais ou frias de
Montana, o cansaço físico estampado no rosto da protagonista e o isolamento
claustrofóbico mostram o resultado final desse trajeto.
O tesão, uma vez capturado e
transformado em signo institucionalizado, perde sua potência motriz. O que
sobra é o infarto do signo: o esgotamento completo de uma mente que
colidiu contra a parede intransponível das convenções sociais.
Ficha Técnica |
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Título:
Die My Love |
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Direção:
Lynne Ramsey |
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Roteiro:
Enda Walsh, Lynne Ramsay, Alice Birch |
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Elenco:
Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek |
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Produção:
Black Label Media, Excellent Cadaver |
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Distribuição:
MUBI |
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Ano:
2025 |
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País:
EUA |
sábado, maio 23, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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