Se os pensadores do século XIX, de Freud a Durkheim, viajassem no tempo para o escritório de advocacia de E. Edward Grey, ficariam perplexos: o que antes era visto como uma patologia a ser curada tornou-se a engrenagem perfeita da produtividade. Enquanto a era vitoriana tentava domesticar a neurose para salvar a civilização, o capitalismo tardio descobriu que o distúrbio — quando bem alocado — é um combustível imbatível. Através de uma análise do filme “Secretária” (2002, disponível na Prime Video), mergulhamos na transição da "sociedade disciplinar" da repressão para a "sociedade do desempenho", onde a perversão não é o problema, mas a solução para uma eficiência absoluta.
Século XIX é
considerado historicamente o século das multidões – as primeiras grandes
metrópoles europeias e o surgimento das massas com um novo agente social: greves,
manifestações, agitações políticas etc.
E com elas, surgiram
em os considerados três grandes males daquele século: sífilis, tuberculose e
histeria.
Para o
filósofo Voltaire, resultado de outros três grandes males: o tédio (a falta de
ocupação ou propósito, levando à apatia); o vício (A corrupção dos
costumes, comportamentos imorais ou prejudiciais) e a necessidade (a pobreza, a
escassez de recursos ou a falta do básico para viver).
Desses
grandes males das metrópoles, surgiram a preocupação sociológica (o problema da
anomia, desordem e violência) e psicanalítica (a saúde mental).
Certamente o
pensamento freudiano foi a síntese de todo esse cenário: ver os transtornos
mentais como sintomas desordem interior (a repressão das pulsões do
inconsciente) e como isso pode ameaçar a própria civilização. Principalmente,
na obra de Freud “O Mal-estar na Civilização”.
Freud, ao
lado de positivistas como Comte, Durkheim ou Stuart Mill, preocupavam-se com o
destino da sociedade e da própria civilização diante disfunções tão perversas.
Como efeitos colaterais do Progresso, ameaçando com a própria regressão.
Suponhamos
que eles tivessem embarcado na máquina do tempo do escritor HG Wells. E aparecessem
aqui no século XXI. Certamente ficariam perplexos: se no século XIX gastaram
tanto tempo em busca de uma “cura” para a civilização, descobririam que todo o
seu trabalho foi em vão - no capitalismo tardio, a "cura" não é a
normalidade, mas encontrar alguém cuja neurose se encaixe perfeitamente na sua.
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Em outras
palavras, descobririam que nas novas formas de produção de valor no capitalismo
tardio, os distúrbios psíquicos e perversões se tornaram plenamente funcionais –
espantosamente aumentam a produtividade. Desde que você coloque o “maluco”
certo no emprego correto.
Secretária (Secretary, 2002) é
frequentemente lido como uma "comédia romântica não convencional",
mas sua verdadeira profundidade reside na forma como ele reconfigura a
patologia psíquica em harmonia social.
Se na era de
Freud, a neurose era o resultado da repressão de impulsos sexuais
"perversos" pela moralidade burguesa e religiosa (e o divã era o
lugar onde se tentava desatar os nós de desejos que não podiam existir no
espaço público ou profissional), na atualidade tudo mudou.
No
capitalismo tardio, como nota o filósofo Byung-Chul Han, passamos da
"sociedade disciplinar" (do "não pode") para a
"sociedade do desempenho" (do "consegue").
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Em Secretaria,
a perversão não é algo a ser suprimido para que eles possam trabalhar; ela é o combustível
do trabalho. Lee torna-se uma secretária impecável porque seu desejo de
submissão é canalizado para a organização de arquivos e a digitação perfeita. A
patologia torna-se produtividade.
O Filme
Lee Holloway
(Maggie Gyllenhaal) acaba de ser liberada de uma instituição psiquiátrica após
anos de automutilação. De volta à casa dos pais disfuncionais, ela tenta se
reintegrar à sociedade aprendendo datilografia e aceitando um emprego como
secretária para o advogado E. Edward Grey (James Spader).
O Sr. Grey é
um homem obsessivamente rígido, cujas idiossincrasias beiram o controle
maníaco. A relação profissional inicialmente parece abusiva: ele a repreende
severamente por erros de digitação triviais. No entanto, o ponto de virada
ocorre quando Grey descobre que Lee continua a se cortar. Em vez de demiti-la
ou interná-la, ele ordena que ela pare de se machucar e assume o papel de
"disciplinador".
A dinâmica da
relação profissional evolui para uma relação BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo
e Masoquismo).
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Erros de
digitação tornam-se o pretexto para palmadas e humilhações rituais que,
paradoxalmente, dão a Lee um senso de propósito e paz interior que a
psiquiatria nunca ofereceu. Quando Grey tenta terminar a relação por medo de
seus próprios impulsos, Lee demonstra sua devoção absoluta: ela permanece
sentada em sua sala, sem se mover, comer ou falar, por dias.
Lee quer
continuar vivendo uma vida "funcional" através da sua perversão
privada.
O Escritório como Espaço Litúrgico
O ambiente de
trabalho moderno exige uma performance emocional constante. No filme, o
escritório de advocacia deixa de ser apenas um local de produção jurídica para
se tornar um espaço onde o paroxismo do poder é encenado.
Em Secretária,
a hierarquia profissional torna-se um fetiche erótico. A relação de dominação
(chefe) e submissão (funcionário) é intrínseca ao Capitalismo. O filme apenas
"erotiza" essa estrutura pré-existente.
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Ao contrário
do trabalhador alienado que odeia seu cargo, Lee encontra no seu papel de
secretária submissa a sua identidade total. Ela não está mais
"trabalhando" no sentido tradicional; ela está "sendo". É o
fim a relação de alienação com o trabalho, quando a sua patologia o transforma
num trabalhador produtivo. E tira prazer sadomasoquista.
A grande
ironia em Secretária é essa: enquanto a psiquiatria tradicional tentava
"limpar" Lee de seus impulsos de automutilação, o Sr. Grey os redireciona.
A dor que ela infligia a si mesma de forma caótica agora é administrada por uma
autoridade externa (o chefe) de forma estruturada.
Isso reflete
uma característica do capitalismo tardio: a capacidade do sistema de absorver o
que antes era considerado "anormal" ou "marginal" e
transformá-lo em uma engrenagem funcional.
Se você tem
um distúrbio obsessivo, o sistema o transforma em um analista de dados
eficiente. Se você tem uma necessidade de dominação, o sistema o transforma em
um CEO ou advogado de sucesso.
Ficha Técnica |
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Título: Secretária |
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Direção: Steven Shainberg |
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Roteiro: Erin Cressida Wilson, Mary Gaitskill,
Steven Shainberg |
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Elenco: James Spader, Maggie Gyllenhaal, Jeremy
Davies |
|
Produção: Slough Pond |
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Distribuição: Prime Video |
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Ano: 2002 |
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País: EUA |
sexta-feira, maio 15, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira


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